Philip Yancey - Para que serve Deus

Philip Yancey - Para que serve Deus

(Parte 1 de 10)

Traduzido por ALMIRO PISETTA

Créditos

Copyright © 2010 por Philip Yancey e SCCT Ilustrações: Klaus Ernst

Os textos das referências bíblicas foram extraídos da Nova Versão Internacional (NVI), da Sociedade Bíblica Internacional, salvo indicação específica.

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610, de 19/2/1998. É expressamente proibida a reprodução oral ou parcial deste livro, por quaisquer meios (eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação e outros), sem prévia autorização, por escrito, da editora.

Diagramação: Set-up Time Preparação: Aldo Menezes Revisão: Josemar de Souza Pinto Diagramação para ebook: Xeriph

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ Y22p

Yancey, Philip Para que serve Deus [recurso eletrônico]/Philip Yancey; traduzido por Almiro Pisetta. - São Paulo: Mundo Cristão, 2011. recurso digital Tradução de: What Good is God?: In Search of a Faith that Matters Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-7325-706-9 (recurso eletrônico) 1-5372. CDD: 230 CDU: 23

Índice para catálogo sistemático: 1. Cristianismo. 2. Livros eletrônicos. I. Título. Categoria: Espiritualidade

Publicado no Brasil com todos os direitos reservados por: Editora Mundo Cristão Rua Antônio Carlos Tacconi, 79, São Paulo, sp, Brasil, cep 04810-020 Telefone: (1) 2127-4147 Home page: w.mundocristao.com.br

1ª edição eletrônica: outubro de 2011

Sumário

Prefácio à edição brasileira Introdução O mês mais cruel Estrondos subterrâneos No fundo do poço, a gente grita por socorro Apóstolo dos céticos A vida numa bolha O grupo mais improvável A partir das cinzas Dunas de areia e arranha-céus A comédia e a tragédia O ciclo de ódio é interrompido Posfácio Compartilhe

Prefácio à edição brasileira

Que maravilhoso saber que o Brasil será o primeiro país a publicar o meu livro! Isso porque já tenho aí muitos “amigos”. Eu nunca encontrei pessoalmente a maioria deles, pois só me conheceram em meus escritos. Sempre que viajo a esse grande país (que até agora já visitei quatro vezes), posso estabelecer uma relação pessoal com aqueles que já haviam entrado em contato comigo por meio de meus livros.

Talvez você se pergunte, e com razão: “Por que não há nenhum capítulo sobre o Brasil neste livro?”. Bem, o fato de o Brasil não estar retratado nestas páginas deveria ser motivo de gratidão para você. Nunca passei por aventuras assustadoras no Brasil, como as que vivi em Mumbai, na Índia, na China ou no Oriente Médio. Ao contrário, sempre contei com uma recepção calorosa. E sempre volto do país animado pela paixão e pelo vigor da igreja brasileira. Nos Estados Unidos, a igreja pode às vezes se assemelhar a uma grande empresa, ao passo que no Brasil o evangelho ainda se apresenta e é recebido como Boa Notícia. Sempre que sou convidado para trazer ânimo e incentivo a essa terra, volto para casa, no final das contas, cheio de ânimo e entusiasmo.

No meu percurso como escritor, tenho sempre tentado mostrar um retrato honesto da igreja, sem deixar de fora todos os seus defeitos e áreas de cegueira. Neste livro, continuo seguindo a mesma direção. Como você verá, retorno aqui com fé renovada para responder à pergunta “Para que serve Deus?”. O recente florescimento da fé no Brasil oferece sua própria resposta a essa pergunta.

Que vocês, como nação, possam dar ao restante do mundo um exemplo digno de ser seguido, novo e transbordante de graça. Philip Yancey

Introdução A história por trás da pesquisa

Nos últimos dias de novembro de 2008, minha mulher e eu estávamos concluindo uma viagem pela Índia patrocinada por meu editor. Eu havia proferido palestras sobre temas de meus livros em cinco cidades, e o último compromisso envolvia um evento aberto ao público na maior cidade indiana, Mumbai. Aconteceu que aquela foi a horrenda noite em que terroristas atacaram pontos turísticos com granadas e armas de fogo e mataram 165 pessoas. A cidade foi bloqueada, e tivemos de cancelar o evento programado. Falei então numa cerimônia improvisada numa igrejinha de subúrbio numa noite envolta em medo e dor. Mais tarde, quando nos preparávamos para deixar a Índia, houve um tiroteio no aeroporto, e guardas empunhando metralhadoras vasculharam nossas malas em cinco ocasiões diferentes antes de embarcarmos num dos poucos voos internacionais ainda em operação.

Durante a longa viagem de volta, ainda sentindo o susto de ter escapado por um triz, rememorei outras ocasiões intensas em minhas viagens. Entrevistas na China realizadas nos mais sombrios hotéis para não ser apanhado pela polícia secreta; a experiência de ouvir relatos de aturdidos estudantes da Virginia Tech quando mal se passara uma semana após sua tragédia e eu ainda me recuperava do acidente que ameaçou tirar minha vida; a ocasião em que entrevistei uma sala cheia de prostitutas indagando sobre suas sinistras biografias. Quando me envolvo com essas situações extremas, uma pergunta paira acima de todas: Para que serve Deus? O que a fé religiosa oferece a camponeses que sofrem perseguição, ou a estudantes que se recuperam de um massacre no campus, ou a mulheres que passaram anos sendo praticamente escravas do tráfico do sexo? Se eu conseguir achar uma resposta, ou pelo menos um indício de resposta à pergunta para que serve Deus em situações semelhantes, isso me ajudará a responder às questões mais difíceis da fé que às vezes confundem todos nós.

Numa entrevista à imprensa no início da década de 1980, um jornalista perguntou ao romancista Saul Bellow: “Sr. Bellow, o senhor é escritor, e nós somos escritores. Qual é a diferença entre nós?” Bellow respondeu: “Como jornalistas, vocês lidam com as notícias do dia. Como romancista, lido com as notícias da eternidade”. Ironicamente, foi minha carreira de romancista que me direcionou para as notícias da eternidade. Minhas aventuras jornalísticas se tornaram para mim uma forma de verificar a verdade daquilo que escrevo. O “Deus de toda consolação” poderá trazer realmente consolo a um lugar ferido como Mumbai ou o campus de Virginia Tech? As cicatrizes do racismo no sul dos Estados Unidos, sem falar na África do Sul, serão curadas algum dia? Uma minoria cristã será capaz de provocar alguma fermentação num ambiente hostil como o da China ou do Oriente Médio? Faço-me essas perguntas todas as vezes que assumo uma tarefa desafiadora.

Eu deveria mencionar o fato de que, em testes de personalidade, os resultados me classificam como extremamente introvertido. Escrever é um ato solitário, e me sinto muito satisfeito de poder me trancar numa cabana nas montanhas com uma pilha de livros e lá passar uma semana inteira, sem falar com ninguém, exceto o quitandeiro. As viagens me deixam exausto e são caras, e os compromissos públicos em países em desenvolvimento muitas vezes me parecem “discursos em campo de combate”. Ao voltar para casa, sinto-me feliz em retomar a vida de um peregrino solitário. Apesar disso tudo, continuo viajando pelo mundo indagando o que acontece quando a fé sobre a qual escrevo na cabana da montanha enfrenta o mundo real. Ela funciona? v u v u v

Sempre acontece, com o intervalo de alguns anos, que um renomado ateu ou agnóstico publica um novo livro questionando o valor da religião em geral e do cristianismo em particular. Alguns desses livros se parecem com os discursos bombásticos de adolescentes, ao passo que outros levantam questões importantes. Enquanto isso, pesquisas americanas de âmbito nacional mostram um crescimento estável do número de cidadãos que, ao serem indagados sobre sua filiação religiosa, declaram não ter “nenhuma religião” (passando de 2,7% da população em 1957 para 16% em 2009). O total de americanos que hoje professa não ter “nenhuma religião” supera o total conjunto de episcopais, presbiterianos, metodistas e luteranos. Seu número quase dobrou desde 1990, e o percentual é ainda mais elevado na Europa.

É de estranhar que dois terços dos entrevistados que afirmam não ter nenhuma religião ainda acreditem em Deus. Alguns deles julgam que a religião organizada é hipócrita ou irrelevante; outros simplesmente questionam para que serve Deus. Durante os anos em que o Ocidente resistiu ao “comunismo ateu”, a religião parecia um baluarte importante. Hoje nossos inimigos mais destacados são extremistas religiosos. Não deve surpreender que cada vez mais gente tenha dúvidas sobre o valor da fé religiosa.

Os defensores da fé cristã se erguem e refutam os céticos ponto por ponto. Como jornalista, abordo essas questões de maneira diferente. Prefiro sair para o campo da vida e examinar como a fé se comporta, especialmente em condições extremas. Uma fé que tenha sua importância produz resultados positivos, oferecendo assim uma resposta existencial à pergunta latente: Para que serve Deus?

Os fabricantes de produtos de alta tecnologia usam uma expressão denominada “teste do usuário”. Os engenheiros projetam produtos maravilhosamente inovadores: iPhones, netbooks, video games, notebooks, mp3 players, dispositivos de armazenamento ótico. Mas será que o produto novo em folha sobreviverá ao uso dos consumidores do mundo real? Que acontecerá se ele acidentalmente for derrubado da mesa ou cair na rua? Ele vai continuar funcionando?

Procuro testes semelhantes na esfera da fé. Minhas viagens têm me levado a lugares onde os cristãos enfrentam o fogo purificador da opressão, da violência e da calamidade. Este livro relata histórias de lugares como a China, onde a igreja está crescendo espetacularmente, apesar de um governo ateu; como o Oriente Médio, onde a outrora vicejante igreja da região central agora mal sobrevive; e como a África do Sul, onde uma igreja multicolorida junta os cacos de seu passado racista. Nos Estados Unidos visitei não apenas Virginia Tech e uma convenção de prostitutas, mas também um grupo de alcoólicos anônimos de Chicago e dois territórios do Cinturão Bíblico do sul.

Quando passo algum tempo num desses contextos, minha fé passa por um teste de usuário. Eu falo realmente sério quando escrevo lá de minha casa no Colorado? Posso acreditar, como garantiu o apóstolo João, que “maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo”? Posso confiantemente proclamar essa verdade a uma mulher que luta para alimentar seus filhos sem retornar à prostituição, a um alcoólico que luta contra uma vida inteira de dependência, a um interno de uma das prisões mais violentas da África do Sul?

Devo admitir: minha fé seria muito mais arriscada se eu conhecesse apenas a igreja dos

Estados Unidos, que mais pode parecer uma instituição que perpetua a si mesma. Não é assim em outros lugares. Quase sempre volto de meus ciclos de palestras imbuído de coragem, confiante em minha fé. Apenas um terço dos cristãos do mundo é atualmente de ocidentais, e tenho tido o privilégio de ver provas extraordinárias de Deus em ação: o milagre da reconciliação na África do Sul, o maior ressurgimento numérico da História irrompendo sob a repressão do governo chinês, os cristãos indianos voltando sua atenção ao grupo mais excluído do planeta. Como escritor, quero dar essa boa notícia ao exausto Ocidente, pois essas histórias quase nunca são apresentadas na televisão.

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Com toda a honestidade, devo mencionar uma última razão que me leva a aceitar minhas tarefas mundo afora: elas me permitem entrar em contato com meus leitores. Os escritores precisam ser lembrados de que o realizado no isolamento pode realmente tocar as pessoas, e assim o ponto alto dessas viagens acontece quando me encontro com leitores de meus livros. Na África encontrei gente com nomes bíblicos como Sadraque, Mesaque, Abede-Nego, Beleza, Preciosa, Obrigado, Testemunho, Dádiva e Fortuna. Os filipinos têm nomes ainda mais estranhos: Bot, Bos, Ronchie, Bing, Peachy, Blessie, Heaven, Cha Cha, Tin Tin (“Meus amigos me chamam de Tin ao Quadrado”, diz ela sorrindo).

“Nosso relacionamento é desigual”, eu costumava dizer, brincando, antes de autografar um livro. “Vocês sabem tudo sobre mim, pois qualquer coisa que eu pense ou faça acaba entrando num livro. Eu não sei nada sobre vocês. Então, nos poucos segundos em que estamos juntos enquanto autografo o livro, contem-me o segredo mais profundo de sua vida, algo que vocês jamais contaram a ninguém”. Já deixei de fazer essa sugestão porque algumas pessoas me levavam a sério e me contavam segredos que eu não tinha o direito de saber. Nesse processo, aprendi como pode ser íntimo o vínculo que se cria entre os leitores e um autor que eles nunca viram.

Esses encontros me convencem de que não estou lutando sozinho com os problemas sobre os quais escrevo. Às vezes me pergunto por que devo sempre voltar ao problema do sofrimento. Depois, numa viagem para a divulgação de um livro, vejo um senhor idoso, com uma barba exuberante, que se arrasta até o microfone e murmura: “Deus me deu o mal de Parkinson. Como posso pensar que Deus ouve o que tenho a dizer em minhas orações?” Ouço relatos sobre suicidas, sobre vítimas de deficiências congênitas, sobre doenças terminais, sobre crianças atropeladas. Uma mulher me conta que, levada pelo desespero, durante seus dezenove anos de casamento sofrido, fazia a seguinte oração: “Senhor, se alguém morrer atropelado por um motorista embriagado, que seja o meu marido”. Conheci uma mulher, espantosamente jovem, vítima de esclerose múltipla, que veio mancando até mim para me dizer que está aprendendo tudo o que consegue sobre a oração porque a doença está avançando tão rápido que em breve lhe sobrará muito pouco a fazer, a não ser orar.

Discorro sobre o tópico da graça, e uma mulher se aproxima da mesa para dizer-me que precisa dedicar-se mais ao perdão. “Não é o que todos devemos fazer?”, pergunto. “Não, preciso mesmo fazer isso!”, responde ela, e prossegue dizendo que o pai dela matou seu marido.

“Primeiro ele me roubou o passado, ao abusar de mim; agora ele me roubou o futuro”. E, no entanto, ela não quer que seus filhos cresçam odiando o avô, que está cumprindo pena na prisão. O homem atrás dela espera com paciência enquanto conversamos; depois ele me fala sobre o estupro sofrido por sua filha no estacionamento do aeroporto de Phoenix. “Ela decidiu não tirar a criança, uma menina”, diz ele. Deu-lhe o nome de Graça.

Depois de uma palestra sobre oração, uma adolescente me conta, sorrindo, que agora ela precisa orar por sua irmã. Por quê? “Porque o senhor disse que devemos orar por nossos inimigos!” Falando mais sério, uma mulher da mesma fila, que se ordenou pastora, me conta sobre um período sombrio depois de perder seu filho, quando, por dezoito meses, ela não conseguia forças para orar. Um dia, ela gritou: “Deus, não quero morrer assim, com toda a comunicação cortada!”. Mesmo assim outros seis meses se passaram antes de ela conseguir retomar a prática da oração.

Depois de cada viagem volto a meu escritório no porão, mortificado e também enlevado, graças a meus encontros com leitores. Numa viagem de divulgação de um livro pela costa leste, conheci cristãos comuns que se dedicam a causas tão disparatadas como a dos sem-teto da Pensilvânia, a dos criminosos sexuais de Nova Jersey e a dos estudantes asiáticos de Harvard. Ouço falar sobre um soldado que decidiu seguir literalmente a recomendação “Orai pelos vossos inimigos”: ele promove o site ATFP.org (Adopt a Terrorist For Prayer — Adote um terrorista para orar por ele), que publica fotos de terroristas conhecidos. Na Austrália conheci duas mulheres comuns que põem a graça em ação: elas estão enviando um exemplar de meu livro sobre a graça a 89 políticos da Irlanda do Norte, com uma nota dizendo que há cristãos do outro lado do mundo orando por eles em sua incessante busca da paz. “Conseguimos um bom desconto nos livros, pagando apenas cinco dólares por exemplar; mas a postagem custa treze dólares para cada livro”.

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