6. Romanos (Barclay)

6. Romanos (Barclay)

(Parte 4 de 7)

Até separados das pessoas, sem outro dom que a oferecer-lhes, podemos lhes dar a fortaleza e a defesa de nossas orações. (3) Paulo, em sua humildade, esteve sempre preparado tanto para receber como para dar. Começa dizendo que quer ir a Roma de modo de poder repartir à Igreja romana algum dom que pudesse confirmá-los na fé. Logo muda. Quer ir a Roma para que ele e a Igreja romana possam confortar-se e fortalecer-se mutuamente, e que cada um possa encontrar riquezas na fé do outro. Há dois tipos de professores. Há aqueles cuja atitude é manter-se acima de seus alunos, dizendo o que deveriam e devem aceitar. E há aqueles que, em efeito, dizem: "Venham, aprendamos isto juntos." Paulo é o maior pensador que a Igreja primitiva tenha dado, e mesmo assim, quando pensa nas pessoas às quais deseja

Romanos (William Barclay) 26 pregar, considera-se a si mesmo não só como doador mas também como receptor deles. Ter humildade para ensinar é tê-la para aprender. (4) O versículo 14 tem em grego um duplo significado quase intraduzível. O termo traduzido "não gregos" é literalmente bárbaros. Paulo pensava em duas coisas. Era devedor por todas as gentilezas que tinha recebido, e era devedor por causa da obrigação que tinha de lhes pregar. Esta oração tão comprimida significa: "Por tudo o que recebi que deles, e sobretudo pelo que é meu dever lhes dar, sinto-me obrigado a todos os homens." Pode parecer estranho que Paulo fale de gregos, quando está escrevendo aos romanos. A esta altura o termo grego tinha perdido totalmente seu sentido étnico. Não indicava a um nativo do país da Grécia. As conquistas de Alexandre o Grande tinham difundido por todo mundo a língua e o pensamento gregos. De modo que o grego não o era por raça e nascimento. Grego era aquele que tinha a mente e a cultura da Grécia. O bárbaro era, literalmente, aquele que ao falar dizia barbar. Quer dizer, aquele que falava uma língua rústica e inarmônica, em contraste com aqueles que falavam a bela e flexível língua dos gregos. Ser grego era possuir uma determinada mente, gênio e cultura. Um deles disse de seu próprio povo: "Os bárbaros podem tropeçar diante da verdade, mas necessitam um grego para entendê-la." O que Paulo quer dizer é que sua mensagem, sua amizade, sua dívida, sua obrigação, era para com o sábio e o simples, o culto e o inculto, o letrado e o letrado. Tinha uma mensagem para o mundo, e sua ambição era dá-lo algum dia também em Roma.

Romanos 1:16-17 Chegando a estes dois versículos, passamos os preliminares e ressoa o chamado de trombeta do Evangelho de Paulo. Muitos dos grandes concertos de música clássica começam com um estalo de acordes, para logo anunciar o tema que terá que elaborar e desenvolver. A razão para

Romanos (William Barclay) 27 isso é que freqüentemente foram primeiro oferecidos em reuniões privadas em grandes mansões. Quando o pianista se sentava ao piano ainda havia cochichos e murmúrios. Tocava então os acordes iniciais para atrair a atenção do grupo, e uma vez obtida introduzia o tema. Previamente a estes dois versículos Paulo esteve fazendo contato com as pessoas à quais escreve, atraindo sua atenção. Feita já esta introdução formula agora o tema.

Temos aqui só dois versículos, mas representam suficientemente a quintessência do evangelho de Paulo para nos manter neles um tempo considerável.

Paulo começa dizendo que está orgulhoso do Evangelho que tem o privilégio de anunciar. É algo surpreendente pensar no pano de fundo desta declaração. Paulo foi prisioneiro em Filipos, foi deslocado de Tessalônica, fugiu da Beréia, escarneceram-se dele em Atenas. Tinha pregado em Corinto onde sua mensagem foi uma insensatez para os gregos e uma pedra de escândalo para os judeus, e sobre este pano de fundo Paulo declara estar orgulhoso do Evangelho. Havia algo no Evangelho que o fazia triunfalmente vitorioso acima o que os homens pudessem lhe fazer.

Nesta passagem encontramos três grandes consigna paulinas. São elas, certamente, os três grandes pilares de seu pensamento e fé. (1) Encontramos o conceito de salvação (soteria). Nessa época da história, a salvação era uma das coisas que os homens estavam buscando. Houve um tempo em que a filosofia grega tinha sido especulativa. Quatro ou cinco séculos antes estes homens se dedicavam a discutir o problema de qual seria o elemento básico primitivo da composição do mundo. A filosofia tinha sido especulativa, resultando em uma filosofia natural. Mas pouco a pouco, com o passar dos séculos, a vida decaiu. Os marcos antigos foram destruídos. Tiranos, conquistadores e perigos ameaçaram os homens. Perseguiram-nos a degeneração e a fraqueza e a filosofia mudou sua ênfase. Veio a ser prática em vez de especulativa. Deixou de ser filosofia natural para converter-se em filosofia moral. Seu

Romanos (William Barclay) 28 meta principal foi construir "um muro de defesa contra o avanço do caos do mundo".

Epicteto chamou sua sala de conferências "o hospital para a alma doente". Epicuro chamou seu ensino "a medicina da salvação".

Sêneca, cuja vida coincidiu no tempo com a de Paulo, afirmou que todos os homens estavam orientados ad ad salutem, rumo à salvação. O que precisamos — disse —, é "uma mão que baixe para nos levantar". Os homens, disse ele, têm uma cansativo consciência de "sua fraqueza e ineficácia nas coisas necessárias". Ele disse ser para si mesmo homo non tolerabilis, um homem intolerável. Os homens amam seus vícios, disse com certo desespero, e os odeiam ao mesmo tempo. Neste mundo sem esperança — disse Epicteto — os homens buscam paz "não a proclamada pelo César, a não ser por Deus". Dificilmente haverá uma época da história em que os homens busquem a salvação tão universalmente.

Foi precisamente essa salvação, esse poder, essa saída que o cristianismo devia oferecer aos homens.

Consideremos o significado desta soteria — salvação — cristã. (a) Significava salvação da enfermidade física (Mateus 9:21; Lucas 8:36). Não era algo totalmente de outro mundo. Tinha como propósito resgatar o homem em corpo e alma. (b) Significava salvação do perigo (Mateus 8:25; 14:30). Não era que a salvação desse ao homem uma vida livre de ameaças e perigos, mas sim lhe conferia algo que dava segurança à sua alma acontecesse o que acontecesse.

A salvação cristã torna o homem seguro, independentemente de qualquer circunstância externa. (c) Significava salvação da corrupção da vida. O homem é salvo de uma geração corrupta e perversa (Atos 2:40). O homem que tem esta salvação cristã possui um tipo de anti-séptico divino que o protege da infecção do mal do mundo.

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(d) Significava salvação da perdição (Mateus 18:1; Lucas 19:10).

Jesus devia buscar e salvar o que se perdeu. O não salvo é o homem que se acha extraviado no caminho errado, um caminho que leva a morte. O salvo é o homem que foi posto no caminho correto. (e) Significava salvação do pecado (Mateus 1:21). Um homem é como um escravo de um amo do qual não pode escapar. É como um paciente que pode diagnosticar a enfermidade, que sabe o que anda mal, mas não pode achar o remédio. A salvação cristã o liberta da tirania do pecado. (f) Significava salvação da ira de Deus (Romanos 5:9). Na passagem seguinte teremos ocasião de discutir o significado desta frase. No momento, basta notar que existe no mundo uma lei moral inexorável, que na fé cristã há um inevitável elemento de juízo. Sem a salvação que Cristo traz, a única possibilidade para o homem é a condenação. (g) Significava uma salvação escatológica. Isto é, encontra sua completa consumação mais além do tempo. Encontrará o seu completo significado e bênção no triunfo final de Jesus Cristo (Romanos 13:1; 1 Coríntios 5:5; 2 Timóteo 4:18; 1 Pedro 1:5).

A fé cristã veio a um mundo desesperado oferecendo salvação – soteria – uma segurança que pode manter o homem seguro no tempo e na eternidade. (2) Encontramos o conceito de fé. Fé, no pensamento de Paulo é um termo muito rico. (a) Em seu sentido mais simples significa lealdade, fidelidade.

Quando Paulo escreveu aos Tessalonicenses quis conhecer a respeito de sua fé. Isto é, quis saber em que medida sua lealdade se manteve firme na prova. Em 2 Tessalonicenses 1:4 se combinam fé e paciência. A fé é a constante lealdade e fidelidade que caracterizam o verdadeiro soldado de Jesus Cristo. (b) Fé significa crença. A convicção de que algo é verdadeiro. Em 1 Coríntios 15:17 Paulo diz aos coríntios que se Jesus não ressuscitou

Romanos (William Barclay) 30 dentre os mortos seu fé é vã. Naufraga tudo o que eles tinham crido. A fé é o assentimento de que a mensagem cristã é verdadeira. (c) Fé significa freqüentemente a religião cristã, como nós falamos da fé. Em 2 Coríntios 13:5 Paulo convida seus oponentes a examinar-se para ver se estavam na fé, isto é, para ver se ainda estavam na religião cristã. (d) Fé é, muitas vezes equivalente a esperança indestrutível. Paulo escreve: “Porque andamos por fé e não por visão” (2 Coríntios 5:7, TB). (e) Mas em seu uso mais caracteristicamente paulino fé significa aceitação total e confiança absoluta. Significa "apostar a vida" de que há um Deus". Significa estar absolutamente seguro que o que Jesus disse é verdade, e apoiar o tempo e a eternidade sobre essa segurança. "Creio em Deus", disse Stevenson, "e se despertar no inferno continuarei crendo nEe."

A fé começa com a receptividade. Começa quando o homem quer pelo menos ouvir a mensagem da verdade. Continua com o assentimento intelectual. Primeiro o homem ouve e logo concorda que é verdadeiro. Mas o assentimento intelectual não se expressa necessariamente em ação. Muitos homens sabem perfeitamente que algo é verdadeiro, mas não mudam suas ações para conformá-las a seu entendimento. A etapa final é quando este assentimento intelectual se torna em uma entrega total. Em uma fé totalmente amadurecida o homem ouve a mensagem cristã, concorda em que é verdadeira e logo se entrega a uma vida de total submissão àquela mensagem. (3) Encontramos o conceito de justificação. Em todo o Novo

Testamento não há termos mais difíceis de compreender que os termos justificação, justificar, justiça e justo. Teremos muitas ocasiões de encontrá-los nesta epístola. Aqui podemos apenas traçar as linhas principais sobre as quais se move o pensamento de Paulo.

O termo grego que Paulo utiliza para justificar é dikaioun, cuja primeira pessoa singular do presente indicativo — justifico — é dikaioo. Devemos deixar bem claro que o termo justificar, usado neste sentido,

Romanos (William Barclay) 31 tem um significado completamente diferente do corrente em nosso idioma. Se justificamos a nós mesmos, significa que damos razões para provar que nossa conduta foi correta. Se outra pessoa nos justificar, significa que dá razões para provar que nossos atos foram corretos. Mas todos os verbos que em grego terminam em o não significam provar que uma pessoa ou coisa é algo, nem fazer com que uma pessoa ou coisa seja algo; sempre significam estimar, considerar, tratar uma pessoa como algo. Agora, se Deus justifica o pecador não quer dizer que encontrou razões para provar que o pecador estava correto. Justamente o contrário. Nem mesmo significa, até aqui, que ele faz do pecador um homem bom. O que significa é que Deus trata o pecador como se não fosse pecador. Em vez de tratar o pecador como um criminoso que deve ser destruído, Deus o trata como um menino que precisa ser amado. Isto é o que significa justificação. Significa que Deus nos conta como amigos e não como inimigos, que Deus não nos trata como os maus merecem ser tratados, mas Ele nos trata como os bons merecem. Significa que Ele não nos olhe como transgressores da lei que devem ser castigados, mas sim como homens e mulheres que só devem ser amados. Esta é a verdadeira essência do evangelho.

Isto significa que ser justificado é entrar em uma nova relação com

Deus, uma relação de amor, confiança e amizade, em lugar de uma relação de distância, inimizade e temor. Já não acudimos a um Deus que irradia castigo terrível, embora justo. Vamos a um Deus que irradia amor perdoador e redentor. Justificação (dikaiosune) é a relação correta entre Deus e o homem. O justo (dikaios) é o homem que está nesta correta relação; e aqui está o ponto-chave: não está nesta correta relação por algo que tenha feito, mas sim pelo que Deus tem feito. Não está nesta correta relação porque tenha completo meticulosamente as obras da lei. Está nesta relação porque com fé total se entregou ao maravilhoso amor e misericórdia de Deus.

Lemos, em uma sentença bem compacta: O justo viverá pela fé. Agora podemos ver o que esta sentença significa na mente de Paulo: O

Romanos (William Barclay) 32 homem que está em correta relação com Deus, não por obra de suas mãos, mas sim por sua fé absoluta no que o amor de Deus tem feito, é quem realmente compreende o que é a vida no tempo e na eternidade. E para Paulo, a obra total de Jesus foi tornar os homens capazes de olhar nesta nova e preciosa relação com Deus. O temor foi embora e chegou o amor. O Deus a quem os homens tinham considerado um inimigo, converteu-se em amigo.

Romanos 1:18-23 Nas passagens anteriores Paulo considerou a relação com Deus, a qual o homem tem acesso por essa fé que é entrega e confiança totais em contraste com a fé que coloca a ira de Deus que o homem pode atrair por sua deliberada cegueira para com Deus e render culto a seus próprios pensamentos e seus próprios ídolos em vez de adorar a Deus.

Chegamos aqui a um ponto difícil e que deve nos fazer pensar seriamente, pois nos encontramos com o conceito da ira de Deus. Certamente, esta expressão é alarmante e aterradora.

O que significa? O que pensava Paulo ao usá-la? No Antigo Testamento achamos a ira de Deus. Nas partes mais anteriores do Antigo Testamento a ira de Deus está especialmente relacionada com a idéia do povo da aliança. O povo de Israel estava em uma relação especial com Deus. Deus o escolheu e o devotou a uma especial relação com Ele, uma relação que obteriam na medida em que guardassem a Lei de Deus, condição de tal relação (Êxodo 24:3-8). Isto significa duas coisas: (a) Significa que na nação qualquer quebrantamento da Lei provocava a ira de Deus. O quebrantamento da Lei destruía a relação, a aliança entre Deus e Israel. Em Números 16 é relatada a rebelião de Coré, Datã e Abirão, e no fim Moisés pede a Arão que realize uma expiação especial pelos pecados do povo “pois de Jeová já saiu a ira”

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(Números 16:46, TB). Quando os israelitas se entregaram ao culto de Baal, “a ira do SENHOR se acendeu contra Israel” (Números 25:3). Por estar Israel em tal relação especial com Deus, qualquer quebrantamento da Lei de Deus provoca sua ira. (b) Mas, além disso, por estar Israel em tão especial e única relação com Deus, qualquer outra nação que o oprima e o submeta à crueldade e injustiça atrai a ira de Deus. Os babilônios maltrataram a Israel, e “Por causa da indignação do SENHOR, não será habitada” (Jeremias 50:13). Porque Israel tem esta especial relação com Deus, seu pecado e o pecado de outros contra ele criam a ira de Deus.

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