deixa estar

deixa estar

(Parte 1 de 7)

Paulo Vieira

Deixa Estar

Teatro

Paulo Vieira - Rua Silvio Coelho de Alverga, 210/202 João Pessoa, Pb - 58037-330 - fone/fax (083) 246-1449

e-mail: pvieira @ openline.com.br

Deixa Estar foi montado pela primeira vez em 1986, com a seguinte ficha técnica:

Direção: Adilson Barros e Vicente Tuttoilmondo

Coreografia: Marília de Andrade

Cenografia, coordenação de cenários e figurinos: Márcio Tadeu

Equipe: Laura Oliva e Ricardo Lima

Sonoplastia: Fernando Ramos

Elenco: Gustavo Trestini, Huó Gonzalez, Jayme Paez, Mônica Sucupira, Petrônio Gontijo, Simoni Boer, Verônica Fabrini

Elenco de Apoio: Andréia Vicchi, Márcia Leister, Mônica Serpentini, Sueli Cristeli

Coordenação Geral: Walterloo Gregório

Chefe do Departamento: Celso Nunes

Produção: Departamento de Artes Cênicas da UNICAMP

"O sonho acabou

e foi pesado o sono

pra quem não sonhou.

Quem não dormiu no sleeping-bag

nem sequer sonhou".

Gilberto Gil

"Minha dor é perceber

que apesar de termos feito tudo

tudo o que fizemos

ainda somos os mesmos

e vivemos como nossos pais".

Belchior

Personagens:

César, Beto, Marta, Vera, Ivone, Calango, Hermano.

1° Quadro

(ABRE A LUZ. CÉSAR E MARTA ESTÃO EM CENA. MARTA FUMA UM CI­GARRO DE MACONHA. CÉSAR, COM UMA GAITA, SOPRA UMA MELODIA PROFUN­DAMENTE TRISTE, UMA MELODIA QUE LEMBRA RITMOS DOS ANDES, UMA COISA IMENSAMENTE TELÚRICA. DEPOIS DE ALGUM TEMPO, MARTA PASSA O CIGARRO PARA CÉSAR, QUE INTERROMPE A MÚSICA E FUMA. DEPOIS CÉSAR DEVOLVE O CIGARRO A MARTA. MARTA FUMA. CÉSAR VOLTA A TOCAR A MESMA MÚSICA. TEMPO. MARTA ANDA PELA CENA. PÁRA).

MARTA

César! (CÉSAR TOCA). César! (CÉSAR TOCA. MARTA TENTANDO EN­VOLVÊ-LO EM SEUS BRAÇOS). Quando eu fumo, eu fico a fim. (CÉSAR IMPASSÍVEL TOCA). Você não? Eu fico. Fico muito a fim. Hermano morga. Eu não. Eu tenho vontade de transar até não poder mais. Fico muito a fim.

CÉSAR

(INTERROMPENDO A MÚSICA. MEIGO). Pára, Marta!

MARTA

Você é todo por fora (INSISTE NOS CARINHOS). O que é que há, gatinho? Já transou alguma vez de barato?

CÉSAR

Não fico a fim. (VOLTA A TOCAR).

MARTA

Não sabe o que perde. É muito bom. Cê goza com o corpo todo. Uma doideira. (TEMPO). A noite tá bonita. (CANTA SUSSURRANDO). "Lua, lua, lua, a minha voz, meu canto contigo compactua..." (PÁRA). Cê tá triste? (TEMPO. CÉSAR PÁRA).

CÉSAR

Não.

MARTA

Até parece. Só tocando a gaita. Não quer nem conversar?

CÉSAR

Não.

MARTA

Chato você! (TEMPO. CANTA). "Lua bonita me traz aborreci­mento, ver S. Jorge num jumento pisando o teu clarão..."

CÉSAR

Onde foi o pessoal?

MARTA

Por aí.

CÉSAR

A noite tá bonita.

MARTA

Muito.

(CÉSAR VOLTA A TOCAR. MARTA TOMÁ-LHE A GAITA).

CÉSAR

Marta! Me devolve a gaita!

MARTA

Não.

CÉSAR

Sacanagem!

MARTA

Só se você fizer uma coisa.

CÉSAR

Não brinca, Marta. Não tô a fim.

MARTA

Chegue.

CÉSAR

Vai, Marta, deixa de frescura. Devolve a minha gaita.

MARTA

Venha buscar. (MARTA CORRE).

CÉSAR

Porra!

MARTA

Venha buscar.

(CÉSAR ACEITA O JOGO. FINGE UM PEGA. MARTA CORRE E CÉSAR A PERSEGUE. RIEM. POR FIM CÉSAR A SEGURA. CAEM RINDO BASTANTE).

MARTA

Ah, e agora, hein gatinho? Vai ou não vai?

CÉSAR

Não.

MARTA

Pois eu vou agarrar você.

(MARTA SEGURA O SEXO DE CÉSAR QUE, RINDO, PROCURA SE AFAS­TAR).

CÉSAR

Não brinca, Marta.

MARTA

Vou lhe comer, gatinho.

CÉSAR

Larga que dói.

MARTA

Agora você está preso, gatinho. É meu prisioneiro, meu samu­rai de espada mole.

CÉSAR

Não brinca, Marta. (CÉSAR DÁ UM PULO DE LADO. OS DOIS RIEM COMO CRIANÇAS. TEMPO). Não lhe deixa comovida?

MARTA

O que?

CÉSAR

Essa lua, esse mar, essa praia, essa liberdade?

MARTA

Deixa. Um barato.

CÉSAR

Lindo.

MARTA

Demais.

CÉSAR

O que é que você sente?

MARTA

Tesão.

CÉSAR

Não falo disso. Digo na alma. O que é que você sente?

MARTA

Não sei. Uma sensação de liberdade!

CÉSAR

Estou com vontade de dar um grito.

MARTA

Dê.

CÉSAR

(GRITA). AAAAAAAAHHHHHH!!!!!!!

MARTA

(RI). Um barato.

CÉSAR

Será que Deus ouve?

MARTA

Você é ateu.

CÉSAR

São Jorge lá na lua?

MARTA

Não sei.

(CÉSAR GRITA. MARTA RI. DEPOIS ELA GRITA. ELES GRITAM. RIEM).

CÉSAR

(BÍBLICO). Saulo, Saulo, por que me persegues?

MARTA

E se pintasse um disco voador?

CÉSAR

Eu gritava: (GRITA) Ei, pare aí, me leve pra lua, eu quero morar lá.

MARTA

Eu também ia.

CÉSAR

Ia?

MARTA

Sim.

CÉSAR

Que barato!

MARTA

Íamos nós dois pra lua. Um barato!

CÉSAR

É. (SOPRA A GAITA). Estou a fim de tirar um som. Quer ouvir?

MARTA

Tire.

(CÉSAR SOPRA "ALFONSINA E EL MAR". TEMPO).

MARTA

O pessoal está demorando. (CÉSAR SOPRA). Que música é essa?

CÉSAR

(PÁRA) Uma música bonita. Fala de mar e solidão. Fala do amor e da morte.

MARTA

Isso é triste.

CÉSAR

É não. É bonito. É profundo.

MARTA

Essas coisas são sempre tristes.

CÉSAR

Tem um certo clima de poesia. Como esse mar e essa lua agora.

MARTA

Eu sei. Mas não deixa de ser triste (CÉSAR VOLTA A SOPRAR "ALFONSINA") Eu tenho uma queda por poetas. Todos os meus carinhas eram poetas. A poesia é uma coisa engraçada. Eu nunca escrevi um verso. Tem uma coisa aqui dentro que me aperta, que até me dá uma vontade de chorar, mas não é de tristeza, não, sabe? É de uma coisa bonita. Acho que é porque está tudo bonito esta noite. Você. Essa lua. Tudo.

CÉSAR

(PÁRA) É a poesia.

MARTA

Será?

CÉSAR

Acho que sim.

MARTA

Eu não sei o que é a poesia.

CÉSAR

Também não. Mas acho que é esse estado limite que a gente fica. Eu sinto. Não sei explicar. Esse limite, por exemplo, entre o mar e a areia, entre o sonho e a realidade, qualquer coisa as­sim. Acho que é isso. Um estado de espírito.

MARTA

Isso não é neurose, não?

CÉSAR

Também pode ser.

MARTA

Pode ser. Talvez seja mais bonito chamar a neurose de poesia.

CÉSAR

É verdade. Por enquanto eu só quero sentir a poesia. (TOCA "ALFONSINA...". CÉSAR PÁRA). Outro dia eu tive um sonho lindo com você.

MARTA

É? Me conta.

CÉSAR

E o mais incrível é que... você não vai acreditar... depois o sonho aconteceu de verdade...

MARTA

Conta.

CÉSAR

Sonhei que você era uma deusa linda que saia do mar. E os teu pelos, os pelos do teu sexo, eram sargaços. Fiz até uma poesia com isso. Eu entrava pelo teu sexo e morria no teu ventre.

MARTA

(RINDO) E aconteceu?

CÉSAR

Aconteceu.

MARTA

Quando?

CÉSAR

Ontem.

MARTA

Ontem?

CÉSAR

É. Quando saímos... eu... você e Vera... Quando ficamos nus. Quando fomos tomar banho. Eu estava na areia. Você saiu do mar, sorrindo pra mim. Eu tive um susto. Os teus pelos para mim eram sargaços. Você era uma deusa. Linda.

MARTA

Você... Eu não sei o que fazer com você, César... juro que não sei...

CÉSAR

Foi um sonho.

MARTA

Você às vezes parece que só vive nos sonhos.

CÉSAR

Você acha?

MARTA

Eu nunca soube de você transando com ninguém.

CÉSAR

Eu prefiro não falar sobre isso.

MARTA

Você me ama?

CÉSAR

Penso que sim.

MARTA

Então?

CÉSAR

Então o que?

MARTA

Então o que, César? (TEMPO) Eu estou muito a fim de transar. (CÉSAR CALA) O que é que está pensando?

CÉSAR

Assim... cruamente... eu não saberia... (GRITOS) O pessoal está chegando.

MARTA

É.

(ENTRAM)

HERMANO

Bicho, vocês perderam.

IVONE

O maior barato.

BETO

Precisava ver.

HERMANO

Era demais.

VERA

A praia tá linda. Parece coisa de ficção.

MARTA

Foram pra onde?

IVONE

Longe demais.

CALANGO

Fazendo nudismo. Ivone ficou puta.

IVONE

Eu não gosto dessas coisas não. Tem nada a ver.

HERMANO

Foi arretado. Todo mundo tirou a roupa. Ivone quase teve um ataque histérico.

BETO

A gente saiu gritando, correndo nu. Um barato.

IVONE

Eu fico danada da vida com esse negócio de tirar a roupa. Eu não gosto. Fazem só pra me encher o saco.

VERA

A bichinha inocente, parece que nunca viu um pau.

IVONE

Não é isso não.

HERMANO

É, viu Ivone?!

CALANGO

É moralismo.

HERMANO

É sim.

IVONE

É não.

VERA

É demais.

IVONE

Tá certo. Se acham que é. Eu não quero nem discutir.

BETO

(ABRAÇANDO MARTA) Bichinha, por que você não quis ir?

MARTA

Não estava a fim.

CALANGO

Só não foi melhor porque ninguém levou o fuminho.

VERA

Vamos preparar um agora?

CALANGO

Tá onde?

MARTA

Na minha sacola. Dei uma bola ótima com o César.

HERMANO

Pega lá, Marta?

(MARTA SAI. VOLTA COM O CIGARRO. CÉSAR SOPRA A GAITA).

BETO

A lua está muito bonita.

CALANGO

É.

(MARTA FUME. ENTREGA O CIGARRO PARA HERMANO, QUE PASSA PARA CÉSAR, QUE PASSA PARA VERA, QUE PASSA PARA BETO, QUE PASSA PARA CALANGO).

IVONE

Vocês vão terminar virando legume, de tanto fumar.

BETO

Que é isso!

IVONE

Vai ver uma coisa.

VERA

Isso não vicia, não.

HERMANO

Pior é cigarro careta.

CALANGO

Dá câncer.

VERA

Mil vezes pior.

IVONE

Quero ver depois. Tudo legume, débil mental.

CALANGO

Ivone é muito careta. Caia na real, minha irmã.

IVONE

Careta nada. Vocês é que são uns bestas.

BETO

Vamos olhar a lua.

HERMANO

Bora.

(TODOS PARAM CONCENTRADOS OLHANDO FIXAMENTE A LUA).

VERA

Hermano morga quando dá uma bola.

HERMANO

Não, eu não vou morgar mais não.

MARTA

Quero ver.

CÉSAR

Eu estava tirando uma música linda (TOCA "ALFONSINA...").

CALANGO

Um barato.

VERA

Demais.

MARTA

Essa lua me deixa no cio.

BETO

Se segura, mulher.

HERMANO

É o cio da terra.

MARTA

Vai ver que é.

HERMANO

Eu também fico.

CALANGO

Eu também.

IVONE

Nossa, que ciuzeira, heim gente?!

VERA

Cadê o vinho?

IVONE

Deve tá lá dentro. Vou buscar.

CALANGO

Eu fico a fim. (IVONE SAI E VOLTA COM UM GARRAFÃO. BEBE E PASSA DE MÃO EM MÃO). Vinho é muito bom.

BETO

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