Estudos alcantarenses

Estudos alcantarenses

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Nota2
Um Museu entre barões,foguetes e quilombolas3

Sumário

Alcântara30
Antonino da Silva Guimarães±um barão republicano6
Iluminação públicae privada em Alcântara e São Luís8
Senhores de tacho, machado e sacho125
Por esses campos e caminhos: resistência à escravidão em Alcântara140

Hábitos Funeráriose a construção do Cemitério de São Benedito em 2 3URMHWR H[SRVLWLYR ³9LWULQH 7HPiWLFD......................................................154

Nota

Os textos reunidos neste volume foram produzidos entre os anos de 2010 e 2013, período em que atuei como historiador junto ao Museu Casa Histórica de Alcântara ± MCHA. Eles são resultado de extensas e variadas pesquisas documentais junto às instituições de salvaguarda de documentos de Alcântara e São Luís, e de leituras de trabalhos de historiadores e literatos maranhenses e de outras partes do Brasil e do mundo. São fruto também da observação e reflexão sobre o Museu e seu acervo. Versões ligeiramente modificadas de quase todos estes textos já foram publicadas em formato eletrônico, em revistas científicas, cadernos de resumos e anais de Congressos, Simpósios e Seminários, que vão lentamente desaparecendo do fluido ambiente digital. Daí o desejo de reuni-los aqui, sob o título de Estudos Alcantarenses, na esperança de retardar o seu ocaso e de fazê-los chegar às mãos daqueles que desejam, como eu desejei, compreender com mais perspectiva este enigma chamado Maranhão.

Um Museu entrebarões, foguetese quilombolas1

Vamos, pesquisadores, em busca da Verdade. Partimos animados e confiantes à conquista do velocino de ouro capaz de transportar-nos ao reino da Verdade. À proporção, porém, que prosseguimos, reconhecemos quão imutável e impreciso é o objeto de nossa investigação. Afinal, o que é a Verdade? Qual Verdade? A Verdade de quem? deste autor, desse documento, diversa daquele? A nossa Verdade, isto é, a melhor que nos sabe? Tantas são as razões a considerar, que a Verdade verdadeira passa a não existir ante a variedade de pontos-de-vista, de enfoques, de situações, causas, efeitos, circunstâncias, conclusões mais ou menos aceitáveis... [...] Quer isto dizer que mesmo o documento escrito e publicado nem sempre é o espelho da verdade. E o que devemos reconhecer é que a verdade, pelo visto, é mais um consenso que uma imagem ou uma notícia.

Carlos deLima

Introdução

Ao longo do século X as ciências sociais tornaram-se gradualmente conscientes de sua natureza discursiva. Percebeu-se que as grandes ³YHUGDGHV XQLYHUVDLV SUHWHQVDPHQWH HPDQDGDV GH XPD UD]mR SXUD H homogênea eram constructos intelectuais pejados de intencionalidades, representantes de interesses específicos de grupos, nacionalidades etc. Isso deuinício,nocampoda historiografia,a umasérie deestudosvoltados para a análise das representações e dos discursos. Na verdade, essa vertente se tornou uma importante ferramenta de ação prática da história, que passou a desmontar sistematicamente todos os discursos que sustentavam hegemonias políticas, econômicas, culturais, étnicas. T al ação partiu da premissa de que os discursos, longe de serem neutros, produzem estratégias H SUiWLFDV TXH ³WHQGHP D LPSRU XPD DXWRULGDGH j FXVWD GRV RXWURV (CHARTIER, 2002, p. 17). As representações estão sempre num campo de disputas e competições, são objetos de poder, e a h istória passou a atuar com consciência nesse jogo de forças.

A museologia empreendeu jornada semelhante. Constatou-se que

Este artigo busca observar o processo de institucionalização dos discursos e representações, bem como suas formas de incidência sobre pessoas e sociedades, a partir da descrição e crítica de um caso específico, o de constituição do Museu Casa Histórica de Alcântara (MCHA), observando com ênfase seu papel como mediador e emissor das construções discursivas sobre a cidade de Alcântara ± MA e sua sociedade, sobre seu passado e seu presente. A partir de uma breve revisão bibliográfica que levou em conta as principais obras que tratam da história de Alcântara, buscou-se encontrar as interpretações recorrentes sobre o passado da cidade, observou-se a maneira como o MCHA se posiciona em relação a essa historiografia e as implicações que este posicionamento ocasiona. Além da bibliografia pertinente, este estudo leva em conta parte da documentação produzida por museólogos, acadêmicos, dirigentes de órgãos culturais e autoridades políticas na época da constituição do Museu, no finaldos anos1980.

A história de Alcântara e suasinterpretações:o discurso da decadência

Grande parte da produção historiográfica sobre a cidade de Alcântara está profundamente imersa no paradigma descrito acima. Os estudos que FODVVLILFDUHPRV FRPR ³FOiVVLFRV 2 têm pontos em comum na interpretação que exibem e nos valores que agregam à trajetória histórica da cidade: FRQVLGHUDP D LQWURGXomR GDV UHIRUPDV SRPEDOLQDV FRPR XP ³SDVVR DGLDQWH XP PRPHQWR GH ³GHVHQYROYLPHQWR GD UHJLmR H VHJXLQGR D mesma lógica, lamentam a derrocada do sistema agroexportador. Eles rotulam tal crise como decadência, entendida como processo que partiu de uma situação ideal e culminou em um panorama desolador. O olhar sobre HVWD ³HWDSD ILQDO da narrativa do passado da cidade nestas obras remete, indefectivelmente, à mais pura e genuína nostalgia. Interessa a este estudo UHVVDOWDU PDLV GHWLGDPHQWH D V UHSUHVHQWDo}HV G RV D XWRUHV ³ FOiVVLFRV D respeito desta última etapa da trajetória consensual de Alcântara, interpretada por eles comomomento de decadência.

Em 1957, publicou-se postumamente a prim eira edição da obra presente ruinoso:

Se não rolaram coches reais pelas ruas de Alcântara, porque o segundo imperador do Brasil faltou à promessa de a visitar, ficando com isso inacabado o palácio que se preparava para hospedá-lo, passaram, conduzidas por possantes escravos negros de libré, cadeirinhas e palanquins com florões e molduras douradas a fogo, cortinas de damasco e alcatifas de veludo, levando como pérolas ocultas entre as valvas das conchas, donairosas sinhás-moças para as missas, novenas e procissões do Carmo, da Matriz e das Mercês, ou para bailes e reuniões festivas. Nessas praças e ruas transitaram governadores e capitãesgenerais do Estado, capitães-mores de Cumã, Maranhão, Pará, Cametá, e Caeté, ouvidores, comissários, provinciais, provisores, ou residentes de três grandes ordens religiosas, capitães ou almirantes de França, Portugal, Espanha e Holanda, senadores, barões e viscondes ou chefes de partidos da Província no tempo do império, sábios, poetas. Os denegridos muros das casas apalaçadas são antecessores, Carlos de Lima; parte dos conteúdos destas obras será analisada neste artigo. A opção pela análise destas obras se justifica por serem elas as principais referências a respeito da história da cidade, cujos conteúdos amparam o trabalho pedagógico nas escolas de Alcântara, embasam as narrativas oferecidas pelos guias turísticos e grande parte das produções culturais locais.

hoje espectros a lembrarem a quem os contempla um fausto para sempre perdido e guardam inviolados segredos de altas e baixas intrigas políticas e o mistério de tenebrosos dramas de famílias. (LOPES, 2002, p. 23)

Pimentel Beleza,queemmeados do século XIX escreveu:

Assim tu és, Alcântara: em tuas praças / Outrora estreitas para imenso povo / Que nelas, ledo e farto, se apinhava, / Rugindo sedas que da Europa em câmbio / Dos frutos do teu solo então nos vinha, / Ora desertas, reptis se cruzam / Por entre bastas moitas, bem medradas, / De verde mato, que a indolência ampara. / Teus denegridos templos ermam, tristes, / Bem diversos de outrora, e alguns por terra / Desmoronados jazem (BELEZA, apudLOPES, 2002, p.320)

Opoetaestabeleceumaligaçãoentre a opulência antigae o comércio exportador, onde as mercadorias europeias ± VLPEROL]DGD SHODV ³VHGDV ± eram obtidas em troca dos produtos locais. O fracasso deste sistema econômico, levando de roldão a sociedade que se formou ao seu redor, foi LGHQWLILFDGR FRPR ³UXtQD JHUDO $ REUD GH $QW{QLR Lopes, enfim, reincide na afirmação da decadência atual da cidade de Alcântara em contraponto com o passado brilhante e faustoso, insistindo na descrição de um

Jerônimo de Viveiros, maranhense descendente de barões escravocratas que tinham casas e fazendas em Alcântara, foi outro autor que dedicou esforços argumentativos para corroborar a ideia da decadência GDTXHOD FLGDGH HVSHFLDOPHQWH QD REUD ³Alcântara no seu passado HFRQ{PLFR VRFLDO H SROtWLFR SXEOLFDGD SHOD SULPHLUD YH] HP 3DUD Viveiros, que ecoava aquele paradigma surgido no início do século XIX, a criação da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão era um marco positivo,ponto de partidadaprosperidadeda Capitania:

[...] esta companhia, que se inaugurava debaixo de protestos, ia fazer a felicidade do Maranhão e do Pará, que tiveram , no fim da era colonial, um período de magnífico esplendor. Em verdade, a influência da companhia foi decisiva. Introduzindo braços africanos, sementes de arroz da Carolina para substituir o arroz vermelho nativo, melhores processos de cultura de algodão, ferramentas, máquinas de descasque de arroz, adiantamentos de dinheiro, tudo a longos prazos, para pagamento em gêneros, fez crescera produção do Estado rapidamente. Convém, entretanto, observar ter sido este êxito extraordinário da Companhia também auxiliado pela revolução industrial, que então, se operava na Europa, e, mais tarde, incrementado pela guerra da independência americana. Mas isto não tira o merecimento do homem que a dirigia, José Vieira da Silva (VIVEIROS, 1977, p. 58) índices de exportação. Os principais produtos alcantarenses eram algodão, arroz, açúcar, farinha, peixe seco, sal (VIVEIROS, 1977, p. 60). Viveiros HVWDEHOHFH XP ³UDQNLQJ GDV FLGDGHV PDUDQKHQVHV PRstrando que Alcântara estava sempre entre as mais 3 ou 4 mais produtivas,liderando em produção de sal (VIVEIROS,1977,p.60-61).

abundante de marcostemporais e fatores causais:

A decadência começou no quinquênio de 1865 a 1870, concorrendo para isso vários fatores. O maior, sem dúvida, foi o incremento da indústria açucareira da Província. As terras de Alcântara, por serem areentas, são impróprias à lavoura canavieira, lavoura que tem o seu habitat no Pindaré, Mearim e Baixo Itapucuru, onde, entretanto, o seu desenvolvimento vinha sendo sopitado, naquela época, pelas dificuldades de transporte. A navegação fluvial a vapor resolveu este problema. O eixo da produção maranhense deslocou-se do litoral para os vales dos rios. Com a nova geração de lavradores começou o abandono da velha Alcântara. A lei de 13 de maio de 1888 apressou-lhe a decadência, que o urbanismo de São Luís completou. (VIVEIROS, 1977, p. 89-90)

Carlos de Lima, cuja obra sobre a cidade de Alcântara foi publicada pela primeira vez em 1997, filiou-se de maneira mais sutil ao discurso da decadência. O conteúdo de sua obra é substancialmente menos dramático TXH VHX WtWXOR ³Vida, Paixão e Morte da Cidade de Alcântara ± 0DUDQKmR Carlos de Lima produziu uma obra mais aberta a outras interpretações que não apenas aquela que decreta a dec adência de Alcântara e do Maranhão, uma obra que considera outras possibilidades analíticas. Ainda assim, no escopo geral, a obra pode ser enquadrada como partidária do discurso da decadência. Ele concorda, como seus antecessores historiógrafos de Alcântara, com a afirmação de que a Companhia de Comércio trouxe prosperidade,mas relativizaos fatos:

Afinal, depois de um período em que, dados os acontecimentos belicosos, só poderia piorar o estado pobríssimo dos moradores, a capitania reduzida a extrema miséria, segundo palavras do governador, resolveu el-rei, através de seu ministro Sebastião José de Carvalho e Melo (depois Marquês de Pombal), criar as companhias de comércio, cabendo ao Maranhão a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão que, estabelecendo uma política econômica, regulamentou os lucros, os preços, os fretes, facilitou os transportes, concedeu créditos, proveu a colônia de braços através do fornecimento de negros escravos e tece na sua direção um cidadão honesto, trabalhador e diligente, José Vieira da Silva. Progrediu a colônia, iniciando-se uma exportação ordenada, os navios vieram com regularidade, chegaram-nos os gêneros necessários a preços acessíveis, cresceu a lavoura, tentaram-se novos artigos e, posto não enriquecesse o povo, melhorou, não há dúvida, o seu modo de vida e, é lógico, tornou poderosa a classe dos comerciantes, lavradores e donos de engenho. (LIMA, 1998, p. 378- 379)

Sua interpretação, preocupada com a análise dos diversos pontos de vista possíveis, concede um matiz a se parar o povo dos comerciantes, lavradores e donos de engenhos, apo ntando desigualdades no aproveitamento do empreendimento governamental. Ainda assim, persiste

Várias causas têm sido apontadas para o declínio econômico do Maranhão: esgotamento de solo pelos métodos primitivos de lavoura, a exigir sempre novas terras; o alto preço alcançado pelos escravos com o desenvolvimento da indústria açucareira do nordeste e da mineração, no sul; a queda do preço do algodão em virtude da nascente concorrência; as constantes execuções de dívidas justamente pelo encarecimento do escravo além da progressiva proibição do tráfico negreiro. A Guerra da Secessão dos Estados Unidos e a Revolução Industrial na Inglaterra proporcionaram períodos de altas cotações no mercado, que se não puderam manter por muito tempo, causando prejuízos aos imprevidentes comerciantes, incautos e ambiciosos, que gastavam à larga, crentes na infinita permanência dessas condições.(LIMA, 1998, p. 380-381)

Nesta obra de Carlos de Lima, enfim, podem-se localizar resquícios daquele paradigma antigo, descrito e analisado por Alfredo Wagner Berno de Almeida, que impregna mais fortemente as obras dos outros dois historiógrafos de Alcântara analisados neste texto. Em suma, tais modos de interpretar o passado alcantarense trazem uma abordagem etnocêntrica e elitista do processo histórico, que não reconhece a validade de outras formas de economia e or ganização social. Seus emissores estabelecem hierarquias entre os sistemas sociais, valorando prioritariamente a cultura europeia e suas expressões locais. Partindo dessas premissas, o fim da cultura eurófila aparece sempre com um sinalnegativo.

Não se advoga aqui a inexistência de um período de dinamização econômica no Maranhão. A história econômica brasileira reconhece este ³VXUWR GH GHVHQYROYLPHQWR TXH VH PDQLIHVWRX WDPEpP HP RXWUDV SDUWHV do país no final do período colonial, entre o ocaso da mineração e a expansão da cafeicultura. José Jobson de Andrade Arruda, através da análise de documentação alfandegária, demonstrou a diversificação dos tipos de produtos exportados neste período, ainda que no caso maranhense coubesse ao arroz e ao algodão a maior parte do volume comercializado (ARRUDA, 1988, p. 10). Parece mais do que seguro afirmar que houve de fato um reforço na economia local com a adoção de novas políticas econômicas. O que se busca neste artigo é demonstrar que estes acontecimentos foram superdimensionados e recobertos por um paradigma interpretativo que mitifica o passado maranhense (SILVA, 2008, p. 19), impregnando-o com forte juízo de valor, e que a aceitação desses conceitos implica em consequências diretas e incisivas sobre as vidas de milhares de pessoas. Tal forma de interpretar a trajetória do Maranhão é nitidamente PDUFDGD SRU ³LQFRQJUXrQFLDV H LQWHQo}HV SROtWLFDV 6,/9$ S seus prosélitos criam a noção de que fatores externos destruíram um sistema ideal, o que leva a um desejo de reconstruir aque OH ³SDVVDGR JORULRVR $OpP GLVVR GHL[D-se de reconhecer a fatídica falência que as próprias mazelas intrínsecas a tal modelo econômico determinavam: a insustentabilidade social, ecológica e econômica que um sistema escravista, predatório e dependente dos movimentos do mercado externo fatalmente decretava. Finalmente, a proclamação da decadência elide as realizações econômicas e demográficas promovidas pelos pequenos agricultores livres que, após o fim do escravismo, deram continuidade às atividades, substituindo a antiga elite latifundiária. Do ponto de vista material, esta substituição não ocasionou nenhum tipo de recuo na produtividade. Regina Helena Martins de Faria demonstrou sobejamente, por meio de uma análise que levou em conta dados estatísticos da produção econômica e de demografia, que o novo sistema econômico maranhense promoveu a continuidade do crescimento (FARIA, 2012).

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