Difusão de tecnologias apropriadas para o desenvolvimento sustentável do semiárido brasileiro

Difusão de tecnologias apropriadas para o desenvolvimento sustentável do semiárido...

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Difusão de Tecnologias

Apropriadas para o

Desenvolvimento Sustentável do Semiárido Brasileiro

Organizadores

Dermeval Araújo Furtado

José Geraldo de Vasconcelos Baracuhy Paulo Roberto Megna Francisco

Difusão de Tecnologias

Apropriadas para o

Desenvolvimento Sustentável do Semiárido Brasileiro

Realização Apoio

Revisão, Editoração e Arte: Paulo Roberto Megna Francisco

Epgraf

Av. Assis Chateaubriand, 2840 Distrito Industrial - Campina Grande - PB

Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da UFCG

D569 Difusão de tecnologias apropriadas para o desenvolvimento sustentável do semiárido brasileiro / Organizadores, Dermeval Araújo Furtado, José Geraldo Baracuhy, Paulo Roberto Megna Francisco. ─ Campina Grande: EPGRAF, 2013.

1. Sustentabilidade. 2. Bioma Caatinga. 3. Semiárido
I. Furtado, Dermeval AraújoI. Baracuhy, José Geraldo.
I. Francisco, Paulo Roberto Megna. IV. Título
APRESENTAÇÃO8
INTRODUÇÃO9
Silva Filho1

Luís Paulo de Carvalho, Francisco Pereira de Andrade, João Luiz da

Ziany Neiva Brandão24

Jeane Ferreira Jerônimo, Odilon Reny Ribeiro Ferreira da Silva, Pablo Radamés Cabral de França, Francisco de Assis Cardoso Almeida,

Silva, Francisco de Assis Cardoso Almeida47

Pablo Radamés Cabral de França, Odilon Reny Ribeiro Ferreira da

Waltemilton Vieira Cartaxo, Isaías Alves64

Odilon Reny Ribeiro Ferreira da Silva, Ziany Neiva Brandão, Pablo Radamés Cabral de França, Roseane Cavalcanti dos Santos,

Rafael Gonçalves Tonucci, Nilzemary Lima da Silva95

Ana Clara Rodrigues Cavalcante, Francisco Eden Paiva Fernandes,

Antônio Cardoso113
Vasconcelos de Oliveira Lima, Elioenai Toscano de Azevedo124

José Raniéri Santos Ferreira, Ângela Maria Cavalcanti Ramalho, Frederico Campos Pereira, José Márcio da Silva Vieira, Anny Kelly

Antônio Cardoso, Paulo Roberto Megna Francisco132

José Vanildo do Nascimento Silva, Claudia Medeiros Suassuna,

Rui Medeiros142

Stênio Andrey Guedes Dantas, Audenes Sallyark Guedes Dantas, Tony Andreson Guedes Dantas, Lourival Ferreira Cavalcante,

CAPÍTULO XI USO DE SUCOS ÁCIDOS PARA SUPERAÇÃO DA DORMÊNCIA DE Leucaena Leucocephala

Elioenai Toscano de Azevedo, Igor Rafael Santos Azevedo, Jordânia Araújo, Daniela Batista da Costa, Frederico Campos Pereira ............. 154

Queiroz, Daniela Batista da Costa, Frederico Campos Pereira162

Gerciana A. Mahomed, Lidiane M. S. Guimarães Barros, Maria José de

Paulo Roberto Megna Francisco173
Paulo Roberto Megna Francisco183
Paulo Roberto Megna Francisco193
Paulo Roberto Megna Francisco203
Hugo Orlando Carvallo Guerra215

CAPÍTULO XVII TÉCNICAS ALTERNATIVAS DE CAPTAÇÃO E REÚSO DE ÁGUA EM ÁREAS RURAIS Riuzuani Michelle Bezerra Pedrosa Lopes Silvana Silva de Medeiros Vera Lúcia Antunes de Lima Curriculum dos Autores e Organizadores .................................................... 238

Com grande satisfação aceitamos o encargo de participar da organização deste livro através do convite formulado pelo Professor Dr. Dermeval Araújo Furtado, Coordenador do Programa de Pós-graduação em Engenharia Agrícola, que confiou plenamente em nosso trabalho, nos dando a liberdade de tirar do papel esse livro que faz parte do projeto “Difusão de tecnologias sociais adaptadas para o desenvolvimento sustentável do semiárido brasileiro” financiado pelo CNPq. Este projeto tem o objetivo de resgatar e disseminar tecnologias multidisciplinares, existentes ou já devidamente testadas, que sejam sustentáveis e de baixo custo, com ênfase na preservação e utilização racional dos recursos naturais, preservação ambiental e outras tecnologias que possam ser facilmente adotadas e facilitar e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores rurais do semiárido brasileiro.

Buscamos primeiramente captar de pesquisadores de várias instituições esse material e organizamos os conteúdos, corrigimos, sugerimos mudanças e por fim a editoração completando com a elaboração da arte da capa inspirada nos céus do semiárido.

Agradecemos profundamente todos que fazem parte deste livro pela colaboração e dedicação na divulgação de suas pesquisas. Esclarecemos que este material tem o objetivo de ser distribuído a todos os Assentamentos Rurais do Estado da Paraíba através do INCRA SR-18 e divulgado através da internet a todos que tiverem interesse.

Esperamos, portanto, que este pequeno livro possa contribuir realmente com a difusão dessas tecnologias melhorando a vida do homem do campo.

Dr. Paulo Roberto Megna Francisco

O livro Difusão de Tecnologias Apropriadas para o

Desenvolvimento Sustentável do Semiárido Brasileiro é um dos resultados mais significativos dos estudos, críticas, questionamentos e reflexões de seus autores e Organizadores, os Doutores Engenheiros Agrícolas Dermeval Araújo Furtado, José Geraldo de Vasconcelos Baracuhy, e Paulo Roberto Megna Francisco.

O leitor tem em mão uma seleção de temas de relevante contribuição para os campos de estudo e atuação da Engenharia Agrícola, Recursos Naturais e Meio Ambiente, Zootecnia e demais áreas afins, em que poderá perceber a importância das experiências de pesquisa relacionadas ao trabalho de campo e à extensão. Um livro que reúne significativo conjunto de análises cujas contribuições que vão da temática meio ambiente e solo, passando pelo manejo de animais, máquinas agrícolas, às tecnologias sociais e desenvolvimento sustentável.

O leitor encontrará neste livro análises que perpassam das questões e desafios mais atuais colocados para a Graduação e Pós-Graduação em Engenharia Agrícola às questões do debate sócio-econômico e político sobre os desafios da Agricultura e Sociedade no Semiárido brasileiro, e seu papel para o desenvolvimento sustentável.

Por fim, o leitor de Difusão de Tecnologias Apropriadas para o

Desenvolvimento Sustentável do Semiárido Brasileiro poderá comprovar a atualidade das reflexões aqui apresentadas no tocante aos desafios colocados para as Instituições Superiores de Ensino.

Dra. Rosilene Dias Montenegro

Pró-Reitora de Pesquisa e Extensão Coordenadora do Núcleo de Estudos em Desenvolvimento Regional da UFCG

O Semiárido brasileiro ocorre em todos os estados do Nordeste e em parte dos estados do Espírito Santo e Minas Gerais. Possui uma área de 1.142.0 km2 de extensão, abrigando cerca de 1.500 municípios, onde reside uma população de 26,4 milhões de habitantes, que corresponde a 15,5% da população brasileira.

O Semiárido possui características climáticas marcantes, com precipitações pluviométricas irregulares, variando de 268 a 800 m por ano, com altas temperaturas médias anuais, que são responsáveis pela evapotranspiração potencial, provocando déficit hídrico durante boa parte do ano. O relevo é irregular, os solos são rasos e normalmente apresentam baixa fertilidade e reduzido teor de matéria orgânica.

Além dos aspectos edafoclimáticos, a exploração agrícola no

Semiárido se dá com bases na agricultura familiar, onde a maioria dos produtores pratica agricultura de baixo nível tecnológico, não recebem assistência técnica compatível ao seu perfil, que na prática limita o seu acesso a tecnologias e aos projetos inovadores que lhes permitam gerar emprego e renda nas suas propriedades.

É fato que existem muitas tecnologias disponíveis e amplamente validadas para a exploração agrícola da região, que necessitam ser incorporadas cumprindo o ciclo vital na capacitação produtiva dos agricultores, onde o processo de transferência de tecnologia só se completa quando ocorre a apropriação e a adoção pelos agricultores.

A proposta básica deste livro é reunir e disponibilizar um conjunto de tecnologias apropriadas e validadas para o Semiárido, permitindo, assim, que de forma organizada os diferentes agentes de inovação tecnológica da assistência técnica e extensão rural possam conhecê-las e repassá-las de forma modular e partilhada para os agricultores, construindo em comum as estratégias necessárias para o crescimento e o desenvolvimento agrícola sustentável da região, para que as famílias possam construir dignidade e autonomia econômica e social.

Portanto, reunimos nesta edição 17 capítulos que contemplam oportunidades tecnológicas para a exploração agrícola sustentável do vasto Semiárido brasileiro, que, de certo, poderão contribuir para o crescimento e desenvolvimento da região.

Dr. Odilon Reny Ribeiro Ferreira da Silva Chefe Adjunto de Transferência de Tecnologia da EMBRAPA Algodão

CULTIVARES DE ALGODÃO COLORIDO PARA A REGIÃO SEMIÁRIDA DO BRASIL1

Luís Paulo de Carvalho

Francisco Pereira de Andrade João Luiz da Silva Filho

Introdução

O algodão naturalmente colorido tem origem na América antiga, onde tecelões já fiavam e teciam os algodões de cor marrom e verde, desde sua domesticação há 4.500 anos (Narayanan; Sundaram, 1996). A maioria dos materiais de algodão naturalmente colorido cultivados no mundo é descendente de estoques pré-colombianos selecionados pelos povos antigos das Américas (Stephens, 1975). Escavações no Peru de 2.500 a.C. de algodões coloridos e de 2.700 a.C. no Paquistão de algodões de fibra branca demonstram que o algodão colorido e o branco são igualmente antigos, segundo Gulatti e Turner (1928). O línter e a fibra dos algodões tetraploides ocorrem em cores que vão do branco a várias tonalidades de verde e marrom. Os genes que conferem essas cores estão relatados na literatura (Harland, 1935; Kohel, 1985; Ware, 1932). A maioria dos algodões silvestres possui coloração em suas fibras curtas e não fiáveis, conforme Fryxell (1979).

Os trabalhos de melhoramento realizados no mundo, desde a metade do século 20, produziram cultivares superiores e adaptadas e acentuaram a diferença entre os caracteres de importância econômica dos dois tipos de algodão, permanecendo o algodão colorido com fibra de característica

1Pesquisadores da Embrapa Algodão. Campina Grande-PB

*Trabalho reeditado a partir de publicação feita pelos autores na revista RBOF, v.15, n.1, p.37- 4. 2011.

inferior em relação ao branco. Em outras partes do mundo, para cultivo comercial, podem-se citar os trabalhos de Gus Hyer, citado por Maralappanavar (2005), nos Estados Unidos, que geraram estoques comerciais de algodão verde e marrom, além dos trabalhos de Fox (1987), que geraram algumas cultivares de algodão colorido nos Estados Unidos de 1985 a 2000. Na China, pesquisadores têm selecionado cultivares de fibra colorida (Xiao et al., 2007).

Recentemente, cresce o interesse no cultivo do algodão de fibra colorida na região Nordeste do Brasil pela agricultura familiar, tanto em manejo convencional quanto orgânico. Isso se deve principalmente ao fato de o agricultor comercializar a fibra colorida por um preço melhor quando comparado ao algodão branco. A coloração natural valoriza os produtos ecologicamente corretos, já que dispensam o tingimento artificial que polui o meio ambiente; e, além disso, se for produzido de forma orgânica, sem o uso de insumos e fertilizantes químicos, o produto terá alto valor comercial. Para suprir essa demanda, a Embrapa Algodão vem, desde meados da década de 1980, realizando trabalhos de melhoramento genético com a finalidade de selecionar cultivares de fibra colorida, com boa produtividade e boas características de fibra. Este capítulo tem o objetivo de apresentar e descrever as características das cultivares de algodão colorido desenvolvidas pelo programa de melhoramento de algodão do Centro Nacional de Pesquisa de Algodão (CNPA), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), para cultivo na região semiárida.

Até o presente foram lançadas comercialmente cinco cultivares com fibra colorida: BRS 200, BRS Verde, BRS Rubi, BRS Safira e BRS Topázio. A cultivar BRS 200, de fibra marrom-clara, foi lançada no ano 2000. Esta cultivar foi obtido por meio de seleção a partir de plantas matrizes de algodoeiro arbóreo coletadas em Acari, RN, e Milagres, CE, que apresentavam a cor marrom-clara ou ganga da fibra (Freire et al., 2000). As demais cultivares, BRS Verde, BRS Rubi, BRS Safira e BRS Topázio foram lançadas nos anos 2003, 2004, 2004 e 2010, respectivamente, e tiveram como doadores dos genes destas cores materiais introduzidos de outros países (Carvalho et al., 2000, 2005; Vidal Neto et al., 2010).

Na figura 1 podem-se ver fardos de algodão com fibra colorida de algumas cultivares já lançadas para plantio na região semiárida, além de uma de cor da fibra branca.

Figura 1. Da esquerda para a direita: Algodão de fibra branca e fibra das cultivares BRS 200, BRS Verde, BRS Rubi. Foto: Luiz Paulo de Carvalho.

Cultivar BRS Verde

Em 1996, foi realizado o cruzamento entre o material Arkansas Green, de fibra verde, com a cultivar CNPA 7H, de ampla adaptação à região Nordeste, realizando-se, em seguida, mais dois retro cruzamentos com a CNPA 7H para recuperar algumas características de fibra deste progenitor. A população resultante foi submetida à seleção genealógica com vistas à melhoria dos caracteres de fibra, principalmente a resistência da fibra que era baixa no doador da cor verde. Após vários ciclos de seleção e testes comparativos, chegou-se a três linhagens que compuseram um bulk que deu origem à BRS Verde, lançada no ano de 2003. C. A fibra da BRS Verde tem uma instabilidade em relação à cor, pois os pigmentos que causam a cor verde são sensíveis à luz solar. Por isso, recomenda-se que a esta fibra seja colhida em duas etapas, primeira e segunda colheitas, evitando assim que a fibra fique muito exposta ao sol no campo. Na Tabela 1, são apresentadas algumas características dessa cultivar bem como de um de seus progenitores, a cultivar CNPA 7H de fibra branca.

Tabela 1. Características gerais e de fibra da cultivar de algodão colorido BRS Verde em relação a cultivar de algodão branco CNPA 7H(1)

Características BRS Verde CNPA 7H

Cor da flor e do pólen Creme Creme

Altura média (m) 1,27 0,7 Rendimento (kg/ha) 2.146 2.480 (1)Dados médios obtidos em ensaios de sequeiro.

O comprimento da fibra da BRS Verde está em torno de 30 m, sendo, portanto, de fibra média, semelhante ao da cultivar de fibra branca CNPA 7H. A resistência da fibra está em torno de 26 g/tex. Com relação ao ciclo, a BRS Verde se assemelha à CNPA 7H com 130–140 dias. A produtividade da BRS verde, de acordo com a Tabela 1, em regime de sequeiro, ficou abaixo da produtividade da CNPA 7H, mas é considerada boa.

Cultivar BRS Rubi

Em 1996, realizou-se o cruzamento entre um material de fibra marrom-escura, pertencente ao Banco Ativo de Germoplasma (BAG) da Embrapa Algodão, e a cultivar CNPA 7H de fibra branca de boa qualidade e adaptada às condições do Nordeste. A partir da geração F3, iniciou-se um programa de seleção genealógica para obtenção de materiais com fibra marrom-escura, de boa produtividade e boa característica de fibra. Após alguns ciclos de seleção, foram obtidas linhagens que participaram de ensaios comparativos em vários locais da região Nordeste, destacando-se nestes, em relação à cor marrom-escura da fibra e produtividade, a linhagem CNPA 01- 2, que se tornou a cultivar BRS Rubi (Figura 2), lançada no ano de 2005. Esta cultivar é a primeira o Brasil a apresentar cor marrom-escura ou marrom-avermelhada. Como toda cultivar de fibra colorida, deve-se evitar a prolongada exposição ao sol para que se obtenha coloração intensa da fibra. Na Tabela 2, encontram-se algumas características dessa cultivar.

Figura. 2. Cultivar BRS Rubi. Foto: Luiz Paulo de Carvalho.

Tabela 2. Características gerais e de fibra da cultivar de algodão colorido BRS Rubi em relação a cultivar de algodão branco CNPA 7H(1)

Características BRS Rubi CNPA 7H Rendimento (kg/ha) 1.871 1.755

Uniformidade (%) 81 85 (1)Dados médios obtidos em ensaios de sequeiro.

Verifica-se o bom potencial produtivo da cultivar BRS Rubi, que superou a CNPA 7H nos ensaios conduzidos em regime de sequeiro (Tabela 2). Apesar de sua alta produtividade, algumas características da fibra, como o percentual de fibra, o comprimento e a resistência, encontram-se abaixo dos padrões desejados para uma cultivar de fibra média, mas esses atributos não têm afetado sua fiação na indústria. Novas cultivares com essa cor da fibra e com melhor qualidade está sendo obtidas pelo Programa de Melhoramento de Algodão da Embrapa Algodão, sendo uma delas relatada adiante.

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