Apostila - FENACAO - E-SILAGEM

Apostila - FENACAO - E-SILAGEM

(Parte 1 de 3)

Cecilio Viega Soares Filho, Eng. Agr. Doutor em Produção animal

Araçatuba - SP

1. INTRODUÇÃO

A utilização de forragens pelo gado, através de pastoreio, dentre os sistemas de produção animal, o mais econômico para alimentação dos rebanhos. Entretanto, ocorre que a disponibilidade de forragem durante o ano é desuniforme, principalmente por influência de fatores climáticos, desde que em qualquer tipo de manejo haverá sempre um período de produção abundante (verão úmido) e outro de escassez (inverno seco). No período das chuvas (verão úmido) que corresponde a 5-6 meses do ano, as forragens produzem 80% de seu potencial anual e, no período seco, os 5-6 meses restante, apenas 20%, por isso, no inverno é indispensável contar com suplementos tais com silagem, feno, forrageiras de inverno e capineiras.

Vale também ressaltar que estas alternativas não são concorrentes e, sim, complementares; quanto mais opções tivermos, melhor.

A silagem tem recebido maior ênfase por parte dos produtores, por exigir uma tecnologia simples, e apresentar excelentes resultados; e sua confecção não é tão limitada pelos fatores climáticos e topográficos, como acontece com a fenação.

A falta de tradição concorre para a resistência do pecuarista em utilizar o feno como reserva forrageira de alta qualidade. Esta situação, entretanto, tende a mudar esta opnião, e será mais acentuada à medida que o produtor ver o resultado desta técnica.

Dentre os efeitos benéficos de utilização de suplementação alimentar para o rebanho em épocas críticas, podemos citar: diminuição de mortalidade, aumento de natalidade, manutenção do peso animal na entressafra, maior rapidez, no giro de capital, carne de melhor qualidade, menor utilização de rações industrializadas, aumento da lotação animal por área.

2. SILAGEM

Silagem é a forragem verde e suculenta armazenada, na ausência de ar em depósito próprio chamado silo, no qual é conservada mediante fermentação. Ao conjunto de operações necessárias à confecção da silagem, chamamos de ensilagem (corte, transporte, picagem, carregamento, compactação e vedação).

A ensilagem não exige tecnologia sofisticada, mas cuidados são necessários para reduzir perdas de valor nutritivo no material ensilado, razão pela qual devemos observar alguns detalhes da produção deste tipo de volumoso.

2.1. FORRAGEIRAS PARA ENSILAR

Dois são os princípios básicos para a conservação do material ensilado, paralização da respiração, pela ausência de ar e inibição de fermentação pelo abaixamento do pH; as bactérias atuam sobre os carboidratos solúveis (açúcares), transformando-os em ácidos, principalmente ácidos lático e acético que baixam o pH impedindo que as bactérias indesejáveis continuem a fermentação, pois, estas não resistem à acidez elevada (pH baixo). O material é ensilado com pH 5,5 a 6,0 e a estabilização (conservação) ocorre em pH 3,5 a 4,2. Este trabalho é feito pelas bactérias, e ocorre mais facilmente se a planta ensilada possuir carboidratos solúveis suficientes para formar os ácidos, que é uma das condições básicas na escolha da forrageira. O ideal seria que estas plantas possuíssem acima de 15% de carboidratos solúveis, condição satisfeita pelo milho e sorgo, quando cortados com 3 a 35% de matéria seca.

Outro fator relevante na escolha da forrageira é que esta apresente alto rendimento de massa verde por hectare, o que reduz gastos com a ensilagem.

No caso de usarmos capineiras para ensilar, torna-se necessário a adição de outros produtos - os aditivos - sobre os quais comentaremos posteriormente num tópico à parte. Isto é necessário porque estes capins não apresentam teores de carboidratos solúveis, suficientes ao bom trabalho das bactérias.

Nos capins de menor porte e leguminosas usadas em pastagens os teores de carboidratos são ainda mais reduzidos, dificultando bastante a conservação, principalmente as leguminosas quando ensiladas pura, pois estas além de pobres em carboidratos solúveis, são ricos em cálcio, elemento mineral que forma complexo com os ácidos formados dificultando o abaixamento de pH.

Dentre as opções existentes, milho, sorgo, girassol, milheto, aveia, alfafa ou capim, sem o uso de recursos adicionais, o milho e o sorgo são os que produzem a melhor silagem. Porém, o sorgo tem sido uma opção vantajosa em regiões mais secas, onde o milho não produz bem. a silagem de capim elefante, tem merecido bastante atenção por parte dos pecuaristas, isto em função do alto preço do milho. Outra opção que tem sido usada é a mistura destas forrageiras, o que em alguns casos é viável e em outros não vale a pena.

O potencial de produção das culturas para ensilar, predominantes entre nós, é elevado, como mostram os dados resumidos no quadro abaixo. Entretanto, nas propriedades, os rendimentos obtidos são frequentemente baixos e irregulares, fato esse que encarece sobremaneira o custo do alimento preservado e reduz consideravelmente a disponibilidade de volumoso para o rebanho.

Potencial de produção das culturas forrageiras usadas.

Planta forrageira tonelada de matéria seca por hectare Milho 9 a 16

Sorgo 9 a 25 Capim elefante 10 a 40 Girassol 5 a 8 Milheto 10 a 15 Alfafa 15 a 20

Considere-se que a fertilidade do solo seja um dos principais fatores responsáveis pela baixa produtividade das áreas cultivadas para a produção de silagem. Esse fato ocorre porque, quando é colhida para a ensilagem, a planta promove uma extração muito grande de nutrientes do solo, já que toda a parte aérea é removida.

2.2. ADUBAÇÃO DAS CULTURAS PARA ENSILAR

A capacidade extrativa de silagens de milho, de sorgo e de capins tropicais são elevadas, portanto requer utilizar uma adubação diferenciada das plantas forrageiras para a ensilagem. No caso do milho e do sorgo, têm sido obtidos bons resultados, no Estado de São Paulo, adotando-se a adubação de plantio com 350 a 450 kg/ha de 4-28- 16 + Zn e adubação de cobertura com 40 a 50 kg/ha de 20-0-20.

Para o caso do corte de capim, a reposição de nutrientes também é de importância fundamental para a manutenção do stand e de elevada capacidade de produção. É recomendável que após cada corte do capim-elefantge, apliquem-se por hectare: 40 kg de N, 20 de P2O5 e 60 kg de K2O. Deve-se dar ênfase ao fato de que a colocação de adubos nas capineiras deve ser realizada imediatamente depois da retirada da forragem, já que evidências experimentais, mostram que em gramíneas tropicais há uma concentração da emissão de perfilhos em um curto período de tempo após o corte da planta, fato esse que parece não depender da fertilidade, umidade ou luminosidade.

Dentre os nutrientes removidos, o potássio carece de atenção especial porque, quantitativamente, sua extração é muito grande. Todas as gramíneas forrageiras são ricas em potássio e, com elevadas produções de matéria seca por área, o problema pode ser crítico. Deficiências de potássio, além de reduzir a produção, podem ser um dos fatores responsáveis pelo acamamento de culturas, um entrave sério a colheita mecânica. Além desse aspecto, haverá também um ressecamento precoce das folhas mais velhas, fato esse que, associado com outras deficiências minerais, pode ser responsável pela tendência da colheita do milho e do sorgo antes do ponto recomendado.

A importância da reposição de matéria orgânica e elementos minerais nas área cultivadas intensamente para a produção de silagem é recomendada e reconhecida há muito tempo por agricultores de regiões desenvolvidas. O emprego da rotação de culturas com adubo verde ou o uso de esterco tem sido recomendado há muitos anos. O esterco desenvolverá ao solo grande parte dos nutrientes contidos nas plantas forrageiras e assim contribuirá para melhorar o efeito da extração intensa. Admite-se que, havendo incorporação, somente 1/3 do nitrogênio contido no esterco de gado pode ficar disponível para a planta, mas praticamente todo o fósforo e o potássio estarão em disponibilidade. Deve-se também considerar que, sendo o esterco mais rico em potássio que em cálcio e magnésio, haverá necessidade de aplicação de calcário para ajustar a relação e repor esses elementos que também são extraídos com intensidade.

2.3. POPULAÇÃO DE PLANTAS EM CULTIVOS PARA ENSILAR

A baixa produção das culturas forrageiras pode ser também consequência da pequena densidade de plantas estabelecidas por unidade de área. Para a região do Estado de São Paulo, tem-se considerado que nas áreas sujeitas a deficiência hídricas a população de plantas de milho deve ser de 40 mil por hectare, mas, nas que apresenta condições mais propicias de umidade, o stand deverá ter 60 a 70 mil por hectare. Para o caso do sorgo, recomenda-se o estabelecimento de cerca de 200 mil plantas por hectare, o que pode ser obtido pela implantação de 18 a 20 sementes por metro e espaçamento de 0,70 m entre linhas.

2.4. COLHEITA DA FORRAGEIRA PARA ENSILAR

O milho deve ser cortado para ensilar quando apresentar de 3 a 35% de matéria seca, ou seja, no ponto em que os grãos estiverem no chamado estágio farináceo-duro, sendo o tempo disponível para a colheita de 12 a 15 dias, dependendo das condições de clima. Essa situação é geralmente alcançada depois de 100 a 110 dias de crescimento vegetativo, possibilitando a obtenção de uma maior produção de matéria seca por unidade de área. Além dos aspectos mencionados, trabalhos experimentais têm mostrado que neste ponto se obtém o melhor valor nutritivo da silagem, como consequência de uma maior consumo voluntário de matéria seca com maior quantidade de grãos.

Recomenda-se colher o sorgo quando este apresentar de 28 a 30% de matéria seca, num estágio muito semelhante ao do milho, ou seja, quando os grãos estiverem no ponto farináceo. Para o caso do capim elefante, as recomendações são para cortes entre 50 a 80 dias de crescimento vegetativo, ponto onde se consegue aliar boa produção de matéria seca e valor nutritivo, estando as plantas com cerca de 1,6 a 2,0 metros de altura.

Ao ensilar o milho, ou sorgo, não existe necessidade de aditivos para o estimulo da fermentação, pois, o ponto de colheita, com teor de matéria seca de mais ou menos de 30% inibe os processos fermentativos, principalmente as fermentações indesejáveis. Porém, o uso de produtos que visem a melhora do valor alimentar destas forragens, pode ser interessante.

A colheita de plantas para ensilar normalmente exige o tráfego de máquinas sobre o campo de cultivo, e este fato promoverá a compactação do solo. Observações experimentais indicaram que, como consequência da compactação, poderá haver redução de 50% na produção de milho, 40% na aveia e de 78% na dos capins que rebrotam na faixa compactada. Assim sendo, torna-se importante a verificação da existência de compactação nos campos de cultivo, e a adoção de práticas para corrigir este problema.

2.5. TRANSPORTE, PICAGEM, CARREGAMENTO E COMPACTAÇÃO

O transporte pode ser feito com a forrageira inteira, que foi cortada manualmente usando-se facão, enxada, etc., em seguida é picada por uma ensiladeira que deverá estar colocada ao local de armazenamento de forma, ao ser picado, o material caia em condições de ser compactado. Pode-se também transportar a massa verde já picada utilizando-se máquinas estacionárias ou especiais de tração mecânica que cortam, picam e jogam na carreta. Observa-se que para a colheita totalmente mecânica do milho ou do sorgo escolhem-se variedades resistentes ao tombamento, medidas estas que facilitarão este tipo de colheita.

Umas das práticas indispensáveis para produção de uma boa silagem é picar a forragem em pedaços pequenos de 2 a 3 cm. Neste caso, facilita a compactação, eliminado maior quantidade de ar e as bactérias tem maior contato com os elementos constituintes da forragem ensilada, melhorando a fermentação e conservação do produto.

Quanto mais comprimida a massa no interior do silo, melhor será a qualidade da silagem. a compactação pode ser feita pelo pisoteamento por homens (silo aéreo e cisterna) animais e tratores (silo trincheira e de superfície).

Considera-se de grande importância para o processo de ensilar alcançar e manter condições anaeróbicas no enchimento de silos. o carregamento lendo, a coloração de camadas diárias finas, a falta de compactação e o atraso na vedação são procedimentos que concorrem para aerar a massa e promover perdas no processo de fermentação.

2.6. TIPOS DE SILOS

2.6.1. SILO TRINCHEIRA

Como o próprio nome indica, este silo caracteriza-se por uma vala aberta no solo, construído, aproveitando-se um desnível próximo ao local de trato dos animais. É um tipo de silo de construção mais barata do que os tipos aéreo, cisterna ou aéreo de encosta.

2.6.2. SILO CISTERNA OU POÇO Este tipo de silo é aberto a semelhança de uma cisterna de grandes proporções.

2.6.3. SILO AÉREO

É um tipo de silo construído de alvenaria, acima do nível do solo, de elevado custo, sendo praticamente desaconselhável para a situação atual. Outro problema é o carregamento que só é possível com o emprego de ensiladeiras elevadoras. Em contrapartida a estas desvantagens, tem a vantagem de ser fácil de descarregar e apresentar baixa perda de material.

2.6.4. SILO DE SUPERFÍCIE

Este tipo de silo já usado em muitos países da Europa, vem sendo difundido no

Brasil por apresentar a vantagem de eliminar gastos de construção. Escolhe-se uma área plana e próxima ao local de tratar dos animais; sobre esta área coloca-se uma camada uniforme (20 - 30 cm de uma palhada qualquer, palha de milho, bagaço de cana, casca de arroz) com a finalidade de eliminar o contato do material com a terra (rica em bactérias indesejáveis), em seguida coloca-se a forrageira picada em camadas com lona plástica toda a extensão da massa. Deve ser utilizando um artifício para impedir a entrada de ar e umidade, como por exemplo, a colocação de peso sobre a lona (areia, capim, pneu, etc), e a construção de duas valetas: sendo uma para prender os lados da lona plástica e a outra para impedir a entrada de água.

Nos silos horizontais do tipo superfície, a ausência de paredes laterais para possibilitar uma compactação mais intensa, cria condições favoráveis a uma maior penetração do ar, e consequentemente, perdas mais pronunciadas, principalmente se a forragem tiver matéria seca elevada. A adoção de silos de superfície do tipo bunker (paredes laterais de madeira ou alvenaria) pode minorar os efeitos desfavoráveis do ar durante o enchimento e o armazenamento, favorecendo a compactação. A simples colocação de toras de madeira dos lados do silo, para iniciar o carregamento, já auxilia na compactação e diminui perdas.

2.7. VEDAÇÃO OU FECHAMENTO DO SILO

Como última tarefa na ensilagem, temos a vedação da entrada de ar que, quando bem feita, garante a conservação da silagem por muito tempo. Nesta operação o melhor é colocar sobre a massa uma lona plástica. Alguns agricultores adotam a prática de colocar uma camada de 20 cm de capim, em seguida, coloca-se uma camada de terra, espessura de 30 cm. Em silo cisterna pode-se colocar areia sobre lona, o que facilita a abertura do silo, porque a areia é mais fácil do que a terra.

A quantidade de ar que penetra na silagem durante o período de armazenamento tem influência negativa sobre a qualidade e concorre para aumentar as perdas. Por esse motivo, recomenda-se depois da vedação, aplicar sobre o plástico algum peso (terra, sacos de areia, pneus velhos, palha, etc), já que, se a compactação da superfície for inadequada, haverá grande penetração de ar.

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