Contaminação de Solos por Compostos do Necrochorume

Contaminação de Solos por Compostos do Necrochorume

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O nível do lençol freático em Mucugê é elevado, desta maneira em épocas chuvosas o lençol atingia a superfície e a água brotava pelos pontos mais baixos da pequena cidade. Com um cemitério na cidade, a qualidade da água que era consumida pela população estava comprometida já que estava contaminada pelo necrochorume.

A necessidade de proibir o enterro no interior da cidade era visível e urgente. Foi construído então um cemitério afastado da cidade, na região mais alta conhecida como Serra do Cruzeiro. Porém, mesmo com a divulgação da possível contaminação da água ainda existia resistência da população para ser enterrada longe da Igreja que representava a proximidade com o “paraíso”.

Para satisfazer a todos e solucionar o problema, os túmulos foram construídos em formato de igrejas. As pessoas então seriam enterradas no interior de réplicas e, portanto mais próximas da salvação.

2.3. TIPOS DE CEMITÉRIOS: VANTAGENS X DESVANTAGENS

Segundo Campos (2007) os tipos de cemitérios existentes no Brasil e no mundo, com suas vantagens e desvantagens:

Cemitérios Tradicionais: são compostos por alamedas pavimentadas, túmulos semienterrados, mausoléus, capelas com altar, crucifixos e imagens, monumentos funerários revestidos de mármores e granitos, com pouca ou nenhuma arborização. Geralmente os corpos são enterrados diretamente no solo.

Vantagens: em função do contato do corpo inumado com o solo, e facilitada a decomposição.

Desvantagens: possibilidade de contaminação de águas superficiais e subterrâneas, ocupação de grandes áreas, alto custo, devido à preocupação com ostentação, necessidade de solo adequado para esta finalidade, ambiente acinzentado que afeta a estética urbana e pode gerar impactos psicológicos em pessoas sensíveis, possível proliferação de insetos como os mosquitos transmissores de dengue e febre amarela, e artrópode como escorpiões encontrados em locais escuros, úmidos e abrigados.

Cemitérios Parque ou Jardim: são compostos por gavetas no solo, cobertos por gramados e árvores, isentos de construções tumulares. Os sepultamentos são feitos por tubulação e as sepulturas são identificadas por uma lápide de pequenas dimensões, ao nível do solo.

Vantagens: Independente da classe social, a apresentação das sepulturas e uniforme, com aspecto menos austero que as necrópoles tradicionais, na maioria das vezes com belos gramados e muitas arvores. E um dos tipos de cemitérios mais utilizados nas cidades atualmente, como forma de integração dos cemitérios no ambiente urbano.

Desvantagens: falta de tratamento do necrochorume e dos gases, a influência nas águas subterrâneas e a utilização de várias gavetas a baixas profundidades.

Cemitério Vertical: São construídos de forma vertical acima do nível do solo, sem contato com a terra; os corpos são sepultados separadamente em gavetas, um do lado do outro, formando andares, a circulação de visitantes e feita por meio de escadas ou elevadores e corredores.

Vantagens: a utilização do espaço físico menor, ausência de interferência do necrochorume e resíduos nas aguas subterrâneas, baixa exigência quanto ao tipo de solo, facilidade de sepultamento e visitas em dias chuvosos.

Desvantagens: a liberação de gás sem tratamento e a necessidade de maiores cuidados na construção, para evitar vazamento de necrochorume e eventual emissão de odor.

2.4. FORMAS DE SEPULTAMENTO

O Mundo antigo está cheio de exemplos de costumes funerários que parecem estranhos hoje, desde a mumificação egípcia e corpos desovados em pântanos a navios crematórios Vikings.

Mas limitações de espaço e preocupações ambientais estão fazendo com que o homem moderno explore novas opções para lidar com os mortos. A mais recente dessas ideias que chegou a costa norte-americana é um processo que utiliza calor, pressão e produtos químicos para liquefazer um corpo em apenas algumas horas, deixando para trás um líquido que pode ser vertido para o sistema de águas residuais.

Figura 01: Urna de Cinzas Fonte: http://hypescience.com/8-formas-de-enterro-esquisitas-que-estao-se-tornando-comuns/

A funerária Anderson-McQueen, em St. Petersburg, na Flórida, EUA, é atualmente o único lugar nos Estados Unidos onde os clientes podem optar por ter seus tecidos dissolvidos como uma alternativa à cremação tradicional.

O processo, chamado ressomação ou “biocremação”, utiliza água aquecida e hidróxido de potássio para liquefazer o corpo, deixando apenas os ossos para trás. Os ossos são então pulverizados como na cremação regular, e os fragmentos ósseos são devolvidos à família numa urna.

Segundo a funerária, eles querem dar opções. Muitas famílias interessadas em cremação também querem reduzir o carbono lançado na atmosfera, e este processo é mais ecológico.

O fogo natural da cremação atinge temperaturas de 871 a 982 graus Celsius, e libera dióxido de carbono, bem como produtos químicos. A resomação requer água de apenas 176 graus Celsius e leva a mesma quantidade de tempo que a cremação tradicional, por isso é menos intensiva em energia. Além disso, restos estéreis podem ser despejados no sistema de esgoto municipal.

Figura 02 – Lápide Comum. Fonte: http://hypescience.com/8-formas-de-enterro-esquisitas-que-estao-se-tornando-comuns/

Não tanto uma nova invenção, já que retorna às velhas formas, enterros naturais são enterros que ocorrem sem embalsamamento e sem as abóbadas de concreto que as sepulturas da maioria dos cemitérios modernos têm.

Os corpos são envoltos em uma mortalha ou colocados em um caixão biodegradável, e a ideia é que eles se decomponham naturalmente.

O movimento começou em 1998, com a abertura do cemitério todo-natural

Ramsey Creek, nos EUA. Hoje, há pelo menos 50 cemitérios naturais no país.

O movimento é impulsionado pela insatisfação com os ritos funerários típicos.

A maioria das pessoas, quando descobre o que acontece na sala de embalsamamento, não consegue acreditar no custo, que é ultrajante. Depois, há a preocupação crescente com os efeitos ambientais de todos esses procedimentos.

Com o enterro natural, você está beneficiando o meio ambiente, permitindo que o corpo volte a participar do ciclo da vida.

Figura 03: Recifes. Fonte: http://hypescience.com/8-formas-de-enterro-esquisitas-que-estao-se-tornando-comuns/

Para aqueles que preferem nutrir um ambiente mais aquático após a morte, há também a opção “Eternal Reefs” (Recifes Eternos).

O ‘’Eternal Reefs’’ cria material de recife artificial a partir de uma mistura de concreto e restos humanos cremados (os ossos esmagados que sobraram de cremações). Essas formações são então colocadas em áreas onde os recifes precisam de restauração, atraindo peixes e outros organismos que transformam os restos em um habitat submarino.

A cremação não é tão verde quanto o enterro natural devido ao processo de combustão, mas é uma ótima oportunidade de não apenas retornar a um ambiente aquático, mas produzir uma nova vida sob o mar.

Figura 04: Objeto Criogenado. Fonte: http://hypescience.com/8-formas-de-enterro-esquisitas-que-estao-se-tornando-comuns/

Existem aqueles que preferem se agarrar à sua velha vida, muito obrigado.

Para pessoas com essa atitude (e muito dinheiro), há a criogenia.

Criogenia é o processo de congelamento do corpo de uma pessoa, na esperança de que a ciência médica mais tarde torne possível reanimá-la, com personalidade e memória intacta.

Apesar das inúmeras barreiras para isso, incluindo a toxicidade dos produtos químicos utilizados na tentativa de prevenir danos às células do congelamento, os defensores têm promovido a criogenia desde o final dos anos 60.

Nos EUA, existem pouco mais de 200 pessoas armazenadas congeladas. Os preços variam dependendo da empresa e do procedimento, mas podem chegar até R$ 341.0 para a preservação de todo o corpo. Para a cabeça, cerca de R$ 136.0.

2.4.5. Enterro Espacial

Figura 05: Lançamento de Foguete. Fonte: http://hypescience.com/8-formas-de-enterro-esquisitas-que-estao-se-tornando-comuns/

Seus restos mortais cremados pegam uma carona em um foguete indo para as estrelas, numa viagem que é mais simbólica do que prática: devido ao alto custo do voo espacial, apenas 1 a 7 gramas de seus restos são lançados.

De acordo com a empresa Celetis Memorial Spaceflights, que oferece os voos pós-morte, uma viagem que permite que os restos experimentem gravidade zero antes de retornar para a Terra começa em R$ 1.700. Uma chance de orbitar a Terra e, eventualmente, queimar na atmosfera gira em torno de R$ 5.130. Ser lançado à lua ou ao espaço profundo fica entre R$ 17.090 e R$ 21.360, respectivamente.

Figura 06: Múmia. Fonte: http://hypescience.com/8-formas-de-enterro-esquisitas-que-estao-se-tornando-comuns/

Não mais é só coisa dos antigos egípcios. Uma organização religiosa chamada Summum, fundada em 1975, oferece serviços de mumificação para pessoas e animais de estimação.

Antes de sua morte em 2008, o fundador do Summum, Corky Ra, disse que pelo menos 1.400 pessoas se inscreveram para mumificação. O preço de mumificação humana começaria em R$ 278.0.

Assim como os crentes na criogenia, Ra e aqueles que querem ser mumificados têm esperança de que seu DNA preservado permita aos futuros cientistas cloná-los e dar-lhes (ou pelo menos aos seus genes) uma segunda chance na vida.

Depois que morreu, Ra foi mumificado e agora está envolto em bronze na pirâmide Summum em Salt Lake City, Utah, EUA.

Figura 07: Plastinação. Fonte: http://hypescience.com/8-formas-de-enterro-esquisitas-que-estao-se-tornando-comuns/

Muito parecido com a mumificação, a plastinação consiste em preservar o corpo em uma forma semi-reconhecível.

Inventada pelo anatomista Gunther von Hagens, a plastinação é usada em escolas de medicina e laboratórios de anatomia para preservar amostras dos órgãos para a educação.

Mas von Hagens tomou o processo um passo adiante, e criou exposições de corpos plastinados como se estivessem congelados no meio de suas atividades cotidianas. Segundo o Instituto de Plastinação, milhares de pessoas se inscreveram para doar seus corpos para a educação ou exposição.

Figura 08 – Liofilização Fonte: http://hypescience.com/8-formas-de-enterro-esquisitas-que-estao-se-tornando-comuns/

A última novidade em eco enterro é um processo chamado liofilização.

Inventado pela bióloga marinha sueca Susanne Wiigh-Masak, o processo envolve a imersão do cadáver em nitrogênio líquido, o que torna muito frágil.

Vibrações então agitam o corpo e a água é evaporada em uma câmara de vácuo especial. Em seguida, filtros separam qualquer enchimento de mercúrio ou implantes cirúrgicos e os tornam pó, e os restos são sepultados em uma cova rasa. Com um enterro raso, o oxigênio e a água podem se misturar com os restos em pó, transformando-os em adubo.

Ninguém ainda foi enterrado dessa forma, mas Promessa, a empresa que desenvolve o serviço, agora tem uma filial licenciada no Reino Unido. Não há nenhuma previsão para o serviço pousar em território americano, mas o interesse em enterro verde só tende a crescer.

2.5. PRINCIPAIS IMPACTOS AMBIENTAIS

Os cemitérios são considerados fontes poluidoras por serem construídos sem qualquer preocupação de revestimento da camada inferior do solo para que o necrochorume liberado na decomposição dos corpos não atinja o solo e aqüífero subterrâneo.

A contaminação por necrochorume pode ser pelo aumento da carga orgânica no meio ambiente, que desencadeia uma série de alterações prejudiciais à harmonia do ecossistema, ou pode ser ainda pela disseminação de microrganismos patogênicos como vírus e bactérias.

Por ser mais denso que a água, o necrochorume quando atinge o aqüífero subterrâneo migra para sua parte inferior até atingir a camada impermeável. A partir daí, parte dele pode seguir o fluxo da água ou pode escoar por gravidade sobre o substrato impermeável do aqüífero. Esta contaminação do aqüífero é mais problemática de ser remediada já que geralmente encontra-se a grandes profundidades. Além disto, para descontaminar o aqüífero é necessária a construção de barreiras hidráulicas para retirar a água contaminada, de forma que o tratamento da mesma ocorra ex situ, reduzindo a carga hidráulica do aqüífero.

Quando o necrochorume atinge o aqüífero subterrâneo é carreado para locais mais distantes.

Se o necrochorume ao chegar no aqüífero, ainda contiver contaminante, o manancial estará comprometido. Vírus e bactérias mais resistentes contaminam a água e a tornam imprópria para consumo humano. Para isto é imprescindível o conhecimento profundo dos mesmos (WHO, 1998).

Por outro lado, estudos relatados pelo WHO (1998) confirmam locais onde a pluma de contaminação diminui rapidamente com a distância da sepultura, provavelmente pela degradação biológica feita pelos microorganismos presentes no solo. Na Holanda, outro estudo indicou grandes plumas com altas concentrações de cloreto, sulfato e bicarbonato abaixo das sepulturas. Nenhuma informação foi dada sobre o tipo de solos desses estudos.

No cemitério de Botânica na Austrália foram medidas aumentos na condutividade elétrica ou salinidade próximo de sepulturas recentes. Foram encontradas também elevadas concentrações de íons de cloreto, nitrato, nitrito, amônia, fosfato, ferro, sódio, potássio e magnésio abaixo do cemitério, no solo e também no lençol freático. A água subterrânea foi considerada adequada para fins de irrigação, conforme especificado nos critérios da qualidade das águas australianas. (DENT, 1998 apud WHO, 1998).

Em três cemitérios de São Paulo e Santos – Brasil foi constatada a contaminação do aquífero subterrâneo por microorganismos como coliformes totais e termotolerantes, estreptococos fecais, clostrídios sulfito redutores e outros – oriundos da decomposição dos corpos sepultados por inumação no solo (PACHECO et al.;(1991).

A pesquisa de maior impacto sobre contaminação de águas subterrâneas por cemitério no Brasil é de PACHECO et al. (1991) que estudou três cemitérios dos municípios de São Paulo e de Santos e constatou a contaminação do lençol freático por microrganismos – coliformes totais, coliformes fecais, estreptococos fecais, clostrídios sulfito redutores e outros – oriundos da decomposição dos corpos sepultados por inumação no solo.

O risco de contaminação microbiológica com a construção de cemitérios em meio urbano é presumível. A água subterrânea é mais atingida pela contaminação por vírus e bactérias. Nascentes naturais ou poços rasos conectados ao aqüífero contaminado podem transmitir doenças de veiculação hídrica como tétano, gangrena gasosa, toxi-infecção alimentar, tuberculose, febre tifóide, febre paratifoide, vírus da hepatite A, dentre outros (LOPES, [200-]). A população carente e de baixa renda está mais propícia a ser infectada por essas doenças. Geralmente vivem em regiões onde não existe acesso à rede pública de água potável e possuem sistema imunológico natural baixo.

De todas as contaminações provocadas pelos cemitérios, os maiores problemas estão relacionados ao vírus, devido sua grande capacidade de sobrevivência, mobilidade, adaptação ao meio adverso, mutação e permeação através até de meios semipermeáveis. Foram encontrados vetores de contaminantes de vírus em lençol freático há quilômetros de distância dos cemitérios. Os vetores ainda poderiam causar problemas à saúde da população desavisada que ingerisse a água contaminada (LOPES, [200-]).

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