A. w. pink - a soberania de deus e a oração

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(Parte 1 de 3)

Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9) w.monergismo.com

A Soberania de Deus e a Oração Arthur W. Pink

Se pedirmos alguma cousa segundo a sua vontade, ele nos ouve. 1 João 5.14

Por todo este livro, nosso principal propósito tem sido exaltar o Criador e humilhar a criatura. A tendência quase universal hoje em dia é a de magnificar o homem e desonrar e degradar a Deus. A todo instante verifica-se que, quando os assuntos espirituais estão sendo debatidos, os homens insistem sobre o lado e o elemento humanos; e o lado divino, quando não é totalmente ignorado, é relegado a segundo plano. Isso se aplica a considerável parcela dos ensinamentos modernos concernentes à oração. Na grande maioria dos livros escritos e dos sermões pregados acerca da oração, o elemento humano domina o cenário quase completamente; fala-se das condições que nós devemos preencher, das promessas que nós devemos “reivindicar”, das coisas que nós devemos fazer, para que os nossos pedidos sejam atendidos, mas as exigências de Deus, os direitos de Deus, a glória de Deus são freqüentemente deixados de lado.

Como exemplo típico do que está sendo divulgado hoje em dia, submetemos ao leitor um breve editorial (intitulado “Oração ou Fatalidade?”) que apareceu recentemente em um importante semanário religioso.

Deus, em sua soberania, ordenou que os destinos dos homens possam ser modificados e moldados pela vontade do homem. Este é o âmago da verdade de que a oração muda as coisas, ou seja, que Deus muda as coisas quando os homens oram. Alguém expressou isso de maneira admirável, nos seguintes termos: “Há certas coisas que sucederão na vida de um homem, quer ele ore, quer não. Há outras coisas que acontecerão se ele orar e que não acontecerão se ele não orar”. Um cristão ficou de tal modo impressionado com essas afirmações, que, ao entrar em um escritório comercial, orou que o Senhor lhe desse a oportunidade de falar sobre Cristo a alguém, tendo em vista que as condições seriam favoráveis devido à sua oração. Então, sua mente se ocupou com outras coisas e acabou esquecendo-se de sua oração. Teve a oportunidade de falar de Cristo ao negociante com o qual estava conversando, mas não aproveitou a ocasião, e somente quando saía é que lembrou-se da oração e da resposta divina. Ele prontamente voltou e começou a conversar com o negociante, o qual, apesar de ser membro de uma igreja evangélica, nunca havia sido inquirido se era salvo ou não. Dediquemo-nos à oração, abrindo assim o caminho para que Deus mude as coisas. Cuidado para que não sejamos virtualmente fatalistas, deixando de exercer, através da oração, as disposições que nos chegam da parte de Deus.

Essa citação ilustra o que hoje em dia se ensina sobre o tema da oração; e o mais deplorável é que dificilmente uma voz se levanta em protesto. Dizer que “os destinos dos homens podem ser mudados e moldados pela vontade do homem”

Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9) w.monergismo.com é crassa heresia; não há outra maneira de descrever tal aberração. Se alguém contestar essa classificação, nós o desafiamos a descobrir qualquer descrente que não concorde com ela, e estamos certos de que nenhum será encontrado. Dizer que “Deus ordenou que os destinos dos homens podem ser mudados e moldados pela vontade do homem” é algo completamente falso. O destino humano é decidido, não pela “vontade do homem”, e, sim, pela vontade de Deus. O que determina o destino do homem é se o homem nasceu de novo ou não, porquanto está escrito: “Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3.3). E qualquer dúvida, se é a vontade de Deus ou a vontade do homem a responsável pelo novo nascimento, é esclarecida, de forma inequívoca, em João 1.13: “Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. Dizer que o destino humano pode ser mudado pela vontade do homem é tornar suprema a vontade da criatura, o que virtualmente significa destronar a Deus. Mas, que dizem as Escrituras? Que elas respondam: “O SENHOR o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz subir. O SENHOR empobrece e enriquece; abaixa e também exalta. Levanta o pobre do pó e desde o monturo exalta o necessitado, para o fazer assentar entre os príncipes, para o fazer herdar o trono de glória” (1 Sm 2.6-8).

Voltando ao editorial citado anteriormente, lemos: “Este é o âmago da verdade de que a oração muda as coisas, ou seja, que Deus muda as coisas quando os homens oram”. Em quase todos os lugares para onde se vai, hoje em dia, vêemse cartazes com a seguinte declaração: “A Oração Muda as Coisas”. O significado que se quer emprestar a essas palavras vê-se com clareza na atual literatura sobre a oração — nós temos de persuadir Deus a mudar o seu propósito. Quanto a isso, adiante diremos mais alguma coisa.

Diz-nos ainda o editorial: “Alguém expressou isso de maneira admirável, nos seguintes termos: ‘Há certas coisas que sucederão na vida de um homem, quer ele ore, quer não”. Que certas coisas sucedem, quer a pessoa ore, quer não, é diariamente exemplificado na vida dos não-regenerados, e a maior parte deles nunca ora. Mas a afirmativa de que “Há outras coisas que acontecerão se ele orar” precisa ser definida. Se um crente orar com fé e pedir coisas que estão de acordo com a vontade de Deus, certamente obterá aquilo que pediu. Da mesma forma, que outras coisas acontecerão se ele orar também é verdade no que diz respeito aos benefícios resultantes da oração: Deus se tornará mais real para quem orar, e suas promessas tornar-se-ão mais preciosas. Que outras coisas “não acontecerão se ele não orar” é verdadeiro quanto vida da própria pessoa — vida sem oração é uma vida desfrutada sem a comunhão com Deus e com tudo quanto está envolvido nessa falta de comunhão. Porém, afirmar que, se não orarmos, Deus não cumprirá o seu eterno propósito é incorrer em grande erro, porque o mesmo Deus que decretou os fins também decretou os meios pelos quais suas finalidades serão alcançadas; e um desses meios é a oração. Quando Deus determina conceder uma bênção, também outorga o espírito de súplica que Lhe solicita essa mesma bênção.

O exemplo citado no editorial (o caso do obreiro e do negociante) é muito infeliz. Segundo os termos da ilustração, a oração do obreiro não foi respondida de modo algum, visto que, conforme parece, não foi aberto o caminho para este falar ao negociante acerca de sua alma. Entretanto, quando já deixava o

Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Jonas 2:9) w.monergismo.com escritório, ao lembrar-se da oração feita, o obreiro (talvez por motivo carnal) resolveu responder a oração por si mesmo e, ao invés de permitir que o Senhor lhe “abrisse a oportunidade”, tomou o caso em suas próprias mãos.

Citamos agora um trecho de um dos últimos livros publicados sobre a oração, no qual o autor declara: “As possibilidades e a necessidade da oração, seu poder e seus resultados se manifestam no refrear e alterar os propósitos de Deus e no aliviar o impacto do seu poder”. Uma afirmação tal como esta é uma horrível consideração sobre o caráter do Deus Altíssimo, o qual, “segundo a sua vontade.., opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35). Não há a mínima necessidade de Deus modificar os seus desígnios ou alterar os seus propósitos, e isso por uma razão mais do que suficiente: foram elaborados sob a influência de perfeita bondade e de infalível sabedoria. Os homens podem ter motivos para alterarem os seus propósitos, porquanto, em sua pequena capacidade de ver as coisas, são incapazes de antecipar o que pode suceder depois de traçados os seus planos. Com Deus, entretanto, não é assim, pois Ele conhece o fim desde o princípio. Afirmar que Deus altera os seus propósitos ou é impugnar a sua bondade, ou é negar a sua eterna sabedoria.

No mesmo livro, lemos ainda: “As orações dos santos de Deus são o patrimônio, no céu, por meio do qual Cristo leva adiante a sua grande obra sobre a terra. Os grandes espasmos e as poderosas convulsões que há na terra resultam dessas orações. O mundo é alterado, revolucionado; os anjos se movimentam com vôos mais poderosos e mais rápidos; a política de Deus é moldada na medida em que as orações se tornam mais numerosas, mais eficientes”. Se possível, esse trecho é ainda pior que o anterior, e não hesitamos em declarar que foi escrito em desafio ao ensino bíblico. Em primeiro lugar, nega diretamente Efésios 3.1, que se refere ao “eterno propósito” de Deus. Se o propósito de Deus é eterno, seguese que sua “política” não está sendo “moldada” em nossos dias. Segundo, contradiz o trecho de Efésios 1.1, o qual declara expressamente que Deus “faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade”. Segue-se, pois, que a “política de Deus” não está sendo “moldada” pelas orações dos homens. Terceiro, uma asserção como essa dá posição de supremacia à vontade da criatura humana, porque, se as nossas orações moldam a política de Deus, então o Altíssimo está subordinado aos vermes da terra. Com exatidão perguntou o Espírito Santo, através do apóstolo: “Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?” (Rm 1.34).

Os pensamentos mencionados acima, sobre a oração, são frutos de conceitos mesquinhos e inadequados quanto à pessoa de Deus. Deve ser óbvio que pouco ou nenhum consolo se pode alcançar em orar a um Deus que é como um camaleão, que muda diariamente de cor. Que encorajamento poderia haver em elevarmos diariamente o coração a um ser cuja atitude de ontem já não é a de hoje? Que vantagem haveria em mandarmos uma petição a um monarca terreno, se soubéssemos ser ele tão mutável, que atende petições em um dia, somente para revogá-las no dia seguinte? Não é a imutabilidade de Deus nosso maior encorajamento para orarmos? Visto que Deus não sofre “variação ou sombra de mudança” temos a certeza de que seremos ouvidos. Mui correta foi a observação de Lutero: “Orar não é vencer a relutância de Deus, mas é apropriarse do beneplácito dEle”.

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Isso nos leva a fazer algumas observações quanto ao desígnio da oração. Por que ordenou Deus que orássemos? A vasta maioria das pessoas responderia: a fim de obtermos de Deus as coisas que necessitamos. Mas, embora este seja um dos propósitos da oração, não é o principal, sob hipótese alguma. Além disso, esse ponto de vista considera a oração somente pela perspectiva humana, quando há tremenda necessidade de considerá-la pelo lado divino. Examinemos, portanto, algumas das razões por que Deus nos mandou que orássemos.

Em primeiro e máximo lugar, a oração foi instituída para que o próprio Senhor Deus seja honrado. Deus requer que reconheçamos que Ele é, de fato, “o Alto, o Sublime, que habita a eternidade” (Is 57.15). Deus requer que reconheçamos o seu domínio universal. Quando Elias orou para que chovesse, reconheceu que Deus exerce controle sobre os elementos da natureza; ao orarmos que Deus liberte um miserável pecador da ira vindoura, reconhecemos que “ao SENHOR pertence a salvação!” (Jn 2.9); ao suplicarmos que Ele abençoe a pregação do evangelho até aos confins da terra, declaramos que Ele é quem rege o mundo inteiro.

Além disso, Deus requer que O adoremos. A oração, a verdadeira oração, é um ato de adoração. Assim é, pois a oração consiste em prostrar-se a alma perante Ele; a oração é o invocar o grandioso e santo nome de Deus; a oração é o reconhecimento da bondade, do poder, da imutabilidade e da graça de Deus; também é o reconhecimento da soberania divina, confessada quando nossa vontade se submete à dEle. E de elevada significação notarmos, a esse respeito, que Cristo não chamou o templo de Jerusalém de Casa de Sacrifício, e, sim, de Casa de Oração.

Igualmente, a oração redunda na glória de Deus, pois, ao orarmos, reconhecemos que dependemos dEle. Ao dirigirmos humildemente as nossas súplicas a Deus, nos entregamos ao seu poder e à sua misericórdia. Ao buscarmos bênçãos da parte de Deus, reconhecemos que ele é o Autor e a Fonte de toda boa dádiva e todo dom perfeito. Que a oração glorifica a Deus também se vê no fato que ela promove o exercício da fé. E nada, da nossa parte, honra e agrada tanto a Deus como a confiança que Lhe votam os nossos corações.

Em segundo lugar, a oração foi designada por Deus a fim de ser uma bênção espiritual para nós, um meio para o nosso crescimento na graça. Quando procuramos entender o desígnio da oração, isso deve sempre nos impressionar, ao invés de considerarmos a oração como um mero instrumento pelo qual obtemos o suprimento de nossas necessidades. A oração foi planejada por Deus para nos humilhar. A oração autêntica consiste em chegarmos à presença de Deus, tendo consciência de sua sublime majestade, o que produz em nós o reconhecimento de nossa insignificância e indignidade. Também, a oração foi destinada por Deus para o exercício de nossa fé. A fé é gerada pela Palavra (Rm 10.17), mas é exercida quando oramos. Por isso é que lemos sobre a “oração da fé”. Da mesma forma, a oração aciona o amor. No tocante ao hipócrita, indagase: “Deleitar-se-á o perverso no Todo-poderoso e invocará a Deus em todo o tempo?” (Jó 27.10). Porém, os que amam o Senhor não podem ficar muito tempo longe dEle, porque se deleitam em falar-Lhe dos seus pesares. Além de despertar nosso amor, as respostas diretas, concedidas às nossas preces, incrementam nosso amor a Deus:

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“Amo o SENHOR, porque ele ouve a minha voz e as minhas súplicas” (Sl 116.1). E há mais: a oração foi designada por Deus para nos ensinar o valor das bênçãos que procuramos da parte dEle, o que nos dá ainda maior regozijo, quando Ele nos concede aquilo que pedimos.

Em terceiro lugar, a oração foi designada por Deus a fim de que procuremos, da parte dEle, as coisas de que precisamos. Mas, pode surgir aqui uma dificuldade para quem leu cuidadosamente os primeiros capítulos deste livro. Se Deus predestinou tudo quanto acontece na história, desde antes da fundação do mundo, qual é a utilidade da oração? Se é verdade que “dele, e por meio dele, e para ele são todas as cousas” (Rm 1.36), então, por que orar? Antes de respondermos diretamente a essas perguntas, devemos salientar que há um justo motivo para a indagação: Qual é a utilidade de chegar-se alguém a Deus para dizer-Lhe aquilo que Ele já sabe? Para que eu Lhe apresentaria a minha necessidade, se Ele já tem conhecimento do que preciso? E também há motivos para a objeção: Qual é o valor da oração por alguma coisa, se tudo já foi predestinado por Deus? A oração não tem o propósito de dar informações a Deus, como se Ele ignorasse as coisas. O Salvador declarou expressamente: “Porque Deus, vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais” (Mt 6.8). A finalidade da oração é expressar a Deus nosso reconhecimento pelo fato que Ele já sabe aquilo que necessitamos. A oração jamais se destinou a proporcionar a Deus o conhecimento daquilo que precisamos; antes, visa a ser o meio de Lhe confessarmos nosso senso da necessidade que temos. Nisto, como em tudo o mais, os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos. Deus requer que as suas dádivas sejam buscadas. Seu desígnio é ser Ele honrado através de nossas petições e ser Ele o alvo de nossa gratidão, depois de haver concedido as bênçãos que buscávamos.

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