Monteiro Lobato - Reinações de Narizinho

Monteiro Lobato - Reinações de Narizinho

(Parte 4 de 7)

E foi correndo ao pomar acudir a menina. Encontrou-a já de volta, berrando com a língua à mostra, porque fora bem na ponta da língua que a vespa ferroara. A negra trouxe-a para casa, botou-a no colo e disse:

— Sossegue, boba, isso não é nada. Dói mas passa. Ponha a língua para eu arrancar o ferrão. Vespa quando morde deixa o ferrão no lugar da mordedura. Bem para fora. Assim.

Narizinho espichou meio palmo de língua e tia Nastácia, com muito custo, porque já tinha a vista fraca, pôde afinal descobrir o ferrãozinho e arrancá-lo.

— Pronto! — exclamou mostrando qualquer coisa na ponta duma pinça. —

mordida de cachorro bravo seria muito pior

Está aqui o malvado. Agora é ter paciência e esperar que a dor passe. Se fosse

Narizinho curtiu a dor por alguns minutos, de língua inchada e olhos vermelhos, soluçando de vez em vez. Depois que a dor passou, foi contar à boneca toda a história.

— Bem feito! — disse Emília. — Se fosse eu, antes de comer olhava cada fruta, uma por uma, com o binóculo de dona Benta.

Apesar do acontecido, Narizinho não pôde reprimir uma gargalhada, que tia

Nastácia ouviu lá da cozinha.

“Narizinho já sarou”, disse consigo a preta, “e daqui um instantinho está trepada na árvore outra vez”.

pela jabuticabeira parou para ouvir a música de sempre — tloc! pluf! nhoc

E tinha razão. Indo dali a pouco ao rio com a trouxa de roupa suja, ao passar estava Narizinho trepada à árvore.

Lá estavam as vespas com meio corpo metido dentro das frutas. Lá estava

Rabicó esperando a queda dos caroços.

— Está tudo regulando! — murmurou consigo a preta, e pondo o pito na boca seguiu o seu caminho.

I - O enterro da vespa

— Pobre da Emília! Deve estar morrendo de medo das corujase pediu a tia

De noite, à hora de deitar-se, Narizinho lembrou-se de que havia deixado a boneca debaixo da jabuticabeira.

Nastácia que fosse buscá-la.

A negra foi e trouxe Emília, toda úmida de orvalho, danadíssima com o esquecimento da menina. E só com a promessa de um belo vestido novo é que desamarrou o burro. Um vestido de chita cor-de-rosa com pintinhas.

E de saia bem comprida. — Por que, Emília? — indagou a menina estranhando aquele gosto.

— Porque sujei a perna aqui no joelho e não quero que apareça. — O mais fácil será lavar o joelho.

— Deus me livre! Tia Nastácia diz que sou de macela por dentro e por isso não posso me molhar. Emboloro. Um dia ainda posso virar condessa e não quero ser chamada a condessa do Bolor.

— Testo, panela, bolor, fedor! Tem razão, Emília. O melhor é fazer um vestido de cauda. Para condessas fica bem. Mas condessas de quê?

— Quero ser a condessa de Três Estrelinhas! Acho lindo tudo que é de três estrelinhas.

Todas as criaturas do mundo vão torcer-se de inveja!

— Pois muito bem, Emília. Desde este momento fica você nomeada condessa de Três Estrelinhas e para não haver dúvida vou pintar três estrelinhas na sua testa. — Todas menos uma — observou a boneca.

— Quem?

— A vespa que ferrou sua língua.

— Explique-se, Emília. Não estou entendendo nada.

— Quero dizer que a tal vespa está morta e bem enterrada no fundo da terra

— explicou a boneca. — Assisti a tudo. Quando ela mordeu sua língua e você fez pluf! antes de berrar ai! ai! ai!, a jabuticaba cuspida, ainda com a vespa dentro, caiu bem perto de mim. Vi então tudo o que se passou depois que você desceu da árvore, berrando que nem um bezerro, e lá foi de língua de fora. E a boneca contou direitinho o triste fim da pobre vespa.

— Ela ficou ainda quase uma hora metida dentro da casca, toda arrebentadinha, movendo ora uma perna, ora outra. Afinal parou. Tinha morrido. Vieram as formigas cuidar do enterro. Olharam, olharam, estudaram o melhor meio

as formigas moram. La pararam à espera do fazedor de discursos

de a tirar dali. Chamaram outras e por fim deram começo ao serviço. Cada qual a agarrou por uma perninha e, puxa que puxa, logo a arrancaram de dentro da jabuticaba. E foram-na arrastando por ali afora até à cova, que é o buraquinho onde — Orador, Emília!

— FAZEDOR DE DISCURSOS. Veio ele, de discursinho debaixo do braço, escrito num papel e leu, leu, leu que não acabava mais. As formigas ficaram aborrecidas com o besourinho (era um besourinho do Instituto Histórico) e apitaram. Apareceu então um louva-a-deus policial, de pauzinho na mão. “Que há?” — perguntou. “Há que estamos cansados e com fome e este famoso orador não acaba nunca o seu discurso. Está muito pau”, disseram as formigas. “Para pau, pau!” — resolveu o soldado — e arrolhou o orador com o seu pauzinho. As formigas, muito contentes, continuaram o serviço e levaram para o fundo da cova o cadáver da vespa. Em seguida apareceu uma trazendo um letreiro assim, que fincou num montinho de terra:

Feito isso, recolheu-se. Era noite quase fechada. No pomar deserto só ficou o besourinho, sempre engasgado com o pau. Queria à viva força continuar o discurso. Por fim conseguiu destapar-se e imediatamente continuou: “Neste momento solene...” Nisto um sapo, que ia passando, alumiou o olho dizendo: “Espere que eu te curo!...” Deu um pulo e engoliu o fazedor de discursos! — Não reparou, Emília, se esse sapo era o Major Agarra-e-não-larga-mais?

— perguntou a menina.

com-discurso-e-tudo

— Não era, não! — respondeu a boneca. — Era o Coronel Come-orador-

I - A pescaria

Afinal acabaram as jabuticabas. Somente nos galhos bem lá do alto é que ainda se via uma ou outra, todas furadinhas de vespa.

caísse coisa nenhuma, desistia e retirava-se, rom, rom, rom

Rabicó — rom, rom, rom, — volta e meia aparecia por ali por força do hábito. Ficava imóvel, muito sério, esperando que caíssem cascas; mas, como não

Narizinho também ainda aparecia de vez em quando de comprida vara na mão e nariz para o ar, na esperança de “pescar” alguma coisa.

— Arre, menina! — gritou lá do rio tia Nastácia, numa dessas vezes. — Não chegou quase um mês inteiro de tloc, tloc? Largue disso e venha me ajudar a estender esta roupa, que é o melhor.

Narizinho jogou a vara em cima do leitão, que fez coim! e foi correndo para o rio, com a Emília de cabeça para baixo no bolso do avental.

tanta vontade de pescar

Lá teve uma idéia: deixar a boneca pescando enquanto ela ajudava a preta. — Tia Nastácia, faça um anzolzinho de alfinete para a Emília. A coitada tem

— Era só o que faltava! — respondeu a negra, tirando o pito da boca. — Eu, com tanto serviço, a perder tempo com bobagem.

— Faz? — insistiu a menina. — Alfinete, tenho aqui um. Linha, há no alinhavo da minha saia. Vara não falta. Faz?

— Como não hei de fazer, demoninho? Faço, simMas se ficar atrasada no

A negra não teve remédio. serviço, a culpa não é minha.

E fez. Dobrou o alfinete em forma de gancho, amarrou-o na ponta duma linha e descobriu uma vara — uma varinha de dois palmos, imaginem! Narizinho completou a obra, atando a vara ao braço da boneca. — E isca? — indagou depois.

— Isca é o de menos, menina. Qualquer gafanhotinho serve. Salta daqui, salta dali, Narizinho conseguiu apanhar um gafanhoto verde.

Espetou-o no anzol. Depois arrumou a boneca à beira d’água, muito tensa, com uma pedra ao colo para não cair.

— Agora, Emília, bico calado! Nenhum pio, senão espanta os peixes. Logo que um deles beliscar, zuct!, dê um puxão na linha.

E, deixando-a ali, foi ter com a preta. — Você me frita para o jantar o peixinho da Emília, Nastácia? Frita?

— Frito, sim! Frito até no dedo!
Palavras não eram ditas e — tchíbum!pescadora de pano revirava dentro
— Acuda, Nastácia! Emília está se afogando!— gritou a menina aflita.

— Não caçoe, Nastácia! Emília é uma danada. Ninguém imagina de quanta coisa ela é capaz. d’água, com pedra e tudo. De fato. Um peixe engolira a isca e, lutando por safar-se do anzol, arrastara a boneca para o meio do rio.

Tia Nastácia arranjou uma vara de gancho e com muito jeito foi puxando para a beira do córrego a infeliz pescadora, até o ponto onde a menina a pudesse agarrar.

Assim aconteceu. e qual não foi o assombro de Narizinho vendo sair d’água, presa ao anzol de Emília, uma trairinha que rabeava como louca!

— Vovó — gritou ela ao entrar, — adivinhe quem pescou esta trairinha

A negra pendurou o beiço. — Credo! Até parece feitiçaria! — resmungou. Muito contente da aventura, Narizinho disparou para casa com o peixe na mão. Dona Benta olhou e disse: — Ora, quem mais! Você, minha filha.

— Errou!

— Qual Nastácia, nada!

— Tia Nastácia, então. — Então foi o saci — caçoou Dona Benta.

— Vovó não adivinha! Pois foi a Emília

— Está bobeando sua avó, minha filha?

— Juro! Palavra de Deus que foi a Emília. Pergunte a tia Nastácia, se quiser. A preta vinha entrando com a trouxa de roupa lavada à cabeça. — Não foi mesmo, tia Nastácia? Não foi Emília quem pescou a trairinha?

boneca pescando na beira do rio e o caso é que o peixe tá aí

— Foi, sim, sinhá — respondeu a preta dirigindo-se para dona Benta. — Foi a boneca. Sinhá não imagina que menina reinadeira é essa! Arranjou jeito de botar a

esta minha neta do chifre furado

Dona Benta abriu a boca. — Bem diz o ditado, que quanto mais se vive mais se aprende. Estou com mais de sessenta anos e todos os dias aprendo coisas novas com

desse porte andava no braço da ama, de chupeta na boca. Hoje?Credo! Nem é
bom falar

— Criança de hoje, sinhá, já nasce sabendo. No meu tempo, menina assim

E com a menina dançando à sua frente, tia Nastácia lá foi para a cozinha fritar a traíra.

IV - As formigas ruivas

— A coitada!É bem capaz de apanhar pneumonia...
— Eu aqui não fico sozinha!

Só depois de comer o peixe frito é que Narizinho se lembrou da pobre boneca, encharcada pelo banho no rio. E foi correndo cuidar dela. Despiu-a e pô-la num lugar de bastante sol. Dum lado estendeu suas roupinhas molhadas e do outro, a pobre Emília nua em pêlo. E já ia retirar-se quando a boneca fez cara de choro. — Por que, sua enjoada? Tem medo que o leitão venha espiar esses cambitos magros?

— Espiar não é nada, mas ele é capaz de me comer. Tia Nastácia diz que

Rabicó devora tudo o que encontra. — Nesse caso, penduro você na árvore.

— Isso também não! — protestou Emília. — Alguma vespa pode me ferrar.

— Boba! Não sabe que vespa não ferra pano?

— Mas se eu cair com o vento?

— Grande coisa! Boneca de pano quando cai não se machuca. Eu é que não posso ficar neste sol tirano à espera de que a excelentíssima senhora condessa de Três Estrelinhas seque! Quem mandou molhar-se? — Mal agradecida! Se não fosse a minha molhadela você não comia a traíra.

— Está pensando que era uma grande coisa a tal traíra? Só espinho...

— É, mas você comeu-a com espinho e tudo. e até lambeu os beiços. — Lábios, aliás. Beiço é de boi. Comi porque quis, sabe? Não tenho que dar satisfações a ninguém, ahn! — e Narizinho pôs-lhe a língua.

Emburraram ambas. Narizinho, porém, ficou, porque lá no íntimo estava com receio de deixar a boneca sozinha.

Fazia um sol quente e parado. Nas árvores, um ou outro tico-tico só; e no chão, só formiguinhas ruivas.

Para matar o tempo a menina pôs-se a observar o corre-corre delas, esquecendo a briga com a boneca.

entender o que dizem

— Já reparou, Emília, como as formigas conversam? Que pena a gente não

— A gente é modo de dizer — replicou Emília — porque eu entendo muito bem o que dizem. — Sério, Emília?

— Sério, sim, Narizinho. Entendo muito bem e, se você ficar aqui comigo, contarei todas as historinhas que elas conversam. Repare. Vem vindo aquela de lá e esta de cá. Assim que se encontrarem, vão parar e conversar.

Dito e feito. As formiguinhas encontraram-se, pararam e começaram a trocar sinais de entendimento. — Fiquei na mesma! — disse a menina.

— Pois eu entendi tudo, — declarou a boneca. -A que veio de lá disse:

“Encontrou o cadáver do grilinho verde”? A que veio de cá respondeu: “Não”! A de lá: “Pois volte e procure perto daquela pedra onde mora o besouro manco.” Esta formiga que dá ordens deve ser alguma dona-de-casa lá do formigueiro. E repare seus modos de mandona; está sempre a entrar e sair do buraquinho, como quem dirige um serviço. A outra com certeza é uma simples carregadeira.

Havia de ser isso mesmo, porque logo depois chegou uma terceira, muito apressada, que cochichou com a mandona e lá se foi mais apressada ainda. — Que é que disse esta? — perguntou Narizinho.

— Disse que haviam descoberto uma bela minhoca perto da porteira, mas que precisavam de ajutório para conduzi-la.

Vou ver, e se não for verdade você me paga. Espere aí

— Emília, você esta me bobeando! — exclamou a menina desconfiada. —

E disparou em direção da porteira. Procura que procura, logo achou em certo ponto uma pobre minhoca corcoveando com várias formiguinhas ferradas no seu lombo.

Novas formiguinhas foram chegando, que de um bote — zás!ferravam a

Teve vontade de libertar a prisioneira, mas a curiosidade de ver o que aconteceria foi maior — e deixou a triste minhoca entregue ao seu trágico destino. minhoca sem dó. Não demorou muito e já eram mais de vinte. A minhoca bem que espinoteou; por fim, exausta, foi moleando o corpo até que morreu bem morrida. As formiguinhas então principiaram a arrastá-la para o formigueiro.

Que custo! A minhoca era das mais gordas, pesando umas sete arrobas — arrobinhas de formiga, e além disso ia enganchando pelo caminho em quanto pedregulho ou capim havia; mas as carregadeiras sabiam dar volta a todos os embaraços.

Depois de meia hora de trabalheira deram com a minhoca na boca do formigueiro. Aí, nova atrapalhação. Por mais que experimentassem, não houve jeito de recolhê-la inteira. Nisto apareceu a formiga mandona. Examinou o caso e deu ordem para que a picassem em vários roletes.

Aquilo foi zás-trás! Em três tempos fez-se o serviço e os roletes de carne foram levados para dentro.

que se pode chamar um trabalho limpo! O demo queira ser minhoca neste pomar

— Sim, senhora! — exclamou a menina depois de terminada a festa. — É o

— Bem feito! — disse Emília. — Quem a mandou ser abelhuda? Se estivesse com as outras lá dentro da terra, que é o lugar das minhocas, nada lhe aconteceria. Macaco que muito mexe quer chumbo, como diz tia Nastácia.

Isso, foi de dia. De noite a história das formigas continuou. Narizinho e Emília dormiam juntas na mesma cama. A rede armada entre pés de cadeira fora abandonada desde que a boneca aprendeu a falar. Dormiam juntas para conversar até que o sono viesse.

— Mas, Emília, como é que você entende a linguagem das formigas? — perguntou Narizinho logo que se deitou.

A boneca refletiu um bocado e respondeu: — Entendo porque sou de pano. Narizinho deu uma gargalhada. — Isso não é resposta duma senhora inteligente. O meu vestido também é de pano e não entende coisa nenhuma.

— Entãoentão... engasgou Emília, com o dedinho na testa. Então não sei.

A boneca pensou outra vez. — Então é porque sou de macela — disse. Nova risada de Narizinho. — Isso Também não é resposta. Este travesseiro é de macela e entende as formigas tanto quanto eu. Era a primeira vez que Emília se embaraçava numa resposta. Primeira e última. Nunca mais houve pergunta que a atrapalhasse.

toc

— Pois se não sabe, durma — disse a menina, virando-se para a parede. Dormiram ambas. Altas horas, estavam no mais gostoso do sono quando bateram — toc, toc, — Quem é? — perguntou Narizinho sentando-se na cama.

— Sou eu, Rabicó! — grunhiu o leitão entreabrindo a porta com o focinho.

— Está aqui uma senhora ruiva que quer entrar.

— Pois que entre! — ordenou a menina. Rabicó escancarou a porta para dar passagem a uma formiga ruiva, de saiote vermelho e avental de renda. Trazia na cabeça uma salva de prata, coberta com guardanapo de papel. — Que é que deseja? — indagou a menina cheia de curiosidade.

— Quero entregar à senhora Condessa este presente mandado pela rainha das formigas.

— Condessa? — repetiu Narizinho franzindo a testa. – Que condessa, minha senhora? — Condessa de Três Estrelinhas — explicou a formiga.

— Hum! — fez a menina, lembrando-se de que ela mesma havia “condessado” a boneca.

— Então éé porque sou...

Voltou-se para Emília e deu-lhe uma cotovelada. — Acorde, pedra! É com Vossa Excelência o negócio. Emília sentou-se na cama. Espreguiçou-se, tonta de sono. E julgando que ainda estivessem a conversar sobre a linguagem das formigas, disse, num bocejo: — Não se trata mais disso, idiota! Está aí à procura duma tal condessa a criada duma tal rainha. Vamos! Acorde duma vez!

Só então Emília acordou de verdade. Viu a formiga com a salva e espichou os braços para receber o presente. Eram croquetes, lindos croquetes tostadinhos.

A boneca sorriu de gosto e orgulho. A rainha só se lembrara dela! — Diga a Sua Majestade que a condessa de Três Estrelinhas muito agradece o presente. Diga que os croquetes estão lindos e que ela é uma grande cozinheira.

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