Ergonomia Projeto e Produçao

Ergonomia Projeto e Produçao

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De acordo com essa nova concepção, muitas decisões ergonômicas são tomadas em nível da administração superior da empresa. Isso produz uma melhoria da segu rança, satisfação, com redução de erros e acidentes, e melhoria da saúde e produti vidade na empresa toda. Há relatos de casos em que o índice de acidentes e o tempo perdido com os mesmos foram reduzidos acima de 70%, justificando plenamente as aplicações da ergonomia.

Um exemplo é o grau de informatização a ser adotado na empresa, com postos de trabalho informatizados e o uso de robôs. Isso pode refletir no nível de emprego, qualificação de trabalhadores, organização da produção e realização de investimen tos. Essa visão macroergonômica tem proporcionado, em alguns casos, resultados melhores do que aquela abordagem micro dos trabalhadores individuais ou em postos de trabalho isolados. Enquanto essa abordagem micro produz melhorias de 10 a 25%, a abordagem macro pode proporcionar melhorias de 60 a 90% (Hendri ck,1995).

19 1.5 Aplicações da Ergonomia

1.5 Aplicações da Ergonomia oproblema da adaptação do trabalho ao homem nem sempre tem uma solução tri vial, que possa ser resolvido na primeira tentativa.

Ao contrário, geralmente é um problema complexo, com diversas idas e vindas, para o qual não existe resposta pronta. As pesquisas fornecem um acervo de conhe cimentos, princípios gerais, medidas básicas das capacidades físicas do homem e técnicas para serem aplicadas no projeto e funcionamento das máquinas, sistemas e ambiente de trabalho.

Numa situação ideal, a ergonomia deve ser aplicada desde as etapas iniciais do projeto de uma máquina, sistema, ambiente ou local de trabalho. Estas devem sem pre incluir o ser humano como um de seus componentes. Assim, as características desse operador devem ser consideradas conjuntamente com as características ou restrições das partes mecânicas, sistêmicas ou ambientais, para se ajustarem mutu amente umas às outras.

Às vezes é necessário adotar certas soluções de compromisso. Isso significa fa zer aquilo que é possível, dentro das restrições existentes, mesmo que não seja a alternativa ideal. Essas restrições geralmente recaem no domínio econômico, prazos exíguos ou, simplesmente, atitudes conservadoras. De qualquer forma, o requisito mais importante, ao qual não se deve fazer concessões, é o da segurança do opera dor, pois não há nada que pague os sofrimentos, as mutilações e o sacrifício de vidas humanas.

Inicialmente, as aplicações da ergonomia restringiram-se à indústria e ao setor militar e aero-espacial. Recentemente, expandiram-se para a agricultura, ao setor de serviços e à vida diária do cidadão comum. Isso exigiu novos conhecimentos, como as características de trabalho de mulheres, pessoas idosas e aqueles portadores de deficiências físicas.

Ergonomia na indústria

A ergonomia contribui para melhorar a eficiência, a confiabilidade e a qualidade das operações industriais. Isso pode ser feito basicamente por três vias: aperfeiço amento do sistema homem-máquina-ambiente, organização do trabalho e melhoria das condições de trabalho.

O aperfeiçoamento do sistema homem-máquina-ambiente pode ocorrer tanto na fase de projeto de máquinas, equipamentos e postos de trabalho, como na introdução de modificações em sistemas já existentes, adaptando-os às capacidades e limitações do organismo humano.

Por exemplo, a cabina de uma ponte-rolante, usada em uma empresa siderúr gica, apresentava sérias dificuldades operacionais (Sell, 1977). Essa cabine tinha os controles colocados em posição inadequada (Figura 1.5), na frente do operador, atrapalhando sua visão para fora, e prejudicando as operações de carregamento, que resultavam em freqüentes colisões com vagões de trem, que deveriam ser carregados com a ajuda da ponte-rolante. A empresa gastava, em média 500 dólares por semana

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Figura 1.5

Uma cabina de guindaste que exigia o trabalho em pé com uma postura forçada, provocando fadiga do operador, foi redesenhada para permitir o traba lho sentado, com melhor visão e fa cilidade de opera ção dos controles. b) Cabina redesenhada (Sell, 1977).

com os consertos dos vagões. A proposta para a mudança da posição dos controles para facilitar a visão do operador sobre a carga em movimento e redesenho da cabi na, foi estimado em 2 500 dólares, ou seja, um investimento que seria recuperado em cerca de cinco semanas de operação.

Uma segunda categoria de atuação da ergonomia está relacionada com os aspec tos organizacionais do trabalho, procurando reduzir a fadiga e a monotonia, princi palmente pela eliminação do trabalho altamente repetitivo, dos ritmos mecânicos impostos ao trabalhador, e a falta de motivação provocada pela pouca participação do mesmo nas decisões sobre o seu próprio trabalho.

Em terceiro lugar, a melhoria é feita pela análise das condições ambientais de tra balho, como temperatura, ruídos, vibrações, gases tóxicos e iluminação. Por exem plo, um iluminamento deficiente sobre uma tarefa que exija precisão, pode ser muito fatigante. Por outro lado, focos de luz brilhantes colocados dentro do campo visual podem provocar reflexos e ofuscamentos extremamente desconfortáveis.

A aplicação sistemática da ergonomia na indústria é feita identificando-se os lo cais onde ocorrem problemas ergonômicos mais graves. Estes podem ser reconheci dos por certos sintomas como alto índice de erros, acidentes, doenças, absenteísmos e rotatividade dos empregados. Por trás dessas evidências podem estar ocorrendo uma inadaptação das máquinas, falhas na organização do trabalho ou deficiências ambientais, que provocam dores musculares e tensões psíquicas nos trabalhadores, resultando nos sintomas acima mencionados.

Ergonomia na agricultura, mineração e construção civil

As aplicações da ergonomia na agricultura, mineração e construção civil ainda não ocorrem com a intensidade desejável, devido ao caráter relativamente disper so dessas atividades e ao pouco poder de organização e reivindicação dos mineiros, garimpeiros, trabalhadores rurais e da construção. O mesmo se pode dizer do setor pesqueiro, que tem uma participação economicamente pequena em nosso país.

21 1.5 -Aplicações da Ergonomia

Alguns estudos têm sido realizados por empresas industriais que produzem má quinas e implementos agrícolas. Entre estes, os tratores têm sido objeto de diversas pesquisas, devido aos acidentes que têm provocado, e às condições adversas de tra balho do tratorista.

Outros trabalhos relacionam-se com as tarefas de colheita, transporte e armaze namento de produtos agrícolas. Em particular, no nosso país, diversos estudos foram realizados sobre o corte da cana-de-açúcar, devido à rápida expansão dessa cultura para fins energéticos.

Merecem destaque as pesquisas sobre os efeitos danosos dos agrotóxicos sobre a saúde de homens e animais. Recentemente, problemas semelhantes estão surgindo com a contaminação pelo mercúrio, usado indiscriminadamente em garimpos.

A construção civil absorve grande contingente de mão de obra, geralmente de baixa qualificação e baixa remuneração. Envolvem muitas tarefas árduas e perigosas. As grandes empresas do setor já tem uma organização eficiente e tarefas estrutura das, mas não é o caso da maioria das empresas de pequeno porte e das construções informais.

De qualquer forma, na agricultura, mineração e construção civil, concentram-se a maior parte dos trabalhos mais árduos que se conhecem. As máquinas e equipamen tos utilizados nesses setores ainda são quase sempre rudimentares, e poderiam ser consideravelmente aperfeiçoados com a aplicação dos conhecimentos ergonômícos e tecnológicos já disponíveis.

Ergonomia no setor de serviços osetor de serviços é o que mais se expande com a modernização da sociedade. Com a mecanização crescente da agricultura e a automação da indústria, a mão-de-obra excedente desses setores está sendo absorvida pelo setor de serviços: comércio, saú de, educação, escritórios, bancos, lazer e prestação de serviços em geraL

O setor de serviços tende a crescer, criando sempre novas necessidades na socie dade afluente. Por exemplo, a expansão da TV, a partir da década de 1950, criou uma série de profissões que não existiam. Evolução semelhante ocorreu com a introdução do microcomputador e telefone celular. Hoje há muitos pesquisadores em ergonomía envolvidos no projeto e racionalização de sistemas de informação, centros de proces samento de dados, projeto de vídeos, teclados, postos de trabalho com terminais de vídeo e na organização de sistemas complexos, como centros de controle operacional de usinas e sistemas de transportes.

A operação de um hospital moderno é tão complexa quanto a de uma empresa industrial. Há diversos tipos de sofisticados equipamentos que não podem parar, su primentos de vários materiais, envolvimento de diversos tipos de profissionais em turnos de trabalho contínuo, programações de tratamento e acompanhamento indi vidual de cada paciente, e assim por diante.

As universidades, bancos, centrais de abastecimento e outros exigem operações de sistemas igualmente complexos, oferecendo muitas oportunidades para estudos e aplicações da ergonomía.

Capitulo 1 -O que é Ergonomia22

Ergonomia na vida diária

A ergonomia tem contribuído para melhorar a vida cotidiana, tomando os meios de transporte mais cômodos e seguros, a mobília doméstica mais confortável e os apa relhos eletrodomésticos mais eficientes e seguros.

Hoje existe um ramo da ergonomia que se dedica ao teste de produtos de consu mo. Muitas vezes, esses serviços estão ligados a órgãos de defesa dos consumidores, que avaliam o desempenho dos produtos e divulgam os resultados do testes para a população.

Em alguns casos específicos de produtos que oferecem maiores riscos, corno os componentes aeronáuticos, é necessário haver uma homologação prévia, que é for necida ao fabricante, por um instituto de pesquisa devidamente credenciado. Sem essa homologação, o fabricante não está autorizado a produzir e comercializar esses produtos. Isso ocorre, sobretudo com os produtos relacionados com a saúde e segu rança da população.

Portanto, a contribuição da ergonomia não se restringe às indústrias. Hoje, os estudos ergonômicos são muito amplos, podendo contribuir para melhorar as resi dências, a circulação de pedestres em locais públicos, ajudar pessoas idosas, crian ças em idade escolar, aquelas portadores de deficiências físicas e assim por dian te.

1.6 Custo e benefício da Ergonomia

A ergonomia, assim corno qualquer outra atividade relacionada com o setor produti vo, só será aceita se for capaz de comprovar que é economicamente viável, ou seja, se apresentar uma relação custolbenefício favorável.

A análise do custolbenefício indica de um lado, o investimento (quantidade de dinheiro) necessário para implementar um projeto ou uma recomendação ergonômi ca, representado pelos custos de elaboração do projeto, aquisição de máquinas, ma teriais e equipamentos, treinamento de pessoal e queda de produtividade durante o período de implantação. Do outro lado, são computados os benefícios, ou seja, quan to vai se ganhar com os resultados do projeto. Aí podem ser computados itens corno economias de material, mão de obra e energia, redução de acidentes, absenteísmos e aumento da qualidade e produtividade.

Em princípio, o projeto só será considerado economicamente viável se a razão custolbenefício, expresso em termos monetários, for menor que 1,0, ou seja, os be nefícios forem superiores aos respectivos custos. Há diversos relatos de resultados econômicos das aplicações da ergonomia. Um simples trabalho de conscientização dos trabalhadores contribuiu para aumentar a produtividade em 10%. Em um caso de aplicação da ergonomia verificou-se economia em 25% em manutenção e 36% de produtividade, em empresas do setor alimentício (Bridge r, 2003).

Em geral, os custos costumam incidir a curto-prazo, enquanto os benefícios, ou seja, o retomo do investimento, pode demorar um certo tempo. Algumas empresas

23 p 1.6 -Custo e benefício da estabelecem um prazo máximo para esse retorno, digamos cinco anos. Os projetos que têm um retorno maior ou em menor prazo, são considerados aqueles mais inte ressantes.

Há duas questões associadas à analise do custolbenefício e que nem sempre são quantificáveis: o risco do investimento e os fatores intangíveis.

Risco do investimento

Os riscos são associados a incertezas, que ocorrem inesperadamente e produzem resultados imprevistos. É como uma tempestade, que tira o navio de sua rota, levan do-o a um outro destino. Assim, devido a alguma razão imprevisível, é possível que o benefício previsto no projeto não se realize, ou se realize parcialmente.

Na área de ergonomia, isso pode ser provocado principalmente pelo avanço tec nológico, que promove mudanças substanciais na natureza do trabalho, a ponto de extinguir certas tarefas e cargos. Por exemplo, um banco investiu no redesenho dos postos de trabalho dos caixas executivos, na década de 1990. Alguns anos depois, muitos bancários foram substituídos pelos caixas eletrônicos, eliminando-se cerca de 80% desses postos de trabalho. Como isso aconteceu antes do prazo previsto, o retorno dos investimentos realizados no novo posto de trabalho foi aquém do espera do. Muitas vezes, essa aceleração das mudanças ocorre pelo barateamento das novas tecnologias e pela necessidade de manter-se competitivo no mercado.

Fatores intangíveis

Fatores intangíveis são aqueles não quantificáveis, em termos monetários. Nem por isso deixam de ser importantes. É o que ocorre, por exemplo, com o aumento do moral, motivação, conforto e melhoria das comunicações entre os membros da equipe.

Portanto, esses riscos do investimento e fatores intangíveis, mesmo não sen do economicamente mensuráveis, podem ser tão importantes ou até mesmo mais importantes que aqueles quantificáveis. As decisões que envolvem riscos e fatores intangíveis são tomadas em níveis mais altos da administração, enquanto aqueles quantificáveis podem ficar a cargo de escalões intermediários.

Em geral, costuma-se fazer uma análise custolbenefício com os fatores quantifi cáveis e depois complementá-la com a descrição daqueles fatores qualitativos, para efeito de um julgamento subjetivo. Muitas vezes, esses fatores subjetivos podem prevalecer sobre os demais. É o caso da gerência que resolve implementar um pro jeto, baseando-se nos benefícios indiretos, por considerá-los mais importantes que os resultados diretos. Por exemplo, uma empresa pode implantar um programa para financiar a casa própria para os seus empregados. A médio e longo prazos, pode ob ter um bom retorno, com a satisfação dos empregados e fidelização dos mesmos à empresa, resultando na melhoria da produtividade a longo prazo.

24 Capítulo 1 -O que é Ergonomia

Conceitos introduzidos no capítulo 1 ergonomia ergonomia de concepção precursores da ergonomia ergonomia de correção taylorismo ergonomia de conscientização relações humanas ergonomia de participação efeito Hawthorne macroergonomia

Questões do capítulo 1 1. Quais são os principais objetivos da ergonomia?

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