Monteiro Lobato - Reinações de Narizinho

Monteiro Lobato - Reinações de Narizinho

(Parte 5 de 7)

— Isto édiga que a cozinheira dela é muito boa, entendeu? E diga também
que os croquetes estão muito gostosos, isto édevem estar muito gostosos. Pode ir.

Narizinho disparou a rir gostosamente. — Que idéia, condessa! Uma rainha lá pode ser cozinheira? Caindo em si, Emília viu que tinha cometido uma coisa muito grave entre as pessoas de alta sociedade, chamada “gafe”. E procurou corrigir-se.

A criada fez um cumprimento de cabeça antes de retirar-se, mas foi detida por um gesto da menina.

— Não vá ainda — disse ela. E voltando-se para a Emília: — Presente, senhora condessa, paga-se com presente. Mande à tal rainha uma perna daquele pernilongo que queimei com a vela antes de deitar.

— É verdade! — exclamou a boneca. — Não me custa nada e ela vai ficar contentíssima.

E pôs-se de gatinhas a procurar o pernilongo assado. Achou-o, tirou-lhe uma perninha, enfeitou-a com um laço de fita e, depois de embrulhá-la em papel de seda, colocou-a na salva, com um cartão que dizia assim:

“À Sua Majestade a Rainha da Cintura Fina, a humilde criada Condessa de

Três Estrelinhas oferece este humilde presente.”

— Leve este presente à rainha, sim? E você, para distrair-se pelo caminho vá comendo este mocotó de pernilongo – concluiu Emília, dando à criada um cambito de inseto.

A mensageira agradeceu, retirando-se muito satisfeita da vida, com a salva na cabeça e o mocotó no ferrão.

Emília fechou a porta e veio examinar os croquetes. Cheirou-os. — Hum! Estão de fazer vir água à boca. Quer provar um, Narizinho?

— Quem desdenha quer comprar
— Só? Engraçadinha!replicou a menina com um grande ar de pouco caso.

A menina torceu o nariz desdenhosamente. — Deus me livre! Juro que é croquete de minhoca. Percebendo que ela falava assim por despeito, a boneca disse, para moê-la:

E vendo a boneca morder um dos croquetes, com os maiores exageros do mundo, como se aquilo fosse um manjar do céu, fez muxoxo de nojo.

— Está boa mesmo para casar com Rabicó! Comer croquete de minhoca! — Que seja de minhoca, que tem isso? — retrucou Emília. Tanto faz carne de minhoca como de porco, vaca ou frango — tudo é carne. E muito me admira que uma senhora que comeu ontem no jantar tripa de porco, mostre essa cara de nojo por causa dum simples croquete de minhoca.

— Alto lá, senhora condessa Minhoqueira! Porco é porco e minhoca é minhoca.

— É “por isso mesmo” que eu como minhoca e não como porco! — replicou a boneca vitoriosa. — Não sou porcalhona.

braço a fim de pegar um segundo croquete

A discussão foi por aí além. Enquanto isso o senhor Rabicó farejou os croquetes, chegou-se de mansinho e, vendo-as distraídas com a disputa, comeu-os todos de uma engolida só. Terminada a discussão, quando a boneca, espichou o

— Que é dos croquetes? — gritou ela. Nem sinal! Emília esperneou de ódio, ao passo que Narizinho batia palmas de contentamento. — Bem feito! Estava muito ganjenta, não é? Pois tome!

— Quero os meus croquetes! Quero os meus croquetes! — berrava Emília, batendo o pé num grande desespero. — Se quer os seus croquetes, peça contas a quem os tirou.

— Quem foi?

— Quem mais se não Rabicó? Vai ver que está aqui pelo quarto, escondido debaixo da cama.

Emília deu busca e logo descobriu o ladrão num canto, ressonando de papo cheio.

pá!desceu a lenha no lombo do gatuno, enquanto Narizinho se rebolava na cama

— Espere que te curo! — gritou ela, passando a mão na vassoura. E pá! pá! de tanto rir, pensando consigo: “Se antes de casar é assim, imagine-se depois!” Isso porque ela andava alimentando o projeto de casar Emília com Rabicó.

V - Pedrinho

Chegou afinal o grande dia. Na véspera viera para dona Benta uma carta de

Pedrinho que começava assim:

“Sigo para aí no dia 6. Mande à estação o cavalo pangaré e não se esqueça do chicotinho de cabo de prata que deixei pendurado atrás da porta do quarto de hóspedes. Narizinho sabe.

Quero que Narizinho me espere na porteira do pasto, com a Emília no seu vestido novo e Rabicó de laço de fita na cauda. E tia Nastácia que apronte um daqueles cafés com bolinhos de frigideira que só ela sabe fazer.”

Pac, pac, pacPedrinho apareceu na porteira, trotando no pangaré, corado

Em vista disso Narizinho levantou-se muito cedo para preparar a recepção de acordo com as instruções da carta. Enfiou em Emília o vestido novo de chita cor-derosa com pintinhas e enfeitou Rabicó de duas fitas — uma ao pescoço e outra na ponta da cauda. do sol e alegre como um passarinho.

— Viva! — gritou a menina, correndo a lhe segurar a rédea. — Apeie depressa, senhor doutor, que temos mil coisas a conversar!

Pedrinho apeou-se, abraçou-a e não resistiu à tentação de ali mesmo abrir o pacote dos presentes para tirar o dela.

— Adivinhe o que trouxe para você! — disse, escondendo atrás das costas um embrulho volumoso.

— Já sei — respondeu a menina incontinenti. — Uma boneca que chora e abre e fecha os olhos.

Pedrinho ficou desapontado, porque era justamente o que havia trazido. — Como adivinhou, Narizinho? A menina deu uma risada gostosa. — Grande coisa! Adivinhei porque conheço você. Fique sabendo, seu bobo, que as meninas são muito mais espertas que os meninos...

— Mas não têm mais muque! — replicou ele com orgulho, fazendo-a apalpar a dureza do seu bíceps que a ginástica escolar havia desenvolvido. E concluiu: — Com este muque e a sua esperteza, Narizinho, quero ver quem pode com a nossa vida!

Os presentes dos demais foram também distribuídos ali mesmo. Rabicó teve uma fita nova, de seda — e os restos do farnel que Pedrinho trouxera (e foi isso o que ele mais apreciou). Emília recebeu um serviço de cozinha completo — fogãozinho de lata, panelas, e até um rolo de folhear massa de pastel. — E para vovó que é que trouxe? — perguntou Narizinho.

— Adivinhe, já que é tão adivinhadeira — disse ele.

presente de vovó aposto que não foi você quem escolheu, foi tia Antonica

— Eu só adivinho quando é você mesmo quem escolhe os presentes. Mas o

Pela segunda vez Pedrinho abriu a boca. Aquela prima, apesar de viver na roça, estava se tornando mais esperta do que todas as meninas da cidade.

foi mamãe. Você precisa me ensinar o segredo de adivinhar as coisas, Narizinho

— Tem razão. É isso mesmo. O presente de vovó quem o escolheu e comprou

Nesse momento dona Benta apareceu na varanda e Pedrinho correu a abraçála.

brisa soprou mais forte e um ringido se fez ouvir — nhem, nhim

Dali a pouco estavam todos reunidos na sala de jantar, ouvindo notícias e histórias da cidade. Tia Nastácia trouxe da cozinha a gamela de massa, para não perder uma só palavra ao mesmo tempo que ia enrolando os bolinhos. Súbito, uma

— O mastro de São João!— murmurou enlevado. – Quantas vezes no
mastro!Como vai ele?

Pedrinho interrompeu a conversa, de ouvido atento. colégio me iludi com os ringidos das portas, imaginando que era a bandeira do nosso

— Já desbotado pelas chuvas e com um rasgão na bandeira bem em cima da cabeça do carneirinho — respondeu a menina.

O dia de São João era o grande dia de festa no Sítio do Pica-pau Amarelo.

Reuniam-se lá todas as crianças dos arredores, para soltar bombinhas e pistolões e dançar em torno da fogueira. Pedrinho jamais faltou a essa festa anual, como jamais deixou de queimar o dedo.

Um ano em que não queimou o dedo ficou muito admirado. Nos últimos tempos era Pedrinho quem pintava o mastro, caprichando em formar arabescos de todas as cores, cada ano dum estilo diferente. Também era ele quem fornecia a bandeira com o retrato de São João menino, de cruz ao ombro e cordeiro no braço.

Trazia-a da cidade, depois de percorrer todas as casas de negócio a fim de comprar a mais bonita.

— Está bem — disse dona Benta logo que soube das principais novidades. —

Pode ir brincar com Narizinho, que tem um mundo de coisas a contar.

Os dois primos dirigiram-se ao pomar aos pinotes. Era lá, debaixo das velhas árvores que trocavam confidências e planejavam as grandes aventuras pelo mundo das maravilhas.

O assunto do dia foi o extraordinário caso da boneca. — Parece incrível! — dizia Pedrinho. — Quando recebi sua carta contando que Emília falava, não quis acreditar. Mas hoje vejo que fala e fala muito bem. É espantoso !

— No começo — explicou Narizinho — Emília falava muito atrapalhado e sem propósito. Agora já está melhor, mas, mesmo assim, quando dá para falar asneiras ou teimar, ninguém pode com a vidinha dela. Sabe que já é condessa? — Sim? Condessa de quê?

— De Três Estrelinhas, nome que ela mesma escolheu. Mas estou com vontade de mudar. Condessa é pouco. Emília merece ser marquesa. — Marquesa de Santos?

— Não. Marquesa de Rabicó.

— É verdade!Podemos fazer de Rabicó um marquês e casar Emília com

ele!

— Isso mesmo. Tenho pensado muito nesse arranjo e até já o propus à

Emília. — E ela aceitou?

— Emília é muito vaidosa e cheia de si. Mas eu sei lidar com ela. Quando chegar a ocasião darei um jeito.

Terminado o assunto Emília, começou o assunto Reino das Águas Claras.

Narizinho contou a série inteira daquelas maravilhosas aventuras, despertando em Pedrinho um desejo louco de também conhecer o príncipe-rei. De nada se admirou, conforme o seu costume. Tanto ele como Narizinho achavam tudo tão natural! Só estranhou que o Pequeno Polegar tivesse fugido da sua historinha.

— Isso, sim, não deixa de me intrigar — disse ele. — Se Polegar fugiu é que a história está embolorada. Se a história está embolorada, temos de botá-la fora e compor outra. Há muito tempo que ando com esta idéia — fazer todos os personagens fugirem das velhas histórias para virem aqui combinar conosco outras aventuras. Que lindo, não?

Neve

— Nem fale, Pedrinho! — exclamou a menina pensativa. — O que eu não daria para brincar neste sítio com a menina da Capinha Vermelha ou Branca de

— E eu só queria Capinha. Tenho tanta simpatia por essa meninaAqueles
comer um daqueles bolos

— Eu só queria pilhar cá o Aladino da lâmpada maravilhosa, para tirar a prosa dele! — ajuntou Pedrinho que voltara da cidade com fumaças de valentia. bolos que ela costumava levar para a vovó que o lobo comeu — que vontade de

Uma voz conhecida veio interrompê-los: — Narizinho! Pedrinho! O café está na mesa.

— Duvido que fossem melhores que os de tia Nastácia! — disse o menino erguendo-se. E dispararam para casa.

VI - A viagem

Deitaram-se bem tarde naquela noite. Tanta coisa tinha o menino a contar, coisas da casa da dona Antonica e da escola, que somente às onze horas foram para a cama. Que sono regalado! Isto é, regalado até uma certa hora. Daí por diante houve coisa grossa.

sobressalto, com umas pancadinhas de chicote na vidraça — pen, pen, penE logo

Narizinho estava justamente no meio dum lindo sonho quando despertou de em seguida ouviu a voz do marquês de Rabicó, que dizia:

— O sol não tarda, Narizinho. Pule da cama que são horas de partir. Chegando à janela, viu o marquês montado num cavalinho de pau à sua espera. — E a condessa? Já está pronta? — perguntou a menina.

— A senhora condessa já está lá embaixo, corcoveando no cavalo Pampa.

— Pois então que me selem o pangaré. Em três tempos me visto. Enquanto por ordem do marquês selavam o cavalo pangaré, a menina punha o seu vestido vermelho de bolso. Precisava de bolso para levar os bolinhos de tia Nastácia sobrados da véspera e também para trazer coisas do reino das Abelhas.

Porque era para o reino das Abelhas que eles iam, a convite da rainha. Reino das Abelhas ou das Vespas? Não havia certeza ainda. Na véspera chegara um maribondo mensageiro com um convite assim:

“Sua Majestade a Rainha dasdá a honra de convidar

vocês todos para uma visita ao seu reino.”

Como o papelzinho estivesse rasgado num ponto, havia dúvida se o convite era da rainha das Vespas ou da rainha das Abelhas.

Narizinho respondeu ao convite por meio dum borboletograma. Não sabem o que é? Invenção da Emília. Como não houvesse telégrafo para lá, a boneca teve a idéia de mandar a resposta escrita em asas de borboleta. Agarrou uma borboleta azul que ia passando e rabiscou-lhe na asa, com um espinho, o seguinte:

“Narizinho, a Condessa e o Marquês agradecem a honra do convite e prometem não faltar.” — Por que não incluiu o nome de Pedrinho, Emília?

— perguntou a menina.

— Porque ele não é nobre — nem barão ainda é!Pronto que foi o

borboletograma, surgiu uma dificuldade. A quem endereçá-lo? À rainha das Vespas ou à das Abelhas?

— Já resolvo o caso — disse Emília, e soltou a borboleta com estas palavras:

“Vá direitinha, hein? Nada de distrair-se com flores pelo caminho.” — Ir para onde? — perguntou a borboleta.

— Para a casa de seu sogro, ouviu? Malcriada! Atrever-se a fazer perguntas a uma condessa!

— Mas... — ia dizendo humildemente a borboleta. Emília, porém, interrompeu-a com um berro. — Ponha-se daqui para fora! Não admito observações. Conheça o seu lugar, ouviu?

A borboleta lá se foi, amedrontada e desapontadíssima. — Você parece louca, Emília! — observou Narizinho. – Como há de ela saber o endereço se você não deu endereço algum?

— Sabe, sim! — retorquiu a boneca. — São umas sabidíssimas as senhoras borboletas. Se sabem fabricar pó azul para as asas, que é coisa dificílima, como não hão de saber o endereço dum borboletograma ?

Narizinho fez cara de quem diz: “Ninguém pode entender como funciona a cabeça da Emília! Ora raciocina muito bem, tal qual gente. Outras vezes, é assim — tão torto que deixa uma pessoa trapalhada...”

afora — pac, pac, pacEm certo ponto Narizinho disse à boneca:

O cavalo pangaré veio, a menina montou e lá partiram todos pela estrada — Vamos apostar corrida? Emília aceitou, muito assanhada.

— Pois toque, então!

Emília — lept, lept! chicoteou o cavalinho pampa, disparando numa galopada louca. Narizinho, porém, não se moveu do lugar. O que queria era ficar só com o marquês de Rabicó para uma conversa reservada — o casamento dele com a condessa. — Mas afinal de contas, marquês, quer ou não quer casar-se com a condessa?

— Já declarei que sim, isto é, que casarei, se o dote for bom. Se me derem, por exemplo, dois cargueiros de milho, casarei com quem quiserem — com a cadeira, com o pote d’água, com a vassoura. Nunca fui exigente em matéria matrimonial.

difícil. Pena ser tão fraquinha

— Guloso! Pois olhe que vai fazer um casamentão! Emília é feia, não nego, mas muito boa dona de casa. Sabe fazer tudo, até fios de ovos, que é o doce mais

que está

— Fraca? — exclamou o marquês admirado. — Não me parece. Tão gorda

— Engano seu. Emília, desde que caiu n’água e quase se afogou, parece ter ficado desarranjada do fígado. E aquela gordura não é banha, não, é macela! Emília o que está é estufada. Inda a semana passada tia Nastácia a recheou de mais macela.

— Pois pensei que fosse toucinho e do bom!
com água na boca. Felizmente o dia de Ano Bom está próximo!

O marquês pensou lá consigo: “Que pena não a ter recheado de fubá!” mas não teve coragem de o dizer em voz alta, limitando-se a exclamar: — Que esperança! Toucinho do bom está aqui, disse a menina apalpando-lhe o lombo. — Dos tais que dão um torresminho delicioso! — e lambeu os beiços, já

Dia de Ano Bom era dia de leitão assado no sítio, mas Rabicó não sabia disso. — Dia de Ano Bom? — repetiu ele sem nada compreender.

— Que tem isso com o meu toucinho ?

— Nada! É cá uma coisa que sei e não é da sua conta — respondeu a menina piscando o olho.

E assim, nessa prosa, alcançaram a condessa, que estava lá adiante, furiosa com o logro.

— Não achei graça nenhuma! — foi dizendo Emília logo que a menina chegou. — Nem parece coisa duma princesa (Emília só a tratava de princesa nas brigas).

Sua cara está que é ver aquele bule velho de chá, com esse bico

— Pois eu, Emília, estou achando uma graça extraordinária na sua zanguinha!

— Princesa!Princesa que ainda toma palmadas de dona Benta e leva pitos
da negra beiçuda! E tira ouro do narizAntipatia!...

Mais zangada ainda, Emília mostrou-lhe a língua e dando uma chicotada no cavalinho tocou para a frente, resmungando alto:

tirava ouro do nariz. Emília, sim

Calúnias puras. Narizinho nem tomava palmadas, nem levava pitos, nem

VII - O assalto

Nisto o mato farfalhou à beira da estrada. Os cavalinhos se assustaram e empinaram.

— A quadrilha Chupa-Ovo! — gritou Emília aterrorizada, erguendo os braços como no cinema. Narizinho também empalideceu e procurou instintivamente

sumido

agarrar-se ao marquês de Rabicó. Mas o marquês já havia pulado no chão e

— pensou consigo. “É Tom Mix, o grande herói do cinema!Mas quem havia de

— A bolsa ou a vida! — intimou o chefe da quadrilha apontando o trabuco. Narizinho a tremer, olhou para ele e franziu a testa. “Eu conheço esta cara!” dizer que esse famoso cowboy tão simpático, havia de acabar assim, feito chefe duma quadrilha de lagartos?...” — A bolsa ou a vida! — repetiu Tom Mix, carrancudo.

— Bolsa não temos, senhor Tom Mix — disse a menina – mas tenho aqui uns bolinhos muito gostosos. Aceita um?

O bandido tomou um bolo e provou. — Não gosto de bolo amanhecido! — respondeu cuspindo de lado. Quero ouro de verdade!

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