Sugestão para manejo de vertissolos na região de corumbá/MS

Sugestão para manejo de vertissolos na região de corumbá/MS

(Parte 2 de 3)

4. USO E MANEJO DE VERTISSOLOS

O método tradicional do estabelecimento de agricultura de subsistência, corte a machado, amontoa e queima, comuns nos Projetos de Assentamento, tem sido substituído pela motosserra e/ou tratores e correntão, seguidos da queima. A madeira tem sido utilizada como lenha e para carvão, uma vez que existe uma pequena siderurgia em Corumbá (CUNHA, 1985). A agricultura empresarial já é cogitada. Essa perspectiva pode conduzir ao uso intensivo dos Vertissolos, principalmente porque são férteis e planos, apesar de suas limitações físicas. Com a chegada dos colonos, oriundos das principais regiões agrícolas do País, assentados nos projetos de reforma agrária, despertouse na região o uso intensivo de insumos (adubos, pesticidas, etc.) e de técnicas culturais convencionais para o uso intensivo da terra.

4.1. MANEJO DA FERTILIDADE

Solos desenvolvidos de rochas calcárias como no caso dos

Vertissolos, são naturalmente férteis, mas podem apresentar deficiência de fósforo (teores menores do que 20 ppm, segundo MOREIRA et al., 1980). cobre, zinco, manganês e ferro em consequência dos baixos teores na rocha matriz, e/ou por insolubilização, e/ou pelo aumento da concentração de bicarbonatos solúveis (caráter carbonático), tornando as plantas não adaptadas, amareladas, devido provavelmente à deficiência de ferro (CUNHA et al., 1985).

Altos teores de cálcio e magnésio podem prejudicar a absorção de potássio. Além disso, os teores de K+ presentes nas amostras variam de baixos a altos. Em casos de teores de potássio abaixo de 0,35 mEq/100g ou 135 ppm devem ser corrigidos com adubação (MOREIRA et al., 1980), principalmente se a cultura a ser instalada for exigente para este nutriente. A adubação nitrogenada é indispensável, e juntamente com a fosfatada, em doses compatíveis com a análise de solo, poderão conduzir a excelentes rendimentos na produção. Se os níveis de fósforo (P) forem porém muito altos (acima de 30 ppm), nos 2 ou 3 primeiros anos de safra a adubação fosfatada poderá ser dispensada.

Uma atenção especial deve ser dada para as deficiências de enxofre (S), procurando-se utilizar sempre fórmulas de adubo que contenham este elemento, como o sulfato de amônio. Problemas com os micronutrientes ferro (Fe), manganês (Mn), zinco (Zn) e boro (B) são esperados em Vertissolos de origem calcária, notadamente naqueles mais alcalinos. Os efeitos serão observados naquelas culturas mais exigentes em qualquer um destes nutrientes. Fórmulas de adubo com um ou mais destes nutrientes podem solucionar o problema, mesmo assim, cultivares e variedades de plantas cultivadas mais tolerantes às condições de alcalinidade deverão ser testadas para a região.

4.2. CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA

A erosão hídrica é um grave problema em Vertissolos intensamente agricultados (IKITOO, 1989). Erosão eólica não foi constatada em Corumbá. A erosão é raramente observada nestes solos sob exploração agropecuária quando o relevo é totalmente plano (0 - 1% de declive). Em declividades entre 1 e 2%, práticas como o preparo do solo e o plantio em nível, juntamente com resíduos de culturas controlam a erosão, desde que bem feitos. Declividades acima de 2% já são susceptíveis a maiores problemas com erosão.

Erosão laminar, em sulcos e em voçorocas ocorrerão se não forem adotadas práticas conservacionistas que podem ser: manutenção da cobertura morta superficial do solo em pelo menos 30%, com resíduos da cultura anterior, de maneira permanente; sulcos em contorno (em nível); e terraços, associados a canais escoadouros gramados (para declividades acima de 2%). Estas práticas devem ser apoiadas em restos culturais que protejam a superfície do solo contra o impacto das gotas de chuva e que aumentem as taxas de infiltração, reduzindo-se assim as proporções e o volume de enxurrada (HARRIS, 1989). Isto levará também à diminuição da evaporação e do fendilhamento através da manutenção dos teores da umidade no solo (AHMAD, 1989).

4.3. VIABILIDADE DE MECANIZAÇÃO

O período que o agricultor dispõe para completar os trabalhos de preparo de solo dentro das condições ideais de umidade e friabilidade dos Vertissolos é muito estreito. Seria oportuno que o produtor pudesse contar com seu próprio trator e implementos, pois assim, estes estariam à disposição no momento em que o solo apresentasse aquelas condições ideais para a lavra.

De acordo com SAAD (1986), é anti-econômico o produtor adquirir um trator comum, quando este dispõe de menos de vinte hectares efetivamente trabalhado. O tamanho das propriedades dentro dos projetos de assentamento não atingem tal dimensão, assim a formação de grupos de três ou mais agricultores, vizinhos de preferência, para a compra de um trator e implementos tornará viável esta aquisição.

A utilização de implementos tracionados por animais deverá ser incentivada, principalmente nas operações menos exigentes em potência, tais como: capinas com cultivadores, escarificação e aração de pequenas áreas. O uso de tração animal evitará a intensa movimentação de máquinas e implementos que muitas vezes provocam a compactação em Vertissolos (PRADO, 1991). Se possível, o uso de tratores deverá ser restrito à aração e gradagem. Em áreas pequenas todas as operações podem ser feitas com tração animal.

4.4. CONDIÇÕES IDEAIS PARA A LAVRAGEM

Antes de se iniciar qualquer atividade agropecuária deve-se observar a drenagem natural da água gravitacional, ou seja, a água dos macroporos com teores acima da capacidade de campo (MEDINA, 1975). Quanto maior for o impedimento à drenagem durante o decorrer do ano, o solo permanecerá mais tempo com a consistência plástica e pegajosa. No período em que o solo está seco, ele encontra-se muito duro e firme.

A condição ideal de umidade para se entrar com as máquinas e implementos em um Vertissolo é quando esse não está nem duro e seco, e nem úmido, plástico e pegajoso. De um modo empírico, esta situação ocorre após o molhamento do solo, quando começam a desaparecer as fendas ou rachaduras. Isto é verificado no início da estação chuvosa (TEDLA, 1989).

Quando o solo é preparado seco, também ocorre danos físicos na estrutura, pois um maior número de passagens de implemento serão necessárias para promover um destorroamento inadequado mas que permita efetuar a semeadura, e consequentemente com maiores gastos de combustível. Quando o preparo é efetuado com o solo muito úmido, este sofre danos físicos na estrutura, principalmente a compactação. Estas duas situações devem ser evitadas (MAZUCHOWSKI & DERPSCH, 1984). Se no preparo do solo, formarem torrões muito grandes (> 10 m), o contato das sementes com o solo fica insuficiente à ponto da germinação ser prejudicada. Esses torrões secos dificultam ou impossibilitam a incorporação de adubos (PRADO, 1991).

Trabalhar o solo molhado, com a consistência muito plástica e pegajosa apresenta como incoviniente a aderência da massa do solo nos pneus e discos dos implementos agrícolas, implicando também na necessidade de se reduzir o número de passagens com estes veículos para diminuir a compactação (PRADO, 1991).

Os Vertissolos de Corumbá possuem menos de 3% de matéria orgânica em condições naturais. Com o cultivo, estes teores tendem a diminuir rapidamente. Consequentemente, a estrutura enfraquece, provocando o selamento dos macroporos superficiais e o encrostamento. Camadas compactadas devido à mecanização (pé-de-grade) são frequentemente observadas em Vertissolos sob cultivo e estas camadas costumam causar entortamento da raíz principal (peão) do algodoeiro. Prejudicam também o desenvolvimento de raízes tuberosas e tubérculos cultivados (HARRIS, 1989).

4.5. ERVAS DANINHAS

São escassas as informações a respeito da infestação de ervas daninhas em lavouras sobre Vertissolos no Brasil. HARRIS (1989) relata que este é o principal problema neste tipo de solo, em trigais, no Texas (EUA). O autor comenta também que o controle mecânico de ervas daninhas, quando a cultura encontra-se em desenvolvimento, é impossível, devido à umidade e que o controle destas é feito então por meios químicos.

A utilização de Vertissolos com agricultura no Brasil ainda é insignificante, mesmo porque eles são raros. GOEDERT & BEATTY (1971) relatam problemas de infestação de ervas daninhas nativas em pastagens em Vertissolos no Rio Grande do Sul. Em BRASIL (1972), observou-se o ressurgimento de vegetação nativa secundária em Vertissolos que foram utilizados com milho, feijão e algodão, no Estado de Pernambuco.

Estas informações indicam a possibilidade de surgimento de infestação de ervas daninhas nos Vertissolos da região de Corumbá e as pesquisas que venham a ser desenvolvidas no assunto deverão priorizar técnicas que dispensem o uso dos herbicidas, pois as águas de escoamento destes solos escorrem diretamente para o Pantanal.

4.6. RISCO DE SALINIZAÇÃO

Os Vertissolos da área não inundável de Corumbá, geralmente não apresentam teores de sódio a níveis preocupantes. Em apenas três amostras foram encontrados teores acima de 8%, caracterizando estas unidades de solo como solódica (CARVALHO et al., 1988). Porém, problemas relativos à salinização poderão ocorrer caso se utilize água de irrigação com teores elevados de sais e/ou com um sistema de drenagem inadequado.

Embora a água seja abundante no Pantanal, na parte alta de

Corumbá, em cotas acima dos 100m, ela já é escassa. Deve-se também dar muita atenção à qualidade da água a ser utilizada nos sistemas de irrigação. Há indicações de acúmulo de sais na lagoa do Jacadigo, que é próxima ao assentamento Taquaral, o que pode invibializar sua utilização, como fonte de água. As águas provenientes de poços abertos em lençóis de água em rocha calcária, como os da região, são problemáticos.

Segundo HARRIS (1989), a água empoçada na superfície de

Vertissolos deve ser completamente removida ou utilizada, principalmente em anos mais úmidos.

Em alguns Vertissolos imperfeitamente drenados, na região de

Corumbá, foram observadas crostas superficiais de sais em locais onde houve intenso pisoteio pelo gado.

4.7. OUTRAS IMPLICAÇÕES

Vertissolos que apresentam fendilhamento muito grande (> 5 cm) podem levar a acidentes com animais, tais como fratura de membros. Pontes, casas e galpões construídos sobre estes solos podem desabar, encanamentos e pavimentação podem romper devido aos movimentos de expansão e contração do solo (BRADY, 1979; PRADO, 1991).

5. ESCOLHA DE CULTURAS E VARIEDADES

O clima de Corumbá, por assemelhar-se ao semi-árido, é considerado limitante para a maioria das culturas praticadas no Planalto Central. Culturas resistentes ou adaptadas às condições de seca como o sorgo, o milheto, o feijão-guar, etc., podem ser praticadas. Porém, culturas como o milho devem ser mais estudadas visando o desenvolvimento de variedades precoces mais indicadas, a fim de melhor aproveitar a curta duração da estação chuvosa (MATERECHERA, 1989).

Não foi encontrada nenhuma recomendação de uso preferencial de culturas de ciclo perene em Vertissolos. No Brasil, esses solos são usados com algodão arbóreo, milho, palma forrageira e feijão (BRASIL, 1972), pastagens naturais e arroz, no caso, em clima temperado (BRASIL, 1973), pastagens extensivas de caatinga, para caprinos e bovinos (EMBRAPA, 1979).

Diversas culturas são praticadas em Vertissolos, nas mais variadas condições de clima, material de origem do solo e nível tecnológico utilizado. Para as condições de clima semelhantes às de Corumbá, destacam as seguintes culturas: milho, algodão, feno, alfafa irrigada, aveia, sorgo, soja e trigo no Texas, EUA, com 865 m (HARRIS, 1989); milheto, caupi, algodão, sorgo, trigo, milho e arroz em Burkina Faso, com 800 a 1000 m (SOME & BARRO, 1989); fava, teff (Eragrostis abyssinica), linho, lentilha, grão-de-bico e trigo da Etiópia, com 850 a 1200 m (TEDLA, 1989); arroz, algodão e feijão-guandu, em Malawi, com 640 a 962 m (MATERECHERA, 1989); sorgo, milho, paínço e algodão, com rendimentos muito reduzidos, na India (BRADY, 1979).

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Recomendações mais seguras para o uso e o manejo dos

Vertissolos de Corumbá/MS só poderão ser sugeridas após realização de experimentos locais, incluíndo também estudos físico-hídricos.

A produção de hortaliças, culturas anuais e perenes nos assentamentos deverá ser amparada por estudos edafoclimáticos. Sistemas que não dependam de pesticidas deverão ter prioridades nestes estudos.

As informações sobre uso e manejo contidas neste trabalho são preliminares e foram baseadas na experiência e observação de pesquisadores brasileiros e estrangeiros.

A utilização destes solos, de acordo com sua aptidão agrícola e seguindo as práticas conservacionistas mais adequadas, poderão resultar em bons rendimentos econômicos por pelo menos uma década.

35 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AHMAD, N. Management of tropical Vertisols. In: VERTISOL

MANAGEMENT IN AFRICA. Bangkok, Thailand: Internacional Board for Soil Research and Management 1989, IBSRAM Proceedings, 9 p.29- 62.

AMARAL FILHO, Z.P. do. Solos do Pantanal Mato-Grossense. In: SIMPÓSIO SOBRE RECURSOS NATURAIS E SÓCIO ECONÔMICO DO PANTANAL MS, 1., 1984. Corumbá. Brasília: EMBRAPA-DDT, 1986. p.91-103. (EMBRAPA-CPAP. Documentos, 5).

BRADY, N.C. Natureza e propriedades dos solos. Rio de Janeiro: Biblioteca Universitária Freitas Bastos, 1979. 647p.

BRASIL. Ministério da Agricultura. Departamento Nacional de pesquisa

Agropecuária. Levantamento Exploratório-Reconhecimento de Solos do Estado de Pernambuco. Recife, 1972. 713p. 2 v. (Boletim Técnico, 26).

BRASIL. Ministério da agricultura. Departamento Nacional de Pesquisa

Agropecuária. Levantamento de Reconhecimento dos Solos do Estado do Rio Grande do Sul. Recife, 1973. 431p. (Boletim Técnico, 30).

BRASIL. Ministério das Minas e Energias. Departamento Nacional de Produção

Mineral. Projeto RADAMBRASIL. Folha SE. 20 Corumbá: geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação e uso potencial da terra. Rio de Janeiro: DNPM, 1982. 451p. (Levantamento de Recursos Naturais, 27).

CAMARGO, M.N.; KLAMT, E.; KAUFFMAN, J.H. Classificação de solos usada em levantamentos pedológicos no Brasil. Boletim Informativo da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, Campinas, v.12, n.1. p.1-3, 1987. Separata.

CARVALHO, A.P. de; OLMOS I. LARACH, J.; JACOMINE, P.K.T.;

CAMARGO, M.N. Critérios para distinção de classes e de fases de unidades de mapeamento: normas em uso pelo SNLCS. Rio de Janeiro: EMBRAPA-SNLCS, 1988. 76p. (EMBRAPA-SNLCS. Documentos, 1).

CUNHA, N.G. da. Solos calcimórficos de Corumbá. Corumbá, MS: EMBRAPA-CPAP, 1985. 34p. (EMBRAPA-CPAP. Circular Técnica, 18).

CUNHA, N.G. da; POTT, A.; GONÇALVES, A.R. Solos calcimórficos da sub-região do Abobral, Pantanal Mato-Grossense. Corumbá, MS: EMBRAPA-CPAP, 1985. 52p. (EMBRAPA-CPAP. Circular Técnica, 19).

EMBRAPA. Serviço Nacional de Levantamento e Conservação de Solos.

Levantamento exploratório-reconhecimento de solos da margem direita do rio São Francisco Estado da Bahia. Recife: EMBRAPA-SNLCS, 1979. 2v., (EMBRAPA-SNLCS. Boletim Técnico, 52).

GOEDERT, W.J.; BEATTY, M.T. Caracterização de grumossolos no sudoeste do Rio Grande do Sul I. Propriedades físicas adversas ao uso. Brasília: Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, v.6, p.91-102, 1971.

(Parte 2 de 3)

Comentários