Apostila de Portugues Correto 2 - Morfologia

Apostila de Portugues Correto 2 - Morfologia

(Parte 1 de 6)

Morfologia Índice/Sumário.

assessoramento

Caro Professor, gostaria de um esclarecimento sobre uma palavra que alguém que eu conheço insiste em usar: assessoramento. Essa palavra existe em Português? Não seria melhor usar assessoria? Por exemplo: essa pessoa usa “assessoramento técnico e comercial em transporte vertical”. Isso é correto? Obrigada por sua ajuda.

Marilena R. – Campinas (SP)

Cara Marilena: quanto ao assessoramento, o nosso idioma usa vários recursos para formar substantivos abstratos de ação a partir de um verbo: ou tira a terminação verbal e acrescenta simplesmente uma vogal (roubar/roubo; trocar/troca; desgastar/desgaste); ou acrescenta ao radical um dos sufixos especializados neste fim: -mento (congelar/congelamento); -ção

(explorar/exploração); -dura (benzer/benzedura); -ia (correr/correria). O que ninguém jamais conseguirá explicar são os vínculos ocultos entre esses elementos todos, que nos fazem preferir degelo para degelar, mas congelamento para congelar. Por que não degelamento? Seria perfeitamente possível, mas não se formou, indicando que, entre as várias possibilidades, a forma degelo ganhou nossa preferência. E mais: se usamos congelamento aqui no Brasil, lembro que

Portugal prefere congelação – usando uma das terminações que nossa língua admite para o mesmo radical. Por isso, é comum encontrarmos duas ou mais formas ainda disputando seu espaço; é o caso bem conhecido de monitoração e monitoramento, ambas bem formadas, que ficarão coexistindo até que uma delas vá ficando esmaecida. No meu dialeto pessoal, assessoramento e assessoria estão em pé de igualdade; nenhuma das duas tem minha preferência. Agora, como você mesma notou, ao seu colega soa melhor assessoramento, enquanto você prefere assessoria. Esse estado de indefinição pode durar décadas. Por isso, sossegue.

nomes comerciais em X

Por que há tantos nomes comerciais terminados em X? O Professor apresenta suas suposições.

Caríssimo Professor: embora haja vocábulos bem antigos terminados em X, esse final me parece ter uma conotação de moderno e contemporâneo, sendo bastante utilizado para dar nome a produtos que se querem associados à tecnologia, principalmente, como é o caso de Vaspex,

Sedex e tantos outros que são criados diariamente (até mesmo o popularíssimo Marmitex). Minha pergunta é: de onde vem essa terminação? Quais foram seus precursores?

Wolney U. – Goiânia

Meu caro Wolney: a operação de batizar um produto industrial envolve muito mais que uma simples designação: é importante também que esse nome sugira qualidades desejáveis como modernidade, eficiência e respeitabilidade. Essa força evocativa das palavras fica naquele rincão misterioso que o linguista Roman Jakobson denominava de função poética da linguagem. Digo misterioso porque simplesmente ninguém explica por que uma determinada combinação de sons traz mais prestígio do que outras; o certo é que isso acontece, e os publicitários e homens de criação precisam ter sempre o ouvido muito atento.

Há fortes indícios de que o uso das terminações em X para marcas e produtos tenha vindo do

mais o uso difundido do sufixo high-tech (já que estou falando do Inglês) -ex, que sugere a ideia

Inglês. A presença, em muitos nomes compostos, de radicais como flex, mix, max, fix, lux, vox, de excelência, parecem ter carregado todos os nomes terminados em X com essa aura especial, reforçada por marcas de grande renome e qualidade, como Rolex, Xerox, Pentax, Victorinox,

Linux, Rolleiflex. Na irrefreável globalização mercantil, muitos desses produtos entraram no Brasil, misturando seus nomes ao de produtos genuinamente nacionais, batizados também nesse novo estilo. Hoje, sem uma pesquisa cuidadosa nas juntas comerciais e nos registros de marcas, é praticamente impossível distinguir, a olho nu, quem é daqui e quem é de fora entre os seguintes nomes: Ajax, Chamex, Colorex, Concremix, Durex, Errorex, Eucatex, Iodex, Marinex,

Mentex, Panex, Paviflex, Repelex, Varilux, Zetaflex. O inconfundível toque brasileiro: o professor Antônio José Sandmann, em seu Competência Lexical, menciona uma pequena firma de reparos domésticos de instalações elétricas e hidráulicas, no litoral do Paraná, que ostenta o vistoso e significativo nome de Prajax.

motinho

Se temos tortinha e portinha, por que uma moto pequenina não é uma motinha?

Prezado Doutor: gostaria que você me ajudasse a resolver uma dúvida que já está virando assunto em todos os lugares que eu e meus amigos frequentamos: qual é o diminutivo de moto e foto? É fotinho ou fotinha? Motinha ou motinho?

Gustavo A. – São Paulo

Meu caro Gustavo: embora a tradição gramatical considerasse -inho e -zinho como duas variantes do mesmo sufixo, hoje se sabe que são dois elementos completamente diferentes, quanto a sua natureza e quanto a seu comportamento. O elemento -zinho funciona como uma espécie de adjetivo preso ao vocábulo primitivo, mantendo com ele a mesma relação de concordância que os adjetivos mantêm com os substantivos: um cometA, um cometazinhO; um poemA, um poemazinhO; uma tribO, uma tribozinhA. O elemento -inho, no entanto, funciona como um sufixo especial, que conserva o A ou o O final do vocábulo primitivo, independentemente do gênero ser masculino ou feminino: um poemA, um poeminhA; um cometA, um cometinhA; uma tribO, uma tribinhO; um sambA, um sambinhA.

No Português, pouquíssimos são os vocábulos femininos que terminam em O: além de tribo, temos a libido (um latinismo importado por via científica) e os dois vocábulos que mencionaste, moto e foto, criados modernamente pela redução dos compostos eruditos motocicleta e fotografia. Por isso – se formarmos diminutivos usando -inho –, vamos ter a motO, a motinhO; a fotO, a fotinhO. É natural que as pessoas achem estranhas essas duas formas, dada a sua extraordinária raridade nos padrões do nosso vocabulário. Abraço.

guarda-chuvinha

Como se chama um guarda-chuva pequenino? É um guardachuvinho, um guarda-chuvinha ou um guarda-chuvazinho?

Professor, numa reunião de família, em meio a muita brincadeira e descontração, surgiu uma dúvida interessante: qual é a forma correta de escrever o diminutivo de guarda-chuva? Já buscamos em diversos materiais e nada de sanar nossa dúvida. Aguardo resposta.

Vanice – Bento Gonçalves (RS)

Minha cara Vanice: um guarda-chuva pequeno pode ser tanto um guarda-chuvinha como um guarda-chuvazinho. Na maioria dos substantivos de nosso idioma, podemos optar entre formar diminutivos com -inho e diminutivos com -zinho: paredinha, paredezinha; livrinho, livrozinho; colherinha, colherzinha; etc. Com -inho, fica conservada a vogal terminal do vocábulo primitivo: poeta, poetinha; tema, teminha, enquanto com -zinho, que tem um nítido caráter de adjetivo, aparece a terminação característica do gênero: um poetazinho; um temazinho.

Daí nasce a discrepância entre guarda-chuvinhA e guarda-chuvazinhO (friso: ambos estão corretos!). No primeiro, o A de chuva é conservado após o sufixo: chuvinha. No segundo, -zinho se acrescenta ao composto [guarda-chuva] com o elemento terminal característico do masculino

(já que este é o gênero de guarda-chuva): guarda-chuvaZINHO. É complexo; não me admira que vocês tivessem dificuldades em encontrar a resposta.

absenteísmo

O sufixo -ismo que está presente em cristianismo e classicismo não é o mesmo que aparece em clientelismo ou denuncismo.

Caro Professor Moreno: estou em fase de redação de minha dissertação de mestrado e gostaria de orientação quanto à adequação das palavras afastamento ou absenteísmo para caracterizar a ausência do funcionário no trabalho por motivo de licença-saúde. Ressalto ainda que me refiro apenas a ausências justificadas por atestado médico.

Denise B. – São José do Rio Preto (SP)

Minha cara Denise: acho que você deve evitar o vocábulo absenteísmo no seu trabalho. Os vocábulos em -ismo, outrora, eram usados exclusivamente para designar doutrinas, movimentos artísticos, estilos literários: naturalismo, positivismo, classicismo, surrealismo, etc. Modernamente, contudo, este sufixo também passou a intervir na criação de vocábulos em que se percebe uma nítida intenção de criticar o exagero, o excesso. É o caso de consumismo, grevismo, assembleísmo, denuncismo, etc. Em absenteísmo, como em consumismo, o sufixo -ismo indica a exagerada repetição ou intensificação de uma prática. Consumista é quem consome sem critérios; absenteísta é quem vive faltando a seu emprego ou a suas aulas. Fique com o afastamento – ainda mais considerando que se trata de licença-saúde.

adjetivos gentílicos

Uma leitora argentina quer saber se brasileiro é o único gentílico com essa terminação.

Caro Professor: por que o adjetivo relativo ao Brasil é brasileiro, se este sufixo não é usado em nenhum outro caso para derivados de nomes geográficos?

Paula Velarco – Buenos Aires (Argentina)

Você tem razão em estranhar, Paula, mas verá que há uma boa explicação para isso. Nosso idioma dispõe de vários sufixos para obter o mesmo resultado; por exemplo, na formação de substantivos abstratos de ação (aqueles que derivam de verbos), o Português, entre outros, pode usar -mento (tratamento, abalroamento), -dura (andadura, varredura), -ção (descrição, provocação) ou -agem (passagem, regulagem). Não existe um padrão que determine qual desses sufixos vamos usar; a seleção se dá, caso a caso, por critérios que ainda não foram bem estudados. O mesmo vai ocorrer com os adjetivos gentílicos. Nossos sufixos mais produtivos para esse fim são -ano, -ense e -ês, mas também temos adjetivos em -ino, -ista, -ão, -ita e -enho, entre outros:

-ENSE: amazonense, catarinense, maranhense, rio-grandense (é o mais usado nos gentílicos brasileiros).

-ÊS: português, chinês, neozelandês, calabrês, holandês.

-ANO: americano, italiano, californiano, baiano, boliviano.

-INO: belo-horizontino, bragantino, argelino, marroquino, londrino, florentino.

-ÃO: alemão, lapão, afegão, catalão, coimbrão, gascão, parmesão (de Parma).

-ITA: israelita, iemenita, moscovita, vietnamita.

-ENHO: costa-riquenho, hondurenho, porto-riquenho (de topônimos do espanhol).

-ISTA: santista, paulista, campista (raro).

O sufixo -eiro, por sua vez, é muito usado para indicar profissão ou atividade: jornaleiro, sapateiro, cabeleireiro, ferreiro. Isso explica por que os nascidos no Brasil são brasileiros (e não brasilianos ou brasilenses): essa era a denominação dos que trabalhavam, nos primeiros dias do Descobrimento, na extração do pau-brasil e passou a designar todos os que nasciam aqui nesta terra. Da mesma forma, chamamos de mineiros os que nascem em Minas Gerais, palavra que já existia como profissão. Como podes ver, gentílicos com a terminação -eiro são muito raros e não devem chegar a meia dezena. Não me admira que você, falante nativa de outro idioma, tivesse percebido a estranheza dessa formação.

aidético

Um médico infectologista lamenta o emprego indiscriminado do termo aidético; o Professor explica o que está havendo.

Caro Professor: entre nós que trabalhamos com doenças infecciosas – eu sou médico infectologista – a palavra aidético tem uma conotação pejorativa. É como se nós nos referíssemos a um paciente com câncer como canceroso. Para mim, ainda mais, não havia razão para a sua existência, já que a raiz aids não daria aidético, no máximo um aidesético.

Para minha surpresa, o dicionário Aurélio registra o termo sem nenhum alerta sobre o seu uso perigoso. E eis que o Houaiss vem e faz o mesmo. Esses nossos dicionaristas não estariam aceitando termos acriticamente? O que o senhor acha disso? Estão autorizando a nós, médicos, usarmos o termo em nossos artigos científicos?

Hélio B.

Meu caro Hélio: a língua corrente usa as palavras independentemente das considerações éticas que um médico possa levantar. Essa distância entre o uso especializado e o uso comum é observável em qualquer área do conhecimento; enquanto o vocabulário jurídico distingue entre roubar e furtar, a diferença inexiste para o cidadão que teve seu carro levado por ladrões. Para este mesmo cidadão, o vocábulo aidético designa simplesmente os indivíduos contaminados pelo vírus da Aids; ele não percebe aí a carga pejorativa que um médico vê e procura evitar. É como louco ou maluco, vocábulos que um falante comum utiliza, sem malícia, para designar quem sofre das faculdades mentais, mas que deixam toda a comunidade de psiquiatras e psicólogos com os cabelos (e as barbas) em pé.

Aidético é o adjetivo que nasceu de Aids, e ninguém mais poderá matá-lo, mesmo que fosse malformado – no que, aliás, também tenho as minhas dúvidas. Por que deveria ser *aidesético? Não temos nenhum vocábulo com essa terminação -esético; além disso, vejo que lues deu luético e herpes deu herpético, com a desconsideração da sibilante final, como ocorre com aidético.

Agora, o fato de todos os bons dicionários registrarem o termo não significa sinal verde para usá-lo em trabalhos científicos; lembre-se de que todos os palavrões estão dicionarizados, mas isso não nos autoriza a empregá-los num artigo ou numa tese. Dicionário apenas registra e informa; a nós cabe decidir o que é correto ou adequado para as situações concretas, de acordo com nossa formação e nossa sensibilidade. Como você muito bem observou, médicos que se referem a seus pacientes como cancerosos ou sifilíticos parecem não ter a humanidade e a compreensão indispensáveis para um profissional dessa área.

Alcorão ou Corão? Veja por que é preferível a forma Alcorão.

Prezado Doutor: tenho observado em revistas a palavra Corão; já em jornais, na televisão e no Aurélio aparece Alcorão. Gostaria de saber qual é a forma correta.

Marlene – Araçatuba (SP)

Minha cara Marlene: no bom e velho Português, sempre se usou Alcorão. Assim vem nos dicionários mais respeitáveis do passado (Bluteau e Morais). Assim escrevia Camões em 1572:

Uns caem meios mortos, outros vão A ajuda convocando do Alcorão.

Os Lusíadas – Canto I, 50.

Como todos nós sabemos, a permanência dos árabes, por sete séculos, na Península Ibérica (onde hoje ficam Portugal e Espanha) contribuiu com centenas de vocábulos para o Português, muitos deles curiosamente iniciados pela letra A: almôndega, alfândega, almoxarife, almofada, açafrão, açougue, açúcar, açude, adaga, alcova, alcunha, aldeia, alface, algema, algodão, algoz, alicerce, almíscar, alvará, arrabalde, arroba, arroz, azeite, entre outros.

Este AL ou A era o artigo árabe usado antes dos substantivos; nossos antepassados simplesmente incorporaram essa partícula nas palavras que ouviam, sem ter a consciência de sua natureza de artigo. Basta compararmos nosso açúcar e nosso algodão com o sugar e o cotton do Inglês, o sucre e o coton do Francês, e o zucchero e o cotone do Italiano, línguas que nunca estiveram em contato direto com o Árabe. Por esse mesmo motivo, enquanto o Inglês prefere Koran, nós preferimos a forma com o artigo Al já assimilado. Há quem prefira simplesmente

Corão, por se assemelhar mais ao termo árabe aportuguesado; respeito a opção, mas não vejo razão para contrariar o que nossa tradição já fixou tão bem. Agora, o que não engulo é aquela teoriazinha, defendida por algumas sumidades, de que é preferível Corão porque o Alcorão, com a presença dos dois artigos (o nosso e o árabe), seria uma forma de pleonasmo! Eu morro, mas não vejo todas as manifestações da ignorância humana! Por esse mesmo raciocínio de jerico, seria melhor dizer que “o godão é o melhor tecido para camisas” e que “as zeitonas são indispensáveis no recheio da empadinha”.

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