Re-criando realidades: novos olhares sobre o cotidiano

Re-criando realidades: novos olhares sobre o cotidiano

(Parte 1 de 3)

Olivaldo da Silva Marques Ferreira Organizador

Olivaldo da Silva Marques Ferreira Organizador

Crônicas produzidas pelos alunos das turmas D4 e D5 do Ifes – Campus Venda Nova do Imigrante no ano de 2015

“A vida só é possível reinventada.” Cecília Meireles

Crônica-mente viável

Os textos que compõem esta obra são frutos de um intenso exercício de sensibilidade e reflexão realizado pelos alunos do segundo ano do ensino médio das turmas D4 e D5 do Instituto Federal do Espírito Santo campus Venda Nova do Imigrante no ano de 2015.

poético, literárioEnxergando, como costumamos dizer nas artes,

Sob o “pretexto” do estudo do gênero discursivo crônica, cada um — após a leitura, interpretação e discussão acerca de aspectos teóricos relativos ao tema e também de exemplos do gênero — foi convocado a perceber o mundo a sua volta com a sensibilidade à flor da pele, a observar o cotidiano por um viés mais artístico, mais com os olhos do coração. Transcendendo o simples objeto observado, a mera situação vivida, alcançando, assim, novos níveis de sentidos, mais profundos, ampliando a percepção do entorno ao deixá-lo ressoar do lado de dentro.

O resultado, como você poderá conferir nas páginas a seguir, são relatos de situações muitas vezes consideradas banais, desimportantes, mas que, aqui, receberam de seus autoresespectadores novos tons e variados acentos. Seja pela delicadeza e lirismo; ou pelo humor, sarcasmo e deboche; seja objetivando entreter, dissertar ou emocionar, cada um dos textos que integram esta coletânea prende a atenção e nos convoca à leitura, pois carrega em si um pouco de seus próprios produtores, um pouco de suas vidas e da forma peculiar como cada um deles enxerga a mundo, aqueles que nele habitam e as situações de que participam.

A fim de potencializar ainda mais nossas possibilidades interpretativas, cada estudante fotografou a imagem que inspirou sua expressão escrita. Portanto, ao acompanhar, página a página, a enunciação de cada um, temos a possibilidade de adentrar em parte de suas subjetividades, vendo por meio de seus olhos e escutando, a cada palavra lida, o que as suas vozes têm a nos ensinar.

Boa viagem! Olivaldo da Silva Marques Ferreira

A vida de um estudante do IF8

Índice Adriano Bonela

Num abraço10

Alice Brioschi

Quinze a nos12

Aline de Oliveira Christo

O amor de cada manhã14

Aline Zavarize

O sonho que escapou16

Aliny Ruteellen Belo Moreira

Suspiro18

Beatriz Peterle

As e strelas20

Beatriz Aparecida Pinto Venturim

Dia de pipeiro2

Bruno Schenerocke Santos de Sousa

Um dia comum24

Cláudia Daniele

Indo além26

Danielle Prenholato

A árvore28

Felipe Moreira Ambrosim

A fase florida da vida30

Felipe Nalesso

Um olhar de amor32

Gabriele de Vargas Nalli

Velhos e surrados34

Gabrielle Costa Dias

Ih, deu branco!36

Guilherme Pizzol

Pesadelo dos jovens38

Gustavo Andreão Camporêz

O violão40

Herik dos Santos Lorenção

Recompensa diária42

Isabela Martinuzzo Ricarte

Do choro à alegria4

Isabelle Camporez Lorenção

Gafanhotos46

Jorge Luiz

Caminhos48

José Antonio Guisso Rebuli

como qualquer outra50

Crônica amarga de uma noite Júlia Davel

Perdidos no Shopping52

Júlia Sobreiro

A pedra que é azul54

Júlio César Brambila Mota

O ipê amarelo56

Lara Neves Secchin

Além do imenso mar58

Larissa Pizzol

Dia l indo61

Lavínia Mendes

Final do dia64

Liandra Bottacin Falchetto

Mal-entendido6

Lígia da Conceição Falqueto

Namoradeira68

Luany Falqueto

A grande batalha de gigantes70

Lucas Leon Damascena Martinuzzo

Senhores72

Luciano Fabio

Televisão74

Luiz Henrique Reinholz Barbosa

Meu momento76

Luiza Bacellar Bessa

As luzes78

Luiza Grillo

Lápis....................................... 80 Marcos Vinícius Saith

Uma noite no castelo82

Maria Eduarda Prado de Lima

Além da distância84

Michaella Fernandes

Meu quarto, meu amigo!86

Mileidy da Rocha Lindolfo

Velha infância8

Núbia Curbani

Viva90

Pamella Debortolli

A jornada92

Paulo Eduardo Del Puppo Canal

Água94

Pedro Henrique Della Costa Garcia

Duas bananas96

Rafaella Petronetto

Céu98

Raissa Sousa

mentos100

E assim são os pequenos mo- Rebeca Ferreira Badaró

Sorriso102

Thainá Zoboli Mazzoco

Boas Lembranças104

Thalia Martinuzzo

Irmãos Petralha106

Vitor Braga Finoti

Prisão sem sentido108

Wender Falqueto

A música110

Yago Uliana Bergamim

Outubro. Oitava série. A prova do Instituto Federal (IF) se aproximava. Começava a ansiedade. Quando pisaram pela primeira vez no IF imaginaram: “Isso aqui é o paraíso! Vou passar e ser feliz!”. Eles nem desconfiavam que suas vidas sociais estavam chegando no final...

Dezembro. Final da oitava série. Resultado do IF acaba de sair. Seu nome estava lá entre os primeiros. Isso não quer dizer nada, não há inteligentes nessa escola, apenas esforçados para passar de ano. Com o resultado, já se sentiam importantes por estarem em uma escola federal.

A vida de um estudante do IF Adriano Bonela

Final de Janeiro. Começa o ensino médio. Os veteranos no primeiro dia começam a passar trotes em seus calouros, eles se sentem o máximo por serem trolados.

Primeiros dias de aula, dias de adaptações, dizendo adeus a

Facebook, Instagram, ficar até tarde na rua, vidas sociais em geral. Primeiro semestre na metade, os trabalhos começam a se acumular. Não há noites para dormir para quem estuda no IF. Notas baixas, seu rendimento começa a cair, juntamente com suas lágrimas. Os pensamentos começam a surgir: “Eu vou passar ou reprovar?”

Final de ano. Calouros já não são amigáveis e felizes, são pessoas cheias de olheiras por não dormirem, não conseguem interagir com outras pessoas por só pensar em: 5x + 25y = 120 e suas maneiras de chegarem à massa do Sol.

Enfim, aqueles que sonham em entrar nessa escola, dou-lhes uma dica: digam adeus as seus pais, digam adeus aos seus amigos e estudem, estudem pra valer, pois se você acha que professor vai ficar te dando pontos em provas assinadas pelos pais esquecem. Para conseguirem UM ponto você precisa fazer: 15 lista de 30 questões cada, saber a Massa do Sol e a velocidade de propagação da Luz no vácuo.

Chega-se o terceiro ano, último semestre, os alunos ficam doidos para sair da escola, mas se lembram de uma coisa: os professores que exigiam demais deles os ajudaram a se tornar pessoas melhores, os dias de noites em claro os mostraram que nem tudo é mil maravilhas, os amigos que perderam não eram os verdadeiros. Então se inicia uma nova fase em suas vidas: a fase adulta, e por causa do IF e de tantas outras escolas que o mundo está se tornando um lugar melhor.

E ali, sob os olhares emocionados de nossos pais, eu percebi a maravilha que é o abraço de um irmão.

Tantas coisas passaram pela minha cabeça. Principalmente o fato de que provavelmente haveria mais alguém ali e talvez as lágrimas fossem por esse motivo. Ou, quem sabe, fosse só a alegria do reencontro. Ou ainda uma junção das duas coisas.

Há pouco mais de um ano, antes de um de nós embarcar para longe, éramos três. Por um período, fomos duas. Até que as coisas mudaram e o verbo não cabia mais no plural. Era só eu.

Num abraço Alice Brioschi

Por isso, apesar de bom, foi um abraço incompleto. Eu pensava em quem faltava e não em quem estava presente.

Uma certa sensação de alívio também fazia parte daquilo. Agora eu sentiria falta de uma pessoa só, e não de duas.

É incrível como podem caber tantos pensamentos num abraço. E tantos sentimentos. O principal deles? Esperança. Esperança de que um dia nos abracemos novamente. Nós três, do jeito que deveria ser. Que seja num sonho... em vários sonhos... ou na Eternidade.

Como se fosse um sonho, chegaram meus 15 anos. Não dava para acreditar que enfim chegou o dia. Fiquei muito feliz, é claro. Nesse dia, você se sente muito especial porque tudo o que você sonhou irá acontecer, a menina deixa de ser só uma criança e vira uma mulher.

Quando acordei, já estava muito eufórica, pois era o grande dia.

Mais tarde, fui me preparar. Ao chegar no salão, fiquei sabendo que estava tudo pronto, sabia que iria dar tudo certo.

Mas que agonia a hora não passa! Quanto mais ansiosa estamos parece que tudo para e você fica mais ansiosa do que já está.

Quinze anos Aline de Oliveira Christo

Depois de tudo: cabelo, unha, maquiagem; chegou o vestido.

Coloquei. Foi como no sonho: igual uma princesa, encantadora (sem me gabar). Em seguida, escuto alguém me chamar:

— Vamos, está na hora!

Então fui. Ao chegar no local do aniversário, vejo todos me esperando, e ao eles me verem abriram um sorriso e correram para me abraçar, fiquei muito feliz por todos estarem lá para dividir aquela emoção comigo.

A festa começou, ainda estava muito nervosa porque eu esperava a valsa, que ela seria o melhor momento, pelo menos para mim, imaginava como se fosse o baile da Cinderela, perfeito!

Depois de muita espera e ansiedade, ela chegou, a tão esperada valsa. Todos ficaram em silêncio à espera da música tocar, as luzes se apagaram e o meu príncipe chegou, meu pai. Comecei a tremer, a errar os passos, mas respirei fundo, fechei os olhos e deixei com que o meu príncipe me levasse, deu certo, só escutei todos aplaudindo, e foi como eu imaginei.

Essa noite tornou-se inesquecível, como se fosse apenas um conto de fadas, mas não foi qualquer conto de fadas, foram meus 15 anos.

E novamente mais um dia, dessa vez é diferente, não tenho mais minhas preocupações com a escola e o cansaço de acordar às cinco da manhã. Chegam finalmente, as tão esperadas férias.

Ao me levantar, pelas nove da manhã, olho para a janela e vejo como o sol está forte, faço minha oração e bem aos poucos vou me levantando, já sentindo o cheiro do café que minha mãe faz com muito carinho. Olho para minha mãe, ela me olha com muita ternura e com um singelo olhar me diz “Bom dia, minha filha” e me dá um beijo, com as mãos sujas de trigo, pois está fazendo meu bolo preferido, bolo de chocolate.

O amor de cada manhã Aline Zavarize

Foto: Clauber Silva | flickr.com

Sento em minha cadeira na varanda, observando as pessoas indo e vindo nos seus afazeres e me vem no pensamento a sensação de alívio e também saudades de quando eu também tinha meus afazeres, e penso como o tempo passou tão rápido. Vou me recordando do cansaço e das longas horas que eu passava estudando, dos meus colegas desesperados para colocar a matéria em dia, porque as provas já vinham chegando. “Ah como era bom...” dizia a mim mesma.

Minha mãe chega com o bolo de chocolate na mão, me desviando de todos os meus pensamentos e me chamando para o café. A simplicidade daquela manhã, tão suave e doce, o calor que me envolve me faz sentir o amor de cada manhã.

Em uma manhã, Aninha e sua família pegaram cestas, tolhas, brinquedos e foram fazer um piquenique em uma praia linda de mar tão azul que se misturava com o céu. Este estava mais lindo do que nunca e, ao redor da praia, Aninha observava grandes construções, prédios altos e bonitos, tudo estava perfeito.

Nesse momento, sua mãe chegou até ela e lhe contou a importância e um pouco da história de todos aqueles prédios, dos mais velhos aos mais novos, porém Aninha nem estava prestando

O sonho que escapou Aliny Ruteellen Belo Moreira muita atenção no que sua mãe falava, ela queria mesmo era um balão. Por isso logo correu até seu pai e pediu-o para comprar e, claro, ele atendeu seu pedido, comprou um lindo e grande balão vermelho para ela.

Aninha ficou muito feliz, com um sorriso enorme, brincou com o seu balão o dia inteiro até a hora de ir embora. Quando ia se despedindo da praia, viu seu balão sendo levado pelo vento, saiu correndo. Seu pai, ao ver tal cena, foi correndo atrás dela por medo de algo ruim acontecer.

Apesar de parecer apenas um balão, para Ana era muito mais, era como um sonho, algo que ela gostava demais para deixar simplesmente ir embora.

Corria, corria, corria, já estava quase alcançando, mas parece que o universo não estava conspirando ao seu favor e então o vento sobrou mais forte, porém para felicidade de Aninha seu pai estava logo atrás e conseguiu pegá-lo e o balão voltou a ser dela.

Aninha percebeu que precisava de ajuda, mas sabia que com um pouco mais de esforço conseguiria tudo aquilo que quisesse.

Apenas mais uma tarde de domingo, daquelas que me despertavam vontade de ir ao clube da cidade e observar o dia, degustar uma nova cerveja e admirar as famílias que iam com a mesma finalidade que a minha.

Aquele dia poderia ter sido um desses domingos comuns. Cheguei, sentei numa velha mesinha de madeira. Abri a cerveja que um amigo me indicou e comecei o ritual de observação. O local parecia o mesmo. Meu olhar inquieto se cruzou então com meia dúzia de crianças brincando, casais em volta da churrasqueira e um casal de idosos sentado de frente para os filhos e netos. Meu olhar paralisou no casal.

Suspiro Beatriz Peterle

Com sutileza, os olhos daquele casal se cruzaram e da boca cansada da esposa saíram palavras como: “Missão cumprida”. Efemeridade. Era tudo que passava na minha cabeça. Deram-se as mãos e começaram a relembrar. Do início do namoro, do dia do casamento e do nascimento de cada filho. Admiraram com ternura a filha caçula amamentando o neto, e o neto mais velho acompanhado da esposa grávida.

As bocas se calaram, as mãos, apesar de trêmulas, permaneceram presas umas as outras. Em meio ao silêncio, lançaram um suspiro. Soou como um suspiro de vida, que por si só proclamava que tudo passara como tal.

Tomei o último gole de cerveja e tive a certeza de que aquele foi o suspiro mais cheio de essência que deram. Por um momento, desejei estar sentada naquele banco observando a família que construí com aquele que caminhou comigo.

Por um momento, desejei que tivéssemos a cumplicidade daquele casal. Por toda a vida desejarei um suspiro como aquele acompanhado de um: “Valeu a pena”.

As estrelas. Para uns, a beleza da noite; para outros, objeto de estudo e ainda há para quem elas simbolizam sorte. Mas, afinal, o que são as estrelas? Segundo o dicionário, são corpos celestes que possuem luz própria, mas são também pontinhos radiantes a milhares e milhares de quilômetro de nós, ou ainda aquela caixinha que guarda consigo, muito bem, os sonhos de muita gente?

Sei láde vez em quando me deparo olhando para o céu, na calada

da noite, quando começam a surgir as primeiras estrelas, que vêm

As estrelas Beatriz Aparecida Pinto Venturim para contracenar com o pôr do sol, quando o céu está com seus tons alaranjados e para acompanhar este tão belo cenário, o brilhar da Lua.

É este tão esplendoroso cenário que fico admirando profundamente aquelas pequeninas lá em cima e, quando percebo, estou longe, viajando, em um lugar bem distante, onde a imaginação flui.

Quando volto, percebo que o céu já não está mais como antes, está mais intenso, mais exuberante, resplandecente, porém algumas delas se foram, uma pena, mas nem por isso vou parar de admirá-las, nem por isso o céu perdeu sua essência, seus encantos. Esta magnífica observação me serviu como um refúgio para a mente e de paz para a alma.

Assim é a vida, a coisas que aparecem, a outras que se vão, mas por motivo nenhum devemos nos desanimar, não devemos perder a nossa essência, afinal, um dia tudo vai acabar, como o brilho de uma estrela.

Já virou rotina, todo final de semana aquele menino descalço vai soltar pipa no terraço.

Antes do almoço, ele já sobe com a pipa na mão, preparando a rabiola e o cabresto para soltar a pipa no ventão.

Sua mãe grita com ele: — Vem almoçar! Ele responde: — Espera ai mãe a minha pipa está no ar.

Dia de pipeiro Bruno Schenerocke Santos de Sousa

Depois do almoço, ele continua. Comprou uma linha chilena e dessa vez ele foi pra rua.

A pipa dele no ar e muita emoção, o menino olhou para o lado e avistou outra pipa que queria corta ele “na mão”.

Com sua esperteza ele conseguiu trazer a pipa para perto, dessa vez o combate no ar era certo.

Depois de muita luta ele cortou a pipa que tinha avistado. Ficou alegre e gritou: — Chupa, seu pé rapado!

Ao anoitecer ele vai embora com sua pipa nas costas, pensando o que vai fazer, pois sua mãe trancou a porta.

Andando pelas ruas, admirando a complexidade da paisagem, as estrelas brilhando no céu, árvores engraçadinhas, um vento frio arrebatava-se em meu rosto, arrastando a poeira presa nos paralelepípedos para distante dali.

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