As histórias em quadrinhos em oficinas na universidade federal de uberlândia - linguagem e produção

As histórias em quadrinhos em oficinas na universidade federal de uberlândia -...

(Parte 1 de 2)

UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA 4ª Semana do Servidor e 5ª Semana Acadêmica 2008 – UFU 30 anos

Gustavo Cunha de Araújo1

Universidade Federal de Uberlândia - Avenida João Naves de Ávila nº: 2160 gustavocaraujo@yahoo.com.br

Evânio Bezerra da Costa2 Rede Municipal e Estadual de Ensino jimmyrus13@yahoo.com.br

fundamentais para o processo de alfabetização e leitura

O presente artigo visa analisar a importância das Histórias em Quadrinhos inseridas na sala de aula como recurso didático-pedagógico e refletir sobre o seu uso em oficinas realizadas com este tema na Universidade Federal de Uberlândia. A História em Quadrinho é uma forma de arte presente nos meios de comunicação, que agregam elementos essenciais para a expressão e produção artística, e compreensão de forma cômica do contexto social em que estamos inseridos. Diante disso, os objetivos propostos inicialmente foram analisar a importância e os benefícios que este meio de comunicação de massa pode trazer para a educação, ao serem inseridos como instrumento pedagógico na escola e na universidade. Ao utilizar esta linguagem artística em uma oficina, o objetivo é levar a leigos e interessados pelo assunto, conhecimentos mais aprofundados a respeito da linguagem especifica dos quadrinhos, além de compartilhar técnicas e procedimentos presentes na confecção de uma História em Quadrinho. Atuando e desenvolvendo pesquisas desde 2005 com o tema Arte Seqüencial, e em especial realizando oficinas de Histórias em Quadrinhos, dentro e fora da Universidade Federal de Uberlândia, observamos que o tema em si tem despertado o interesse de diferentes setores da sociedade, que vêem nessa Arte, um meio de comunicação sem equivalentes. No entanto, no campo educacional, utilizá-la como instrumento pedagógico é bastante viável, devido aos seus recursos lingüísticos e artísticos nela presentes, isto é, a relação entre texto e imagem presente nos quadrinhos induz o aluno à prática da escrita e da leitura, ou seja, para os alunos que ainda não sabem ler ou escrever, as Histórias em Quadrinhos são mecanismos PALAVRAS-CHAVE: Histórias em Quadrinhos, Comunicação, Educação, Oficina, Arte.

1 Acadêmico do curso de Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia. 2 Graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Uberlândia e professor de Ensino de Arte da rede municipal e estadual da cidade de Uberlândia/MG e Prata/MG.

Nos estudos realizados sobre o tema “Histórias em Quadrinhos”, percebemos o quanto este tema vem sendo estudado na universidade nos dias atuais. Podemos observar que por mais que tenha algum obstáculo a essa temática, ou com relação a sua linguagem, diversos docentes, discentes e pesquisadores da área de Comunicação, Artes e de Educação estão desenvolvendo pesquisas em torno deste tema, contribuindo para a produção de conhecimento nesta área.

Acreditamos que, por mais que os quadrinhos tenham (ou ainda) tenham passado por algum tipo de obstáculo, no que diz respeito especificamente a sua aceitação como instrumento didático, a sua inserção no meio acadêmico só ocorreu devido à influência de pessoas respeitadas no mundo artístico como o americano Roy Lichtenstein, artista da Pop Art3 , em meados do século passado, ter explorado os quadrinhos em suas obras e, de pesquisadores de renome nacional (VERGUEIRO, LUYTEN, CIRNE, MOYA, BARBOSA) utilizarem os quadrinhos como objeto de estudo em suas pesquisas cientificas, contribuindo de forma relevante para estudos sobre comunicações visuais inseridos na educação. É importante ressaltarmos que a própria Universidade Federal de Uberlândia4 se mostra presente em eventos que envolvem tal tema, ao oferecer oficinas e mini-cursos de histórias em quadrinhos como o que aconteceu no Festival de Arte5 , ocorrido em

Acreditamos que essas iniciativas voltadas a estudos de Histórias em Quadrinhos serviram de incentivo para que outras pessoas passassem a se interessarem por estudos mais aprofundados que dizem respeito a este meio de comunicação e, que também pode ser didático, ou seja, aqueles que já as estudavam, continuaram cada vez mais a investigar os quadrinhos só, que agora, com um aporte teórico de consulta mais completo, que pode ser mais bem encontrado em monografias, dissertações, teses e em diversos artigos científicos, como nos de Caputo (2003), Barbosa (2004), Vergueiro (1998) e Luyten (2005).

Acreditamos que o possível “desinteresse” por parte de algumas pessoas, sobre os quadrinhos, durante anos a fio, necessita de uma explanação, pois, como explicar segundo Haag (2005, p. 86) uma mídia que na década de 1960, chegava a vender espantosos 240 milhões de exemplares anuais em um país cuja população não passava dos 5 milhões? De fato, esta afirmação nos remete a dizer que, o faturamento das editoras pela produção e disseminação das

3 Movimento artístico surgindo nos Estados Unidos em meados do século passado e que tinha como principal característica a utilização de elementos da cultura de massa (como os quadrinhos, a televisão, jornais, etc.) em obras de artistas daquela época e que influenciaram bastante os artistas contemporâneos. 4 Universidade Federal de Uberlândia, que nos últimos anos, vem atuando na disseminação de conteúdo referente a linguagem específica das histórias em quadrinhos por meio de atividades como oficinas nesta instituição, apresentados em eventos como a “Semana Acadêmica”, o Festival de Arte, entre outros. 5 Evento que é promovido e organizado pela Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais e pelo Departamento de Artes Visuais, da Universidade Federal de Uberlândia para discussões sobre temas e pesquisas relevantes para a área das artes, apresentações de trabalho e artísticos e que ocorre anualmente. 6 Evento que ocorre semestralmente na Universidade Federal de Uberlândia que tem como objetivo, além de promover apresentações musicais e artísticas/culturais, receber de forma “calorosa” os novos ingressantes (alunos) à instituição.

revistas de histórias em quadrinhos no país, se deve muito a iniciativas de alguns editores que acreditavam nesse sucesso. Essa nova empreitada, porém, não se iniciou de imediato, pois alguns empresários (como o próprio jornalista e empresário já falecido e, de conhecimento nosso, Roberto Marinho) não acreditavam em um imediato sucesso destas “revistinhas”. Neste sentido, Haag

Dos quatro maiores empresários da imprensa brasileira no século 20, três começaram no segmento de revistas como editores de quadrinhos: Roberto Marinho, Adolfo Aizen e Victor Civita (a Editora Abril nasceu em 1950 com um gibi, “o raio vermelho” e, depois, arrebatou o mercado com Pato Donald).

É importante ressaltarmos que as Histórias em Quadrinhos, bem como as Charges7 , as

Caricaturas8 e os Cartuns9 são produtos da cultura de massa, veiculados constantemente dentro e fora da imprensa escrita, tal como jornais, revistas, boletins, e até mesmo na Internet. Por ser um produto dessa mesma cultura, vem dia após dia despertando o interesse e a curiosidade de historiadores, sociólogos, arte-educadores, comunicadores sociais e uma série de outras profissões, que vêem nela uma forma de comunicação bastante relevante para diversas áreas do conhecimento.

No entanto, através do contato com alunos interessados nesta temática durante as oficinas e mini-cursos realizados na Universidade Federal de Uberlândia, percebemos que a história em quadrinho agrega elementos essenciais que podem favorecer o aluno no desenvolvimento educacional, no processo de ensino-aprendizagem e como forma de expressão artística. O uso de pontos, linhas, cores e a composição em geral, facilitam a interpretação texto-imagem do aluno. Relacionado então a educação, este processo pode induzir o aluno a chegar à escrita, auxiliando-o no processo alfabetização, mesmo este não sabendo ler ou escrever direito.

Durante algumas destas oficinas e minicursos ministrados na Universidade Federal de

Uberlândia, foram apresentados alguns conceitos referentes a linguagem especifica das histórias em quadrinhos, como onomatopéias, enquadramento cinematográfico, hachuras, luz e sombra, figura e fundo, construção de cenário e de personagem, entre outros, até chegar no objetivo geral que era produzir uma história, que pudesse abarcar tudo que foi apresentado e socializado durante as oficinas. Aliás, as horas dedicadas às atividades práticas, foram de grande valia para a produção final dos trabalhos dos alunos.

7 É um cartum cujo objetivo é a crítica humorística imediata de um fato ou acontecimento específico, em geral de natureza política. 8 Desenhos que visam representar algum personagem (ou pessoa da mídia, de conhecimento popular) com traços humorísticos. 9 É uma narrativa humorística, expressa através da caricatura e normalmente destinada à publicação em impressos de grande veiculação popular como jornais ou revistas.

Por outro lado, o curso de Artes Visuais tem a possibilidade de nos oferecer subsídios teóricos e práticos para podermos trabalhar melhor a utilização dos quadrinhos como um meio artístico e, como recurso pedagógico em sala de aula. Seguindo este pressuposto, entendemos que a mensagem das histórias em quadrinhos é transmitida ao leitor por dois processos: por meio da linguagem verbal – expressa a fala, o pensamento dos personagens, a voz do narrador e o som envolvido – e por meio da linguagem visual – onde o leitor interpretará as imagens contidas nas histórias em quadrinhos.

Seguindo este pressuposto, podemos afirmar que a principal função das histórias em quadrinhos é a de comunicar idéias ou histórias através de palavras e imagens. Mas para que isso ocorra, é necessário que haja eventos de forma seqüencial na narrativa. Esses eventos seqüenciais são chamados de “quadrinho” (daí o porquê este meio de comunicação ser chamado de história em quadrinho).

Todas estas afirmações com relação à “linguagem” gráfica dos quadrinhos foram apresentadas para os alunos durante as oficinas e mini-cursos, realizados na Universidade Federal de Uberlândia. O interessante é que a turma em ambas era bastante heterogênea, possuindo alunos de diversas áreas, desde alunos de Direito, Biologia, passando pela Matemática, Engenharias, até chegar à Filosofia, entre outros e, isto apenas nos reafirmou o interesse que outras áreas do conhecimento tinham e, acreditamos bem mais hoje, que tem a respeito da temática abordada. Com relação então a estudos científicos, percebemos um progresso na Universidade Federal de Uberlândia, devido ao número crescente de monografias que abordam esta temática.

Na atual sociedade, não apenas os quadrinhos, mas todos os meios de comunicação de massa se mostram cada vez mais presentes e disseminados de diversas formas. Porém, é importante salientar para que as pessoas tenham cuidado quanto aos modos de utilizar melhores tais meios, principalmente no que diz respeito à ideologia existente nos quadrinhos. Neste sentido, parafraseando Aranha e Martins (1993), a ideologia tem como função dar aos membros de uma sociedade uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, procurando apagar as diferenças existentes nas classes, fornecendo aos membros da sociedade o sentimento da identidade social, encontrando certos referenciais, como a humanidade, a liberdade, a igualdade, a nação ou o estado. Em vista disto, a ideologia pode ser apresentada nos quadrinhos quanto em determinado momento, a realidade social for reproduzida de forma oculta, não mostrando a verdadeira realidade ou aparência da sociedade. De fato, ocorreria um discurso “não ideológico”, onde as histórias em quadrinhos poderiam servir para refletir sobre a alienação do homem e nos conduzir a uma visão mais critica da sociedade e de nós mesmos.

Somos sabedores que a reunião entre imagem e texto é antiga. Temos o conhecimento histórico que, desde o tempo pré-histórico essa combinação já existia. Após muitos séculos depois, esta mistura foi abandonada, e só reapareceu através de inscrições em panfletos e publicações da época. Mesmo com o surgimento da escrita, a imagem, que é disseminada e produzida de diversas formas, continua tendo fundamental importância para a nossa sociedade, onde podemos até falar que esta pode ser um “subsidio” ou “suporte” de idéias e informações.

Encontramos também na Lingüística, contribuições importantes para pesquisas acerca da história em quadrinho. Neste caso, recorremos aos estudos de Nepomuceno (2005) quando esta autora nos desvela que a narração pode se referir a vários acontecimentos (do mundo real ou não) ou episódios entrelaçados entre si, objetivando para um determinado resultado. Neste sentido, a narração reproduz de forma seqüencial (relevante para a pesquisa ora apresentada) no decorrer do texto, podendo o tempo assumir um referencial dado pela cronologia seqüencial dos quadrinhos, ocasionando em uma enunciação onde a formulação da linguagem é produzida ou recebida.

É importante ressaltar que o texto constituído por duas semióticas – linguagem verbal e visual – apela não apenas para a concepção da abordagem cognitiva da linguagem, mas também para um processamento mais amplo. O interlocutor precisa acessar outros conhecimentos que a língua apenas não consegue abarcar: aqueles representados pela linguagem pictórica. A orientação parte da superestrutura, quase sempre aparece no primeiro quadro, atuando cooperativamente para que isso aconteça, ou seja, é pelo traço que nos orientamos em direção aos acontecimentos da narrativa. (NEPOMUCENO, 2005, p. 6).

Em vista disso, é importante mencionarmos que o aparecimento das histórias em quadrinhos na sala de aula começou lenta, tímida. Muitas delas, no inicio, eram utilizadas para ilustrar algum texto ou para auxiliar um conteúdo que necessitaria de ser explicado de forma visual para a sala, como no que acontece muito nos livros didáticos de Língua Portuguesa. Entretanto, após perceberem resultados benéficos que os quadrinhos poderiam trazer para o ensino, vários autores e editoras passaram a se interessar mais pelo uso deste meio didático, na sala de aula e, conseqüentemente, como recurso pedagógico. Podemos perceber esse “interesse” maior pelos quadrinhos na sala de aula, através da grande quantidade de livros didáticos que vem sendo produzidos nesta última década utilizando imagens de histórias em quadrinhos em seu conteúdo, independente da disciplina. É bom lembrarmos que o seu uso no âmbito escolar já é de reconhecimento dos próprios Parâmetros Curriculares Nacionais (1997-1998).

Embora o seu uso na escola se mostre presente e crescente nos dias de hoje, é interessante ressaltarmos que o docente deve tomar cuidado com a sua aplicação como recurso pedagógico e, que não existem regras para a sua utilização no âmbito educativo, mas é preciso ter um pouco de conhecimento e criatividade por parte do professor para uma melhor aplicação deste instrumento educativo na sala de aula, sem falar que a seleção do material é de inteira responsabilidade sua. O próprio docente deve ter um breve planejamento, conhecimento e desenvolvimento de seu trabalho nas atividades que utilizarem as histórias em quadrinhos, independente da disciplina ministrada e, buscar estabelecer objetivos que sejam adequados às necessidades e as características do corpo discente da sala de aula, visto que isto é fundamental para a capacidade de compreensão dos alunos e de conhecimento do conteúdo a ser apresentado.

(Parte 1 de 2)

Comentários