Os primórdios da terapia cognitiva comportamental

Os primórdios da terapia cognitiva comportamental

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O behaviorismo surge da tentativa de rejeitar as concepções mentalistas da psicologia introspectiva e subjetiva e em particular a noção de consciência. Desta forma o behaviorismo propõe-se a analisar todos os fenômenos psicológicos em termos de S-R (estímulo e resposta) e coloca como essencial à psicologia a predição e o controle do comportamento. Por isso a linguagem e o pensamento são definidos como a soma dos hábitos e o pensamento é uma linguagem sub vocal. Esta forma de analisar o comportamento reduz as duas formas mais importantes da psicologia, o pensar e a linguagem, há leis de organização e modos de funcionamento que são análogos a outros comportamentos. No esforço de respeitar os princípios da análise objetiva e experimental preconizados por Watson e Skinner o behaviorismo se esforça para estabelecer uma relação rígida entre estímulo e resposta.

Hull e Osgood são considerados neobehavioristas, pois introduzem no esquema S-R variáveis intermediárias simulando a atividade interna do estímulo. Ao contrário do behaviorismo clássico não rejeitam conceitos de origem mentalista como o sentido e a significação. Tanto sentido como significação são definidos de forma estritamente operacional e são sempre derivados de dados empíricos. A significação de objetos e acontecimentos como de palavras só podem ser determinados pela análise experimental do comportamento. Quando um som verbal é emitido ele só é uma significação quando gera um padrão distinto de comportamento e só produz um padrão distinto de comportamento quando houve uma significação.

Skinner já propunha de sua parte, uma técnica de ensino denominada aprendizagem programada e métodos terapêuticos denominados modificação comportamental. Para Skinner as intenções ideias e sentimentos na origem são inobserváveis; por isto ele rejeita as noções de ideia e intenção da filosofia o que implica a contestação do conceito de significação. A linguagem e o pensamento não podem ter uma existência independente do comportamento. Desta forma o comportamento verbal se produz no contexto de comunicação ou situação de comunicação. Assim o comportamento do locutor e do auditor constitui o que se chama de episódio verbal geral, pertencendo aos comportamentos de S-R. Este encaminhamento implica que entre emissor e receptor há uma reciprocidade.

Todo o contexto do behaviorismo é embasado no que os próprios behavioristas denominam de positivismo lógico. Que consiste primeiramente que se parta de uma objetividade. A segunda premissa é de que o cientista deve ter uma postura de neutralidade, registrando só fatos através da observação direta e da experimentação. Terceiro: os behavioristas pretendem gerar leis universais e não há teorias de fatos não observados. Seu modelo pretende ser o modelo da física clássica para que a psicologia seja também embasada na observação e na experimentação tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br

Num determinado momento histórico a visão da ciência clássica se torna enfraquecido.

Além disso, no que diz respeito ao behaviorismo clássico o comportamento realmente não se mostrou como podendo dar conta da cognição humana. Para equacionar o problema da cognição que escapava às formulações estritamente behavioristas surgiram novas e importantes contribuições para compreender as significações e o fenômeno da cognição. Uma das restrições do behaviorismo clássico é que escapam ao observador os processos e as estratégias envolvidos na resolução de problemas: um sujeito diante de um problema de difícil solução não informa sobre os processos e estratégias envolvidos. Há algo, portanto, que tem que ser equacionado para se entender o mecanismo S-R. e pensar, também, a cognição.

A mudança dos princípios fundamentais da ciência verificando que não há uma observação propriamente neutra, pois se tem sempre que ter uma noção do que se vai observar. Popper demonstrou a impossibilidade da neutralidade e da observação quando pensou a epistemologia da ciência. As teorias generalizantes nunca são verdadeiras do ponto de vista lógico. Os resultados podem ser falsificados. Até mesmo o desenvolvimento da ciência tem constantes mudanças de paradigmas.

Os Modelos da Psicologia Cognitiva.

James Tolman que era um behaviorista observou que ratos no seu laboratório quando colocados em labirintos com água e sem água desenvolviam o que parecia ser um mapa cognitivo. Esta aprendizagem de um comportamento que pode ser usado em dois meio ambientes distintos o fez pensar que havia algo entre o S e a R. Este mapa cognitivo só podia, portanto, ser compreendido ao se formular que haveria, também, processos e estruturas internas e não só as ações motoras.

De outra parte a neuropsicologia e sobre tudo a linguística deram também suas contribuições para complexificar o circuito estímulo resposta. Chomsky, por exemplo, explica a habilidade central do ser humano, a linguagem. Sua grande contribuição foi a Gramática Transformacional da Linguagem que inspirou os psico-cognitivistas. Seu projeto inicial de constituição de um sistema que daria conta da criatividade do sujeito falante influenciou os cognitivistas. Chomsky formalizou o que constitui a característica essencial da razão: um tipo de prerrogativa da liberdade que caracterizaria o comportamento humano. Ele tenta elaborar um modelo de criatividade da linguagem enquanto manifestação de uma criatividade mais ampla que chamamos de cognição. Em “Linguagem e Pensamento” indica claramente que o mecanismo de criação de novidades é a própria linguagem, fazendo a identificação de mecanismo cognitivo e linguagem. Assim, pode-se pensar que há uma gramática interiorizada, uma competência inata que seria a única fonte verdadeira de progresso na aquisição da linguagem como fonte do conhecimento humano.

O modelo cognitivo propõe que o pensamento distorcido ou disfuncional (que influencia o humor e o comportamento do paciente) seja comum a todos os distúrbios psicológicos. A avaliação realista e a modificação no pensamento produzem uma melhora no humor e no comportamento. A melhora duradoura resulta da modificação das crenças disfunções básicas dos pacientes. (Terapia Cognitiva, Judith Beck).

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Outra grande contribuição para o cognitivismo foram os modelos computacionais. As teorias de sistemas de comunicação puderam ser estendidas para os seres humanos e a codificação de informações com a distinção de processos seriados -1p/x-ou paralelamente +de px foram incorporadas nas teorias psicológicas. Entendia-se que os processos como percepção, atenção e memória poderiam ser entendidos como um processo de fluxo de informação através de um sistema cognitivo apesar de serem independentes do próprio processo cognitivo. Desta forma os processos computacionais puderam ser usados como metáforas dos mecanismos cognitivos não observáveis.

Assim a cognição pode ser composta de séries sequenciais de estágios e processos. S- são processos básicos de percepção, atenção, memória-R. Assim se complexificou o que antes era um S-R para um esquema S-O-R, a partir dos modelos da informática: o processo da informação envolve, portanto, a sequencia invariável de estágios: S-input até o armazenamento na memória. O paradigma da cognição passa, então, a ser a formulação de um modelo para estudar a cognição humana, e este modelo era o processamento de informação. Este modelo fornece um grupo de ideias a serem utilizadas para a construção das teorias da cognição. Nesta nova perspectiva as pessoas são consideradas seres autônomos e intencionais que interpretam o mundo exterior. A mente é um sistema de processamento de símbolos e atua em processos de manipulação e transformação de outros símbolos. Nesta perspectiva a meta e especificar os processos simbólicos e representacionais, levando-se em conta que os processos cognitivos levam tempo, este tempo levando os pesquisadores a supor que os tempos de reação podem deixar presumir a complexidade dos processos. Outra premissa importante é de que a mente é um processador de informações e o sistema simbólico depende de um substrato neurológico e não se limita somente a ele.

A cognição humana pode, então, ser compreendida comparando com o funcionamento dos computadores. As teorias cognitivistas assumem, a partir daí, os postulados básicos do processo de informação. A metáfora computacional é de natureza aberta; novas extensões tornam-se possíveis, é possível não considerá-las mais influências motivacionais e emocionais. A psicologia cognitiva se baseia no modelo de processamento de informação. Ao behaviorismo é acrescentada a cognição sob o modelo da informação computacional.

A psicologia cognitiva estuda a natureza dos transtornos supondo que há um funcionamento cognitivo nos pacientes com transtornos, estudando o sistema cognitivo do individuo com transtornos. A partir desta premissa todas as reações afetivas ao estímulo dependem do processo cognitivo. Para a psicologia clínica as emoções são consideradas experiências breves e os afetos são estados intensos e prolongados. Os transtornos afetivos são, por exemplo, a ansiedade e a depressão clínica, a agorafobia, a fobia social, o pânico os transtornos de ansiedade, a ansiedade generalizada, e o transtorno obsessivo compulsivo.

Psicologia clínica postula que a reação afetiva a qualquer estímulo depende do processamento cognitivo. A pergunta que o teórico cognitivista se faz é se os estados afetivos e o afeto podem ocorrer independentemente dos processos cognitivos, ou se a cognição é pré-requisito para as reações afetivas. Chegam assim a evidencia que a avaliação cognitiva sentido e o significado são subjacentes e integrantes de todos os estados emocionais. Existe uma reação afetiva ao Estímulo apresentados anteriormente sem evidência dos processos tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br cognitivos. Cognição é afeto podem ocorrer sem relação entre si. Entretanto, a grande influência da cognição nos processos afetivos.

Os cognitivistas preconizam que a cognição não é correlata à consciência e admitem a possibilidade de um extenso processamento pré-consciente envolvendo processos automáticos que denominam percepção subliminar. Um dos mecanismos, por exemplo, que são usados pelo sujeito são a negação e a intelectualizarão. Estes mecanismos produzem reduções substanciais ao nível do stress, o que evidencia que a cognição é uma variável importante no aumento ou diminuição dos níveis de stress.

Bower tem uma teoria interessante sobre o afeto que se denomina TEORIA DA REDE.

Segundo ele as emoções são consideradas unidades de uma rede semântica que são conectadas com padrões musculares e o material emocional é armazenado na rede semântica sob forma de proposição ou afirmação. Neste encaminhamento o pensamento é considerado a ativação dos nodos dentro da rede semântica e podem ser ativados externa ou internamente. Esta ativação ainda não é consciente. A consciência é considerada, nesta abordagem, como uma rede de nodos que está ativada acima do limiar. O humor triste, por exemplo, é explicado como o alastramento da ativação da rede a partir do nodo de emoção ativado e sua relação com ou outros nodos aumentaria a intensidade da emoção focalizando informações internas que correspondem a um malogro inibindo o processo de informação de tipos de estímulos não congruentes com o estado de humor triste.

O outro ponto importante a ser tocado pela teoria cognitivista são as redes semânticas, redes de sentido e significação que se relacionam com o afeto, pois conceitos semânticos e emoções são nodos numa mesma rede semântica. A depressão, por exemplo, decorre de esquemas cognitivos referentes ao self. São esquemas negativos envolvendo deficiência, desvalorização, culpa rejeição e perda, além de uma tendenciosidade ao recordar negativo dependente de esquemas negativos do self. As pessoas em estado deprimido recordam informações negativas sobre si mesma que têm o papel de manutenção do estado da depressão clínica.

● As interpretações que o indivíduo faz do mundo se estruturam progressivamente durante seu desenvolvimento formando regras e esquemas mentais.

● Esquemas: orientam, organizam, selecionam novas interpretações e estabelecem critérios de eficácia de sua atuação no mundo. Por exemplo. Regras gramaticais na linguagem são fórmulas que usamos pra lidar com situações regulares e evitar o processamento mais complexo que exige uma situação nova. Estes esquemas orientam e ajudam a selecionar detalhes relevantes do meio ambiente e evocar dados da memória relevantes para a interpretação do meio ambiente. Podem se organizar em compostos mais complexos denominados constelações cognitivas (sets) ativados cognitivamente preparando o indivíduo para certo tipo de atividade cognitiva específica, perigo, apreciação estética. As constelações cognitivas determinam a espécie e a amplitude das reações emocionais e comportamentais.

● Modos de Funcionamento: São considerados como a persistência de um estado de prontidão. Em condições normais este estado varia de acordo com as diferentes tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br estimulações. A pré-existência de um estado de prontidão cognitiva em diversas condições evidencia-se numa tendenciosidade que denuncia a ativação de um modo, isto é, o indivíduo funciona sempre na mesma função durante um certo período de tempo. Modos negativistas, narcisistas, vulneráveis, eróticos e assim por diante. Estes diferentes modos de funcionamento fazem disparar pensamentos automáticos tais como: verbalizações, imagens encobertas, reflexas, autônomas e idiossincráticas que são sentidas pelo indivíduo como plausíveis e razoáveis. Os pensamentos automáticos provocam emoções correspondentes e por meio destes pensamentos é que se chega aos esquemas que os geraram. A análise dos pensamentos automáticos e seus esquemas geradores possibilitará descobrir os tipos de distorções cognitivas que sustentam as patologias.

● Emoção: É considerada uma variável dependente da avaliação que um indivíduo faz de uma situação. Um copo d’água pode ser avaliado conforme a sede/contaminação e que podem mesmo aparecer na ausência da evidência da contaminação, pois já pertencem a um esquema de crença. Os pensamentos automáticos denunciam a existência de um esquema idiossincrático - se não tiver cuidado osso me dar mal_ e a ativação de um modo de funcionamento, a vulnerabilidade. Por exemplo: o medo como reação a uma situação que não oferece perigo sugere que a existência de distorções no processamento cognitivo

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