novas-mentiras-velhas - anatoliy golitsyn

novas-mentiras-velhas - anatoliy golitsyn

(Parte 1 de 9)

A Estratégia Comunista de Dissimulação e Desinformação

Por ANATOLIY GOLITSYN

A Estratégia Comunista de Dissimulação e Desinformação

Traduzido por Henrique Dmyterko

À memória de

Anna Akhmatova Consciência e alma da literatura russa

Conteúdo

Prefácio e introdução à edição brasileira Prólogo a 2.a edição norte-americana (1990) Nota a 1.a edição norte-americana (1984) Nota do autor

Parte Um: As Duas Metodologias

1. Os Problemas Enfrentados Pelos Analistas Ocidentais 2. Os Padrões de Desinformação: “Fraqueza e Evolução” 3. Os Padrões de Desinformação: “Aparência e Força” 4. Os Padrões de Desinformação: Transição 5. A Nova Política e a Estratégia de Desinformação 6. O Relatório Shelepin e as Mudanças na Organização 7. O Novo Papel da Inteligência 8. Fontes de Informação 9. A Vulnerabilidade das Avaliações Ocidentais 10. Sucessos dos Serviços de Inteligência Soviéticos, Falhas Ocidentais e a Crise nos Estudos e Análises Ocidentais 1. Erros do Ocidente 12. A Nova Metodologia Parte Dois: O Programa de Desinformação e seu Impacto no Ocidente

13. A Primeira Operação de Desinformação: A “Disputa” Soviético-Iugoslava entre 1958-60 14. A Segunda Operação de Desinformação: A “Evolução” do Regime Soviético, Parte I: As Principais

Mudanças na URSS

15. A Terceira Operação de Desinformação: A “Disputa” e a “Ruptura” Soviético-Albanesa 16.A Quarta Operação de Desinformação: A “Ruptura” SinoSoviética 17. A Quinta Operação de Desinformação: A “Independência” Romena 18. A Sexta Operação de Desinformação: As Pretensas Lutas pelo Poder nos Partidos Comunistas Soviético, Chinês e Outros. 19. A Sétima Operação de Desinformação: A “Democratização” na Checoslováquia em 1968 20. A Segunda Operação de Desinformação: A “Evolução” do Regime Soviético, Parte I: O Movimento dos “Dissidentes” 21. A Oitava Operação de Desinformação: Contatos Ininterruptos entre os Eurocomunistas e os Soviéticos – A Nova Interpretação do Eurocomunismo 2. O Papel da Desinformação e o Potencial da Inteligência na Consecução das Estratégias Comunistas 23. A Evidência de Coordenação Total entre Governos e Partidos Comunistas 24. O Impacto do Programa de Desinformação Parte Três: A Fase Final e a Contra-Estratégia Ocidental

25. A Fase Final 26. Para Onde Agora? Epílogo Glossário Índice

Prefácio dos Editores de Redação

Muito raramente as revelações de informações vindas detrás da Cortina de Ferro jogam alguma nova luz sobre as raízes do pensamento e ação comunistas, desafiando as noções consagradas sobre a operação desse sistema. Acreditamos que este livro faz as duas coisas. Ele é inapelavelmente controverso, pois rejeita as visões convencionais de assuntos que vão da deposição de Krushchev ao revisionismo de Tito, do liberalismo de Dubcek à independência de Ceaucescu e do movimento dissidente à ruptura sino-soviética. A análise do autor tem muitas e óbvias implicações para as políticas ocidentais. Essa análise não será aceita de pronto por aqueles que há muito se comprometeram com pontos de vista opostos. Mas acreditamos que os debates a que este livro provavelmente dará ensejo levarão a um entendimento mais profundo da natureza da ameaça vinda do comunismo internacional e, talvez a uma determinação mais firme em resisti-lo.

Os serviços prestados pelo autor ao Partido e à KGB, e os extraordinariamente longos períodos de estudos, principalmente na KGB, mas também na Universidade de Marxismo-Leninismo e na Escola Diplomática, o credenciam como um cidadão do Ocidente extraordinariamente bem qualificado para escrever este livro.

Anatoliy Golitsyn nasceu perto de Poltava, na Ucrânia, em 1926.

Logo, foi criado como um membro da geração pós-revolucionária. De 1933 em diante, viveu em Moscou. Ingressou no movimento da juventude comunista (Komsomol) aos quinze anos de idade, enquanto era cadete em uma escola militar. Tornou-se membro do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) em 1945, enquanto estudava na Escola de Oficiais de Artilharia, em Odessa.

Nesse mesmo ano ingressou no serviço de contra-inteligência militar. Ao formar-se na Escola de Contra- Espionagem de Moscou, em 1946, ingressou no serviço de inteligência soviético. Enquanto trabalhava no quartel-general, freqüentava os cursos noturnos da Universidade de Marxismo-Leninismo, graduando-se em 1948. De 1948 a 1950 estudou na faculdade de contra-inteligência da Escola de Altos Estudos de Inteligência; entre 1949 e 1952, também completou curso por correspondência da Escola de Altos Estudos Diplomáticos.

Em 1952 e início de 1953, ele e um amigo envolveram-se na elaboração de uma proposta ao Comitê Central do Partido acerca da reorganização da inteligência soviética. A proposta incluía sugestões para o fortalecimento da contra-inteligência, o uso mais amplo dos serviços de inteligência dos países satélites e a reintrodução do “estilo ativista” 1 nas ações de inteligência. Como resultado dessa proposta, esteve presente à uma reunião do Secretariado do Partido, presidida por Stálin e à uma reunião do Presidium, presidida por Malenkov e à qual também estiveram presentes Krushchev, Brezhnev e Bulganin.

Por três meses, entre 1952 e 1953, o autor trabalhou como chefe de seção no departamento de inteligência soviético responsável pela contra-espionagem voltada aos Estados Unidos. Em 1953, foi transferido para Viena, onde serviu por dois anos sob o disfarce oficial de membro do apparat do Alto Comissariado Soviético.

No primeiro ano trabalhou contra os exilados russos, e no segundo, contra a inteligência britânica. Em 1954 foi eleito vice-secretário da organização do Partido na Rezidentura 2 da KGB em Viena, que contava setenta oficiais.

Ao retornar a Moscou, freqüentou durante quatro anos o Instituto da KGB, hoje Academia da KGB, na qualidade de aluno em tempo integral, graduando-se em Direito em 1959. Como aluno do Instituto e membro do Partido, ele estava bem posicionado para acompanhar a luta pelo poder na liderança soviética e que se

1 N.T.: Estilo que significava mais abrangência e agressividade nas ações , especialmente no recrutamento de vários tipos de agentes. 2 Nome dado pela KGB ao aparato (instalações e agentes) de inteligência secreta em países não-comunistas.

refletia em cartas secretas do Partido, informativos, instruções e conferências.

De 1959 à 1960, à época em que a política de longo alcance para o bloco comunista estava sendo formulada e a KGB estava sendo reorganizada exatamente para tomar parte daquela política, ele serviu como analista sênior na seção responsável pela OTAN do serviço de inteligência soviético, subordinado ao Departamento de Informação. Ele foi então transferido para a Finlândia, onde sob o disfarce de vice-cônsul na Embaixada Soviética em Helsinque, trabalhou em assuntos da contra inteligência até sua ruptura com o regime comunista, em dezembro de 1961.

Já por volta de 1956 Golitsyn começou a desiludir-se com o sistema soviético. Os eventos daquele ano na Hungria intensificaram seu descontentamento. Ele concluiu que a única maneira prática de lutar contra o regime seria a partir do exterior, e que armado de seu conhecimento privilegiado e íntimo da KGB, seria capaz de assim fazê lo com eficácia. Tendo chegado a essa decisão, começou a evocar à memória, de maneira sistemática, toda a informação que julgasse relevante e valiosa ao Ocidente. A adoção da nova e agressiva política comunista de longo alcance precipitou sua decisão de rompimento com o regime. Ele sentiu que as novas dimensões da ameaça com as quais o Ocidente se deparava justificavam que ele abandonasse o seu país e enfrentasse os sacrifícios pessoais inerentes. Sua ruptura com o regime foi um ato político, deliberado e longamente premeditado. Assim que chegou aos EUA buscou transmitir um alerta às mais altas autoridades do governo americano sobre os novos perigos políticos para o Ocidente, que brotavam do atrelamento sem precedentes de todos os recursos políticos do bloco comunista, incluindo seus serviços de segurança e inteligência, à nova política de longo alcance.

De 1962 em diante, o autor devotou a maior parte do seu tempo ao estudo de assuntos comunistas, lendo tanto a imprensa Ocidental quanto a comunista, com a vantagem de fazê-lo na posição de um observador de fora. Começou então a trabalhar neste livro; enquanto o fazia, continuou a trazer à atenção de várias autoridades, americanas e européias, sua visão dos assuntos tratados no livro. Em 1968, permitiu que altos funcionários americanos e britânicos lessem o manuscrito no ponto em que se encontrava. Apesar deste ter sido ampliado de forma a cobrir os eventos da última década, além de revisado à medida que a estratégia comunista subjacente tornava-se mais clara para o autor, a substância do argumento mudou pouco desde 1968. Devido à extensão do manuscrito, uma parte substancial foi retida para publicação posterior.

Com poucas exceções, aqueles altos funcionários que ficaram cientes das visões expressas no manuscrito, especialmente no que tange à ruptura sino-soviética, rejeitaram-nas. De fato, ao longo dos anos tornou se cada vez mais claro para o autor que não havia qualquer esperança razoável de que a sua análise dos assuntos comunistas fosse considerada seriamente nos círculos oficiais ocidentais. Ao mesmo tempo, ele ficava ainda mais convencido de que os eventos continuavam a confirmar a validade de sua análise, de que a ameaça do comunismo internacional não estava sendo entendida com propriedade e de que essa ameaça em breve entraria numa nova e mais perigosa fase. Em face disso, o autor decidiu publicar o seu trabalho, com a intenção de alertar um setor mais amplo da opinião pública quanto aos perigos como eles os vê, na esperança de estimular uma nova abordagem do estudo do comunismo e provocar uma resposta mais coerente, determinada e eficaz a esse por parte daqueles ainda interessados na preservação de sociedades livres no mundo não-comunista.

Para dar efeito à sua decisão de publicar o manuscrito, o autor pediu de nós quatro, todos ex-funcionários americanos e britânicos, auxílio e aconselhamento editorial. Três de nós o conhecemos há doze anos , ou mais. Somos testemunhas de seus esforços de Sísifo em convencer a outros da validade do que ele tem a dizer. Nós temos em mais alta estima a sua integridade pessoal e profissional. O valor de seus serviços à segurança foi oficialmente reconhecido por mais de um governo no Ocidente. E a despeito da rejeição de suas idéias por muitos de nossos ex-colegas, continuamos a acreditar que o conteúdo de seu livro é da maior importância e relevância para um entendimento apropriado dos acontecimentos contemporâneos. Nós, portanto, estávamos mais do que desejosos em atender a solicitação de ajuda do autor na edição de seu manuscrito para publicação. Recomendamos que o livro destine-se ao mais sério estudo por parte daqueles interessados nas relações entre os mundos comunista e não-comunista.

A preparação do manuscrito foi levada a cabo pelo autor com a ajuda individual e particular de cada um de nós.

O autor é um cidadão dos Estados Unidos da América e Comandante Honorário da Ordem do Império Britânico (CBE)3

3 N.T.: No original “Honorary Commander of Order of the British Empire”

Nota do Autor

Este livro é produto de quase vinte anos de minha vida. Ele apresenta minhas convicções de que nesse período, o Ocidente entendeu muito mal a natureza das mudanças no mundo comunista; foi enganado e superado pela perfídia e astúcia comunistas. Minhas pesquisas não só reforçaram minhas crenças, mas levaram-me a uma nova metodologia para analisar as ações comunistas. Esta metodologia leva em conta o caráter dialético do pensamento estratégico comunista. É minha esperança que a metodologia venha a ser usada por estudiosos de assuntos comunistas no mundo Ocidental.

Eu assumo total e absoluta responsabilidade pelo conteúdo do livro. Ao escrevê-lo, não recebi assistência de qualquer tipo, de qualquer governo ou de outra organização. Submeti o texto às autoridades americanas de direito, que não levantaram qualquer objeção quanto à sua publicação no que diz respeito à segurança nacional.

Para a transliteração de nomes russos, usei o sistema adotado pelas agências governamentais americanas. A transliteração de nomes chineses segue o sistema antigo.

Eu gostaria de agradecer aos meus amigos Stephen de Mowbray e Arthur Martin, que na edição fizeram a parte do leão e ajudaram-me durante todo o processo com suas considerações e opiniões. Agradeço também a Vasia C. Gmirkin e a Scott Miler, por suas contribuições e sugestões de editoração.

Sou grato a PC, PW, RH, PH e a AK , por sua dedicação ao digitar o manuscrito e às esposas dos meus amigos, que sofreram em silêncio durante a sua preparação. E sou grato especialmente à minha esposa, Svetlana, por seu encorajamento e tolerância paciente.

Eu gostaria de expressar a minha profunda gratidão a dois de meus amigos americanos, que permanecerão anônimos, por sua ajuda e esforços em trazer o manuscrito à atenção da firma editora Dodd, Mead & Company. A direção dessa firma merece a minha admiração por sua imediata compreensão do significado do manuscrito e por ter a coragem de publicar livro tão controverso.

Sou especialmente grato também a Allen Klots, da Dodd, Mead & Company, que revelou grande interesse pessoal na publicação, além de ter feito a edição final do manuscrito.

Finalmente, agradeço ao governo soviético e ao partido por suas excelentes instalações e recursos educacionais, os quais tornaram possível este livro; e agradeço também à história e literatura russas pela inspiração que deram ao guiar-me à decisão de consciência: servir ao povo e não ao partido.

Men will not receive the truth from their enemies and it is very seldom offered to them by their friends; on this very account I have frankly uttered it.

–Alexis de Tocqueville,DEMOCRACY IN AMERICA

New lies for old.4 Atribuído à Anna Akhmatova

4 N.T.: Título original deste livro

Parte I -Capítulo 1

Os Problemas Enfrentados pelos Analistas Ocidentais

O mundo não-comunista devota esforço considerável ao estudo do mundo comunista, e por boa razão, pois a política ocidental com relação àquele depende das avaliações que faz da situação a partir dali. Muitas instituições devotadas ao estudo de problemas comunistas surgiram nos Estados Unidos, na Grã- Bretanha, na França e em outros países. À parte dos estudos históricos tradicionais da Rússia e China prérevolucionárias, novas especialidades foram inventadas, tais como a “sovietologia” ou a mais limitada ”kremlinologia”, que enfoca especificamente uma instância de formulação política na União Soviética.

Especialidades análogas estabeleceram-se nos campos de “monitoramento da China” e de estudos da Europa oriental.

Os resultados dos estudos ocidentais são válidos apenas se dois tipos de dificuldades forem superados com pleno sucesso: as dificuldades gerais, que brotam da preocupação com o segredo e sigilo demonstrada pelos regimes comunistas e as dificuldades especiais, que surgem do uso que os comunistas fazem da desinformação. A falha dos atuais estudos ocidentais deve-se, em larga medida, à incapacidade de sequer perceber o segundo conjunto de dificuldades.

(Parte 1 de 9)

Comentários