(Parte 3 de 5)

A família Cactaceae é encontrada como vegetação nativa desde o Chile,

Argentina até o Canadá, e é cultivada em mais de 30 países sendo constituída por aproximadamente 1600 a 2000 espécies (Wallace & Gibson, 2002).

Já foram descritas cerca de 300 espécies de cactáceas pertencentes ao gênero

Opuntia, distribuídas desde o Canadá até a Argentina e no México já foram registradas 104 espécies e variedades (Scheinvar, 2001). A distribuição atual de opuntias no mundo

inclui ambientes distintos e uma ampla faixa de espécies, devido a sua alta variabilidade genética, transformando-se hoje em parte do ambiente natural e dos sistemas agrícolas de muitas regiões do mundo (Nobel, 2001).

Dotada de mecanismos fisiológicos que a torna uma das plantas mais adaptadas às condições ecológicas das zonas áridas e semiáridas do mundo, a palma forrageira se adaptou com relativa facilidade ao semiárido Brasileiro. Entre os anos de 1979 e 1983, durante a estiagem prolongada ocorrida no nordeste foi que a palma ganhou de vez seu espaço e seu cultivo com a finalidade forrageira, começou. Estima-se que hoje exista cerca de 500 mil hectares cultivados com palma forrageira, concentrado nos estados de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Rio Grande do Norte e Bahia; onde dois tipos distintos de palma forrageira predominam: Opuntia ficus-indica e Nopolea cochenillifera. A primeira possui as cultivares gigante e redonda, enquanto que a segunda a cultivar miúda ou doce. (Fabricante & Feitosa, 2007)

2.2.2. Características botânicas e fisiológicas A palma forrageira pertence à Divisão: Embryophyta, subdivisão:

Angiospermea, classe: Dicotyledoneae, subclasse: Archiclamideae, ordem: Opuntiales e família das Cactáceas (Silva & Santos, 2006). A espécie Opuntia ficus-indica, é popularmente conhecida como palma graúda, palma-da-índia, palma-grande, palmatória, palma redonda, palma-santa, palma-sem-espinho, palma-azeda, cactusburbank, figo-da-índia, figueira-da-barbaria, figueira-da-índia, figueira-do-inferno, figueira-moura e tuna-de-castilha (Araújo Filho, 2000).

No Nordeste do Brasil são cultivadas duas espécies, conhecidas como Opuntia ficus-indica (L.) Mill e Nopolea cochenilifera (L.) Salm Dyck (Farias et al., 2000), que são as mais importantes devido a sua utilidade para o homem. A O. ficus possui porte arborescente com 3-5 m de altura, coroa larga, glabra, caule com 60-150 cm de largura, cladódios obovalados com 30 a 60 cm de comprimento, 20 a 40 cm de largura e 19 a 28 m de espessura, possuem cor verde escura, cobertas de uma camada de cera (Figura 5a). Suas flores possuem 7-9 cm de comprimento, têm cor laranja ou amarela (Figura 5b). O fruto possui sabor doce, é suculento, comestível, apresentando 5 a 10 cm de comprimento e 4 a 8 cm de largura, coloração variável, indo desde a amarela, laranja e vermelha (Figura 5a) com muita polpa e casca fina. As sementes são obovoladas e discóides com 3 a 4 m de diâmetro. Os espinhos são quase ausentes, raramente um em poucas aréolas, aproximadamente com 1 cm de comprimento (Scheinvar, 2001).

Figura 5. Cladódio de palma forrageira e seus frutos (A) e flor de palma forrageira (B) Fonte: Saúde pelas plantas (2010)

2.2.3. Importância da palma forrageira para o semiárido brasileiro A palma se consolidou, no Semiárido nordestino, como forrageira estratégica fundamental nos diversos sistemas de produção pecuário, no entanto, é uma planta de enorme potencial produtivo e de múltiplas utilidades, podendo ser usada na alimentação humana, na produção de medicamentos, cosméticos e corantes, na conservação e recuperação de solos, cercas vivas, paisagismo, além de uma infinidade de usos. É a planta mais explorada e distribuída nas zonas áridas a semiáridas do mundo, contudo sua real dimensão produtiva ainda não foi plenamente conhecida no Nordeste.

A FAO (2001) reconhece o potencial da palma e sua importância para o desenvolvimento das regiões áridas e semiáridas, especialmente nos países em desenvolvimento, através da exploração econômica das várias espécies, com consequências sustentáveis para o meio ambiente e para segurança alimentar.

O desenvolvimento dos membros do subgênero Opuntia em ambientes áridos e semiáridos, onde diferentes situações ambientais impõem limitações à sobrevivência e à produtividade das plantas, provocou o desenvolvimento de características adaptativas em sua anatomia, morfologia e fisiologia (Hills, 2001).

Das diversas famílias de plantas que existem nas áreas áridas e semiáridas, as cactáceas são uma das mais importantes, em virtude dos seus mecanismos de adaptação à escassez de água, o que permite a sua perenidade em ambientes algumas vezes de extrema condição de aridez (Araújo et al., 2004).

As cactáceas são possuidoras de mecanismos morfofisiológicos que permitem a absorção de água da chuva e reduzem a sua evaporação ao mínimo, são detentoras do

processo fotossintético conhecido como metabolismo ácido das crassuláceas (MAC), apresentando uma alta eficiência no uso da água, em virtude da absorção do CO2 no período noturno, transformando este em biomassa pela luz do sol durante o dia (Farias et al., 2000).

Com a possibilidade de se obter vários produtos e subprodutos da palma forrageira, na alimentação humana e animal, na medicina humana, na indústria de cosméticos, na produção de aditivos naturais, a palma representa uma alternativa de renda para os que habitam as regiões áridas e semiáridas em diferentes partes do mundo (Sáenz et al., 2004).

Na região Nordeste encontra-se a maior parte do semiárido brasileiro, com alto índice de evaporação anual, superior a 2000 m e média anual de chuvas inferior a 750 m, concentrados em uma única estação de 3 a 5 meses. Alguns anos a estiagem é prolongada, resultando no fenômeno das secas, fragilizando a economia regional, causando o êxodo das populações mais desprotegidas, agravando os problemas da região (Banco do Nordeste, 2005). A cultura da palma possui grande potencial, capaz de contribuir positivamente na viabilidade econômica das pequenas e médias propriedades, notadamente na alimentação dos rebanhos (Galindo et al., 2005). O Nordeste do Brasil possui uma área de 550.0 ha ocupada com a plantação de palma forrageira, com destaque para Alagoas e Pernambuco, estados com a maior área cultivada (Araújo et al., 2005).

No período das chuvas, a oferta de forragem é quantitativa e qualitativamente satisfatória, porém, na época seca, que representa a maior parte do ano, além da escassez de pastagens, o seu valor nutricional é baixo, prejudicando a produção de carne e leite (Lopes et al., 2005). A presença de anos secos faz da palma forrageira um aliado estratégico para esses períodos, quando o crescimento de outras forrageiras é limitado pelo baixo índice pluviométrico (Cavalcante, 2007). No Brasil, com destaque para o Nordeste, o cultivo desta cactácea foi incentivado, em virtude de seus atributos morfológicos serem adequados a regiões semiáridas (Teixeira et al., 1999).

No Cariri da Paraíba, foram estudadas variedades de palma forrageira no intuito de verificar o seu potencial de adaptação. As variedades do gênero Opuntia mostraram um maior potencial de adaptação às regiões de baixa disponibilidade de água no solo, em virtude da reserva hídrica contida nas suas raquetes (Sales & Andrade, 2006).

2.2.4. Alimentação humana O uso de broto palma ou verdura, na alimentação humana, basicamente, é limitado ao México e outros países com influência mexicana (Flores, 2001), onde existem mais de 200 receitas de comidas à base de palma forrageira (Guedes et al., 2004). Nos EUA e alguns países da Europa e da Ásia, as receitas a base da verdura são consumidas esporadicamente como alimento exótico. No Brasil, em alguns municípios do Sertão baiano e da Chapada Diamantina, o broto de palma entra na dieta alimentar da população, a ponto do broto está sendo empacotado e comercializado nas feiras livres (Guedes et al., 2002).

A verdura e os frutos da palma são frequentemente consumidos frescos ou processados na América Latina, já no mercado Europeu e Norte-Americano os frutos frescos são mais aceitos (Feugang et al., 2006). Os cladódios têm sido investigados como um possível tratamento para gastrite, hiperglicemia, aterosclerose, diabete e hipertrofia prostática. (Enouri et al., 2006). Na alimentação humana a palma forrageira vem sendo utilizada como fonte de energia (Barbera, 2001).

Segundo Cantwell (2001) a palma é uma alternativa eficaz para combater a fome e a desnutrição no semiárido brasileiro além de ser uma importante aliada nos tratamentos de saúde. É uma cultura rica em vitaminas A, complexo B e C e minerais como Cálcio, Magnésio, Sódio, Potássio além de 17 tipos de aminoácidos. A palma é mais nutritiva que alimentos como a couve, a beterraba e a banana, com a vantagem de ser um produto mais econômico.

guisados, cozidos e doces (Chiacchio, 2006)

A agroindustrialização da palma forrageira resulta em diversas preparações, produtos e derivados, permitindo o uso diversificado das raquetes jovens e dos frutos, fato que resulta em agregação de valor produção, com efeitos positivos na geração de postos de trabalho renda. A planta pode ser usada para fazer sucos, saladas, pratos

O preconceito é o maior obstáculo na adesão deste alimento, pois tradicionalmente a palma utilizada como ração animal. Em muitos países como o México, Estados Unidos e Japão a palma é considerada um alimento nobre, servida em restaurantes e hotéis de luxo (Cantwell, 2001).

Tirado (1987) e Badillo (1987) fizeram doce de brotos de palma em pasta, adicionando suco e casca de laranja e açúcar. A partir de frutos e do broto palma Guedes (2004) e Guedes et al. (2004) elaboraram receitas com diversas preparações culinárias salgadas, saladas, doces, sucos e conservas.

a) Fruto Os frutos da palma são considerados frutos não climatéricos. As mudanças típicas das características físicas e da composição química dos frutos da palma forrageira são similares às observadas nas mais comuns variedades de frutos de mesmo padrão respiratório, colhidos em diferentes estágios de desenvolvimento (Cantwell, 2001).

Segundo o mesmo autor, os estágios de desenvolvimento e estádios de maturação para frutos de palma podem ser descritos da seguinte forma: 1) Frutas semi-maduras: quase completamente desenvolvidas, com coloração da casca verde claro; 2) Frutas em processo de maturação: quando a casca começa a apresentar mudança de cor; o desenvolvimento da cor pode variar desde incipiente até 75% da superfície da fruta; as frutas nesse estádio são consideradas ótimas para colheita comercial, visto que os gloquídios começam a cair; 3) Frutas maduras: a casca tem 75 a 100 por cento de cor amarela; as frutas são mais macias que as do estágio 2 e se danificam com facilidade durante a colheita; 4) Frutas super-maduras ou passadas: podem apresentar maior intensidade da cor amarela da casca, com pequenas áreas de cor marrom que começam a se formar. Em alguns cultivares, as mudanças de coloração na polpa da fruta ocorrem sem que sejam observadas mudanças externas de cor da casca.

De acordo com Kuti (2004) cada espécie ou tipo de Opuntia produz frutas de diferentes formas, cores e sabores delicados. Os principais componentes da polpa são água (85%) e carboidratos (10-15%) com quantidades importantes de vitamina C (25-35 mg /100 g). Pimienta (1990) informa que o conteúdo de vitamina C em frutas maduras varia de menos de 10 a mais de 40 mg /100 g de polpa entre as diferentes espécies de Opuntia. No quadro 1 pode-se observar a composição da fruta da palma forrageira e comparada com a polpa da laranja e a do mamão.

Quadro 1. Comparação da composição da polpa da fruta de palma forrageira com a da laranja e a do mamão.

Componente Fruta de palma forrageira Laranja Mamão

Fonte: Adaptado de Cantwell (2001) b) Verdura A importância para o desenvolvimento das regiões áridas e semiáridas, especialmente nos países em desenvolvimento, através da exploração econômica das várias espécies de palma, com consequências sustentáveis para o meio ambiente é reconhecida pela FAO (2001).

Com o cladódio da palma, também denominado broto de palma ou palmaverdura, são feitos diversos pratos da culinária (Guedes, 2002; Guedes et al. 2004).

Para que possam ser utilizados como verdura na alimentação humana as raquetes ou brotos de palma devem ser colhidos 30 a 60 dias após a brotação, com 80 a 120 gramas e 15 a 20 cm de comprimento (Flores, 2001).

Guedes et al. (2004) fornecem equivalência do peso do cladódio em relação ao tamanho: pequeno = 40-60 g; médio = 90-110 g e grande = 150-200 g. Segundos os mesmos autores, o cladódio ideal para uso em preparações culinárias deve apresentar características como, tamanho semelhante a palma da mão de uma pessoa adulta, cor verde brilhante, sem espinhos e encontrar-se facilmente quebrável quando dobradas, o que significa está fresca para o uso.

A verdura de palma forrageira compõe-se principalmente de água (92%) e carboidratos, incluindo fibra (4-6%), alguma proteína (1-2%) e minerais, sobretudo cálcio (1%). Também contêm quantidades moderadas de vitamina C (10-15 mg/100 g) e o precursor da vitamina A, o β-caroteno (Lopes, 2007).

As qualidades nutricionais do broto de palma são objeto dos quadros 2 e 3, que estabelecem, ainda, uma comparação com outros vegetais. Como os teores de

carotenóides e vitamina C estão entre os da alface e do espinafre, a contribuição da verdura de palma forrageira à dieta pode ser significativa, sobretudo no semiárido.

Quadro 2. Comparação entre a composição da verdura de palma forrageira fresca, alface e espinafre.

Componente Verdura de palma forrageira Alface Espinafre

Fonte: Rodrigues-Félix & Cantwell (1988) e USDA (1984), apud Catwell (2001).

Quadro 3. Comparação do valor nutritivo da verdura de palma forrageira com algumas olerícolas

Olerícola Vitamina A

A verdura de palma forrageira pode ser produzida rápida e abundantemente em plantas expostas a altas temperaturas e com pouca água, condições essas pouco favoráveis para a produção de muitas hortaliças de folhas verdes (Luo & Nobel, 1993).

2.3. Enriquecimento nutricional: Estado da arte

Nas últimas décadas, grandes modificações ocorreram no aspecto social e econômico da população, ocasionando a chamada transição nutricional, que levou a hábitos alimentares errôneos que têm se refletido negativamente sobre o perfil nutricional e saúde humana. O organismo respondeu a esta agressão com o desenvolvimento de carência de nutrientes, com o surgimento de problemas como a sub e/ou hipernutrição.

A subnutrição atinge em torno de 4% dos brasileiros adultos, o sobrepeso e a obesidade, também denominados de hipernutrição afetam 38,8% da população. Ambos merecem a mesma atenção, visto que estes problemas carenciais tem se consolidado independente da classe social, sendo apontados como principais causas do aumento acelerado de doenças crônicas e gastos com saúde publica, evidenciados atualmente. Esta situação requer uma intervenção coerente a partir da melhoria no cardápio alimentar da população, não apenas sobre a diversidade de alimentos que o compõe, mas sim, sobre a qualidade nutricional dos mesmos (Salay, 2003).

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