Monteiro Lobato - Reinações de Narizinho

Monteiro Lobato - Reinações de Narizinho

(Parte 7 de 7)

— Ninguém manda — e é isso o mais curioso. — Ninguém manda e todos obedecem.

— Não pode ser! — exclamou a boneca. — Quem manda há de ser a rainha.

Vou perguntar. e chamou uma abelha que ia passando.

— Faça o favor, senhora abelhinha, de nos dar uma informação. Quem é, afinal de contas, que manda neste reino? A rainha?”

— Não senhora! — respondeu a abelha. — Nós não temos governo, porque não precisamos de governo. Cada qual nasce com o governo dentro de si, sabendo perfeitamente o que deve e o que não deve fazer. Nesse ponto somos perfeitas.

Narizinho ficou admirada daquelas idéias, e viu que era assim mesmo. “Que pena que também não seja assim na humanidade!”

— De manhã saímos todas — continuou a abelha — cada uma para o seu lado, a fim de recolher o mel das flores e o pólen. É disso que nos alimentamos. Depois guardamos o mel nos favos. Se há consertos a fazer, qualquer uma de nós os faz sem que seja preciso ordem. Se a menina passasse uns tempos aqui havia de gostar tanto que depois não mais se ajeitaria no reino dos homens.

— Mas a rainha? — perguntou a menina. — Estou cansada de esperar pela hora de conhecer essa grande dama. Deve ser linda, linda!...

A abelha continuou: — Pensa que a nossa rainha é alguma dama emproada como as rainhas dos homens? Nada disso. Nem rainha é! Os homens é que lhe chamam assim. Para nós não passa de mãe. Todas somos filhinhas dela — todas, todas! E rodeamo-la de comodidades e carinhos, sem nunca lhe darmos o menor desgosto. Olhe, menina, lá no reino dos homens costumam falar muito em felicidade, mas fique certa de que felicidade só aqui. Cada uma de nós é feliz porque todas somos felizes. Lá não sei como pode alguém ser feliz sabendo que há tantos infelizes em redor de si!

num trabalhão tão lindo como esse de recolher o mel e o pólen das flores

Narizinho e Emília ficaram tristes. Que pena serem gente e não poderem transformar-se em abelhas para morar numa colméia daquelas, toda a vida ocupadas

— Mas a rainha, a rainha! — insistiu a menina. — Quero ser apresentada à rainha!

— Pois vamos lá — respondeu a abelha. — Sigam-me. Foram. Depois de atravessarem vários compartimentos, chegaram aos cômodos reais. Lá estava Sua Majestade num trono de cera, conversando com vários zangões emproados e orgulhosos (pelo menos assim pareceu à menina).

— Bem-vinda seja! — saudou a rainha numa doce voz maternal. — Tem gostado da nossa colméia?

— Muito, Majestade! É o reino mais bem arrumadinho de quantos vi até agora. Estou positivamente encantada!

— O meu reino é assim — explicou a rainha — porque não é reino nenhum, mas uma grande família onde a boa mãe geral vive rodeada de todos os seus filhos. Já percorreu a colméia inteira?

zangões, que me parecem emproados e orgulhosos

— Já vi parte e tenho gostado de tudo, menos da cara desses senhores

marido, e os outros

— É que estão a me fazer a corte. Todos os anos escolho um dentre eles para — Já sei! Os outros casam-se com as outras abelhas. A rainha sorriu.

— Não, menina! Os outros são condenados à morte e executados

— Quê? — exclamou Narizinho horrorizada. — Acho que isso constitui uma crueldade, verdadeira mancha negra na organização das abelhas.

— Parece, menina. Mas é o jeito. Como não sabem trabalhar e a natureza os fez unicamente para serem esposos da rainha, as abelhas não têm a menor consideração com eles depois que a rainha elege um para esposo. Trucidam-nos e lançam os cadáveres para fora da colméia. Estas minhas filhas acham que o sentimentalismo não dá bom resultado em matéria de organização social.

que vovó às vezes lê, o tal RouRousseau, creio.”

Narizinho, cada vez mais admirada da inteligência da rainha, murmurou ao ouvido da boneca: “Vê, Emília? Isto é que é falar bem! Até parece aquele filósofo

Nisto um trrriin, trrriin, de esporas ressoou perto. Voltaram-se todos. Era

Tom Mix que entrava. O cowboy correu os olhos pela sala. Logo que deu com a menina, dirigiu-se para ela. — Recebi o recado, princesa, e aqui estou às vossas ordens!

nada sabia do que se passara. — Está vivo ainda ou

— Que fim levou o marquês? — perguntou a menina com ansiedade, pois

segunda abóbora

— Vivíssimo, senhora princesa! A estas horas já deve de estar atacando a

— Muito bem! — exclamou Narizinho, aliviada dum grande peso. — Quero agora, senhor Tom Mix, que me arranje uns burrinhos de carga para levar um pouco de mel e cera para vovó.

Tom Mix retirou-se para cumprir a ordem, enquanto a menina se dirigia de novo à rainha.

— Senhora rainha, poderá Vossa Majestade dar ordem à sua cozinheira para me oferecer um tostão de mel?

— Darei o mel e a cera que quiser — respondeu a rainha sorrindo; — quanto ao tostão, guarde-o para você, que aqui entre nós não tem o menor valor o dinheiro dos homens. Ali, naquela sala dos favos, é o depósito de mel. Vá lá e tire quanto quiser.

A menina agradeceu a gentileza e retirou-se para a tal sala com a boneca. Tudo tão bem arrumado! Potinhos de cera cheios de mel em quantidade, todos iguais, com tampinhas também de cera.

— Querem mel? — perguntou logo uma abelha de avental muito limpa que tomava conta daquela repartição. — Queremos, sim, senhora! Mel e cera.

— De que qualidade?

— Há de muitas qualidades?

— Temos aqui mel de flores de laranjeira, mel de flores de jabuticabeira lá do sítio de dona Benta e temos o mel mil-flores, colhido de todas as flores do campo. — Dê-me de flores de jabuticabeira — resolveu logo Narizinho.

— E também um quilinho de cera bem branca, para tia Nastácia.

— Quem leva é aqui a sua criada? — perguntou a abelha indicando a boneca, enquanto fazia os pacotes.

Emília abespinhou-se toda, já vermelhinha de cólera. Mas a menina salvou a situação.

— Esta senhora não é minha criada e sim a Excelentíssima Senhora Condessa da Perna Vazia, futura Marquesa de Rabicó.

A abelhinha pediu mil desculpas, e ainda estava pedindo desculpas quando a entrada de Tom Mix à frente duma tropa de grilos arreados de cangalhas e ancorotes próprios para conduzir mel a interrompeu. Tom descarregou os ancorotes e esperou que a abelha meleira os enchesse. Depois os colocou de novo sobre as cangalhas e pediu instruções.

— Espere-me no portão do palácio com os cavalinhos prontos que também já vamos — ordenou-lhe a menina.

XII - A volta

Estavam todos prontos para a volta, exceto Emília. Narizinho refletia sobre o seu caso. Por fim pediu a opinião de Tom Mix sobre o melhor meio de a levar.

— Que disparate, Tom! Emília ficaria toda melada !

-Acho que temos de pôr a senhora condessa dentro dum dos ancorotes de mel. — Sim, mas há um vazio — respondeu ele. — Creio que ali irá mais comodamente do que na garupa do cavalinho pangaré.

Emília fez cara feia e protestou. O meio de sossegá-la foi permitir-lhe seguir na frente do bando, para que pudesse “ir vendo as coisas antes dos outros”. Estava nascendo nela aquele espírito interesseiro que a ia tornar célebre nos anais da ciganagem.

Puseram-se em marcha. Meia légua adiante Emília pôs-se de pé dentro do barrilzinho e gritou:

— Estou vendo uma coisa esquisita lá na frente! Um monstro com cabeça de porco e “peses” de tartaruga!

Todos olharam, verificando que Emília tinha razão. Era um monstro dos mais estranhos que possa alguém imaginar. Tom Mix puxou da faca e avançou, dizendo a Narizinho que não se mexesse dali. Chegando mais perto percebeu o que era.

— Não é monstro nenhum, princesa! Trata-se do senhor marquês montado num pobre jabuti! Vem metendo o chicote no coitado, sem dó nem piedade.

E assim era. Rabicó dava de rijo no pobre jabuti e ainda por cima o descompunha. — Caminha, estupor! Caminha depressa, se não te pico de espora até a alma!

— gritava ele.

Narizinho ficou indignada com aquilo. Era demais! Vendo-a assim, Tom Mix puxou do revólver e disse: — Se quer, apeio aquele maroto com uma bala!

— Não é necessário — respondeu ela. — Eu mesma lhe darei uma boa lição.

Deixe o caso comigo.

— Desça já do pobre jabuti, seu grandíssimo

Nisto o marquês alcançou o grupo, e já estava armando cara alegre de semvergonha, quando a menina o encarou, de carranca fechada. Muito espantado daquela recepção, Rabicó foi descendo, todo encolhido. — E para castigo — continuou a Menina — quem agora vai montar é o senhor jabuti. Vamos, senhor jabuti! Arreie o marquês e monte e meta-lhe a espora sem dó!

O jabuti assim fez, e sossegadamente, porque jabuti não se apressa em caso nenhum, botou os arreios no leitão, apertou o mais que pôde a barrigueira, montou muito devagar e lept! lept! fincou-lhe o chicote como quem surra burro bravo. — Coin! coin! coin! — berrava o pobre marquês.

— Espora nele, jabuti! — gritava a boneca. — Espora nesse guloso que me comeu os croquetes!

— E também uma boas lambadas por minha conta! — murmurou uma voz fina no ar.

Todos ergueram os olhos. Era a libelinha enganada, que ia passando, veloz como um relâmpago.

pagou pelo menos metade dos seus pecados

O caso foi que naquele dia Rabicó perdeu pelo menos um quilo de peso e

Depois desse incidente puseram-se de novo em marcha, só parando numa figueira de boa sombra, já pertinho do sítio.

— Ponto de almoço! — gritou Narizinho, que estava com uma fome tirana.

Desde que saíra de casa só comera os bolinhos trazidos.

Apearam-se. Estenderam no chão uma toalhinha. Tom Mix abriu dois barriletes de mel. Narizinho remexeu no bolso a ver se ainda encontrava algum pedaço de bolo. Não encontrou nem o besouro. Tinha fugido, o ingrato! Puseram-se a manducar mel puro, único alimento que havia.

No melhor da festa — tzzsiu! um passarinho cantou na árvore próxima. A menina ergueu os olhos: era um tiziu.

— Emília — disse ela intrigada — não acha aquele tiziu com um certo ar de

Pedrinho? — Muito! E querem ver que é ele mesmo?

encontrar virado em ave!

— Pedrinho! Pedrinho! Venha cá, Pedrinho! — gritou a menina, aflita. O tiziu desceu da árvore, vindo pousar em seu ombro. — Então que é isso, Pedrinho? Deixo você em casa feito gente e o venho — Assim é — disse ele. — Todos viramos aves lá em casa.

— Como? Explique isso! — gritou Narizinho ansiosa.

— Pois apareceu por lá uma velha coroca, de porrete na mão e cesta no braço.

vovó em tartaruga e tia Nastácia em galinha preta

“Menino”, disse-me ela, “é aqui a casa onde moram duas velhas dugudéias em companhia duma menina de nariz arrebitado, muito malcriada?” Furioso com a pergunta, respondi: “Não é da sua conta. Siga seu caminho que é o melhor”. “Ah, é assim”? exclamou ela. “Espere que te curo”! E virou a mim em passarinho, virou

vingar-se

— Que horror! — foi o grito que escapou de Narizinho. — Que vai ser de nós agora? Já sei quem é essa velha! Não pode ser outra! Bem ela me disse que havia de

— Que foi que aconteceu, princesa? — indagou Tom Mix, já de mão no revólver.

igual para igual. Contra uma bruxa feiticeira, não seinão sei... e contou o que

— Não sei, Tom, se desta vez nos poderá valer! Você é invencível, mas só de havia acontecido.

— Deixe tudo por minha conta, princesa, e não duvide da minha arte de resolver situações complicadas. Siga viagem que eu vou dar volta pelos arredores a fim de apanhar essa velha. Juro que hei de trazê-la bem segura, para que desfaça o mal que fez...

— Os anjos digam amém! — suspirou Narizinho mais animada. E dando rédeas ao cavalo pangaré tocou para o sítio com o tiziu ainda pousado no ombro.

Que tristeza! Mal Narizinho apeou no terreiro e já ouviu uma galinha cacarejar lá dentro.

— É tia Nastácia, coitada! — suspirou com o coração apertado. Entrou. Na sala de jantar viu sentada na rede, costurando, uma tartaruga de óculos.

A tartaruga, quieta, quieta
galinha preta que mais parece urubu

— Vovó! — gritou a menina com desespero. — Não me conhece mais vovó? — Veja, Emília, que desgraça! — gritou Narizinho em lágrimas. Vovó é aquele bicho cascudo que está na rede! Nastácia é aquela horrenda

Emília olhou, olhou e também rompeu em choro, abraçando-se com a menina.

este caso é tão estranho que receio que nem ele possa nos salvar

— A única esperança que nos resta é Tom Mix – disse Narizinho. — Mas

Passaram-se dois dias. Narizinho, inconsolável, não podia conformar-se com a idéia da sua querida avó tartarugando na rede, nem de tia Nastácia volta e meia botando um ovo na cozinha.

— Mas está demorando tanto, Emília!
— Dois dias só. Você sabe que a conta para tudo é três
— Qual, Emília! Está tudo perdidoSe a velha tem o poder de virar os

— Sossegue, Narizinho. Tom Mix é um danado. De repente reaparece e conserta tudo, como no cinema — dizia a boneca para a consolar. Chegou afinal o terceiro dia. As duas amiguinhas, postadas à janela desde cedo, espiavam os horizontes, ansiosas. Nem uma poeira se erguia! Narizinho suspirou. outros em bicho, também pode virar-se a si própria em pedra, árvore, tronco seco — e como há de Tom Mix saber?

na ponta da faca

— Paciência, Narizinho! Vai ver que de repente ele brota por aí com a velha

Palavras não eram ditas e um cachorrinho latiu no terreiro. — Deve ser ele! — gritou Emília correndo para a porta. E era mesmo. Era Tom Mix que voltava com dois revólveres apontando e a velha à frente, de braços erguidos.

que fizeste, se não te como os fígados, já neste momento

— É agora! — berrou o cowboy no ouvido da bruxa. – Vais desfazer o mal

Depois criou coragem e os foi abrindo devagarinho. E viusabem quem?

Horrorizada com a feiúra da velha, Narizinho fechou os olhos.

— Acorde menina! Parece que está com pesadelo

Viu tia Nastácia a olhar para ela e a dizer: Narizinho sentou-se na cama, ainda tonta, esfregando os olhos. — E vovó? — perguntou.

— Lá dentro, costurando.

(Parte 7 de 7)

Comentários