Uma análise do mercado de couro no Brasil e no Piauí

Uma análise do mercado de couro no Brasil e no Piauí

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MARTINS, L. M.; MOITA NETO, J. M. Uma análise do mercado de couro no Brasil e no Piauí In: José de Ribamar de Sousa Rocha; Roseli Farias Melo de Barros; José Luís Lopes Araújo. (Org.). Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento no Trópico Ecotonal do Nordeste. 1 ed.Teresina: EDUFPI, 2012, v.6, p. 177-188.

Uma análise do mercado de couro no Brasil e no Piauí

Leonardo Madeira Martins

Doutorando em Desenvolvimento e Meio Ambiente na Universidade Federal do Piauí (UFPI) leonardomadeirapi@hotmail.com

José Machado Moita Neto

Doutor em Química. Professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI) jmoita@ufpi.edu.br

1 INTRODUÇÃO

Curtume ou indústria de beneficiamento do couro é o nome dado ao local onde se processa o couro com o fim de torná-lo utilizável para as demais indústrias e o atacado. Para Pacheco (2005), o couro é uma pele animal que passou por processos de limpeza, de estabilização (dada pelo curtimento) e de acabamento, para a confecção de calçados, peças de vestuário, revestimentos de mobília e de estofamentos de automóveis, bem como de outros artigos.

Geralmente graves problemas ambientais estão associados à instalação de curtumes em uma determinada área, dentre eles destacam-se a emissão de odores e efluentes líquidos. Nos efluentes são encontrados uma grande diversidade de produtos químicos, tais como: surfactantes, ácidos, corantes, agentes taninos naturais ou sintéticos, óleos sulfonados e sais, dentre outros. Estes são aplicados durante as diversas etapas do processo de curtimento do couro para transformar a pele animal em produto inalterável e imputrescível.

Para Santos et al. (2002), o comércio de couro apresenta restrições às importações e às exportações baseadas em motivos sanitários, ambientais e econômicos. Estes últimos referem-se a impostos e taxas aplicados à exportação de couro cru pelos países em desenvolvimento e à importação de couro semiacabado e acabado pelos países desenvolvidos. Em relação aos

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aspectos ambientais, há expectativa de que se tornem cada vez mais rigorosas as restrições ao uso de práticas agressivas ao meio ambiente.

O desafio de produzir dentro de um conceito de desenvolvimento sustentável é importante para a indústria do couro, a fim de que possa ampliar suas perspectivas de atuação no mercado interno e externo, além de maior acesso a linhas de financiamento.

De acordo com Santos et al. (2002), os curtumes podem ser caracterizados de acordo com as etapa de processamento do couro: • Curtume de Wet Blue – Desenvolve o primeiro processamento de couro, qual seja, logo após o abate, o couro salgado ou em sangue é despelado, graxas e gorduras são removidas e há o primeiro banho de cromo e o couro passa a exibir um tom azulado e molhado, daí o nome wet blue.

• Curtume Integrado – Realiza todas as operações, processando desde o couro cru até o couro acabado. • Curtume de Semiacabado – Utiliza como matéria-prima o couro wet blue e o transforma em couro crust (semiacabado). • Curtume de Acabamento – Transforma o couro crust em couro acabado. Conforme Campos (2006), a classificação dos couros, mais usual é: wet blue, crust e acabado. Para o couro wet blue há reduzida agregação de valor e necessita de pouca mão de obra para sua execução; o crust é o couro semiacabado e utiliza o wet blue como matéria-prima; o couro acabado, por sua vez, é o resultado da última etapa da transformação das peles em couros e consiste no produto final de maior valor agregado desse processo produtivo, empregando grandes contingentes de mão de obra.

Tomando a cadeia coureiro-calçadista como exemplo, Corrêa (2001) destaca que em relação ao aspecto ambiental é importante ressaltar que a produção de couro até o estágio wet blue produz 85% do resíduo ambiental da cadeia produtiva, enquanto a transformação de couro wet blue em calçado produz os restantes 15%.

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Os países ditos desenvolvidos têm focado sua produção no acabamento da matéria-prima importada dos países subdesenvolvidos (wet blue ou crust), ou seja, a parte mais poluidora do processo produtivo acaba sendo desenvolvida nos países economicamente mais desfavoráveis.

Para Santos et al. (2002), o motivo para o deslocamento desse mercado para regiões como a América do Sul reside na busca de mão de obra de menor custo e as restrições mais severas das políticas ambientais dos países produtores tradicionais.

Segundo Guterres (2006), o mercado de peles e couro cresceu notavelmente no período de 1970 a 2000. A produção de couro aumentou, sobretudo, nos países em desenvolvimento.

Pacheco (2005) afirma que, para o Brasil a importância como exportador de couros chegou apenas na década de 90. Em 2004, a produção total do país foi de cerca de 36,5 milhões de couros, sendo que aproximadamente 26,3 milhões de couros foram exportados, representando 72,1% da produção, tendo como os principais destinos foram: Itália, Hong Kong, China e Estados Unidos, nesta ordem.

Conforme Santos et al. (2002), a Itália, inclusive, é o parâmetro da indústria curtidora em termos de acabamento e qualidade. Os países que têm forte produção de couros, em geral, fabricam seus manufaturados mantendo posição mundial no circuito da moda. A indústria europeia, por exemplo, caracteriza-se pela fabricação de produtos diferenciados e pela forte presença de marca com tecnologias de processo e de organização da produção.

Pacheco (2005) destaca que, o Brasil possui um grande potencial na produção do couro. O mesmo é detentor de um dos maiores rebanhos bovino do mundo, e também ocupa lugar de destaque na produção mundial de couros: 5º produtor de couros bovinos, atrás dos EUA, Rússia, Índia e Argentina, com cerca de 3 milhões de couros, representando 10 a 1% da produção mundial.

Segundo Câmara e Gonçalves Filho (2007), a maior parte das empresas que atuam no setor de couros localiza-se no Sul e Sudeste do país, havendo tendência atual de deslocamento para um novo pólo no Centro-Oeste, em

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função da localização dos rebanhos e frigoríficos, assim como os incentivos e outras condições favoráveis que deslocam a produção para a região Nordeste.

De acordo com Rey et al. (2007), o Nordeste brasileiro conta com aproximadamente 93% dos caprinos nacionais e com enorme tradição na caprinocultura, o que favorece a priori o desenvolvimento na produção de seus produtos derivados. A atual tendência ao incremento protéico na dieta humana cria uma maior demanda da produção de carne. No Brasil, o aumento na produção de caprinos tem implicações para o acréscimo nas suas zonas produtoras, representando, assim, para o Nordeste, uma grande oportunidade de desenvolvimento social e econômico. A importância da pele está no valor agregado como produto transformado (o couro).

O Piauí é um exemplo de estado brasileiro que teve como primeira atividade econômica a pecuária. Conforme Araújo et al. (2007), o rebanho caprino do Piauí oscila entre o segundo e terceiro maior do Nordeste e concentra-se na região semiárida do Estado. Em função do baixo nível tecnológico empregado, a caprinocultura da região apresenta baixa rentabilidade, em contraposição ao alto potencial que a atividade apresenta como importante alternativa geradora de renda, sendo capaz de melhorar o nível econômico, sobretudo da agricultura familiar.

Segundo Rey et al. (2007), a desvalorização da pele, como produto, por parte do produtor e pela indústria, associada à desestruturação da produção, inexistência de uma cadeia produtiva e à carência de pesquisa que contribua para obtenção de um produto de qualidade, poderiam ser os pontos críticos do freio do desenvolvimento da indústria de transformação da pele caprina. Porém, esta matéria-prima alcança um alto valor no mercado internacional e nacional, como produto transformado, podendo ser uma importante fonte de renda nas zonas economicamente desfavorecidas como o Nordeste brasileiro.

Neste sentido o presente trabalho propõe-se a fazer uma análise do mercado do couro, levando em consideração a produção de couros no Brasil e no Piauí.

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2 METODOLOGIA

Para o entendimento do mercado de produção de couro no Piauí, buscou-se identificar as indústrias no Estado, especialmente em Teresina, sua capital, através de publicações oficiais e visitas aos órgãos públicos que tratam do assunto.

As informações relativas à balança comercial brasileira e piauiense (exportação e importação) foram obtidas a partir do Sistema de Análise das Informações de Comércio Exterior via Internet, denominado ALICE-Web, da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

No Estado do Piauí existem dois curtumes de grande porte, registrados e em atuação. Um na Capital e outro em Parnaíba. Os demais, de pequeno e médio porte, extinguiram-se devido às oscilações de mercado e especialmente à crise financeira internacional, que se iniciou em 2008.

Em Teresina, existem 4 matadouros de grandes e médios animais com serviços de inspeção municipal. Os mesmos também funcionam como salgadeiras de couro.

Relatos de trabalhadores do setor dão conta de que no ano de 2008 os preços chegaram a níveis tão baixos que tornaram a venda do produto inviável, preferindo estocá-lo à espera de uma recuperação do mercado. Nessa época, somente os de maior porte conseguiram resistir. Na Figura 1, é possível se observar que houve uma retração das exportações no ano de 2008 e um crescimento “anormal” (fora da tendência) no ano de 2009.

É possível se observar, também, que houve um decaimento das exportações em 2010, com relação a 2008 e uma tímida melhora em 2011. As importações oscilaram muito no período de 2008 a 2011, o que nos mostra um desequilíbrio da balança comercial do couro Piauí (Figura 1).

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Figura 1- Balança comercial do mercado do couro no Piauí (2005-2011)

D ól ares (US$)

Anos

Exportação Importação

Fonte: Aliceweb (MDIC)

O mercado do couro tem grande importância na economia piauiense, mesmo com apenas duas indústrias. As mesmas estão entre as principais empresas exportadoras do Estado, conforme Boletim (UF22_E6) de 02/02/12 da Secretaria de Comércio Exterior do MDIC.

Observando a balança comercial brasileira como um todo, no período de 1989 a 2011, é possível se observar o efeito da crise no mercado financeiro brasileiro (Figura 2). Há uma anomalia na linha de crescimento do mercado brasileiro no ano de 2009. Fato este nos remete a concluir que a retração do mercado piauiense foi apenas reflexo do impacto que o país sofreu com a crise financeira.

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Figura 2 - Balança comercial brasileira (1989-2011)

M i l hõe s (US$)

Anos

Exportações Importações

Fonte: Aliceweb (MDIC)

Essa anomalia, também, pode ser observada nas exportações brasileira de couro bovino, conforme Figura 3.

Figura 3. Série histórica das exportações brasileiras de couros bovinos (2000-2011)

M i l hõe s (US$)

Anos

Fonte: Brazilian Leather (2012d)

Conforme Brazilian Leather (2012a), considerando os valores monetários acumulados no ano de 2011, a exportação brasileira de couro atingiu a cifra de, aproximadamente, US$ 2,05 bilhões que resultou no seguinte desempenho:

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- aumento de 17% em relação a 2010; - aumento de 76% em relação a 2009;

- aumento de 8,8% em relação a 2008. Segundo dados do Brazilian Leather (2012a), em quantidade de couros, foram exportadas 26,7 milhões de peças em 2011 que representou queda de 2% em relação a 2010 e crescimento de 1% em relação a 2009. Ainda destacam que: 1. O perfil da exportação brasileira por tipo de couro em 2011, considerando valor exportado, foi o seguinte: Acabado 57%, Wetblue 2%, Crust 16% e Raspa de Wetblue 5% (Tabela 1);

Tabela 1- Exportações brasileiras de couro bovino, conforme Brazilian

Fonte: SECEX/CICB, 2012

2. Os principais destinos do couro exportado brasileiros em 2010 foram, em valor: China e Hong Kong com 30%, Itália com 2%, EUA 1% e outros países 31% (Tabela 2);

Tabela 2- Destino das exportações de couros e peles por país, conforme

Brazilian Leather (2012c)

Fonte: SECEX/CICB, 2012

3. Os principais estados exportadores são Rio Grande do Sul e São Paulo, com participação de 24,1% e 21,6%, respectivamente. Em

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seguida apareceram os estados do Paraná (1,1%), Goiás (9,4%), Bahia (6,3%) e Minas Gerais (4,8%).

A imprensa tem mostrado que a crise econômica internacional que atinge a Europa, Estados Unidos e China dificultarão a exportação do couro brasileiro nos próximos anos, pois poderá haver uma retração na demanda pelo produto.

Conforme Campos (2006), o desenvolvimento dos curtumes esteve, e ainda está bastante atrelado ao crescimento da indústria calçadista, especialmente pelo seu direcionamento ao mercado externo, onde preço e qualidade são fatores determinantes de competitividade. Quando a indústria calçadista nacional reduziu sua produção em função da valorização do real, os curtumes ampliaram sua exportação. A estratégia adotada para substituir o mercado interno desaquecido foi, justamente, expandir a exportação de couros da fase inicial (wet blue) e intermediária (crust) de processamento, produtos de menor valor agregado. A consequência acabou sendo o acirramento da disputa entre esses segmentos da cadeia produtiva.

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