A Tira Reagente no Exame de Urina1

A Tira Reagente no Exame de Urina1

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Ano I Número 3

Informativo Técnico

A análise da urina para o diagnóstico de doenças tem sido usada por muitos séculos, sendo um dos procedimentos laboratoriais mais antigos utilizado na prática médica. A amostra de urina pode ser considerada com uma biópsia do trato urinário, obtida sem a necessidade de procedimento invasivo. Seu exame fornece informações importantes, de forma rápida e econômica, seja para o diagnóstico e monitoramento de doenças renais e do trato urinário seja para a detecção de doenças sistêmicas e metabólicas não diretamente relacionadas com o rim.

Os conceitos do exame de urina pouco mudaram ao longo dos anos, mas os testes químicos tornaram-se muito mais fáceis de serem realizados com o advento das tiras impregnadas com

Como a exatidão da análise da urina é dependente da qualidade da amostra, todos os cuidados devem ser tomados para que a amostra de urina seja colhida, armazenada e transportada adequadamente.

1. Tipos de amostras de urina A amostra de escolha para realização do exame de urina é a primeira urina da manhã, de jato médio, após período não inferior a 4 horas de permanência da urina na bexiga. É recomendado que a coleta seja realizada após 8 horas de repouso, isto é, antes da realização das atividades físicas habituais do indivíduo e, preferencialmente, em jejum.

Na impossibilidade de se colher a primeira urina da manhã, pode-se obter, alternativamente, amostra de urina dita aleatória. Neste caso a coleta pode ser realizada em qualquer momento do dia. A amostra obtida de colheita aleatória pode ser usada para a análise, porém está mais freqüentemente associada com resultados falso negativos e falso positivos. Visando minimizar estes resultados recomenda-se que a amostra de urina seja colhida após período não inferior a 4 horas da última micção.

Outros métodos de coleta de urina incluem: cateterismo vesical, punção suprapúbica e o uso de sacos coletores pediátricos. Para todos, a coleta requer obrigatoriamente a assistência de profissional do laboratório treinado adequadamente.

Com exceção da punção suprapúbica e do cateterismo vesical, as amostras de urina são obtidas pelo paciente através de micção espontânea. Assim, o laboratório deve prover orientações suficientes, ou mesmo acompanhar a coleta, visando garantir amostra de urina livre de contaminação fecal, secreção vaginal, esmegma, pêlos pubianos, pós, óleos, loções e outros materiais estranhos. Não se deve recuperar urina de fraldas.

reagentes. Novas tecnologias permitiram o desenvolvimento de métodos específicos que apresentam resultados rápidos e exatos para a determinação do pH e densidade e a pesquisa de elementos anormais, que fazem parte do protocolo do exame de urina de rotina.

Como qualquer outro procedimento laboratorial, o exame de urina necessita ser cuidadosamente realizado e apropriadamente controlado, utilizando procedimentos padronizados de coleta armazenamento e análise. O Quadro 1 inclui aspectos que necessitam ser conhecidos e compreendidos para a realização e interpretação da pesquisa de elementos anormais na urina com a tira reagente.

A tira reagente no exame de urina

QUADRO 1

Considerações para a realização e interpretação do exame de urina com a tira reagente

1.Princípio básico dos testes.

2.Limitações dos testes:

Especificidade para a substância pesquisada. Sensibilidade ou limite de detecção.

3.Influências pré-analíticas e fatores interferentes capazes de causar resultados falso negativo ou falso positivo.

4.Etapas críticas e considerações do procedimento analítico.

5.Significado clínico dos resultados e sua correlação com outros achados do exame de urina.

A fase pré-analítica

2. Recipiente de coleta A amostra de urina deve ser colhida em recipiente descartável, limpo e à prova de vazamento. Deve ser de material inerte, livre de partículas e substâncias interferentes, como detergentes. Muitos laboratórios preferem utilizar frasco estéril para todas as coletas de urina. O recipiente de coleta deve apresentar boca larga, com diâmetro de 4 - 5 cm, para facilitar a obtenção de urina por pacientes de ambos os sexos, e sua base deve ser ampla o suficiente para evitar que o mesmo entorne facilmente. Tampa de rosca é preferível, pois apresenta menor propensão a vazamento do conteúdo durante o transporte, além de ser facilmente colocada e removida.

O recipiente de coleta deve ser corretamente identificado com etiqueta cuja aderência resiste ao processo de refrigeração. A etiqueta deve ser de tamanho suficiente para conter informações como nome completo do paciente, número de identificação ou registro, data e hora da coleta. Outros dados, como código de barras, podem ser incluídos. Para garantir a identificação adequada da amostra a etiqueta deve ser afixada no frasco e não na tampa.

3. Orientação ao Paciente A maioria das amostras de urina pode ser obtida pelos pacientes, de forma adequada, após o fornecimento de instruções simples pelo profissional do laboratório responsável pelo atendimento. Estas instruções podem ser dadas verbalmente sendo, também, recomendado o fornecimento das mesmas na forma escrita contendo ilustrações do procedimento de coleta. Caso o paciente não seja capaz de realizar o procedimento recomendado, oferecer assistência de profissional do laboratório capacitado.

As Figuras 1 e 2 representam modelos de instruções para o procedimento de coleta de urina de jato médio para pacientes do sexo masculino e feminino, respectivamente. Este procedimento é adequado, também para coleta de amostras para exames microbiológicos.

Ao orientar verbalmente o paciente, é importante enfatizar a necessidade de se lavar as mãos e os cuidados gerais de higiene, bem como tampar adequadamente o recipiente após a coleta para se evitar vazamento do material. Secreção vaginal ou sangue menstrual podem contaminar a urina obtida de mulheres. Isto pode ser minimizado através de uso de tampão vaginal durante a coleta. É recomendado que o paciente obtenha pelo menos 50 mL de urina para ser encaminhado ao laboratório. Em situações especiais, como em casos de recém-nascidos, crianças e idosos volumes menores poderão ser obtidos. O volume de urina mínimo necessário para o exame de urina rotina é de 12 mL.

Enxugar, de frente para traz, com toalha de pano limpa ou de papel descartável.

Instruções para colheita de urina de jato médio MULHERES

Lavar a região vaginal com água e sabão. Enxaguar com água em abundância.

Assentar no vaso sanitário. Afastar os grandes lábios e mantê-los afastados.

Lavar as mãos.1 Lavar as mãos.

Figura 1Figura 2

Desprezar a primeira porção de urina no vaso sanitário.

Desprezar o restante de urina no vaso sanitário.

Sem interromper a micção, colocar o frasco de colheita na frente do jato urinário e colher entre 20 e 50 mL de urina. Evitar tocar na parte interna do frasco.

Desprezar a primeira porção de urina no vaso sanitário.

Desprezar o restante de urina no vaso sanitário.

Sem interromper a micção, colocar o frasco de colheita na frente do jato urinário e colher entre 20 e 50 mL de urina. Evitar tocar na parte interna do frasco.

Enxugar com toalha de pano limpa ou de papel descartável.

Expor a glande e manter o prepúcio retraído.

Expor a glande e lavar com água e sabão. Enxaguar com água em abundância.

Instruções para colheita de urina de jato médio HOMENS

Fechar o frasco adequadamente e encaminhá-lo imediatamente para o laboratório.

Fechar o frasco adequadamente e encaminhá-lo imediatamente para o laboratório.

A tira reagente no exame de urina

4. Informações Pré-analíticas O uso de medicamentos e vitaminas pelo paciente deve ser investigado, uma vez que isto pode representar importante influência pré-analítica ou interferência do exame de urina (ver itens Influências Pré- Analíticas e Fatores Interferentes). O tipo de amostra obtido e intercorrências eventualmente ocorridas durante o procedimento de coleta devem ser anotados, pois podem auxiliar na interpretação do resultado.

5. Armazenamento O tempo compreendido entre a coleta e a análise da amostra de urina é o maior obstáculo para a exatidão dos resultados do exame de urina rotina na maioria dos laboratórios. Idealmente, o exame de urina deve ser realizado até duas horas após a coleta. Caso isto não seja possível, o material deve ser armazenado sob refrigeração (2-8ºC) imediatamente após a coleta.

A refrigeração preserva a maioria dos elementos pesquisados com a tira reagente por 6-8 horas. Para aqueles fotossensíveis (bilirrubina e urobilinogênio) é necessário proteger a amostra contra ação da luz.. Caso a amostra contenha bactérias, a refrigeração reduzirá o crescimento bacteriano, minimizando a obtenção de resultados incorretos com vários parâmetros na pesquisa com a tira reagente. Entretanto, pode haver a precipitação de uratos e fosfatos que podem interferir no exame microscópico. Além disso, leucócitos e hemácias podem sofrer lise e os cilindros podem se dissolver, com redução significativa de seu número, após 2-4 horas, mesmo sob refrigeração. Quanto maior o tempo, maior a decomposição dos elementos, especialmente quando a urina está alcalina e a densidade é baixa. Urinas refrigeradas devem estar à temperatura ambiente antes de serem testadas, uma vez que algumas das reações químicas da tira reagente são dependentes da temperatura.

Amostras mantidas a temperatura ambiente por mais de 2 horas não devem ser aceitas para teste, devendo ser desprezadas. Vários elementos químicos células e cilindros podem ser perdidos levando a resultados incorretos (Tabela 1).

Constituinte pH

Glicose Nitrito

Cetonas

Bilirrubina

Urobilinogênio Hemácias/Leucócitos

Cilindros

Alteração aumento diminuição presente ausente diminuição diminuição diminuição diminuição diminuição

Mecanismo

Produção de amônia, a partir de uréia, por bactérias contaminantes

Glicólise por ação de bactérias

Produção por bactérias contaminantes Degradação a nitrogênio, seguida de evaporação

Conversão do ácido acetoacético a acetona, evaporação da acetona

Oxidação a biliverdina por exposição à luz

Oxidação a urobilina por exposição à luz Lise

Dissolução

6. Influências Pré-analíticas Além dos fatores relacionados com a coleta e armazenamento da amostra, diversas condições como: jejum, ingestão hídrica, dieta, esforço físico, gravidez que são capazes de alterar a concentração dos componentes urinários, interferindo no resultado, apesar do processo analítico estar correto. A Tabela 2 apresenta as principais influências pré-analíticas relacionadas com a pesquisa com a tira reagente.

Dieta: Dieta rica em proteína de origem animal pode levar a maior acidez da urina. Alguns medicamentos contendo cloreto de amônio ou fosfatos ácidos são utilizados para acidificar a urina no tratamento de litíase renal. Por outro lado, dieta rica em vegetais e frutas, especialmente, cítricas pode induzir a formação de urina alcalina. O mesmo ocorre com o uso de bicarbonato de sódio e outras drogas alcalinizantes para o tratamento de certos tipos de cálculos renais. O jejum prolongado, em geral associado a condições como desidratação, febre, vômito e diarréia, pode levar a cetonúria. O uso de dieta pobre em carboidratos visando a redução de peso corporal pode causar cetonúria. Ingestão de grandes quantidades de lípides pode, também, resultar em cetonúria. Praticamente, todo o nitrato presente na urina é proveniente da ingestão de vegetais. Indivíduos que ingerem pequena quantidade destes alimentos, aqueles em uso de dieta parenteral ou, ainda, indivíduos desnutridos podem apresentar quantidades insuficientes de nitrato na urina para conversão em nitrito, levando a resultados falso negativos na pesquisa de nitrito, em caso de infeção urinária. Diurese: Vários constituintes da urina têm sua concentração alterada com mudanças do volume urinário (diurese) do paciente devido à variação da ingestão hídrica, redução da capacidade de concentração renal ou ingestão de agentes diuréticos. O jejum antes da coleta da primeira urina da manhã é recomendado para reduzir a diurese e obter amostra mais concentrada. Esforço físico e postura corporal: O esforço físico parece aumentar a filtração glomerular como resultado do aumento da pressão arterial, levando ao aparecimento ou aumento de proteinúria (albuminúria) e hematúria. A coleta da primeira urina da manhã, evitando-se a realização de esforços físicos vigorosos, minimiza esta influência. Proteinúria ortostática ou postural ocorre em 3 - 5% de indivíduos adultos jovens aparentemente saudáveis. Nestes indivíduos, a proteinúria é observada durante o dia, com realização de suas atividades habituais, e desaparece quando o indivíduo permanece em decúbito. A primeira urina da manhã, invariavelmente, apresenta conteúdo de proteínas normal nestes pacientes.

A tira reagente no exame de urina

TABELA 1 Alterações observadas em amostra de urina mantidas a temperatura ambiente após 2 horas.

Gravidez: A gravidez está associada à glicosúria devido ao aumento da taxa de filtração glomerlar e à diminuição da capacidade de reabsorção da glicose pelas celulares tubulares renais. As alterações da hemodinâmica renal observadas na gravidez podem levar, também, a proteinúria transitória, porém qualquer proteinúria durante a gestação deve ser considerada significativa e investigada. Leucocitúria fisiológica é outro achado que pode ser observado durante a gravidez. Mulheres grávidas podem apresentar valor baixo de glicose sanguínea em jejum associado a cetonúria moderada. Tempo de permanência da urina na bexiga: A permanência da urina na bexiga por tempo entre 4-8 h permite o crescimento logarítmico de bactérias e a redução do nitrato por estas. Assim, a primeira urina da manhã é mais sensível para detectar a presença de bactérias na urina, tanto através da reação do nitrito, quanto por exames microbiológicos.

1. Princípio A tira reagente utilizada para a determinação do pH e densidade e a pesquisa de elementos químicos no quando as áreas de química seca entram em contato com a urina. Os princípios das reações incluídas na Uriquest, a tira da Labtest, são mostrados no Quadro 2.

exame de urina rotina é constituída por um suporte plástico contendo áreas impregnadas com reagentes químicos. Uma reação de cor se desenvolve

TABELA 2 Influências pré-analíticas relacionadas com a pesquisa com a tira reagente

Diminuição/Ausência Aumento/Presença

Luz solar direta na amostra Jejum prolongado, gravidez, esforço físico

Baixa ingestão de líquidos

Pó vaginal, intoxicação com chumbo, gravidez

Contaminação com secreção vaginal, gravidez, presença de Trichomonas sp

Crescimento bacteriano em urinas armazenadas à temperatura ambiente por mais de duas horas.

Dieta rica em vegetais e frutas,. produção de amônia por bactérias produtoras de urease

Esforço físico, postura ortostática, gravidez

Esforço físico vigoroso, contaminação com menstruação Acetona, bilirrubina, maior excreção à tarde

Bilirrubina Cetonas

Densidade Glicose

Leucócitos

Nitrito pH

Proteína Sangue

Urobilinogênio

Evaporação das cetonas Ingestão acentuada de líquidos, uso de diuréticos

Bacteriúria

Baixa ingestão de vegetais, incubação insuficiente na bexiga, bactérias não produtoras de nitrato redutase, conversão de nitrito a nitrogênio

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