Análise ergonômica do trabalho em um Salão de Beleza

Análise ergonômica do trabalho em um Salão de Beleza

Análise ergonômica do trabalho – Um estudo de caso em um Salão de beleza

Resumo

Este documento apresenta a análise ergonômica do trabalho em um salão de beleza localizado na cidade de Ouro Preto em que se buscou mostrar de que maneira as condições de trabalho podem afetar o desenvolvimento das atividades. O estudo foi realizado através de observações no posto de trabalho tem como base determinadas normas regulamentadoras, auxílio de equipamentos de medição das condições ambientais, questionários aplicados aos trabalhadores, em que os dados coletados referentes à biomecânica e antropometria foram analisados através das ferramentas do software Ergolândia. Assim foram utilizados diversos mecanismos que garantiram a realização de uma análise ergonômica objetivando uma melhoria no posto de trabalho e a diminuição de riscos ocupacionais.

Palavras Chaves: Análise ergonômica, salão de beleza, condições de trabalho.

Introdução

De acordo com a IEA – Associação Internacional de Ergonomia – a ergonomia é definida como uma disciplina científica relacionada ao entendimento das interações entre os seres humanos e outros elementos ou sistemas, e à aplicação de teorias, princípios, dados e métodos a projetos a fim de otimizar o bem estar humano e o desempenho global do sistema.

A Associação Internacional de Ergonomia divide a ergonomia em três domínios de especialização. São eles:

Ergonomia Física: que lida com as respostas do corpo humano à carga física e psicológica. Tópicos relevantes incluem manipulação de materiais, arranjo físico de estações de trabalho, demandas do trabalho e fatores tais como repetição, vibração, força e postura estática, relacionada com lesões músculo-esqueléticas.

Ergonomia Cognitiva: também conhecida engenharia psicológica, refere-se aos processos mentais, tais como percepção, atenção, cognição, controle motor e armazenamento e recuperação de memória, como eles afetam as interações entre seres humanos e outros elementos de um sistema. Tópicos relevantes incluem carga mental de trabalho, vigilância, tomada de decisão, desempenho de habilidades, erro humano, interação humano-computador e treinamento.

Ergonomia Organizacional: ou macroergonomia, relacionada com a otimização dos sistemas sócio-técnicos, incluindo sua estrutura organizacional, políticas e processos. Tópicos relevantes incluem trabalho em turnos, programação de trabalho, satisfação no trabalho, teoria motivacional, supervisão, trabalho em equipe, trabalho à distância e ética.

Análise Ergonômica do Trabalho

A ergonomia visa transformar o trabalho de forma a adaptá-lo às características e variabilidade do homem e do processo produtivo , envolvendo além do ambiente físico (máquinas e equipamentos), os aspectos ambientais e organizacionais referentes à maneira como o trabalho é controlado.

A partir do proposto pela disciplina foi realizado um estudo com o objetivo de identificar e analisar as condições de trabalho e como estas afetam o trabalhador. A aplicação desse estudo busca conduzir e orientar modificações no sistema de trabalho, permitindo maior segurança e conforto operatório, integrando critérios de produtividades e qualidade. O posto de trabalho estudado foi o salão de beleza, Espaço Vip, localizado na Bauxita, Ouro Preto que é composto por um quadro de três funcionárias, sendo duas cabeleireiras e uma manicure.

Análise Organizacional

O salão se caracteriza por apresentar um sistema de divisão de tarefas, em que cada funcionária exerce uma determinada função de acordo com sua especialização, sem revezamento. A jornada de trabalho depende da semana/dia, variando de 8 a 10 horas por dia. Não há horário fixo de entrada e saída, cada funcionária organiza seu tempo de trabalho conforme sua agenda. Sobre a questão das pausas de trabalho, segundo as funcionárias não há horário e quantidades definidos variando de acordo com os horários de atendimentos.

Quanto ao fator de remuneração, as funcionárias relataram receber comissão por cada atendimento, mas a porcentagem não foi informada. As mesmas afirmaram não possuir carteira assinada e quanto ao benefício de férias, somente a proprietária do salão alegou possuir o benefício.

Pelo questionário foi relatado que as três funcionárias possuem treinamento/ curso, sendo que estes não foram oferecidos pela empresa uma vez que as funcionárias já realizaram cursos de especialização para trabalhar na área de estética e possuírem experiência por já terem trabalhado em outros salões.

Análise dos aspectos psicológicos dos trabalhadores

Para a realização dessa análise foram aplicado questionários que por meio dos dados coletados, foi possível observar que no salão as três funcionárias trabalham de maneira independente e não encontram dificuldades ao executar suas atividades. Cada funcionária é responsável pelo bom funcionamento de sua tarefa. Não há supervisão por parte da proprietária do salão, que é uma das cabeleireiras, o que proporciona maior autonomia na realização das tarefas, uma vez que não existe pressão para alcançar metas produtivas e garantir a qualidade dos serviços oferecidos.

Ao serem questionadas sobre o convívio entre si observou – se que as funcionárias possuem um bom relacionamento no local de trabalho.

Devido ao grau de repetitividade das tarefas e das condições ambientais do posto de trabalho, como temperatura e ruídos, a sensação do cansaço mental é visível entre os trabalhadores. As funcionárias afirmam no questionário que suas atividades apresentam o elevado nível de cansaço mental, uma média de 8, numa escala de 1 a 10, mas que estão satisfeitas com o seu trabalho.

Análise das condições físicas

Durante as visitas ao posto de trabalho além da aplicação dos questionários foram feitas algumas observações quanto às condições físicas do salão. Notou-se uma desorganização na disposição das ferramentas de trabalho, ausência de ventilação adequada uma vez que se trabalha com aquecimento de secadores e chapinhas e limitação no espaço para executar as tarefas.

Análise antropométrica

Para realização da análise antropométrica realizou-se medições no assento da manicure e sua altura. Os dados coletados foram analisados pelo programa Ergolândia em que o assento foi considerado irregular (muito baixo) em relação à altura da funcionária. De acordo com o programa o assento está 6,1 cm a menos do ideal. As condições do assento prejudica a estabilidade durante a execução da tarefa uma vez que o corpo desliza para frente. Quanto o assento em que as cabeleireiras realizam suas atividades, a altura é regulável, o que proporciona uma melhor execução.

Análises das condições posturais dos trabalhadores

A biomecânica preocupa-se com as interações físicas do trabalhador, com o seu posto de trabalho, máquinas, ferramentas e materiais, visando reduzir os riscos de distúrbios musculoesqueléticos. Analisa basicamente a questão das posturas corporais no trabalho, aplicação de forças, bem como as suas consequências.

A má postura na realização das atividades traz ao trabalhador uma sensação forte de fadiga muscular, principalmente nas regiões das pernas, ombros e antebraços.

A análise das condições posturais foi realizada através da aplicação das ferramentas do software Ergolândia e do diagrama de Corlett. Os métodos utilizados foram o OWAS, Moore and Garg, QUEC e REBA. Os dados analisados em cada método foram colhidos através das observações durante a execução das atividades. Os resultados demonstraram a necessidade das correções posturais, redução da duração e frequência do esforço.

Para a postura sentada, as condições da cadeira da manicure para aplicação das atividades é inadequada, pois ela não possui ajuste para altura e não apresenta apoio para lombar o que provoca dores e desconforto a funcionária. Para a postura das cabeleireiras no lavatório, as condições são também inadequadas, pois se faz necessário inclinar muito a coluna para a realização da tarefa, provocando dor, desconforto e possíveis complicações futuras.

Condições ambientais

Em relação aos aspectos ambientais, verificou-se uma grande interferência das condições existentes no desenvolvimento do trabalho. Durante as visitas foram analisados diversas variáveis ambientais que podem representar desconforto aos trabalhadores. Com o auxilio de equipamentos de medições foram verificados as condições de temperatura, ruído e iluminação no posto de trabalho e ao final os resultados foram comparados com os valores estabelecidos pela norma regulamentadora.

- Temperatura

O clima de trabalho deve satisfazer a diversas condições, para que ser considerado confortável. Alguns fatores podem ser destacados, como por exemplo: temperatura, calor radiante, velocidade do ar e humidade relativa.

Muitos trabalhos são executados em condições desfavoráveis, causando problemas a curto, médio e longo prazo para o trabalhador. Condições ruins causam um prejuízo tanto para o empregado quanto para a local onde o mesmo desempenha suas funções.

Temperatura:

O frio e o calor intensos são desconfortáveis e provocam sobrecarga energética no corpo.

Cada pessoa tem sua preferência e em alguns casos (como em um escritório) é possível haver uma maior flexibilidade. De uma forma geral, trabalhos mais pesados exigem uma temperatura mais amena no ambiente.

A tabela abaixo mostra a temperatura do ar recomendada para vários tipos de esforços físicos:

Temperaturas acima de 24°C provocam queda do rendimento e aumento dos erros, havendo necessidade de concessão de pausas para a recuperação do organismo.

Na medição feita no Salão, foi registrada a temperatura de 25,9 graus Celsius. O valor é alto até mesmo para trabalhos mais leves.

Umidade:

O ar muito úmido (umidade relativa acima de 70%) ou muito seco (umidade relativa abaixo de 30%) pode afetar o conforto térmico. No primeiro caso a evaporação do suor é dificultada e no segundo o trabalhador estará sujeito a irritações nos olhos e nas mucosas.

A umidade registrada no salão foi de 62,5% e, portanto, esta dentro do padrão recomendado.

Tópicos previstos na Norma Regulamentadora 17 (NR 17):

> Índice de temperatura efetiva entre 20°C e 23°C;

> Velocidade do ar não superior a 0,75m/s;

> Umidade relativa do ar não inferior a 40%.

Medidas que podem ser tomadas para que a temperatura no ambiente seja mais agradável vão desde a colocação de um ar condicionado no local até a redistribuição dos objetos de modo que a circulação do ar se torne mais fácil. Considerando os impactos disso no rendimento e saúde dos trabalhadores é importante cuidar para que todas as normas sejam respeitadas.

- Ruído

A preocupação com os efeitos do ruído sobre a saúde é bastante antiga. Desde a Revolução Industrial, a questão saúde x trabalho ocupava lugar de destaque frente aos prejuízos que os trabalhadores sofriam no ambiente de trabalho.

A perda auditiva relacionada à estimulação sonora tem sido assunto de grande interesse para pesquisadores da área da saúde ocupacional. A exposição prolongada a ruídos de intensidade elevada pode levar a evolução da fadiga auditiva fisiológica para patológica. Assim, os danos auditivos tornam-se irreversíveis.

Os sintomas decorrentes da exposição continuada a ruídos evoluem também para fatores não auditivos, podendo comprometer as atividades físicas, fisiológicas e mentais do indivíduo. Cefaleia, cansaço, insônia, ansiedade, tontura, irritabilidade, dentre outros, são alguns exemplos. As consequências causadas pela exposição ao ruído ainda são desconhecidas pela maioria da população.

Trabalhar sob influência sonora de ambientes com barulho tem feito cada vez mais vítimas da PAIR (Perda Auditiva Induzida por Ruído), que ocupa o segundo lugar entre as doenças mais frequentes do aparelho auditivo e entre as doenças ocupacionais que mais afetam os trabalhadores. No caso dos salões de beleza, a situação se complica, já que além do ruído excessivo (mais de 90 decibéis) causado pelos secadores de cabelo, a vibração do equipamento também prejudica a audição.

De acordo com a Norma Regulamentadora (NR 15 - ATIVIDADES E OPERAÇÕES INSALUBRES), os níveis recomendados para máxima exposição diária são:

Nas medições feitas com medidor de pressão sonora, identificou-se que o ruído existente no posto de trabalho foi de 83,3 dB, não atingindo o limite de tolerância para ruído contínuo ou intermitente; considerando a jornada de trabalho do salão em torno de 10h, a exposição máxima diária permitida de 83 dB (A) em nível de ruído conforme o anexo 1 da NR-15, não há consequentemente necessidade de melhoria ou adequações para os postos de trabalho, tampouco a utilização de Equipamentos de Proteção Individuais (EPI) para a questão de ruído.

Portanto, o ruído além de um incômodo, quando apresentando de forma contínua e constante torna-se agente causador de doença. A atividade exercida por funcionários de centros de beleza (cabeleireiros, assistentes de cabeleireiros, manicuras e esteticistas) envolve exposição ao ruído dos secadores, e de outros tipos de instrumentos auxiliares para o tratamento estético. Com isso, os funcionários de centros de beleza encontram-se dentro de uma população que sofrem os efeitos acumulativos da exposição ao ruído, e isto pode vir a trazer consequências que podem interferir na qualidade de vida dos mesmos.

- Iluminaçã

A intensidade da luz que incide sobre a superfície de trabalho deve ser suficiente para garantir uma boa visibilidade. Entende-se por lux a unidade de medida que expressa a intensidade de luz que incide sobre a superfície de trabalho. E luminância é a quantidade de luz que é refletida para os olhos, medida em candela pro m2 .

Para a execução de determinadas tarefas existem níveis de iluminamento (quantidade de luz que incide sobre uma superfície) recomendados:

Tipo

Iluminação Recomendada em lux

Exemplos de aplicação

Iluminação Geral de Ambientes Externos

5-50

Iluminação externa de locais públicos.

Iluminação geral para locais de pouco uso

20-50

Iluminação mínima de corredores e almoxarifados, zonas de estacionamento.

100-150

Escadas, corredores, banheiros, zonas de circulação, depósitos e almoxarifados.

Iluminação geral em locais de trabalho

200-300

Iluminação mínima de serviço. Fábricas com maquinaria pesada. Iluminação geral de escritórios, hospitais, restaurantes.

400-600

Trabalhos manuais pouco exigentes. Oficinas em geral. Montagem de automóveis, indústrias de confecções. Leitura ocasional e arquivo. Sala de primeiros socorros.

1000-1500

Trabalhos manuais precisos. Montagem de pequenas peças, instrumentos de precisão e componentes eletrônicos. Trabalhos com revisão e desenhos detalhados.

Iluminação localizada

1500-2000

Trabalhos minuciosos e muito detalhados. Manipulação de peças pequenas e complicadas. Trabalhos de relojoaria.

Tarefas especiais

3000-10000

Tarefas especiais de curta duração e de baixos contrastes, como em operações cirúrgicas.

Pela tabela, vemos que para lugares onde não há tarefas exigentes, uma luz ambiental de 5 a 150 lux é suficiente. Para tarefas normais, usa-se a intensidade de 200 a 800 lux. Finalmente, para tarefas que exigem grande esforço visual, o nível de iluminação pode estar compreendido entre 800 e 3000 lux.

A iluminação no ambiente de trabalho pode ser melhorada de modo a não causar fadiga no trabalhador. Algumas medidas que visam a melhoria da iluminação são: melhorar a legibilidade da informação, combinar a iluminação localizada com a ambiental, luz natural pode ser usada para o ambiente, quebrar as incidências diretas nos olhos, evitar reflexos e sombras e evitar oscilações da luz fluorescente.

Normas Regulamentadoras

As Normas Regulamentadoras, conhecidas como NRs, regulamentam e fornecem orientações sobre procedimentos obrigatórios relacionados à segurança e medicina do trabalho. Essas normas são citadas no Capítulo V, Título II, da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Foram aprovadas pela Portaria N.° 3.214, 8 de junho de 1978, são de observância obrigatória por todas as empresas brasileiras regidas pela CLT e são periodicamente revisadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

O trabalho foi fundamentado a partir das normas a seguir:

Norma Regulamentadora Nº 15 – Atividades e operações insalubres

No salão utiliza-se na técnica de escovação progressiva o formaldeído (formol), substância química altamente ofensiva à saúde. Durante a manipulação do formol as funcionárias adotam- se os procedimentos necessários de proteção com o uso de luvas e máscaras sendo que uma das cabeleireiras precisa se ausentar do salão por ser alérgica ao produto.

Norma Regulamentadora Nº 17 – Ergonomia

Análise ergonômica realizada no salão de beleza fundamenta-se na norma regulamentadora 17, que abrange os aspectos ergonômicos de levantamento, transporte e descarga individual de materiais, mobiliários dos postos de trabalho, equipamentos dos trabalhos, condições ambientais de trabalho e organização do trabalho.

Norma Regulamentadora Nº 23 – Proteção contra incêndios

De acordo com a NR 23 foi observado que o posto de trabalho não segue as normas previstas uma vez que não possui extintor de incêndio no local. Quanto às saídas de emergência, por ser um ambiente único, não existe uma saída além da de acesso ao salão.

Norma Regulamentadora Nº24 - Condições Sanitárias e de Conforto nos Locais de Trabalho

Pela norma regulamentadora 24, que trata das condições sanitárias e de conforto no locais de trabalho, observou- se que as instalações estão de acordo referentes a quantidade de funcionárias que atuam no salão.

Considerações feitas a partir da análise ergonômica

De acordo com as análises feitas dentre as condições ambientais e organizacionais importantes na analise ergonômica, foram identificados aspectos que influenciam negativamente na saúde ocupacional dos trabalhadores além de provocarem insatisfação no ambiente de trabalho:

- um importante fator de risco à saúde quanto às condições físicas no salão é a presença de cadeiras inadequadas que levam as funcionárias a forçarem cada vez mais a coluna;

- longa jornada de trabalho;

- elevado grau de esforço e frequência com os movimentos repetitivos;

- aspectos desfavoráveis em relação à temperatura com a ausência de ventilação, o que leva a um maior gasto energético;

- limitação no espaço para executar as tarefas e falta de um padrão de desorganização.

- desmotivação com a ausência de carteira assinada que garante os benefícios da aposentadoria, bem com a ausência de férias.

Conclusão

O estudo realizado no salão de beleza Espaço Vip foi importante para verificar a importância e necessidade da implantação de programas de melhoria contínua na qualidade de vida dos trabalhadores.

A expansão dos serviços prestados pelos salões de beleza que possuem um ritmo de produção elevado deve ser acompanhada por uma implantação de um programa eficaz que atenda as medidas ergonômicas dentro dos limites aceitáveis pela NR-17, garantindo aos seus funcionários uma maior qualidade nas condições de trabalho, fazendo com que estes se sintam mais motivados e mais produtivos.

Feita a análise, fica claro a necessidade de transformações das condições de trabalho no salão, que garantem as funcionárias conforto, maior rendimento evitando problemas futuros resultados pela deficiência no posto de trabalho.

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