Livro Fruticultura em regiões Tropiciais

Livro Fruticultura em regiões Tropiciais

(Parte 3 de 6)

A fruticultura nas regiões tropicais 20

Quais serão os rebentos que florescerão? Para o fruticultor, a característica mais saliente das culturas fruteiras ramificadas é que a floração e a frutificação não ocupam um lugar bem-definido no seu padrão de crescimento, contrário às culturas monocaules.

Rebentos e botões Neste texto, utilizamos os termos rebento e galho para os ramos jovens. Logo que as folhas mais novas num rebento amadureceram, o rebento torna-se num galho. Um galho porta apenas folhas maduras (as folhas mais velhas possivelmente já cairam). Um galho cresce apenas tornando-se um ramo, mas alguns botões num galho podem abrir para produzirem flores ou novos rebentos durante um fluxo posterior.

Na fruticultura o termo botão de flor é, geralmente, utilizado em oposição ao termo botão foliar, para referir-se ao botão que, no momento devido, formará uma inflorescência, com uma ou várias flores. Aqui usamos o termo botão floral , visto que, na linguagem comum, o termo botão de flor se refere a uma flor imediatamente antes de abrir.

Uma papaieira ou um coqueiro que cresce razoavelmente bem, floresce em cada axila foliar depois de se terminar o período juvenil, mas, no caso duma mangueira, é impossivel dizer quais das centenas ou milhares dos seus galhos vão florescer e dar frutos. Uma mangueira pode florescer abundantemente num ano e quase não florescer num outro. Por conseguinte, a produção de frutos nas árvores ramificadas é imprevisível e muito mais reduzida, em média, do que nas culturas fruteiras monocaules.

Visto que o crescimento se efectua primeiro, não é provável que através da estimulação do crescimento se melhorem a floração e a frutificação. Por exemplo: a rega da mangueira durante a estação seca, de forma a evitar stress, levará a mais fluxos à custa da floração. Na Figura 2 apresenta-se o rápido incremento da ramificação duma mangueira a crescer em condições sempre-húmidas; a árvore não floresceu.

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Stress e produção sazonal O cultivador de fruteiras monocaules esforça-se para que as suas culturas não sofram de stress, enquanto que, no caso de árvores fruteiras ramificadas de crescimento intermitente, um período de stress é, de facto, bem-vindo ou, até mesmo, necessário. Um período de clima desfavorável, como seja um período frio ou seco, provoca que o crescimento dos rebentos pare e dá tempo aos galhos para iniciarem botões florais. Uma temperatura baixa é mais eficaz do que condições secas, o que pode ser mostrado por comparação de culturas fruteiras que crescem nas regiões subtropicais, bem como nas tropicais, tais como a mangueira e o abacateiro (ver a Caixa).

O stress sazonal, imposto pelo clima e pelas condições do solo, provoca a floração simultânea de todas as árvores duma mesma cultura (ou cultivar). Por conseguinte, os frutos das árvores mais ramificadas têm um período de oferta curto, enquanto que os frutos das plantas monocaules estão disponíveis durante todo o ano.

Citrinos, mangueiras e abacateiros nas regiões tropicais e subtropicais Para todas estas três culturas, uma regra prática é que nas regiões tropicais, o ritmo de crescimento destas árvores é o dobro, enquanto que a sua produção é a metade da nas regiões subtropicais. Nas regiões tropicais, o período seco, geralmente, não limita o crescimento dos rebentos de modo eficaz, provocando que as árvores se tornem grandes e que o descanso dos galhos seja insuficiente para garantir uma floração e frutificação adequadas. Pelo contrário, o inverno subtropical faz parar o crescimento de rebentos e, para além disso, estimula a formação de botões florais, levando ao desenvolvimento de árvores pequenas duma floração abundante. Contudo, nas regiões subtropicais, o clima inclemente da primavera leva, muitas das vezes, a uma frutificação deficiente. E se houver uma frutificação adequada, isto poderá provocar uma produção excessiva de frutos e uma escassez de rebentos que florescem no ano seguinte, provocando uma produção bienal de frutos (cada dois anos)

Desta forma, apesar de as culturas serem as mesmas, os problemas com os quais o cultivador se vê confrontado são bastante diferentes; em vários aspectos são completamente o oposto. Por conseguinte, pense bem antes de seguir recomendações baseadas na experiência adquirida nas regiões subtropicais!

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No Quadro 1 são apresentadas, de maneira sumária, as diferenças salientes entre as culturas fruteiras monocaules e as ramificadas, no que diz respeito à frutificação e aos tratamentos culturais necessários. Nas Secções seguintes cada um destes grupos será tratado de forma mais detalhada, também considerando as diferenças dentro de cada grupo.

Quadro 1: Comparação das culturas fruteiras monocaules com as ramificadas

Culturas monocaules: p.ex. bananeira, papaieira, coqueiro

Culturas ramificadas: p.ex. tangerineira, goiabeira, mangueira

- previsível - irregular
- durante todo o ano - sazonal

Crescimento contínuo Crescimento intermitente Rebento : raizame estável Rebento : raizame variável Produção – elevada Produção – baixa

A melhoria das condições de crescimento aumenta mais a frutificação que o crescimento.

Melhores condições de crescimento estimulam, geralmente, o crescimento de rebentos à custa da floração/frutificação

Conselho: estimular o crescimento, minimizar o stress

Conselho: usar o stress sazonal para pôr o crescimento de rebentos em EQUILÍBRIO com a floração/frutificação

3.2 Uma observação mais minuciosa das culturas fruteiras monocaules

As quatro culturas fruteiras monocaules supramencionadas classificam-se em duas categorias: a papaieira e o coqueiro produzem flores na axila de cada folha; enquanto que a bananeira e o ananaseiro florescem na ponta de rebento. Em todas estas plantas o crescimento e a floração/frutificação estão estreitamente interligados: quando crescem bem a produção será elevada. Contudo, sob condições adversas, manifestar-se-ão diferenças importantes entre os dois grupos.

Floração nas axilas foliares A papaieira e o coqueiro têm que manter um ritmo de crescimento constante para poder produzir flores e frutos em cada axila foliar. Se as condições de crescimento se deteriorarem, por exemplo durante um período frio ou seco, o crescimento continuará o melhor possível à

Forma e função 23 custa da floração e da frutificação. Quer dizer: sob condições de stress a floração e a frutificação são sacrificadas para salvar a árvore. Por conseguinte, estas culturas requerem condições de crescimento favoráveis durante todo o ano, assim que estão confinadas às regiões tropicais.

Ao observar o tronco duma papaieira, ver-se-ão as cicatrizes deixadas pelas folhas que caíram. As folhas pequenas formadas durante um período adverso deixam cicatrizes pequenas e concentradas, muito diferentes das cicatrizes grandes, bem espaçadas das folhas formadas durante um período de crescimento favorável. Quando a papaieira tiver alguns anos de idade, pode ler-se a sua história pessoal, os seus períodos de felicidade e de stress, com base nas cicatrizes no caule, tal como se apresenta na Figura 3. Esta forma reflecte o modo de funcionamento da árvore.

Desta forma, a primeira tarefa de um cultivador de papaieiras é reduzir o stress a um mínimo, por exemplo regando-as durante o período seco, plantando as árvores num camalhão (cômoro) se o solo estiver mal drenado, ou fornecendo um abrigo numa planície exposta a ventos fortes.

Num pomar o espaçamento das plantas é importante. Se as papaieiras ou os coqueiros forem plantados a pouca distância uns dos outros as folhas não podem estender-se livremente de forma a que são forçadas a crescer numa posição mais vertical. As axilas foliares que, como resultado, ficam estreitas, entravam o desenvolvi-

Figura 3: Cicatrizes foliares no tronco de uma papaieira

A fruticultura nas regiões tropicais 24 mento das flores e dos frutos. A falta de espaço, tal como um período de stress, provoca um atraso muito maior da floração e da frutificação que o provocado pelo crescimento vegetativo. Como no caso dos coqueiros estarem plantados muito perto uns dos outro, isso levaria a uma forte redução da produção dos cocos, estas palmeiras estão, muitas das vezes, espaçadas de tal maneira que se pode praticar um cultivo intercalar. Portanto, estas espécies devem poder crescer sem restrições, tanto no que respeita ao tempo como ao espaço.

Floração na ponta de rebento Se a bananeira sofrer de stress devido a um período seco ou tempo frio, a produção das folhas abrandará e se o stress continuar, as folhas novas tornar-se-ão, gradualmente, mais pequenas. Ao contrário da papaieira, isto não afectará directamente a produção de frutos. O efeito principal dum período de crescimento mais lento é que se atrasa o aparecimento do cacho: é preciso esperar mais tempo até a colheita dos frutos. De forma similar, se se cortar, de vez em quando, uma folha duma bananeira para a utilizar como guarda-chuva ou para nela embrulhar alimentos, isso provoca que a colheita será atrasada em vez de reduzida. O mesmo se aplica ao ananaseiro, uma cultura resistente à seca que pode, praticamente, suspender o seu crescimento em condições secas.

As folhas de bananeiras ou ananaseiros densamente espaçados também adoptam uma posição vertical. O seu aglomeramento provoca a formação de uma planta mais delgada e de frutos mais pequenos, mas esta perda pode ser compensada pela grande quantidade de plantas por hectare. Os ananaseiros pequenos, preferidos no comércio internacional, são produzidos com uso de uma redução da distância do espaçamento.

A bananeira e o ananaseiro, culturas de floração terminal, adaptam-se muito melhor a condições adversas do que a papaieira ou o coqueiro. Embora um período de stress faz com que a colheita se atrase, não leva necessariamente a uma redução da produção. Por esta razão, ambas as culturas também são populares nas regiões subtropicais; nas

Forma e função 25 regiões tropicais crescem em lugares até altitudes de, aproximadamente, 1600 m. A floração na ponta de rebento permite a estas culturas de suportar bastante bem condições de stress e aglomeramento.

Outras culturas monocaules As palmeiras são, de longe, o maior grupo de culturas perenes monocaules. A palmeira-de-óleo (dendém), a pupunheira, a palmeira de bétele (nogueira de areca) e a tamareira são exemplos de culturas importantes com o mesmo padrão de crescimento que o coqueiro. Também existem espécies de palmeira, por exemplo o sagueiro, que florescem na ponta de rebento, tal como a bananeira; outro exemplo de uma planta com este padrão de crescimento é o sisal.

No Quadro 2 apresenta-se um resumo das características principais de ambos os grupos das culturas fruteiras de crescimento contínuo.

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Quadro 2: Características dos dois grupos de fruteiras monocau-

Tipo de floração nas axilas foliares: combinação de crescimento e floração na ponta de rebento: floração após se concluir o crescimento

Exemplos papaieira, coqueiro ananaseiro, bananeira

Reacção a stress o crescimento continua à custa da frutificação o crescimento abranda e a frutificação é atrasada

Adaptação a:

- clima crescem bem apenas em condições de stress mínimo pode adaptar-se à seca e ao frio

- espaçamento denso as plantas tornam-se mais altas e reduz-se a produção por hectare as plantas tornam-se mais altas, o tamanho dos frutos reduz-se, mas aumenta a produção de frutos por hectare

Conclusão padrão de crescimento inflexível; destinado a um crescimento sem perturbações no que diz respeito tanto ao tempo como ao espaço padrão de crescimento flexível; a frutificação não sofre muito com o stress sazonal ou com o espaçamento denso

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3.3 Forma e função das árvores fruteiras ramificadas

Crescimento intermitente e contínuo O amplo grupo de árvores fruteiras ramificadas é muito diverso. Já vimos que a ramificação se encontra, geralmente, associada com o crescimento intermitente dos rebentos, floração escassa e frutificação sazonal. A estreita relação entre a ramificação e o crescimento intermitente é evidenciada pelas mudanças de padrão de crescimento, no decorrer da vida de árvores ramificadas, particularmente no caso de serem cultivadas a partir de sementes.

Uma plântula cresce, geralmente, de modo contínuo, mas o crescimento intermitente realiza-se logo que se formem os primeiros rebentos laterais. Com uma ramificação crescente, o intervalo entre os fluxos tende a tornar-se mais longo e, geralmente, há mais galhos que permanecem num estado de repouso durante um fluxo.

De uma certa distância é possível que a árvore pareça estar em pleno fluxo mas se a examinar mais de perto, verá que muitos galhos estão em repouso. (Estes galhos em repouso podem ser os que vão florescer!) As árvores que se propagam de modo vegetativo tendem a crescer de forma intermitente desde o começo, mas quando a ramificação se tornar mais complexa, ver-se-ão mudanças similares no modo de fluxo tal como se manifestam nas árvores cultivadas a partir de sementes.

Algumas plantas lenhosas podem crescer continuamente e florescem nas axilas foliares do rebento em crescimento, tal como a papaieira monocaule. O exemplo mais elucidativo é o das plantas trepadeiras, como sejam o maracujazeiro e a videira. Em busca de luz, os seus rebentos continuam a crescer até que – com a ramificação crescente – o crescimento dos rebentos abrande. A árvore-do-pão e o cafezeiro são exemplos de culturas arbóreas de crescimento contínuo em combinação com floração nas axilas foliares. Também a jaqueira e o durião

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