Jacques Le Goff - A Bolsa e a Vida

Jacques Le Goff - A Bolsa e a Vida

(Parte 1 de 5)

Jacques Le Goff

Economia e religião na Idade Média

Tradução: Rogério Silveira Muoio

Revisão técnica: Hilário Franco Júnior

Copyright O by Hachette, 1986

Titulo original em francês: La bourse et la vie Copyright (C) da tradução brasileira

Preparação: José W. S. Moraes

Revisão: Irene Hikishi e Maria Tereza Galluzi

Capa: Isabel Carballo sobre pintura de Marinus Reymerswaele

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

A bolsa e a vida : economia c religião na Idade Média / Jacques Le Goff ; tradução

Rogerio Silveira Muoio ; revisão técnica Hilário Branco Júnior. - - São Paulo : Brasiliense, 2004.

Título original: La bourse et la vie 3 reimpr. da 2' ed. de 1989.

1. Hístória econômica - Idade Média 2. Igreja - História - Idade Média I. Título 1. Título: Economía e religião na Idade Média.

Índices para catálogo sístemático:

1. Economia e religião : Idade Média : História econômica 330.0902 2. Idade Média : Economia e religião : História econômica 330.0902 editora brasiliense s.a.

Conteúdo

Entre o dinheiro e o Inferno: a usura e o usurário 5 A bolsa: a usura 13 O ladrão de tempo 30 O usurário e a morte 4 A bolsa e a vida: o Purgatório 63 "O coração também tem suas lágrimas" 83 Apêndices 93 Bibliografia 100 Notas 107

Entre o dinheiro e o Inferno: a usura e o usurário

A usura. Que fenômeno oferece, mais do que este, durante sete séculos no Ocidente, do século XII ao XIX, uma mistura tão explosiva de economia e de religião, de dinheiro e de salvação — expressão de uma longa Idade Média, em que os homens novos eram esmagados sob os símbolos antigos, em que a modernidade trilhava dificilmente um caminho entre os tabus sagrados, em que as astúcias da história encontravam na repressão exercida pelo poder religioso os instrumentos do êxito terrestre?

A formidável polêmica em torno da usura constitui de certo modo "o parto do capitalismo". Quem pensa nesse resíduo, nessa larva do usurário que é o pawnbroker dos romances ingleses do século XIX e dos filmes hollywoodianos posteriores à grande crise de 1929, torna-se incapaz de compreender o protagonista da sociedade ocidental — essa monstruosa sombra debruçada sobre os progressos da economia monetária — e as teias sociais e ideológicas que se enredaram em torno desse Nosferatu do précapitalismo. Vampiro duplamente assustador da sociedade cristã, pois esse sugador de dinheiro é muitas vezes assimilado ao Judeu deicida, infanticida e profanador de hóstia.

Num mundo em que o dinheiro (nummus em latim, demer em francês) é "Deus",(1) em que "o dinheiro é vencedor, o dinheiro é rei, o dinheiro é soberano (Nummus vincit, nummus regnat, nummus imperat(2))"; em que a avaritia, a "cupidez", pecado burguês de quem a usura é mais ou menos a filha, destrona, na hierarquia dos sete pecados capitais, a superbia, o "orgulho", pecado feudal — o usurário, especialista em empréstimo a juro, torna-se um homem necessário e detestado, poderoso e frágil.

A usura é um dos grandes problemas do século XIII.

Nessa data, a Cristandade, no auge da vigorosa expansão que empreendia desde o Ano Mil, gloriosa, já se vê em perigo. O impulso e a difusão da economia monetária ameaçam os velhos valores cristãos. Um novo sistema econômico está prestes a se formar, o capitalismo, que para se desenvolver necessita senão de novas técnicas, ao menos do uso massivo de práticas condenadas desde sempre pela Igreja. Uma luta encarniçada, cotidiana, assinalada por proibições repetidas, articuladas a valores e mentalidades, tem por objetivo a legitimação do lucro lícito que é preciso distinguir da usura ilícita.

Como uma religião que opõe tradicionalmente Deus e o dinheiro, poderia justificar a riqueza, sobretudo a riqueza mal adquirida?

O Eclesiástico (XXXI, 5) dizia:

"Aquele que ama o dinheiro não escapa do pecado, o que persegue o lucro ilude-se".

E o Evangelho o acompanhou: Mateus, um publicano, coletar de impostos que abandonou sua mesa coberta de dinheiro para seguir Jesus, advertiu: "Ninguém pode servir a dois senhores: ou odiará a um e amará o outro, ou se afeiçoará ao primeiro e desprezará o segundo. Não podeis servir a Deus e a Mammon" (Mateus, VI, 24). Mammon simboliza, na literatura rabínica tardia, a riqueza iníqua, o Dinheiro. Lucas (XVI, 13) também testemunhara com as mesmas palavras.

Mas se os códigos, as leis, os preceitos, os decretos condenam a usura, Deus se interessa apenas pelos homens — da mesma forma que o historiador, de quem Marc Bloch dizia que tem os homens como "caça". Consideremos portanto os usurários.

Para encontrá-los é preciso interrogar outros textos além dos documentos oficiais. A legislação eclesiástica e laica se interessa com prioridade pela usura, a prática religiosa dos usurários. Onde encontrar o vestígio dessa prática no século XIII? Em dois tipos de documentos originários dos gêneros antigos que, na virada do século XII para o XIII, sofreram uma modificação essencial. Os primeiros agrupam as Sumas ou manuais dos confessores. Durante a Alta Idade Média, as tarifas de penitência segundo a natureza dos atos pecaminosos eram consignadas nos penitenciais. Seguindo o modelo das leis bárbaras, consideravam os atos, não os atores. Ou melhor, as categorias de atores eram jurídicas: clérigos ou laicos, livres ou não-livres.

Mas do final do século XI ao início do século XIII, a concepção de pecado e de penitência muda profundamente, se espiritualiza, se interioriza. De agora em diante, a gravidade do pecado é medida pela intenção do pecador. É preciso, pois, pesquisar se essa intenção era boa ou má. Essa moral da intenção é professada por todas as escolas teológicas importantes do século XII, da de Laon às de Saint-Victor de Paris, de Chartres e de Notre-Dame de Paris, por todos os teólogos de primeira linha, entretanto antagonistas em muitos outros problemas, Abelardo e São Bernardo, Gilberto de la Porrée e Pedro Lombardo, Pedro o Cantor e Alain de Lille. Disso resulta uma mudança profunda na prática da confissão. De coletiva e pública, excepcional e reservada aos pecados mais graves, a confissão se torna auricular, da boca para o ouvido, individual e particular, universal e relativamente freqüente. O quarto concílio de Latrão (1215) marca uma grande data. Torna obrigatória a todos os cristãos — isto é, homens e mulheres — a confissão, ao menos uma vez por ano, durante a Páscoa. O penitente é obrigado a explicar seu pecado em função de sua situação familiar, social, profissional, das circunstâncias e de sua motivação. O confessor deve levar em conta esses parâmetros individuais, e tanto quanto a "satisfação", isto é, a penitência, deve procurar sobretudo a confissão do pecador, recolher sua contrição. Ele deve de preferência purificar uma pessoa em vez de castigar um erro.

Isso exige dos dois parceiros da confissão um grande esforço com o qual a tradição não os habituou. O penitente deve se interrogar sobre a própria conduta e suas intenções, entregar-se a um exame de consciência. Uma frente pioneira está aberta: a da introspecção, que vai lentamente transformar os hábitos mentais e os comportamentos. É o começo da modernidade psicológica. O confessor deverá fazer perguntas convenientes que o levem a conhecer seu penitente, a separar, de seu lote de pecados, os graves, mortais sem contrição nem penitência, e os mais leves, os veniais que podem ser redimidos. Os pecadores que morrem em estado de pecado mortal irão para o lugar tradicional da morte, do castigo eterno, o Inferno. Os que morrerem carregados apenas com pecados veniais passarão um tempo mais ou menos longo de expiação num lugar novo, o Purgatório, que irão deixar depois de purificados, purgados, em troca da vida eterna, do Paraíso, o mais tardar no momento do Juízo Final.

Nessa nova justiça penitencial, o que vem a ser o usurário? Os confessores, confrontados com uma situação nova, com o conteúdo muitas vezes novo para eles da confissão, com declarações ou questões que os embaraçam, hesitantes sobre o interrogatório a ser conduzido, sobre a penitência a ser aplicada, sentem necessidade de guias. Para eles, teólogos e sobretudo canonistas escrevem sumas e manuais, eruditos e detalhados para os confessores instruídos e de alto nível, sumários para os padres simples e pouco cultos. Mas a esse exame ninguém escapa. A usura tem o seu lugar em todas essas codificações. O usurário menos, sua pesagem comporta uma certa avaliação pessoal deixada à apreciação do confessor.

Em compensação, o usurário aparece como principal protagonista do segundo tipo de documentos: os exempla.

O exemplum é uma narrativa breve, dada como verídica e destinada a se inserir num discurso (em geral um sermão) para convencer um auditório com uma lição salutar. A história é breve, fácil de ser lembrada, ela convence. Usa da retórica e dos efeitos da narrativa, ela comove. Divertida ou, com mais freqüência, assustadora, ela dramatiza. O que o pregador oferece é um pequeno talismã que, se for bem compreendido e utilizado, deve trazer a salvação. É uma chave para o Paraíso.

Eis um dos numerosos exempla de usurários, tirado de

Jacques de Vitry, falecido pouco antes de 1240: "Um outro usurário riquíssimo, começando a lutar contra a morte, pôs-se a se afligir, a sofrer e a implorar à sua alma para que esta não o deixasse, pois ele a havia satisfeito, e lhe prometia ouro, prata e as delícias deste mundo se ainda quisesse ficar com ele. Mas que ela não lhe pedisse, em seu favor, dinheiro nem a menor esmola para os pobres. Vendo, enfim, que não a podia reter, se encoleriza e, indignado, lhe diz: 'Preparei-lhe uma boa residência com abundância de riquezas, mas você se tornou tão louca e tão miserável que não quer repousar nessa boa residência. Vã embora! Eu a entrego a todos os demônios que estão no Inferno'. Pouco depois entregou o espírito nas mãos dos demônios e foi enterrado no Inferno".(3)

Trata-se aqui apenas de um esquema; a partir desse esboço, o pregador acrescenta pormenores. Representa com a voz e suas entonações, gesticula — a matéria já é impressionante. Deve ter sido levada a milhões de ouvintes. Pois o sermão, na Idade Média, é a grande media que atinge, em princípio, todos os fiéis. Na verdade, sabemos, graças especialmente a um exemplum concernente a São Luís, que às vezes homens deixam a igreja durante um sermão, em troca de sua grande concorrente, a taberna, que oferece uma tentação permanente. Quando isso aconteceu em sua presença, São Luís, escandalizado, tornou a trazer à boa palavra os paroquianos extraviados. Além disso, o século XIII vê um grande renascimento da pregação. Confrontada com os heréticos — é o apogeu dos Cátaros —, com a evolução de um mundo que, cada vez mais, oferece aos cristãos gozos terrestres, a Igreja escolhe falar. A urna sociedade em plena mutação, ela dirige uma palavra muitas vezes inédita e trata da vida cotidiana. Novas ordens acabam de nascer, que opõem à riqueza crescente o valor espiritual da pobreza: Ordens Mendicantes, cujas duas mais importantes, a dos Franciscanos e a dos Dominicanos — estas últimas formam a Ordem dás Pregadores — se especializam na pregação. Após ter pregado a Cruzada, prega-se a Reforma. Com vedetes que atraem as multidões. Embora secular, Jacques de Vitry foi uma delas: pregador ainda da Cruzada, mas sobretudo pregador da nova sociedade. Seus modelos de sermão, com seus esquemas de exempla, foram largamente reproduzidos e difundidos além mesmo do século XIII. E aquela história, que talvez tenha sido uma anedota de sucesso, evoca o momento mais angustiante da vida do cristão, a agonia. Ela põe em cena a dualidade do homem: sua alma e seu corpo, o grande antagonismo social do rico e do pobre, esses novos protagonistas da existência humana que são o ouro e a prata, e termina na pior conclusão de uma vida: o apelo do insensato aos demônios, a evocação dos diabos que torturam e o enterro dos condenados aqui embaixo e no Além. Recusado à terra cristã, o cadáver do usurário impenitente é sepultado sem demora e para sempre no Inferno. A bom entendedor, a salvação! Usurários! Eis o vosso destino. Tal é a fonte essencial onde iremos procurar o usurário da Idade Média, nas anedotas que foram contadas, ouvidas e que circularam.

A usura é um pecado. Por quê? Que maldição atinge essa bolsa que o usurário enche, adora, e da qual não quer se separar mais do que Harpagão* de seu tesouro e que o conduz à morte eterna? Para salvar-se será preciso separar-se da bolsa, ou encontrará, encontrarão para ele, o meio de guardar a bolsa e a vida eterna? Eis o grande combate do usurário entre a riqueza e o Paraíso, o dinheiro e o Inferno.

* Personagem central e que empresta sua grande característica ao título da peça de Molière. O avaro. (N. T)

A bolsa: a usura

Falamos de usura e, algumas vezes, os textos e os homens da Idade Média também utilizam essa palavra no singular, usura. Mas a usura tem muitas faces. Quase sempre, os documentos do século XIII empregam o termo no plural: usurae. A usura é um monstro de várias cabeças, uma hidra. Jacques de Vitry, em seu sermão modelo 59, consagra o terceiro parágrafo à evocação desta usura de múltiplas formas: De multiplici usura. E Thomas de Chobham, em sua Summa, após ter definido a "usura em geral", descreve seus "diferentes casos" (capítulo IV: De variis casibus) para voltar no final (capítulo IX) aos "outros casos de usura". A usura designa uma multiplicidade de práticas, o que dificultará o estabelecimento de uma fronteira entre o lícito e o ilícito nas operações que admitem juros. Esta distinção, difícil mas necessária, entre usura e juro, esta horrível fascinação por um animal multiforme, ninguém melhor as sentiu do que Ezra Pound no século X.

O mal é a Usura, neschek a serpente neschek cujo nome é conhecido, a corruptora, além da raça e contra a raça a corruptora

Toxos hic mali medium est Aqui está o centro do mal, ígneo inferno sem sossego, A gangrena corrompendo todas as coisas, Fafnir o verme, Sífilis do Estado, de todos os reinos, Excrescência do bem comum, Fazedora de quistos, corruptora de todas as coisas, Escuridão, a corruptora, Má gêmea da inveja, Serpente das sete cabeças, Hidra, penetrando em todas as coisas.(4)

Mas há também Usura, a usura em si, denominador comum de um conjunto de práticas financeiras proibidas. A usura é a arrecadação de juros por um emprestador nas operações que não devem dar lugar ao juro. Não é portanto a cobrança de qualquer juro. Usura e juro não são sinônimos, nem usura e lucro: a usura intervém onde não há produção ou transformação material de bens concretos.

Thomas de Chobham começa sua exposição sobre a usura com estas considerações: "Em todos os outros contratos posso esperar e receber um lucro (lucrum), assim se eu lhe tivesse dado alguma coisa poderia esperar um contradom (antidonum), isto é, uma réplica ao dom (contra datam) e poderia esperar receber, visto que fui o primeiro a lhe dar. Do mesmo modo, se eu lhe tivesse dado em empréstimo minhas vestes ou meu mobiliário poderia receber um preço por eles. Por que não aconteceria o mesmo se eu lhe tivesse dado em empréstimo o meu dinheiro (denarios meos)?".(5)

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