EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS ESTUDOS EM GEOMORFOLOGIA

EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS ESTUDOS EM GEOMORFOLOGIA

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como objetivo explanar sobre a evolução histórica da Geomorfologia no Brasil, com a Idade Contemporânea, e no Mundo em diferentes períodos. Segundo Christofoletti (1980, p. 01):

A Geomorfologia é a ciência que estuda as formas de relevo. As formas representam a expressão espacial de uma superfície, compondo as diferentes configurações da paisagem morfológica. É o seu aspecto visível, a sua configuração, que caracteriza o modelado topográfico de uma área.

Baseando-se neste conceito, abordaremos o processo evolutivo do relevo, ocorrido devido a constantes processos intempéricos e erosivos ao longo dos anos que modificaram e modificam a paisagem da Terra.

DESENVOLVIMENTO

A história da Geomorfologia é rica graças aos avanços tecnológicos que proporcionaram o estudo de áreas topográficas pelas diferentes camadas sedimentares constituintes no relevo. Sabe-se que as sedimentações se formaram em períodos diferentes por haver distinção na matéria principal, muitas vezes percebido a olho nu quando nos deparamos com uma falésia, por exemplo. Por meios desses registros naturais, o pesquisador pode compreender as características da paisagem geomorfológica.

Antiguidade

A origem e a evolução das formas do relevo terrestre são tema de estudos e questionamentos desde os mais remotos tempos. De início, as respostas que se davam para os questionamentos sobre tal assunto eram, de modo geral, voltadas a divindades, ou apoiadas em fábulas e mitos. Toda a dinâmica das formações e todos os processos sofridos eram atribuídos a criaturas superiores e, algumas vezes, eram evitados pelo fato de se estar questionando as “vontades divinas”.

Os filósofos da Grécia e Roma antiga também se preocuparam com o ambiente. É atribuída a Heródoto a frase “O Egito é uma dádiva do Nilo”, dita depois de uma análise sobre os depósitos de sedimentos deixados pelo rio. Acredita-se que a civilização egípcia surgiu devido à existência do rio Nilo, pois em certas épocas, ele transborda por muitos quilômetros, secando logo após e deixando na terra uma grande camada de húmus, que é um adubo com alto poder de fertilização. Se o rio Nilo não existisse, provavelmente o Egito inteiro também não.

Campos (2009) trás um a série de interessantes observações e conquistas na Geomorfologia e Geologia na antiguidade:

Observando os depósitos fluviais, Tales de Mileto (636-648 a.C.) dizia que a água era o agente formador de toda a Terra. Já Anaxímenes (480 a.C.) dizia ser o ar; Heráclito (576-480 a.C.) dizia que era o fogo. Aristóteles (384 – 322 a.C.) afirmava que os terremotos eram produzidos por fortes ventos dentro da Terra, que produziam as erupções vulcânicas, já Sêneca (2- 63 d.C.) dizia que a fricção produzida pelos ventos determinaria o aumento da temperatura, inflamando os depósitos de enxofre e outros combustíveis originando-se então os fenômenos vulcânicos. Estrabão (63 a.C. – 20 d.C.) reconheceu o Vesúvio como um vulcão dormente, cita em suas obras o afundamento e ressurgimento de ilhas. Caio Plínio Segundo é considerado o primeiro mártir da ciência, pois em 79 d.C. morreu observando o funcionamento da erupção vulcânica do Vesúvio, entretanto foi um perspicaz observador da natureza, escreveu 37 volumes sobre a história da natureza, sendo que os cinco últimos volumes foram dedicados ao reino mineral.

Idade Média

Ainda com o pensamento religioso bastante forte no pensamento da sociedade, as explicações para as formas de relevo eram bastante raras, por falta de conhecimento cientifico específico para explicar esses fenômenos. Questões essas que só foram esclarecidas tempos depois no Renascimento quando surgiram novos pensamentos e idéias, como as observações de Leonardo da Vinci sobre erosão fluvial e deposição fluvial. Ele constatou que os vales eram escavados pelo seu rio (erosão fluvial) e os cursos fluviais carregavam sedimentos de um lugar para o outro (deposição fluvial).

A Geomorfologia embora se debruce nas formas de relevo atuais, atinge sua máxima utilidade ao conseguir uma extensão ao passado, percebendo-se que o relevo é a base de sustentação de toda e qualquer manifestação humana ao longo do tempo.

Mesmo durante o obscuro período da Idade Média, pouca evolução existiu sobre o estudo e utilização da Geomorfologia, pois a origem do mundo e de tudo que nele habitava eram obras atribuídas ao poder divino, “Deus”.

Vale ressaltar que mesmo sem ter conhecimento cientifico sobre Geomorfologia, o homem na época já procurava habitar vales próximos a rios para facilitar a produção agrícola, que também servia de forma de proteção aos constantes ataques de invasores.

A Geomorfologia como área de estudo da geografia foi de fundamental importância para finalidades militares, pois se fazia necessário conhecer as fragilidades naturais do território inimigo. Fato esse que ressalta ainda mais a idéia de que devemos saber usar o relevo de maneira racional a nosso favor.

Idade Moderna

O período entre o século XV e XVIII, conhecido como Idade Moderna foi marcada pela expansão marítima, mercantilismo, absolutismo, reformas religiosas, Iluminismo, o surgimento dos Estados Modernos e pelo Renascimento cultural que começou na Idade Média, foi nesse espaço de tempo que o homem valorizou-se como um ser racional capaz de interpretar e conhecer a natureza.

Foi no Renascimento que surgiram novas idéias na área das ciências da Terra, as primeiras contribuições do Renascimento na Idade Moderna se deram por Bernard Palissy. Ele compreendeu alguns conceitos básicos da Geomorfologia, como a oposição existente entre as ações internas e externas (uma cria o relevo; a outra tenta destruir), a questão da vegetação para proteger o solo e a relação existente entre os processos geomorfológicos e a pedologia. Porém tais idéias não tiveram repercussão e permaneceram esquecidas.

Durante muitos séculos a idéia de que as mudanças ocorridas na superfície da Terra era produto de acontecimentos de caráter catastróficos, mantendo-se até o final do século XVII, impossibilitou avanços na área. No entanto foi neste período que as observações se tornaram mais constante e com maior importância, podemos citar, por exemplo, Guetthard reconhecido por identificar cumes e puys na região de Auvergne como de origem vulcânica; Bénédict Saussure que a partir de estudos nos Alpes concluiu sobre a capacidade de erosão pelas geleiras, Targioni Tozetti entre outros.

Contudo, foi James Hutton (primeiro grande fluvialista) que foi considerado precursor da Geomorfologia moderna e também do Principio do Atualismo, afirmou que “o presente é a chave do passado”, ou seja, a partir de observações feitas no presente é possível a melhor compreensão do passado. Foi dele a primeira tentativa de explicar a historia natural da Terra de uma forma racional, coerente e científica. Para Hutton as modificações ocorridas no relevo terrestre se davam por acontecimentos perceptíveis na superfície.

A divulgação de suas teorias se deu pela ajuda de seus seguidores, como John Playfair que esclareceu muitas de suas idéias e realizou as primeiras observações relacionadas à rede de drenagem (lei das confluências concordantes).

Idade Contemporânea

Segundo dados históricos, podemos conceituar Idade Contemporânea como o período atual do mundo Ocidental, iniciado a partir da Revolução Francesa no final do século XVIII.

A evolução histórica da Geomorfologia nesse período se deu a partir da contribuição que James Hutton e John Playfair deram no início do século XVIII. Instigado pelas idéias neptunistas, Abraham Gottlob Werner deu o passo inicial para a Geomorfologia da Idade Contemporânea ao postular a existência de um oceano universal que teria contido em solução todos os princípios minerais da formação da crosta terrestre.

No início do século XIX, havia praticamente três correntes de pensamento sobre a formação do relevo terrestre: a dos fluvialistas, a dos estruturalistas e a dos diluvianistas. Em 1830, Charles Lyell com os Principles of Geology popularizou o princípio do atualismo e criticou as correntes catastróficas. Um pouco mais tarde, Jean Louis Agassis contribuiu para a história da Geomorfologia reconhecendo a evidência de uma idade glacial durante a qual as geleiras cobriram grande parte da Europa Setentrional. Pouco a pouco, a corrente fluvialista foi ganhando espaço na Europa Ocidental, diversos pesquisadores tinham como intuito reunir os princípios do desenvolvimento das formas de relevo, sendo a mais significativa contribuição pertencente a A. Penck, que em 1894, publicou a Morphologie der Erdoberflache, que continha o tratamento genético das formas de relevo terrestre.

Nos Estados Unidos, a Geomorfologia ganhava destaque graças aos pesquisadores John Wesley Powel, Grove Karl Gilbert e Clarence E. Dutton, que se preocupavam em dividir a Geomorfologia do âmbito geológico. Powel propôs um conceito de nível de base da erosão, fundamentado em seu relatório Exploration of the Colorado River of the West and its tributaries que mostrava a importância da estrutura geológica como base para a classificação das formas de relevo. As contribuições do pesquisador Grove K. Gilbert foram várias: em suas análises em elementos fluviais, reconheceu a importância da aplanação lateral na evolução dos vales; no Report of the Henry Mountains (1877), explica o relevo da área como resultante da erosão sobre corpos intrusivos; na History of the Lake Bonneville (1890), mostra a interpretação evolutiva com base nas sucessivas linhas de margem e terraços fluviais. Dutton é conhecido por suas contribuições às compensações isostásicas que se processam devido à remoção de vastas camadas de terrenos durante um longo período erosivo.

A influência de William Morris Davis se constituiu nas suas observações, onde integrou, sistematizou e definiu a seqüência normal dos acontecimentos num ciclo ideal. A ele está associado o “ciclo de erosão” e a “erosão normal” (CHRISTOFOLETTI, 1980).

No Brasil, a Geomorfologia desenvolveu-se a partir da influência de Emanuel de Martonne e de Pierre Monbeig. Um dos principais responsáveis pela construção da Geomorfologia geográfica no país, foi Aziz Nacib Ab’Saber, que em 1958, publicou sua tese de doutorado Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo, marcando uma transição e ao mesmo tempo uma reconstrução do modelo interpretativo do relevo e de sua gênese.

No ano de 1956, realizou-se no Rio de Janeiro, o Congresso da UGI (União Geográfica Internacional), quando as discussões internas foram intensificadas com os trabalhos de campo pós-congresso, que foram comandados por Jean Tricart, Jean Dresch e Ab’Saber. O foco central das discussões foi a problemática dos materiais nas vertentes, principalmente para os paleopavimentos detríticos e o seu significado paleoambiental e geomorfológico (VITTE, 2010).

A Geomorfologia brasileira ganhou também influências de Lester King por seu artigo Problemas Geomorfológicos do Brasil Oriental, que forneceu elementos para a sua teoria de pedimentação e da pediplanação. No ano de 1964, João José Bigarella, publica o trabalho Variações Climáticas no Quaternário e suas Implicações no Revestimento Florístico do Paraná, que se torna um marco referencial muito importante para os estudos cronogeomorfológicos e pela primeira vez no Brasil será demonstrada a validade da teoria da biostasia e da resistasia para explicar a evolução do relevo brasileiro. Em 1979, Aziz Ab’Saber, publicou A Teoria dos Refúgios Florestais, onde ressaltou a necessidade de considerarmos a compartimentação geomorfológica como condição sine qua non para a compreensão, de um lado, da complexidade do tecido biogeográfico brasileiro e, de outro, a própria especificidade dos ditos refúgios (VITTE, 2010).

É interessante que percebamos o grande interesse do homem desde cedo por conhecer, entender e se adaptar ao ambiente em que se encontra inserido. Ainda com poucas, bruscas, ou nenhuma ferramenta de exploração para a época, os “pais da Geomorfologia” chegaram a se dedicar por completo aos estudos na área, contribuindo para o avanço geomorfológico.

REFERÊNCIAS

CAMPOS, Clarismar de Oliveira. Elementos de Geologia. Petrolina: [s.n.], 2009. 2a.ed.

CHRISTOFOLETTI, Antonio. Geomorfologia. São Paulo: Edgard Blücher, 1980.

GUERRA, Antonio Jose Teixeira; CUNHA, Sandra Baptista da. Geomorfologia: uma atualização de bases e conceitos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

ROSS, Jurandyr Luciano Sanches. Geomorfologia: ambiente e planejamento. São Paulo: Contexto, 2003.

SOARES, Sofia Mesquita. Desenvolvimento histórico e princípios da Geomorfologia. Disponível em: <http://www.estig.ipbeja.pt/~smms/Disciplina%20de%20Geomorfologia.htm#Disciplina >. Acesso em: 11 de Maio de 2012.

VITTE, Antonio Carlos. Breve História da Geomorfologia no Brasil. In: BOMFIN, Paulo Roberto Albuquerque; NETO, Manoel Fernandes de Sousa (org.). Geografia e Pensamento Geográfico no Brasil. 1 ed. São Paulo: Annablume, 2010, v. 1, p. 63-80.

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