Monteiro Lobato - Reinações de Narizinho

Monteiro Lobato - Reinações de Narizinho

(Parte 3 de 7)

— Perdoar de quê? — exclamou o príncipe, que tinha a memória muito fraca.

— Pois não o condenou a engolir cem pedrinhas redondas? Já engoliu noventa e nove e está engasgado com a última. Não entra. Não cabe! Está lá no jardim, de barriga estufada, gemendo e chorando que não me deixa dormir.

O príncipe danou. — É muito estúpido o Major! Eu falei aquilo de brincadeira. Diga-lhe que desengula as pedrinhas e não me incomode.

Narizinho foi, pulando de contente, dar a boa notícia ao sapo. — Está perdoado, Major! O príncipe manda ordem para desengolir as pedrinhas e voltar ao serviço.

Por mais esforço que fizesse, o sapo não conseguiu aliviar-se das pedras. Estava empachado.

— Impossível! — gemeu ele. — O único jeito é o doutor Caramujo abrir-me a barriga com a sua faquinha e tirar as pedras uma por uma com o ferrão de caranguejo que lhe serve de pinça.

— Nesse caso, muito boa noite, senhor sapo. Só amanhã poderemos tratar disso. Tenha paciência e cuide de não morrer até lá.

O sapo agradeceu a boa ação da menina, prometendo que se pudesse fugir das garras do príncipe iria morar no sítio de dona Benta para manter a horta limpa de lesmas e lagartas.

Narizinho recolheu-se de novo, e já ia pulando para a cama quando se lembrou do Pequeno Polegar, que deixara escondido na concha.

esperar por mim

— Ah, meu Deus! Que cabeça a minha! O coitadinho deve estar cansado de

desaparecido com a concha e tudo

E foi correndo à gruta dos tesouros. Mas perdeu a viagem. Polegar havia

VII - A pílula falante

No outro dia a menina levantou-se muito cedo para levar a boneca ao consultório do doutor Caramujo. Encontrou-o com cara de quem havia comido um urutu recheado de escorpiões. — Que há, doutor?

todas

— Há que encontrei o meu depósito de pílulas saqueado. Furtaram-me

— Que maçada! — exclamou a menina aborrecidíssima. – Mas não pode fabricar outras? Se quiser, ajudo a enrolar.

— Impossível. Já morreu o besouro boticário que fazia as pílulas, sem haver revelado o segredo a ninguém. A mim só me restava um cento, das mil que comprei dos herdeiros. O miserável ladrão só deixou uma — e imprópria para o caso porque não é pílula falante. — E agora?

— Agora, só fazendo uma certa operação. Abro a garganta da boneca muda e ponho dentro uma falinha, respondeu o doutor, pegando na sua faca de ponta para amolar. Já providenciei tudo.

Nesse momento ouviu-se grande barulheira no corredor. — Que será? — indagou a menina surpresa.

— É o papagaio que vem vindo — declarou o doutor.

— Que papagaio, homem de Deus? Que vem fazer aqui esse papagaio? Mestre Caramujo explicou que como não houvesse encontrado suas pílulas mandara pegar um papagaio muito falador que havia no reino. Tinha de matá-lo para extrair a falinha que ia pôr dentro da boneca.

Narizinho, que não admitia que se matasse nem formiga, revoltou-se contra a barbaridade.

— Então não quero! Prefiro que Emília fique muda toda a vida a sacrificar uma pobre ave que não tem culpa de coisa nenhuma.

Nem bem acabou de falar, e os ajudantes do doutor, uns caranguejos muito antipáticos, surgiram à porta, arrastando um pobre papagaio de bico amarrado. Bem que resistia ele, mas os caranguejos podiam mais e eram murros e mais murros.

Furiosa com a estupidez, Narizinho avançou de sopapos e pontapés contra os brutos.

— Não quero! Não admito que judiem dele! – berrou vermelhinha de cólera, desamarrando o bico do papagaio e jogando as cordas no nariz dos caranguejos.

O doutor Caramujo desapontou, porque sem pílulas nem papagaios era impossível consertar a boneca. E deu ordem para que trouxessem o segundo paciente.

Apareceu então o sapo num carrinho. Teve de vir sobre rodas por causa do estufamento da barriga; parece que as pedras haviam crescido de volume dentro. Como ainda estivesse vestido com a saia e a touca da Emília, Narizinho viu-se obrigada a tapar a boca para não rir-se em momento tão impróprio.

O grande cirurgião abriu com a faca a barriga do sapo e tirou com a pinça de caranguejo a primeira pedra. Ao vê-la à luz do sol sua cara abriu-se num sorriso caramujal.

queridas pílulas! Mas como teria ela ido parar na barriga deste sapo?

— Não é pedra, não! — exclamou contentíssimo. — É uma das minhas

Enfiou de novo a pinça e tirou nova pedra. Era outra pílula! E assim foi indo até tirar lá de dentro noventa e nove pílulas.

A alegria do doutor foi imensa. Como não soubesse curar sem aquelas pílulas, andava com medo de ser demitido de médico da corte.

— Podemos agora curar a senhora Emília — declarou ele depois de costurar a barriga do sapo.

Veio a boneca. O doutor escolheu uma pílula falante e pôs-lhe na boca. — Engula duma vez! — disse Narizinho, ensinando à Emília como se engole pílula. E não faça tanta careta que arrebenta o outro olho.

Emília engoliu a pílula, muito bem engolida, e começou a falar no mesmo instante. A primeira coisa que disse foi: “Estou com um horrível gosto de sapo na boca!” E falou, falou, falou mais de uma hora sem parar. Falou tanto que Narizinho, atordoada, disse ao doutor que era melhor fazê-la vomitar aquela pílula e engolir outra mais fraca.

— Não é preciso — explicou o grande médico. — Ela que fale até cansar.

Depois de algumas horas de falação, sossega e fica como toda gente. Isto é “fala recolhida”, que tem de ser botada para fora.

E assim foi. Emília falou três horas sem tomar fôlego. Por fim calou-se. — Ora graças! — exclamou a menina. — Podemos agora conversar como gente e saber quem foi o bandido que assaltou você na gruta. Conte o caso direitinho.

Emília empertigou-se toda e começou a dizer na sua falinha fina de boneca de pano:

cascas
— Que cascas, Emília? Você parece que ainda não está regulando

— Pois foi aquela diaba da dona Carocha. A coroca apareceu na gruta das — Cascas, sim — repetiu a boneca teimosamente.

coroca apareceu e começou a procurar aquele boneco

— Dessas cascas de bichos moles que você tanto admira e chama conchas. A — Que boneco, Emília?

com ela debaixo do cobertor

— O tal Polegada que furava bolos e você escondeu numa casca bem lá no fundo. Começou a procurar e foi sacudindo as cascas uma por uma para ver qual tinha boneco dentro. E tanto procurou que achou. E agarrou na casca e foi saindo — Da mantilha, Emília!

— Do COBERTOR.

— Mantilha, boba!

com tanta força que dormi. Só acordei quando o doutor Cara de Coruja

— COBERTOR. Foi saindo com ela debaixo do COBERTOR e eu vi e pulei para cima dela. Mas a coroca me unhou a cara e me bateu com a casca na cabeça, — Doutor Caramujo, Emília!

— Doutor CARA DE CORUJA. Só acordei quando o doutor CARA DE

CORUJÍSSIMA me pregou um liscabão.

— Beliscão — emendou Narizinho pela última vez, enfiando a boneca no bolso. Viu que a fala da Emília ainda não estava bem ajustada, coisa que só o tempo poderia conseguir. Viu também que era de gênio teimoso e asneirenta por natureza, pensando a respeito de tudo de um modo especial todo seu.

— Melhor que seja assim, — filosofou Narizinho. — As idéias de vovó e tia

Nastácia a respeito de tudo são tão sabidas que a gente já as adivinha antes que elas abram a boca. As idéias de Emília hão de ser sempre novidades.

— Narizinho, vovó está chamandoTamanho susto causou aquele trovão

E voltou para o palácio, onde a corte estava reunida para outra festa que o príncipe havia organizado. Mas assim que entrou na sala de baile, rompeu um grande estrondo lá fora — o estrondo duma voz que dizia: entre os personagens do reino marinho, que todos se sumiram, como por encanto. Sobreveio então uma ventania muito forte, que envolveu a menina e a boneca, arrastando-as do fundo do oceano para a beira do ribeirãozinho do pomar. Estavam no sítio de dona Benta outra vez. Narizinho correu para casa. Assim que a viu entrar, dona Benta foi dizendo:

— Uma grande novidade, Lúcia. Você vai ter agora um bom companheiro aqui no sítio para brincar. Adivinhe quem é?

A menina lembrou-se logo do Major Agarra, que prometera vir morar com ela.

— Já sei vovó! É o Major Agarra-e-não-larga-mais. Ele bem me falou que vinha.

Dona Benta fez cara de espanto. — Você está sonhando, menina. Não se trata de major nenhum.

— Se não é o sapo, então é o papagaio! — continuou Narizinho, recordandose de que também o papagaio prometera vir visitá-la.

— Qual sapo, nem papagaio, nem elefante, nem jacaré. Quem vem passar uns tempos conosco é o Pedrinho, filho da minha filha Antonica.

Lúcia deu três pinotes de alegria. — E quando chega o meu primo? — indagou.

— Deve chegar amanhã de manhã. Apronte-se. Arrume o quarto de hóspedes e endireite essa boneca. Onde se viu uma menina do seu tamanho andar com uma boneca em fraldas de camisa e de um olho só?

— Culpa dela, dona Benta! Narizinho tirou minha saia para vestir o sapão rajado — disse Emília falando pela primeira vez depois que chegara ao sítio.

— Corra, Nastácia! Venha ver este fenômeno

Tamanho susto levou dona Benta, que por um triz não caiu de sua cadeirinha de pernas serradas. De olhos arregaladíssimos, gritou para a cozinha: A negra apareceu na sala, enxugando as mãos no avental. — Que é, sinhá? — perguntou.

— A boneca de Narizinho está falando!A boa negra deu uma risada

gostosa, com a beiçaria inteira.

— Impossível, sinhá! Isso é coisa que nunca se viu. Narizinho está mangando com mecê.

— Mangando o seu nariz! — gritou Emília furiosa. — Falo, sim, e hei de falar. Eu não falava porque era muda, mas o doutor Cara de Coruja me deu uma bolinha de barriga de sapo e eu engoli e fiquei falando e hei de falar a vida inteira, sabe?

— E fala mesmo, sinhá!— exclamou no auge do assombro.
— Fala que nem uma gente! Credo! O mundo está perdido

A negra abriu a maior boca do mundo. E encostou-se à parede para não cair.

I - As jabuticabas

De volta do reino das Águas Claras, Narizinho começou todas as noites a sonhar com o príncipe Escamado, dona Aranha, o doutor Caramujo e mais figurões que conhecera por lá. Ficou de jeito que não podia ver o menor inseto sem que se pusesse a imaginar a vida maravilhosa que teria na terrinha dele. E quando não pensava nisso pensava no Pequeno Polegar e nos meios de o fazer fugir de novo da história onde o coitadinho vivia preso.

Era este o assunto predileto das conversas da menina com a boneca. Faziam planos de toda sorte, cada qual mais amalucado.

Narizinho ria-se, ria-se

Emília tinha idéias de verdadeira louca. — Vou lá — dizia ela — e agarro nas orelhas da dona Carocha e dou um pontapé naquele nariz de papagaio e pego o Polegada pelas botas e venho correndo. — Vai lá onde, Emília?

— E onde mora a velha? A boneca não sabia, mas não se atrapalhava na resposta. Emília nunca se atrapalhou nas suas respostas. Dizia as maiores asneiras do mundo, mas respondia.

— A velha mora com o Pequeno Polegada. — Polegar, Emília!

— PO-LE-GA-DA. Era teimosa como ela só. Nunca disse doutor Caramujo. Era sempre doutor

Cara de Coruja. E nunca quis dizer Polegar. Era sempre Polegada.

— Muito bem — concordou a menina. — A velha mora com Polegar e

Polegar mora com a velha. Mas onde moram os dois?

— Moram juntos. Narizinho ria-se, dizendo: “Possa-se com uma diabinha destas!” Dona Benta era outra que achava muita graça nas maluquices da boneca.

Todas as noites punha-a ao colo para lhe contar histórias. Porque não havia no mundo quem gostasse mais de história do que a boneca. Vivia pedindo que lhe contassem a história de tudo – do tapete, do cuco, do armário. Quando soube que Pedrinho, o outro neto de dona Benta, estava para vir passar uns tempos no sítio, pediu a história de Pedrinho.

— Pedrinho não tem história — respondeu dona Benta rindo-se. — É um menino de dez anos que nunca saiu da casa de minha filha Antonica e portanto nada fez ainda e nada conhece do mundo. Como há de ter história?

— Essa é boa! — replicou a boneca. — Aquele livro de capa vermelha da sua estante também nunca saiu de casa e no entanto tem mais de dez histórias dentro.

Dona Benta voltou-se para tia Nastácia. — Esta Emília diz tanta asneira que é quase impossível conversar com ela.

Chega a atrapalhar a gente.

— É porque é de pano, sinhá — explicou a preta — e dum paninho muito ordinário. Se eu imaginasse que ela ia aprender a falar, eu tinha feito ela de seda, ou pelo menos dum retalho daquele seu vestido de ir à missa.

aquela explicação muito parecida com as da Emília

Dona Benta olhou para tia Nastácia dum certo modo, como que achando

Nisto apareceu Narizinho, com uma carta para dona Benta trazida pelo correio.

— Letra da sua filha Tonica, vovó — disse a menina. – Com certeza é marcando a viagem de Pedrinho.

Dona Benta leu. Era isso mesmo. Pedrinho viria dali uma semana. — Uma semana ainda? — comentou Narizinho, desanimada de tanta demora.

Claras

Que pena! Tenho tanta coisa a contar a Pedrinho — coisas do reino das Águas

— Não sei que reino é esse. Você nunca me falou nele, — disse dona Benta com cara de surpresa.

que salvei da morte — quanta coisa!Até baleias vimos lá, uma baleia enorme,

— Não falei nem falo porque a senhora não acredita. uma beleza de reino, vovó! Um palácio de coral que parece um sonho! E o príncipe Escamado, e o doutor Caramujo, e dona Aranha com suas seis filhinhas, e o major Agarra, e o papagaio dando de mamar a três baleinhas. Vi um milhão de coisas mas não posso contar nada nem para vovó nem para tia Nastácia porque não acreditam.

Para Pedrinho, sim, posso contar tudo, tudo... Dona Benta, de fato, nunca dera crédito às histórias maravilhosas de

Narizinho. Dizia sempre: “Isso são sonhos de crianças.” Mas depois que a menina fez a boneca falar, dona Benta ficou tão impressionada que disse para a boa negra: — Isto é um prodígio tamanho que estou quase crendo que as outras coisas fantásticas que Narizinho nos contou não são simples sonhos, como sempre pensei.

ter encontrado por aí alguma varinha de condão que alguma fada tenha perdidoEu
ordinário, falando, sinhá, falando que nem uma gente!Qual, ou nós estamos
caducando ou o mundo está perdido

— Eu também acho, sinhá. Essa menina é levada da breca. É bem capaz de também não acreditava no que ela dizia, mas depois do caso da boneca fiquei até transtornada da cabeça. Pois onde é que já se viu uma coisa assim, sinhá, uma boneca de pano, que eu mesma fiz com estas pobres mãos, e de um paninho tão

E as duas velhas olhavam uma para a outra, sacudindo a cabeça. Narizinho não gostava de esperar; ficou pois aborrecida de ter de esperar Pedrinho ainda uma semana inteira. Felizmente era tempo de jabuticabas.

No sítio de dona Benta havia vários pés, mas bastava um para que todos se regalassem até enjoar. Justamente naquela semana as jabuticabas tinham chegado “no ponto” e a menina não fazia outra coisa senão chupar jabuticabas. Volta e meia trepava à árvore, que nem uma macaquinha. Escolhia as mais bonitas, punha-as entre os dentes e tloc! E depois do tloc, uma engolidinha de caldo e pluf! – caroço fora. E tloc, pluf, tloc, pluf, lá passava o dia inteiro na árvore.

As jabuticabas tinham outros fregueses além da menina. Um deles era um leitão muito guloso, que recebera o nome de Rabicó.

música da jabuticabeira era assim: tloc! pluf! nhoc! — tloc! pluf! nhoc!

Assim que via Narizinho trepar à árvore, Rabicó vinha correndo postar-se embaixo à espera dos caroços. Cada vez que soava lá em cima um tloc! seguido de um pluf! ouvia-se cá embaixo um nhoc! do leitão abocanhando qualquer coisa. E a

Sanhaços também, e abelhas e vespas. Vespas em quantidade, sobretudo no fim, quando as jabuticabas ficavam que nem um mel, como dizia Narizinho. Escolhiam as melhores frutas, furavam-nas com o ferrão, enfiavam meio corpo dentro e deixavam-se ficar muito quietinhas, sugando até caírem de bêbedas. — E não mordiam?

— Não tinham tempo. O tempo era pouco para aproveitarem aquela gostosura que só durava uns quinze dias.

Dessa vez em lugar do tloc do costume o que soou foi um berro — ai! ai! ai!tão

Não mordiam é um modo de dizer. Nunca tinham mordido, isso sim. Porque justamente naquela tarde uma mordeu. Estava Narizinho no seu galho, distraída em pensar na surpresa que teria o príncipe Escamado se recebesse uma jabuticaba de presente, quando levou à boca uma das tais furadinhas, com meia vespa dentro. bem berrado que lá dentro da casa as duas velhas ouviram. — Que será aquilo? — exclamou dona Benta assustada.

vespas!” mas não adianta, Narizinho não faz caso. Agora, está aí

— Aposto que é vespa, sinhá! — disse tia Nastácia. — Ela não sai da “fruteira” e, como nunca foi mordida, abusa. Eu vivo dizendo: “Cuidado com as

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