Os campeões do mundo (completo) , Dias Gomes, 2a. edição, 2004, ISBN 85-286-1071-3

Os campeões do mundo (completo) , Dias Gomes, 2a. edição, 2004, ISBN 85-286-1071-3

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DIAS GOMES Do autor:

Amor em Campo Minado

O Bem-Amado O Berço do Herói Decadência

A Invasão

Meu Reino por um Cavalo Odorico na Cabeça

O Pagador de Promessas As Primícias

O Rei de Ramos O Santo Inquérito

Sucupira, Ame-a ou Deixe-a lilrgas

Coleção Dias Gomes Mural dramático em dois painéis

Vol. 1- Os Heróis Vencidos

Vol. 2 - Os Falsos Mitos

Vol. 3- Os Caminhos da Revolução

VoI. 4 - Espetáculos Musicais Vot. 5 - Peças de Juventude

Apenas um Subversivo Autobiografia

Copyright © 1991 by Dias Gomes

Capa: Raul Fcrnandcs Eclítoração eletrônica: Imagem Virtual Editoração Ltda.

Impresso no Brasil Printed in Brazil

CIP-Bra.,il. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

G613c 2"ed.

Campeões do Mundo: mural dramático em dois painéis/ Dias

«ldos os direitos reservados pela:

EDITORA BERTRAND BRASIL LTDA. Rua Argentina, 171 - 1o andar - São Cristóvão

Não é permitida a reprodução total ou pardal desta obra, por quaisquer meios, sem a prévia autorização por escrito da Editora.

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Sumário

Prefácio 7 Calendário 25

Nota do Autor 31 Texto da Peça 37

Prefácio

Não será por acaso que Dias Gomes é o dramaturgo brasileiro mais estudado no exterior, em artigos, ensaios, teses universitárias e até mesmo cursos monográficos. A distância geográfica e o "estranhamento cultural" permitiram aos teatrólogos estrangeiros perceber algo que o calor da proximidade, dos modismos e a vivência das disputas paroquiais nem sempre nos permitiram ver com clareza: que, se é impossível apontar-se um dramaturgo contemporâneo "típico" no Brasil (e o "típico" é sempre algo que a estética repele ou a história desmente), Dias Gomes é indiscutivelmente o mais representatiuo autor do que se convencionou definir como "o moderno teatro brasileiro",

É essa "representatividade" abrangente que confere à dramaturgia de Dias Gomes uma condição quase paradigmática do teatro brasileiro moderno e contemporâneo, constituindo-se num parârnetro sólido (e talvez único) que permite discernir as principais linhas de força de um conjunto aparentemente desconexo, assim como dar a medida dos desvios individuais, frutos da originalidade das personalidades artísticas que o compõem,

Dois são os motivos principais que conferem à dramaturgia de Dias Gomes esse caráter paradigmático: a continuidade na ordem temporal e a natureza integrativa de que se reveste, tanto no plano temático e conteudístico como ao nível da expressão dramática.

Quanto ao primeiro desses aspectos, convém lembrar que Dias Gomes inaugura, juntamente com Nelson Rodrigues, o período considerado como "moderno" do teatro nacional, nos inícios da década de 40. De Pé de Cabra a Campeões do Mundo sua produção dramática tem sido constante e praticamente ininterrupta (mesmo quando o veículo foi diverso do palco), atravessando os vários momentos vividos por nossa dramaturgia até o presente. E seja por suas qualidades intrínsecas, por seus dotes de comunicação com o público e pela habilidade com que o dramaturgo soube contornar entraves das mais variadas ordens, essa produção foi contínua não apenas enquanto literatura dramática (como a de outros dramaturgos que permaneceram escrevendo, embora tivessem suas obras compulsoriamente "engavetadas" pelos censores), mas fez-se presença constante nos palcos, nas telas e nos vídeos, sem que para isso o

dramaturgo se visse forçado a abrir mão do ideário que o norteava. Dias Gomes nem sempre pôde dizer o que quis; mas jamais se furtou a dizer o que pôde. E mais do que o período de tempo considerado ou o volume do acervo produzido, é a constância desse diálogo entre autor e público que contribui para fazer de sua dramaturgia a mais repre- sentativa do teatro brasileiro moderno.

No âmbito da temática, do conteúdo e dos modos de expressão dramática, esse caráter de representatividade é ainda mais evidente. Durante quase quarenta anos, Dias Gomes atravessou momentos, movimentos e modismos os mais diversos; se, por um lado, soube manter a coerência ideológica d ua produção e a integridade de sua personalidade artístia, por outro lado teve a sabedoria de fazer-se sensível às mudanças da conjuntura econômica, social e política, assim como às inovações surgidas na literatura, no teatro e no cenário artístico-cultural, de modo mais amplo.

Sua dramaturgia consubstancia o que-de mais característico possui o moderno teatro brasileiror'a tentativa de pôr em cena o personagem autenticamente nacional, com suas particularidades, seu modo peculiar de expressão, suas contradições e incongruências; a preocupação de enfocar esse personagem não como indivíduo isolado, ao nível puramente psicológico, mas de mostrá-lo como integrante de um contexto histórico-social determinado e o supera e delirüi a o -âffil51to de sua atuação; a utilização do perso- nagem e do mythàs para, através deles, promover a análise e a discussão daqueles aspectos estruturais ou conjunturais mais abrangentes; a consciência de que é preciso significar com clareza e estabelecer uma comunicação efetiva com o pú- blico, dosando adequadamente a discussão das idéias e a necessidade da diversão, e excluindo por princípio todo hermetismo ou elitismo ao nível da expressão literária; de modo mais genérico, a convicção de que o teatro não pode ser simples divertimento alienante nem, em contrapartida, uma arena real onde se travam batalhas decisivas para as mudanças sociais - é, isto sim, um importante instrumento de ampliação de consciências, que nada muda por si, mas pode (ou não) levar o espectador a tornar-se um agente ou protagonista das mudanças lá onde elas efetivamente serão feitas: fora do palco, no "grande teatro do mundo".

Estas postulações simples e gerais, reconhecíveis ao longo de toda a dramaturgia de Dias Gomes, poderiam ser tomadas como o programa básico, o denominador comum daquilo que o moderno teatro brasileiro procurou realizar desde a reviravolta dos anos 40. Não porque o autor de OPagador de Promessas formulasse tais itens como um ideário prévio a ser seguido por seus companheiros de geração, mas sim porque soube captar e integrar ao seu teatro e às suas opções de cidadão e de artista os temas e idéias mais marcantes do seu tempo, traduzindo-os através de recursos expressivos sempre atualizados, graças ao diálogo ininterrupto que conseguiu manter com a platéia ao longo de todos essesanos.

Se para o historiador do teatro é importante reconhecer na obra de Dias Gomes a súmula do que constitui o projeto da moderna dramaturgia brasileira, para o crítico representa um desafio fascinante a tentativa de reconhecer, a cada nova peça desse autor, as indicações dos rumos para os quais pode tender o conjunto de nossa dramaturgia, num futuro próximo. É com esse espírito que tentaremos examinar alguns aspectos da última peça de Dias Gomes, Campeões do Mundo, recentemente estreada no Rio de Janeiro. Num momento em que a literatura dramática no Brasil parece inusitadamente amorfa, abúlica e apática, será útil tentar desvendar as con-

quistas alcançadas por esta nova peça e os rumos possíveis que prenuncia.

o enredo de Campeões do Mundo pode ser resumido em poucas palavras: voltando ao país após nove anos de exílio, o escritor e ex-publicitário Ribamar, um dos muitos banidos pelos governos militares que se sucederam no poder após 1964, encontra-se no aeroporto com Tânia, antiga companheira de organização, com quem participara do seqüestro de um Embaixador norte-americano no Rio de Janeiro, em 1970,na época em que o Brasil inteiro se voltava para o Campeonato Mundial de Futebol, no México. Todos os demais participantes diretos daquela ação foram mortos pelos órgãos de re- pressão ao terrorismo; resta hoje a Tânia e a Riba fazer uma reflexão ampla sobre o período que viveram, sobre a validade ou o desacerto de suas opções, as conseqüências das ações que praticaram e as perspectivas do presente. Essa reflexãoleva-os não apenas a rememorar os episódios mais marcantes do seqüestro como também a reverseus próprios itinerários e os daqueles que a seu lado participaram da luta armada nesse período. Assim, propõe-se Dias Gomes a trazer ao palco uma amostragem, senão completa, ao menos bastante representativa de personagens da nossa história recente, aos quais até há pouco foi negado o direito de existência cênica; e, através do desenrolar da ação, pretende o dramaturgo ir além da discussão do evento centralizador do entrecho (o seqüestro em parti- cular ou o fenômeno da luta armada em geral), para esboçar um panorama amplo egeral do período sobre o qual sevoltam as reflexões de Tânia e Ribamar (1964/1979).

O projeto é ambicioso, como se vê; e poderia redundar numa das peças mais maçudas e maçantes de toda a dramaturgia nacional se, em mãos menos hábeis, menos experientes ou menos inspiradas, contasse apenas com os esquemas tradicionais de desenvolvimento e progressão da ação dramática; ou se, atendendo aos devaneios de alguns intelectuais que em seus gabinetes - e talvez levados por um inconsciente mecanismo de compensação - idealizam romanticamente o nível de reflexão e discussão mantidos pelos que no Brasil optaram pela luta armada no final da década de 60, o autor consentisse que seus personagens se entregassem a fastidiosas e intermináveis ponderações de natureza ética e filosófica, no momento mesmo em que participavam da ação revolucionária. Isto, além de contrariar os mais comezinhos princípios de verossimilhança, conferiria aos per- sonagens uma substância e um tipo de comportamento inteiramente diverso do revelado pela média dos muitos combatentes reais que serviram de referência à criação dramática*. Felizmente, porém, Dias Gomes - como autêntico homem de teatro - preferiu sempre deixar que a ação dramática falasse por si e suscitasse os problemas a serem posteriormente tomados como objeto de reflexão pelo leitor ou espectador. Opção corretíssima, de vez que o elemento fundante do fenômeno teatral- a ação dramática - jamais poderá ser substituído pelo elemento constituinte da literatura (a palavra), que é arte de natureza inteiramente diversa**. Com isso, ganhou a dramaturgia coâtemporânea uma peça dotada de linguagem cênica provocativa e grande impacto teatral, e concomitantemente livrou-se o público de assistir, aprês Ia lettre, uma reedição nacional d'Os Justos, de

Camus, ou uma espécie de Mortos sem Sepultura às avessas _ ou seja, um tipo de literatura dramática datada e, a des- peito de suas virtudes intrínsecas, inaceitável como escritura cênica neste final do século X.

A apresentação dos fatos para uma reflexão posterior da platéia aparece assim como o fator capital das inovações trazidas por Campeões do Mundo e é o elemento determinante das estratégias dramatúrgica adotadas pelo autor nesta obra. Esta opção dramatúrgica parece indicar que o teatro brasileiro tenderá a privilegiar a ação dramática como base da significação no fenômeno cênico, relegando a segundo plano a expressão puramente verbal ou literária (e é este, aliás, o lugar que verdadeiramente lhe cabe em todo teatro autêntico, nos tempos modernos). Aos passadistas certamente repugna- rá esta escolha, que força o público a uma leitura muito mais atenta e "ativa" das ações mostradas em cena, ao invés de

* Basta conferir, para tanto, os relatos testemunhais de Alfredo Syrkis, em Os Carbonários, Ed. Global, SP, 1980,e Fernando Gabeira, em depoimen-

to a O Pasquim, 1979a

** Cf. Anatol Rosenfeld, Texto/Contexto, São Paulo, Perspectiva, 3 ed., deixá-lo fruir tranqüilamente das verdades literariamente enunciadas pelo autor através das falas de seus personagens. E desagradável igualmente àqueles que estão acostumados a identificar o teatro voltado para temas sociais e políticos com uma certa dramaturgia festiva e simplista que, herdeira de movimentos norte-americanos e europeus anteriores à Segunda Guerra Mundial, floresceu entre nós até recentemente. A prevalência da ação dramática como elemento básico da significação torna a obra necessariamente mais aberta, passível de leituras diversas, permeável à dúvida, à incerteza, à discussão. Excluem-se, assim, aquelas "certezas" bombásticas proclamadas pelo autor travestido em personagem - tão reconfortantes para um certo tipo de platéia engajada que, traindo neste ponto sua mentalidade burguesa, procurava no palco apenas a pública confirmação de seus valores e de sua visão do mundo. Campeões do Mundo, ao contrário, abre-se para o questionamento, para a dúvida e até mesmo para a perplexidade, em todos os níveis: nos itinerários de seus personagens, nas situações com que se defrontam, em seus modos diversos de encarar os fatos vividos e as decisões a tomar, e, acima de tudo, na própria organização estrutural do rnythõs (onde o mais frisante exemplo é, sem dúvida, a justaposição e a convivência de elementos tão diversos como anistia e Flamengo, seqüestro e Campeonato Mundial de Futebol, etc.). Assim, desagradando a gregos e troianos, Dias Gomes consegue atingir precisamente aqueles que constituem a mais importante parcela do público: os que procuram compreender e identificar-se com a realidade de um país que a todo momento os força ao questionamento de posições, coloca-os em dúvida e freqüentemente deixa-os perple- xos. É a estes, que não se mumificaram em imutáveis certezas nem em verdades de ocasião, que a peça se dirige, como proposta de reflexão - pois são eles (os que estão vivos e sensíveis à mudança) os únicos espectadores válidos junto aos quais o teatro poderá efetivamente desempenhar a função social que lhe cabe: promover o debate, questionar as verdades estabelecidas, instigar a um aprofundamento da compreensão e ampliar as consciências.

É claro que a persona do autor não se anula nem de- saparece; apenas se torna uma presença mais discreta, menos rnessiânica no que tange à veiculação das idéias, abrindo campo para a participação ativa do espectador no processo de reflexão e formulação de conceitos. Em contrapartida, seu posicionamento ideológico torna-se muito mais importante e vigoroso, porque exercido através de um instrumental mais sutil e sofisticado: a seleção dos fatos a serem apresentados e sua estruturação como ação dramática. A exemplo do que faz a cârnera no cinema, é ele quem nos indica os fatos para

os quais devemos atentar e os ângulos até então insuspeitados pelos quais poderemos doravante encará-los, Ao agir assim, revela o que a aparência ocultava e abre perspectivas para uma compreensão renovada - o que corresponde à sua função de artista -, mas exime-se de passar julgamentos ou formular conclusões (embora os tenha para si, como homem e cidadão). A obra é fruto de sua visão do mundo, mas esta visão não é imposta ao leitor/espectador como a única possível, através de formulações verbais "fechadas". A prevalência da ação dramática como fonte de significação traz consigo uma necessária abertura que exclui, ad limine, as reduções simplistas e a possibilidade do maniqueísmo no desenvolvimento dos personagens e situações. E isto é tanto mais verdadeiro no caso de Dias Gomes, cuja visão dialética da realidade põe sempre em evidência as contradições internas e externas dos personagens e das situações. Sairá certamente frustrado quem espere de Campeões do Mundo um julgamento passado sobre os jovens dos anos 60 ou sobre os participantes da luta armada: a todo momento suas ações parecem contrariar as idéias e as intenções originais; por vezes, constata-se o saldo positivo de ações aparentemente equivocadas; outras vezes, são essas ações que parecem escapar aos objetivos visados pelos personagens, conduzindo-os a um rumo não desejado. Não há, aqui, impolutos heróis gorkianos nem idealizações materializadas em personagens, tão a gosto de uma certa corrente do chamado "realismo socialista;'. Aliás, é exatamente o confronto entre a teoria e a práxis revolucionárias que constitui um dos mais fortes elementos de tensão na ação dramática de Campeões do Mundo, e os exemplos disso são inúmeros: a discussão mantida pelo velho militante do Partido com o Dirigente, quando o primeiro parte para uma luta suicida ao constatar que chega ao fim da vida sem que aparentemente tenha avançado um palmo na consecução dos seus objetivos sociais e políticos, após déca- das de militância intensa; a contraditória figura do Embaixador norte-americano, tão fácil de caricaturar em outras cir- cunstâncias, mas que Dias Gomes esmera-se em apresentar como cindido entre a realidade que vive como pessoa e a defesa convicta dos interesses do país que representa; a atribuição da colocação mais elitista ao personagem mais radical e intransigente da peça (Carlão, o mais violento e sectário dos seqüestradores, filho de operários, fica indignado ao consta- tar que o povo não dá qualquer importância ao seqüestro, preferindo acompanhar a decisão da Copa do Mundo:

"-Será que esse povo merece o que tamos fazendo por

ele? Tou arriscando a minha vida por um povo alienado, que só pensa em futebol! Puta que pariu!"); a própria organização dos quadros na estrutura do enredo, onde por vezes uma dada ação ou afirmação é contestada ou questionada pelo que se revela na ação seguinte; os conflitos entre as vidas pessoais e as atitudes decorrentes das opções políticas de Velho militante e de sua mulher, do industrial pai de 'Tânia, Müller (que financiou os órgãos de repressão onde sua filha é torturada), do policial inquiridor, etc. Essa opção antirnaniqueísta por excelência não é fruto do acaso, mas constitui uma postura claramente intencional, coerente com a visão dialética do mundo perfilhada pelo autor, como se pode verificar no diálogo que hoje travam os dois protagonistas:

"TÂNIA - Você não mudou nada. Sempre se questionando.

RIBA - Você não se questionou durante todos esses anos? Suas intenções, os fins a que se propunha, as ações que praticou?

TÂNIA - Claro. Mas acredito ainda nas mesmas coisas.

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