freud a interpretação dos sonhos II

freud a interpretação dos sonhos II

(Parte 4 de 9)

Sua mãe mandara sua filhinha embora, de modo que ela teve de seguir sozinha. Entrou então num trem com a mãe e viu sua pequerrucha andar diretamente até os trilhos, de modo que estava fadada a ser atropelada. Ouviu o estalar de seus ossos. (Isso produziu nela uma sensação desconfortável,

A Interpretação dos Sonhos I – Sigmund Freud mas nenhum pavor real.) Olhou ao redor, pela janela do vagão do trem, para ver se as partes não podiam ser vistas por trás. Em seguida, repreendeu a mãe por ter feito a pequerrucha ir embora sozinha.

ANÁLISE. — Não é nada fácil dar uma interpretação completa do sonho. Ele fazia parte de um ciclo de sonhos e só podia ser entendido na íntegra se considerado em relação aos outros. Há dificuldade em obter, com suficiente isolamento, o material necessário para estabelecer o simbolismo. — Em primeiro lugar, a paciente declarou que a viagem de trem devia ser interpretada historicamente, como uma alusão a uma viagem que ela fizera ao sair de um sanatório de doenças nervosas por cujo diretor, é desnecessário dizer, tinha-se apaixonado. A mãe a havia levado embora, e o médico aparecera na estação e lhe entregara um buquê de flores como presente de despedida. Fora muito embaraçoso que a mãe testemunhasse essa homenagem. Nesse ponto, portanto, a mãe figurava como interferindo em suas tentativas de ter um caso amoroso; e fora, de fato, o papel desempenhado por essa senhora severa durante a adolescência da paciente. — Sua associação seguinte relacionou-se com a frase “olhou ao redor para ver se as partes não podiam ser vistas por trás”. A fachada do sonho levaria, naturalmente, a se pensar nas partes de sua filhinha, que tinha sido atropelada e mutilada. Mas sua associação tomou um rumo inteiramente diverso. Lembrou-se ela de que, certa vez, vira o pai despido no banheiro, por trás; passou então a falar nas distinções entre os sexos e ressaltou o fato de que os órgãos genitais do homem podem ser vistos por trás, mas os da mulher, não. Em relação a isso, ela própria interpretou “a filhinha” como significando os órgãos genitais, e“sua pequerrucha” — a paciente tinha uma filha de quatro anos — como sua própria genitália. Repreendeu a mãe por ter esperado que ela vivesse como se não tivesse órgãos genitais, e assinalou que a mesma recriminação fora expressa na primeira frase do sonho: “sua mãe mandara sua filhinha embora, de modo que ela teve de seguir sozinha”. Na imaginação dela, “andar sozinha pelas ruas” significava não ter um homem, não ter nenhuma relação sexual (“coire”, em latim [de onde se origina “coitus”], significa literalmente “ir com”) — e ela não gostava disso. Todos os seus relatos indicavam que, quando menina, ela de fato sofrera com o ciúme da mãe devido à preferência demonstrada para com a filha pelo pai. [1]

A interpretação mais profunda desse sonho foi indicada por outro sonho da mesma noite, no qual a paciente se identificou com seu irmão. Ela realmente fora uma menina com características de menino, e muitas vezes lhe disseram que ela deveria ser um menino. Essa identificação com o irmão deixou particularmente claro que “a pequerrucha” significava um órgão genital. A mãe estava ameaçando seu irmão (ou ela) de castração, o que só poderia ser um castigo por brincar com o pênis; assim, a identificação também provou que ela própria se masturbara quando criança — uma lembrança que até então só tivera quando aplicada a seu irmão. A informação fornecida pelo segundo sonho

A Interpretação dos Sonhos I – Sigmund Freud mostrou que ela devia ter tomado conhecimento do órgão masculino numa idade precoce e depois esquecido isso. Ademais, o segundo sonho aludia à teoria sexual infantil segundo a qual meninas são meninos castrados. [Cf. Freud, 1908c.] Quando lhe sugeri que ela tivera essa crença infantil, confirmou imediatamente o fato, dizendo-me ter ouvido a anedota do garotinho que diz à garotinha: “Cortado?”, ao que a menininha responde: “Não, foi sempre assim.”

Portanto, mandar a pequerrucha (o órgão genital) embora no primeiro sonho também se relacionava à ameaça de castração. Sua queixa final contra a mãe era por não tê-la dado à luz como um menino.

O fato de que “ser atropelada” simboliza as relações sexuais não ficaria óbvio partindo-se desse sonho, embora tenha sido confirmado por muitas outras fontes. I OS ÓRGÃOS GENITAIS REPRESENTADOSPOR EDIFÍCIOS, DEGRAUS E POÇOS [1911] (Sonho de um rapaz inibido por seu complexo paterno.)

Ele estava passeando com o pai num lugar que certamente deveria ser o Prater, já que ele viu a ROTUNDA, com um PEQUENO ANEXO EM FRENTE A ELA ao qual estava preso UM BALÃO CATIVO, embora parecesse bem MOLE. O pai lhe perguntou para que servia aquilo tudo; ele ficou surpreso com a pergunta, mas lhe explicou. A seguir, entraram num pátio onde havia uma grande folha de estanho estendida. Seu pai queria ARRANCAR um pedaço grande dela, mas primeiro olhou em volta para ver se havia alguém. Ele lhe disse que bastaria ele falar com o contramestre para poder levar um pedaço sem nenhum problema. UMA ESCADA descia desse pátio até UM POÇO, cujas paredes eram acolchoadas com uma espécie de material macio, muito parecidas com uma poltrona de couro. Na extremidade do poço havia uma plataforma alongada, e então começava outro POÇO…

ANÁLISE. — Esse sonhador pertencia a um tipo de pessoas cujas perspectivas terapêuticas não são favoráveis: até certo ponto, não oferecem absolutamente nenhuma resistência à análise, mas, a partir daí, revelam-se quase inacessíveis. Ele interpretou esse sonho quase sem ajuda. “A Rotunda”, disse, “eram meus órgãos genitais, e o balão cativo em frente a ela era meu pênis, de cuja flacidez tenho motivos para me queixar.” Entrando então em maiores detalhes, podemos traduzir a Rotunda como o traseiro (habitualmente considerado pelas crianças como parte dos órgãos genitais) e o pequeno anexo à frente dele como o saco escrotal. O pai lhe perguntava, no sonho, o que era tudo aquilo, isto é, qual a finalidade e a função dos órgãos genitais. Pareceu plausível inverter essa situação e transformar

A Interpretação dos Sonhos I – Sigmund Freud o sonhador no indagador. Visto que ele de fato jamais fizera essas perguntas ao pai, tivemos de encarar o pensamento do sonho como um desejo, ou considerá-locomo uma oração condicional, tal como: “Se eu tivesse pedido a meu pai esclarecimentos sexuais…” Logo encontraremos a continuação desse pensamento em outra parte do sonho.

O pátio onde estava estendida a folha de estanho não deve ser tomado simbolicamente à primeira vista. Derivava das dependências comerciais do pai do sonhador. Por motivos de discrição, usei “estanho” em lugar de outro material, com o qual o pai realmente lidava, mas não fiz nenhuma outra modificação na linguagem do sonho. O sonhador havia ingressado na firma do pai e fizera violenta objeção às práticas um tanto suspeitas de que dependiam, em parte, os rendimentos da empresa. Por conseguinte, o pensamento onírico que acabo de interpretar poderia prosseguir desta forma: “(Se lhe tivesse perguntado), ele me teria enganado do mesmo modo que engana seus clientes.” No tocante ao “arrancar” que serviu para representar a desonestidade do pai nos negócios, o próprio sonhador apresentou uma segunda explicação — a saber, que isso representava a masturbação. Não só eu já estava familiarizado com essa interpretação (ver em [1]), como havia algo para confirmá-la no fato de que a natureza secreta da masturbação foi representada por seu inverso: podia ser praticada abertamente. Exatamente como esperaríamos, a atividade masturbatória foi também deslocada para o pai do sonhador, tal como a pergunta na primeira cena do sonho. Ele interpretou prontamente o poço como uma vagina, tendo em conta o acolchoado macio de suas paredes. Acrescentei, com base em meus próprios conhecimentos derivados de outras fontes, que tanto descer quanto subir escadas, em outros casos, descrevia relações sexuais vaginais. (Ver minhas observações [em Freud 1910d], citadas anteriormente, em [1])

O próprio sonhador deu uma explicação biográfica do fato de o primeiro poço ser seguido por uma plataforma alongada e, logo depois, por outro poço. Ele tivera relações sexuais por algum tempo, mas depois as havia abandonado por causa de inibições, e agora esperava poder reiniciá-las com a ajuda do tratamento. O sonho, porém, foi-se tornando mais vago ao chegar ao final, e deve parecer provável a quem quer que esteja familiarizado com essas coisas que a influência de outro tema já se estivesse fazendo sentir na segunda cena do sonho, e que foi sugerida pelos negócios do pai, por sua conduta fraudulenta e pela interpretação do primeiro poço como uma vagina: tudo isso apontava para uma ligação com a mãe do sonhador. [1] IV O ÓRGÃO MASCULINO REPRESENTADO POR PESSOAS E O ÓRGÃO FEMININO REPRESENTADO POR UMA PAISAGEM [1911]

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21 (Sonho de uma mulher inculta cujo marido era policial, relatado porB. Dattner.)

“…Então alguém invadiu a casa e ela se assustou e chamou um policial. Mas ele entrara calmamente numa igreja, à qual se chegava subindo alguns degraus, acompanhado de dois vagabundos. Atrás da igreja havia uma colina e, mais acima, um bosque cerrado. O policial usava capacete, gola com insígnia de metal e uma capa. Tinha a barba castanha. Os dois vagabundos, que acompanhavam pacificamente o policial, tinham aventais semelhantes a sacos atados na cintura. Em frente à igreja uma trilha levava até a colina; de ambos os lados cresciam relva e moitas cerradas, que se iam tornando cada vez mais espessas e, no alto da colina, transformavam-se num bosque comum.”

V SONHOS DE CASTRAÇÃO EM CRIANÇAS [1919] (a) Um menino de três anos e cinco meses, que obviamente não gostava da idéia de que seu pai voltasse da frente de batalha, acordou certa manhãperturbado e excitado. Pôs-se a repetir: “Por que papai estava carregando a cabeça numa bandeja? Ontem de noite papai estava carregando a cabeça numa bandeja.” (b) Um estudante que agora sofre de grave neurose obsessiva recorda-se de ter tido o seguinte sonho repetidamente durante o sexto ano de vida: Ia ao barbeiro para mandar cortar o cabelo. Uma mulher grande e de aspecto severo se dirigia a ele e lhe cortava fora a cabeça. Ele reconhecia a mulher como sua mãe.

VI SIMBOLISMO URINÁRIO [1914] A seqüência de desenhos reproduzida [em [1]] foi encontrada por Ferenczi num jornal humorístico húngaro chamado Fidibusz, e ele percebeu de imediato quão bem os desenhos poderiam ser utilizados para ilustrar a teoria dos sonhos. Otto Rank já os reproduziu num trabalho (1912a, [9]).

Os desenhos trazem o título “Sonho de uma Ama-seca Francesa”; mas é somente o último quadro, que mostra a babá sendo despertada pelos gritos da criança, que nos diz que os sete quadros anteriores representam as fases de um sonho. O primeiro quadro retrata o estímulo que teria feito a moça adormecida acordar: o garotinho toma ciência de uma necessidade e pede ajuda para satisfazê-la.

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Mas, no sonho, a sonhadora, em vez de se achar no quarto de dormir, está levando a criança para passear. No segundo quadro, ela já o levou à esquina de uma rua onde ele está urinando — e pode continuar a dormir. Mas o estímulo para despertar continua; na verdade, aumenta. O garotinho, verificando que não está sendo atendido, grita cada vez mais alto. Quanto mais imperiosamente insiste em que a babá acorde e o auxilie, mais insistente se torna a certeza do sonho de que tudo vai bem e de que não há necessidade de ela acordar. Ao mesmo tempo, o sonho traduz o estímulo crescente nas dimensões crescentes de seus símbolos. A corrente de água produzida pelo menino que urina vai-se avolumando cada vez mais. No quarto quadro, já é grande o bastante para fazer flutuar um barco a remo; mas seguem-se uma gôndola, um veleiro e, por fim, um transatlântico. O engenhoso artista, dessa maneira, retratou habilmente a luta entre o desejo obstinado de dormir e um estímulo inexaurível para acordar.

UM SONHO COM ESCADA [1911]

(Relatado e Interpretado por Otto Rank.) “Tenho de agradecer ao mesmo colega a quem devo o sonho do estímulo dental [registrado em [1]] por um sonho de polução igualmente transparente:

“ ‘Eu ia descendo às pressas a escada [de um bloco de apartamentos], perseguindo uma menininha que me havia feito alguma coisa, a fim de castigá-la. No pé da escada, alguém (uma mulher adulta?) deteve a criança para mim. Agarrei-a, mas não sei se bati nela, pois de repente me vi no meio da escada copulando com a menina (como se fosse no ar). Não era uma verdadeira cópula; eu apenas esfregava minha genitália em seus órgãos genitais externos e, enquanto o fazia, eu os via com extrema nitidez, bem como a cabeça dela, que estava voltada para cima e para o lado. Durante o ato sexual eu via penderem acima de mim, à minha esquerda (também como se fora no ar), duas pequenas pinturas — paisagens representando uma casa circundada de árvores. Na parte inferior do quadro menor, em vez da assinatura do pintor, eu via meu próprio nome, como se a pintura se destinasse a ser um presente de aniversário para mim. A seguir, vi uma etiqueta diante dos dois quadros, que dizia que

A Interpretação dos Sonhos I – Sigmund Freud também se podiam conseguir pinturas mais baratas. (Vi então a mim mesmo, muito indistintamente, como se estivesse deitado na cama no patamar), e fui despertado pela sensação de umidade causada pela polução que tivera.’

“INTERPRETAÇÃO. — Na noite do dia do sonho, o sonhador estivera numa livraria e, enquanto esperava ser atendido, olhara para alguns quadros que ali se achavam expostos e que representavam temas semelhantes aos do sonho. Aproximara-se de um quadrinho que lhe agradara particularmente para ver o nome do artista — mas este lhe era inteiramente desconhecido.

“Posteriormente, na mesma noite, quando estava com alguns amigos, ele ouvira a história de uma empregada da Boêmia que se vangloriava de que seu filho ilegítimo fora ‘feito na escada’. O sonhador indagara sobre os pormenores desse fato bastante incomum e soubera que a empregada tinha voltado para sua terra com seu admirador, indo para a casa dos pais, onde não houvera nenhuma oportunidade de relações sexuais, e que, em sua excitação, o homem copulara com ela na escada. O sonhador aludira jocosamente a uma expressão maliciosa empregada para descrever vinhos adulterados e dissera que, de fato, a criança provinha de uma ‘vindima de escada de adega’.

Basta isso no tocante às conexões com o dia anterior, que surgiram com certa insistência no conteúdo onírico e foram reproduzidas pelo sonhador sem qualquer dificuldade. Mas ele trouxe à baila, com igual facilidade, um antigo fragmento de lembrança infantil que também fora usado no sonho. A escada pertencia à casa onde ele passara a maior parte de sua infância e, em particular, onde pela primeira vez travara conhecimento consciente com os problemas do sexo. Com freqüência, brincara nessa escada e, entre outras coisas, costumava deslizar pelo corrimão, descendo montado nele — o que lhe dera sensações sexuais. Também no sonho, ele correra escada abaixo com extraordinária rapidez — de fato, com tanta rapidez que, segundo seu próprio relato específico, não pusera os pés nos degraus, um a um, mas ‘voara’ escada abaixo, como as pessoas costumam dizer. Caso se leve em consideração a experiência infantil, a parte inicial do sonho parece representar o fator da excitação sexual. — Mas o sonhador também fizera muitas vezes brincadeiras de natureza sexual com os filhos dos vizinhos nessa mesma escada e no prédio adjacente, e satisfizera seus desejos da mesma forma que no sonho.

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