musica parte 1 - tecnicasdemelodia139

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Quem tem se dedicado ao estudo das escalas para improvisar, pode ter passado pela experiência de tocar, subindo e descendo, uma escala sem que isso tenha oferecido grandes perspectivas ou grandes recursos para a realização de boas melodias.

sequência das letras “ a, b, c, d, e, f, g”. Da mesma forma, não basta tocar a

É importante considerar que a escala representa apenas uma fonte de notas. Podemos comparar a sequência de notas de uma escala à sequência de letras do alfabeto. Para compormos nossas frases em língua portuguesa não basta usar a sequência de notas dó, ré, mi, fá, sol, lá, si sobre um acorde de Dó Maior para que saiam bons frutos. Assim como a partir do alfabeto nós compomos as sílabas e com as sílabas as palavras, da mesma forma, a partir das notas da escala podemos criar “sílabas melódicas” interessantes a serem inseridas em nossos solos ou em nossas composições.Sugiro aqui algumas práticas.

Consideramos a possibilidade de isolar os intervalos de terças diatônicas (ou seja formados exclusivamente pelas notas da escala) tanto de forma ascendente quanto descendente. Veja o Exemplo 1 (considerando a escala de Dó Maior):

Exemplo 1

O Exemplo 2 mostra uma aplicação da sequência por intervalos de terça um trecho de frase:

Exemplo 2 w.turicollura.com

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O Exemplo 3 mostra outra disposição das notas por intervalos de terça (trocando a ordem das notas do exemplo 1):

Exemplo 3 (considerando a escala de Dó Maior):

O Exemplo 4 mostra uma aplicação dessa sequência em um trecho de frase: Exemplo 4

Obviamente, para compor melodias não nos baseamos exclusivamente em sequências regulares de intervalos. Trata-se apenas de um recurso a mais que aprendemos a manipular. Descobriremos, porém, ao longo desse artigo, o quanto o uso dos intervalos pode ser interessante. Nos improvisos é importante não ser tão previsível. O uso repetido de clichês pode se tornar algo pouco criativo. Então é aconselhavel executar apenas pequenos trechos baseados nesse material, ou criar variações, como as do próximo exemplo.

A adição de alguns cromatismos entre os intervalos regulares ajuda a criar variações interessantes. Veja os Exemplos 5 e 6.

Exemplo 5 (considerando a escala de Dó Maior):

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Exemplo 6 (considerando a escala de Dó Maior):

O Exemplo 7 mostra a sequência de intervalos diatônicos por quartas na escala maior: Exemplo 7 (considerando a escala de Dó Maior):

O Exemplo 8 mostra um exemplo de frase baseada em intervalos de quartas, com a inserção de um cromatismo:

Exemplo 8 C7M

O belo tema “Misterioso” de Thelonius Monk mostra um exemplo de composição inteiramente baseada em intervalos de sexta. Veja o Exemplo 9

Exemplo 9

MISTERIOSO (Thelonius Monk) w.turicollura.com

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A semiologia musical a serviço da nossa criação Gostaria de fazer mais uma reflexão sobre os intervalos que isolamos das escalas, e sobrecomoesses podem ser usados de modo consciente e oportuno na composição. A semiologia musical é a ciência que estuda os signos e os gestos musicais relacionando-os a significados. Segundo essa disciplina, cada intervalo pode ter uma conotação peculiar que nos remete a uma determinada emoção. O intervalo de sexta, por exemplo, é definido, pelo musicólogo Gino Stefani, o “intervalo do coração”. Vejamos: a sexta menor manifestaria emoções como saudade, tristeza, melancolia. Pensemos em temas como Manhã de Carnaval ou na música do filme Love Story. O intervalo de sexta menor com que começam essas melodias define seu caráter melancólico. Veja essas melodias nos exemplos 10 e 1

Exemplo 10: começo da melodia de Manhã de Carnaval

Exemplo 1: começo do tema do filme Love Story

Podemos notar que, depois do intervalo de sexta menor inicial, a melodia de Love Story procede por intervalos de sextas diatônicas. Aqui, como no tema de Thelonius Monk apresentado anteriormente, o intervalo de sexta está à base da composição.

Diferente do intervalo de sexta menor, o de sexta maior manifesta, na semiologia musical, alegria, algo para cima. Se veja, por exemplo à valsa de Strauss do Exemplo 12:

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Exemplo 12

Ainda, segundo o semiólogo G. Stefani, o intervalo de terça menor é o intervalo mais primitivo de todos, estando presente em todas as culturas e no cantarolar das crianças. O intervalo de terça maior define abertura, dinamismo. O intervalo de quarta é assertivo; com esse intervalo, por exemplo, começa o hino nacional brasileiro e alguns outros.

Ainda que apresentada de forma pouco aprofundada, a consideração que fiz aqui sobre o significado musical dos intervalos quer ser um estímulo para que, em nossas composições, desfrutemos de suas características de maneira mais consciente. Vale também o convite para pensar nas escalas em termos de intervalos, e não simplesmente como uma sequência diatônica de notas. Assim, poderemos extrair da escala elementos compositivos muito úteis. Uma proposta interessante, então, ao estudar as escalas, pode ser a de praticar desenhos diferentes baseados em seus intervalos. O leitor já percebeu que as sequências dos exemplos 1,3,5,6,7 podem constituir válidos exercícios a serem praticados (sugiro praticar cada desenho em vários tons, obviamente). Aqui em seguida apresento mais alguns desenhos baseados nesse pensamento e que me parecem musicais:

Exemplo 13 (baseado na escala de Eb Maior):

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Exemplo 14 (baseado na escala de Bb Maior):

O exemplo 15 constitui um clichê melódico característico do pianista Bill Evans: Exemplo 15 (baseado na escala de Bb Maior):

(Parte do material deste artigo está baseado nos livros “Improvisação: Práticas

Criativas para a Composição Melódica na Música Popular” Vol.1 e 2 disponíveis nos sites w.freenote.com.br e w.turicollura.com).

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TURI COLLURA é pianista e compositor, professor do curso de música popular da Faculdade de Música do ES. É autor do método “Improvisação: Práticas Criativas para a Composição Melódica na Música Popular”. Gravou recentemente seu CD “Interferências”, com composições e arranjos próprios. w.turicollura.com w.myspace.com/turicollura

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