5. Atos (Barclay)

5. Atos (Barclay)

(Parte 2 de 6)

Quando lemos Atos podemos ter certeza de que nenhum historiador teve melhores fontes e que nenhum as utilizou com tanta exatidão e honestidade.

Atos 1 Poder para seguir em frente - 1:1-5 O reino e suas testemunhas - 1:6-8 A glória da partida e a glória do retorno - 1:9-1

Atos (William Barclay) 1

O destino de um traidor - 1:12-20 As qualidades de um apóstolo - 1:21-26

Atos 1:1-5 Em dois sentidos o Livro dos Atos é o segundo capítulo de uma história que continua. Em primeiro lugar, é literalmente o segundo volume que Lucas enviou a Teófilo. No primeiro, seu Evangelho, Lucas tinha relatado a vida de Jesus sobre a Terra, e agora continua contando a história da Igreja cristã. Mas, em segundo lugar, Atos é o segundo volume de uma história que não tem fim. O evangelho era só a história do que Jesus começou a fazer e ensinar. A vida terrestre de Jesus era só o começo de uma atividade que não conhece fim. Há distintos tipos de imortalidade. Existe a imortalidade da fama. Sem dúvida nenhuma Jesus ganhou esta imortalidade, dado que seu nome não será esquecido jamais. Há uma imortalidade da influência. Alguns homens deixam uma influência e um efeito no mundo que não pode morrer. Sem dúvida nenhuma Jesus ganhou a imortalidade de seu influencia devido a seu efeito sobre a vida dos homens e o mundo não pode morrer. Mas, acima de tudo, existe uma imortalidade de presença e poder. Jesus não só deixou um nome e uma influência imortais; ainda vive, está ativo e tem poder. Não é aquele que foi; é aquele que é e sua vida ainda continua.

Em certo sentido tudo o que o Livro dos Atos ensina é que essa vida de Jesus continua em sua Igreja.

Jesus. "Então continuou lendoe sentiu que entrou em um mundo novo.
Nos Evangelhos estava Jesus, seu obra e seu sofrimento. Em Atoso

O doutor John Foster nos relata a respeito de um hindu que se aproximou de um bispo índio. Sem ajuda alguma tinha lido o Novo Testamento, e a história o tinha fascinado e se achava sob o encanto de que os discípulos tinham feito, pensado e ensinado ocupava o lugar de Cristo. A Igreja continuava no lugar em que Jesus a tinha deixado ao

Atos (William Barclay) 12 morrer. ‘portanto’, disse-me o homem, ‘devo pertencer à Igreja que continua a vida de Cristo’.” O livro dos Atos nos fala da Igreja que continua a vida de Cristo.

Esta passagem nos relata como a Igreja recebeu poder para fazer isso. Foi devido à obra do Espírito Santo. Muitas vezes chamamos o Espírito Santo o Consolador. Esta palavra se remonta ao Wycliffe; mas nos dias do Wycliffe tinha um significado diferente. Provém do latim fortis que significa valente; e o Consolador é aquele que enche os homens de coragem e força. Em Atos, e sem dúvida em todo o Novo Testamento, é muito difícil traçar uma linha entre a obra do Espírito e a do Cristo ressuscitado; e em realidade não precisamos fazer tal coisa, porque a chegada do Espírito é o cumprimento da promessa de Jesus: “Eis que eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mateus 28:20, TB). Notemos outra coisa. Os apóstolos se reuniram para aguardar a chegada do Espírito. Ganharíamos mais poder, coragem e paz se aprendêssemos a aguardar. Nos assuntos da vida precisamos aprender a estar tranqüilos. “Mas os que esperam no SENHOR renovam as suas forças” (Isaías 40:31). Em meio da crescente atividade da vida deve haver lugar para uma sábia passividade. Em meio de toda a luta deve haver um momento para receber.

Atos 1:6-8 Através de todo seu ministério Jesus trabalhou sob uma grande desvantagem. O centro de sua mensagem era o Reino de Deus (Marcos 1:14). Mas o problema era que Ele queria dizer uma coisa por Reino e aqueles que o ouviam pensavam em outra. Os judeus estavam sempre vividamente conscientes de que eram o povo escolhido de Deus. Criam que isto significava que estavam destinados inevitavelmente a receber honras e privilégios especiais e a dominar todo mundo. Todo o curso de seu historia provava que humanamente falando isso nunca poderia

Atos (William Barclay) 13 acontecer. Palestina era um país muito pequeno com não mais de duzentos quilômetros de comprimento por setenta de largura. Teve seus dias de independência mas tinha estado submetida sucessivamente a Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma.

De modo que os judeus começaram a esperar um dia em que Deus entraria diretamente na história humana e com seu poder poderia fazer o que eles nunca puderam fazer. Esperavam o dia em que, pela intervenção divina, alcançariam a soberania do mundo que sonhavam. Concebiam o Reino em termos políticos.

Como o concebia Jesus? Consideremos o Pai Nosso. Há dois pedidos juntos. “Venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra, como no céu” (Mat. 6:10, TB). É uma característica do estilo hebreu, como pode ver-se em qualquer versículo dos Salmos, dizer as coisas em duas formas paralelas, a segunda das quais repete ou amplia a primeira. Isso é o que fazem estas duas petições. A segunda é uma definição da primeira; e, portanto, vemos que, por Reino, Jesus falava de uma sociedade sobre a Terra na qual se cumprisse perfeitamente a vontade de Deus como se faz no céu. Por essa mesma razão seria um Reino baseado no amor e não no poder.

Para alcançar tal coisa os homens precisavam do Espírito Santo.

Lucas já tinha falado duas vezes de esperar a chegada do Espírito. Não devemos pensar que o Espírito começou a existir pela primeira vez neste momento. É muito possível que um poder exista sempre mas que os homens o experimentem ou dele se apoderem em um determinado momento. Por exemplo, os homens não inventaram o poder atômico. Existiu sempre; mas só em nossa era os homens o obtiveram e experimentaram. Portanto Deus é eternamente o Pai, Filho e Espírito Santo, mas chegou um momento especial para os homens em que experimentaram plenamente o poder que sempre esteve presente.

O poder do Espírito os converteria em testemunhas de Cristo. Essas testemunhas teriam que agir em uma série de círculos concêntricos em contínua expansão, primeiro em Jerusalém, depois através da Judéia;

Atos (William Barclay) 14 depois em Samaria, um estado semi-judeu, que seria uma espécie de ponte que levaria a mundo pagão: e finalmente essas testemunhas deveriam ir aos limites da Terra.

Devemos notar certas coisas a respeito destas testemunhas cristãs.

Em primeiro lugar, uma testemunha é um homem que diz saber que algo é certo. Em um tribunal um homem não pode dar evidências de algo que não conhece pessoalmente. Houve um momento em que John Bunyan não esteve muito seguro. O que lhe preocupava era que os judeus pensam que sua religião é a melhor, quão maometanos a sua o é. Que aconteceria se os cristãos só pensassem o mesmo? Uma testemunha não diz "Penso que...", mas "Eu sei".

Segundo, a testemunha real não é testemunha de palavras, mas sim de atos. Quando H. M. Stanley descobriu a Davi Livingstone na África Central, depois de ter vivido certo tempo com ele, disse: "Se tivesse estado com ele um pouco mais, teria sido obrigado a ser um cristão, e isso que jamais me falou a respeito disso." O simples peso do testemunho da vida de um homem era irresistível.

Terceiro, um dos atos mais sugestivos é que em grego a palavra que se usa para testemunha e para mártir é a mesma (martys). Uma testemunha devia estar disposta a converter-se em mártir. Ser testemunha significa ser fiel, qualquer que seja o custo.

Atos 1:9-1 Esta breve passagem nos apresenta duas das concepções mais difíceis do Novo Testamento. Em primeiro lugar, relata-nos a história da Ascensão. Só Lucas nos relata este fato, e já aparece em seu Evangelho (Lucas 24:50-53. A Ascensão não é uma concepção da que tenhamos causas para duvidar e vacilar. Era absolutamente necessária por duas razões. Primeiro, era preciso que houvesse um momento final no qual Jesus voltasse para sua glória. Tinham passado os quarenta dias de

Atos (William Barclay) 15 aparições do Ressuscitado. Evidentemente esse era um momento único e não podia continuar para sempre. Era igualmente claro que o fim desse período tinha que ser definitivo. Teria sido um engano que as aparições do Ressuscitado tivessem desaparecido lentamente, diminuindo pouco a pouco. Era necessário que assim como Jesus chegou ao mundo em um momento determinado o deixasse também em uma hora fixada.

Para a segunda razão devemos transportar nossa imaginação à época em que isto aconteceu. Atualmente é correto dizer que não pensamos no céu como um lugar localizado mais à frente do firmamento; pensamos nele como em um estado de bênção em que estaremos para sempre sem nos separar de Deus. Mas tudo isto aconteceu faz como dois mil anos, e nesses dias, até os mais sábios, ainda pensavam em uma Terra plana com um lugar chamado céu mais além firmamento. Portanto se deduz que se Jesus queria dar aos seus seguidores uma prova indisputável de que retornou à sua glória, a Ascensão era absolutamente necessária. Era a única prova possível de que Jesus tinha voltado para sua glória. Mas devemos notar algo. Quando Lucas nos relata isto em seu Evangelho adiciona algo. Diz: "Voltaram para Jerusalém com grande gozo" (Lucas 24:52). Apesar da Ascensão ou possivelmente, devido a ela, os discípulos estavam seguros de que Jesus não se afastou, mas sim estava com eles para sempre.

Mas em segundo lugar, esta passagem nos coloca frente à Segunda

Vinda. Devemos recordar duas coisas a respeito dela. Primeiro, é tolo e inútil especular a respeito de quando e como acontecerá, porque Jesus mesmo disse que nem ainda Ele sabia o dia e a hora em que viria o Filho do Homem (Marcos 13:32). Há algo quase blasfemo em especular a respeito daquilo que era segredo até para o próprio Cristo. Em segundo lugar, o ensino essencial do cristianismo é que Deus tem um plano para o homem e o mundo. Temos que crer que a história não é um conglomerado casual de atos fortuitos que não vão a nenhuma parte. Temos que crer que o mundo vai a alguma parte, que existe algum feito divino longínquo rumo ao qual se move toda a criação. E devemos crer

Atos (William Barclay) 16 que quando chegar tal consumação Jesus Cristo será sem dúvida Juiz e Senhor de todos. A Segunda Vinda não é um assunto sobre o qual se deve especular nem bisbilhotar ilegitimamente. É uma convocatória a lutar pela chegada desse dia e a nos preparar para quando chegar.

Atos 1:12-20 Antes de falar do destino do traidor Judas há alguns pontos que devemos destacar nesta passagem. Para o judeu o sábado era um dia de descanso total em que se proibia toda classe de trabalho. No sábado as viagens estavam limitadas a dois mil côvados, e essa distância se chamava viagem de um sábado. Um côvado mede uns quarenta e cinco centímetros; de modo que a viagem que podia fazer-se em sábado era de algo menos de um quilômetro.

É muito interessante notar que os irmãos de Jesus estão aqui com a companhia dos discípulos. Durante a vida de Jesus tinham estado entre seus oponentes (Marcos 3:21). Bem pode ter sido que a morte de Jesus, como aconteceu com muitos outros, lhes abrisse os olhos e tocasse seus corações como nem sua vida tinha podido fazer.

Diz-nos que o número dos discípulos era de uns cento e vinte. Este é um dos dados que mais assombram no Novo Testamento. Havia só cento e vinte homens consagrados a Cristo. É muito improvável que alguém deles em sua vida tenha saído dos estreitos limites da Palestina. Considerando as cifras na Palestina somente, nela havia cerca de quatro milhões de judeus. O que significa que menos de um em trinta mil era cristão. E esses cento e vinte homens simples foram enviados a evangelizar a todo mundo. Se alguma vez algo começou de um princípio muito pequeno, foi a Igreja cristã. Bem pode ser que fomos os únicos cristãos na loja, na fábrica, no escritório em que trabalhamos, no círculo em que nos movemos. Aqueles homens enfrentaram corajosamente sua

Atos (William Barclay) 17 tarefa e nós devemos fazer o mesmo, e pode ser que nós também sejamos o pequeno começo do qual se difunda o Reino em nossa esfera.

Mas o que mais interessa desta passagem é o destino de Judas, o traidor. O significado grego desta passagem é incerto, mas o relato de Mateus (Mateus 27:3-5) não deixa dúvida de que Judas se suicidou. Sempre nos perguntaremos por que Judas traiu a Jesus. Deram-se várias sugestões. (1) Sugeriu-se que Iscariotes significa homem do Kerioth. Se for assim, Judas era o único apóstolo que não era galileu. Pode ser que no começo ele se sentisse fora do grupo e chegou a estar tão amargurado que cometeu este feito tão terrível. (2) Pode ser que Judas entregou a seu Mestre para salvar sua próprio pele e que depois se deu conta do horrível de sua ação. (3) Pode ser que o fez simplesmente porque estava ansioso por dinheiro. Se foi assim, trata-se do pior negócio da história, porque vendeu a seu Senhor por trinta moedas de prata que é menos de dez dólares. (4) Pode ser que chegou a odiar a Jesus. Podia esconder seu sujo coração de outros; mas os olhos de Jesus podiam despi-lo e penetrar como raios X aos lugares mais recônditos de seu ser. E bem pode ser que ao final se visse levado a destruir Àquele que o conhecia tal como era. (5) Pode ser que Iscariotes seja a forma grega de uma palavra que significa aquele que porta uma adaga. Tratava-se de indivíduos que formavam uma banda de nacionalistas violentos que estavam dispostos a assassinar e matar em uma campanha por liberar a Palestina. Possivelmente Judas viu em Jesus com seu poder maravilhoso a pessoa que podia conduzir os nacionalistas ao triunfo; e então quando viu que Jesus rechaçava o caminho do poder se voltou contra Ele, e em sua amarga desilusão o traiu. (6) Mas possivelmente o mais acertado seja que Judas nunca quis que Jesus morresse. Pode ser que o tenha traído para forçar a Jesus. Ou que tenha tratado de pô-lo em uma posição em que, se queria salvar a

Atos (William Barclay) 18 vida, ele se veria obrigado a utilizar seu poder, e portanto forçosamente teria que agir contra os romanos. Se foi assim, Judas sofreu a experiência trágica de ver que seu plano saía desesperadamente mal; e em amargo remorso se suicidou.

Quaisquer que tenham sido os fatos, Judas entra na história como o nome mais negro de todos. Nunca pode haver paz para o homem que trai a Cristo, e que é falso para com seu Senhor.

Atos 1:21-26 Em primeiro lugar, devemos considerar brevemente o método para escolher quem ocuparia o lugar de Judas entre os apóstolos. Pode ser que nos seja estranho terem recorrido a um sorteio. Mas entre os judeus era algo muito natural, devido ao fato de que todos os cargos e tarefas no templo se distribuíam por sorteio. A forma corrente de fazê-lo era escrevendo os nomes dos candidatos sobre pedras; as pedras ficavam em uma vasilha e eram sacudidas até que alguém caísse; e aquele cujo nome estava na primeira pedra que caía era eleito para ocupar o cargo.

Mas o importante nesta passagem é que nos dá duas verdades de suma importância.

Em primeiro lugar, fala-nos da função de um apóstolo. A função de um apóstolo era a de ser testemunha da ressurreição. O que realmente distingue um cristão não é que sabe algo a respeito de Jesus, mas sim o conhece. O engano básico no cristianismo é considerar Jesus como alguém que viveu e morreu, e cuja vida estudamos e cuja história lemos. Jesus não é uma figura livresca. É uma presença viva, e o cristão é alguém cuja vida toda dá testemunho do fato de que conhece o Senhor ressuscitado e se encontrou com Ele.

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