As Flores do Mal - Charles Baudelaire

As Flores do Mal - Charles Baudelaire

(Parte 1 de 6)

As Flores do Mal Charles Baudelaire

A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez Habitam nosso espírito e o corpo viciam, E adoráveis remorsos sempre nos saciam, Como o mendigo exibe a sua sordidez.

Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça; Impomos alto preço à infâmia confessada, E alegres retornamos à lodosa estrada, Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.

Na almofada do mal é Satã Trimegisto Quem docemente nosso espírito consola, E o metal puro da vontade então se evola Por obra deste sábio que age sem ser visto.

É o Diabo que nos move e até nos manuseia! Em tudo o que repugna uma jóia encontramos; Dia após dia, para o Inferno caminhamos, Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.

Assim como um voraz devasso beija e suga O seio murcho que lhe oferta uma vadia, Furtamos ao acaso uma carícia esguia Para espremê-la qual laranja que se enruga.

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos, Em nosso crânio um povo de demônios cresce, E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce, Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada Não bordaram ainda com desenhos finos A trama vã de nossos míseros destinos, É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais, Aos símios, escorpiões, abutres e panteras, Aos monstros ululantes e às viscosas feras, No lodaçal de nossos vícios imortais,

Um há mais feios, mais iníquo, mais imundo! Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito, Da Terra, por prazer, faria um só detrito E num bocejo imenso engoliria o mundo;

É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção, Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado. Tu conheces, leitor, o monstro delicado - Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

Spleen e Ideala – As Flores do Mal

Quando, por uma lei das supremas potências, O Poeta se apresenta à platéia entediada, Sua mãe, estarrecida e prenhe de insolências, Pragueja contra Deus, que dela então se apiada:

"Ah! Tivesse eu gerado um ninho de serpentes, Em vez de amamentar esse aleijão sem graça! Maldita a noite dos prazeres mais ardentes Em que meu ventre concebeu minha desgraça!

Pois que entre todas neste mundo fui eleita Para ser o desgosto de meu triste esposo, E ao fogo arremessar não posso, qual se deita Uma carta de amor, esse monstro asqueroso,

Eu farei recair teu ódio que me afronta Sobre o instrumento vil de tuas maldições, E este mau ramo hei de torcer de ponta a ponta, Para que aí não vingue um só de teus botões!"

Ela rumina assim todo o ódio que a envenena, E, por nada entender dos desígnios eternos, Ela própria prepara ao fundo da Geena A pira consagrada aos delitos maternos.

Sob a auréola, porém, de um anjo vigilante, Inebria-se ao sol o infante deserdado, E em tudo o que ele come ou bebe a cada instante Há um gosto de ambrósia e néctar encarnado.

Às nuvens ele fala, aos ventos desafia E a via-sacra entre canções percorre em festa; O Espírito que o segue em sua romaria Chora ao vê-lo feliz como ave da floresta.

Os que ele quer amar o observam com receio, Ou então, por desprezo à sua estranha paz, Buscam quem saiba acometê-lo em pleno seio, E empenham-se em sangrar a fera que ele traz.

Ao pão e ao vinho que lhe servem de repasto Eis que misturam cinza e pútridos bagaços; Hipócritas, dizem-lhe o tato ser nefasto, E se arrependem pó haver cruzado os passos.

Sua mulher nas praças perambula aos gritos: "Pois se tão bela sou que ele deseja amar-me, farei tal qual os ídolos dos velhos ritos, e assim, como eles, quero inteira redourar-me;

E aqui, de joelhos, me embebedarei de incenso, De nardo e mirra, de iguarias e licores, Para saber se desse amante tão intenso Posso usurpar sorrindo os cândidos louvores.

E ao fatigar-me dessas ímpias fantasias,

Sobre ele pousarei a tíbia e férrea mão; E minhas unhas, como as garras das Harpias, Hão de abrir um caminho até seu coração.

Como ave tenra que estremece e que palpita, Ao seio hei de arrancar-lhe o rubro coração, E, dando rédea à minha besta favorita, Por terra o deitarei sem dó nem compaixão!"

Ao céu, de onde ele vê de um trono a incandescência, O Poeta ergue sereno as suas mãos piedosas, E o fulgurante brilho de sua vidência Ofusca-lhe o perfil das multidões furiosas:

"Bendito vós, Senhor, que dais o sofrimento, esse óleo puro que nos purga as imundícias como o melhor, o mais divino sacramento e que prepara os fortes às santas delícias!

Eu sei que reservais um lugar para o Poeta Nas radiantes fileiras das santas Legiões, E que o convidareis à comunhão secreta Dos Tronos, das Virtudes, das Dominações.

Bem sei que a dor é nossa dádiva suprema, Aos pés da qual o inferno e a terra estão dispersos, E que, para talhar-me um místico diadema, Forçoso é lhes impor os tempos e universos.

Mas nem as jóias que em Palmira reluziam, As pérolas do mar, o mais raro diamante, Engastados por vós, ofuscar poderiam Este belo diadema etéreo e cintilante;

Pois que ela apenas será feita de luz pura, Arrancada à matriz dos raios primitivos, De que os olhos mortais, radiantes de ventura, Nada mais são que espelhos turvos e cativos!".

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem Pegam um albatroz, imensa ave dos mares, Que acompanha, indolente parceiro de viagem, O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés, O monarca do azul, canhestro e envergonhado, Deixa pender, qual par de remos junto aos pés, As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça Esse viajante agora flácido e acanhado! Um, com cachimbo, lhe enche o bico de fumaça, Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar; Exilado ao chão, em meio à turba obscura,

As asas de gigante impedem-no de andar.

Por sobre os pantanais, os vales orvalhados, As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares, Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares, Para além dos confins dos tetos estrelados,

Flutuas, meu espírito, ágil peregrino, E, como um nadador que nas águas afunda, Sulcas alegremente a imensidão profunda Com um lascivo e fluido gozo masculino.

Vai mais, vai mais além do lodo repelente, Vai te purificar onde o ar se faz mais fino, E bebe, qual licor translúcido e divino, O puro fogo que enche o espaço transparente.

Depois do tédio e dos desgostos e das penas Que gravam com seu peso a vida dolorosa, Feliz daquele a quem uma asa vigorosa Pode lançar às várzeas claras e serenas;

Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz, De manhã rumo aos céus liberto se distende, Que paira sobre a vida e sem esforço entende A linguagem da flor e das coisas sem voz!

A natureza é um templo onde vivos pilares Deixam filtrar não raro insólitos enredos; O homem o cruza em meio a um bosque de segredos Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

Como ecos longos que à distância se matizam Numa vertiginosa e lúgubre unidade, Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade, Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

Há aromas frescos como a carne dos infantes, Doces como o oboé, verdes como a campina, E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,

Com a fluidez daquilo que jamais termina, Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente, Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.

Amo a recordação daqueles tempos nus

Amo a recordação daqueles tempos nus Quando Febo esculpia as estátuas na luz. Ligeiros, Macho e fêmea, fiéis ao som da lira, Ali brincavam sem angústia e sem mentira, E, sob o meigo céu que lhes dourava a espinha,

Exibiam a origem de uma nobre linha. Cibele , então fecunda em frutos generosos, Nos filhos seus não via encargos onerosos: Qual loba fértil em anônimas ternuras, Aleitava o universo com as tetas duras. Robusto e esbelto, tinha o homem por sua lei Gabar-se das belezas que o sagravam rei, Sementes puras e ainda virgens de feridas, Cuja macia tez convidava às mordidas!

Quando se empenha o Poeta em conceber agora Essas grandezas raras que ardiam outrora, No palco em que a nudez humana luz sem brio Sente ele n'alma um tenebroso calafrio Ante esse horrendo quadro de bestiais ultrajes. Ó quanto monstro a deplorar os próprios trajes! Ó troncos cômicos, figuras de espantalhos! Ó corpos magros, flácidos, inflados, falhos, Que o deus utilitário, frio e sem cansaço, Desde a infância cingiu em suas gases de aço! E vós, mulheres, mais seráficas que os círios, Que a orgia ceva e rói, vós, virgens como lírios, Que herdaram de Eva o vício da perpetuidade E todos os horrores da fecundidade!

Possuímos, é verdade, impérios corrompidos, Com velhos povos de esplendores esquecidos: Semblantes roídos pelos cancros da emoção, E por assim dizer belezas de evasão; Tais inventos, porém, das musas mais tardias Jamais impedirão que as gerações doentias Rendam à juventude uma homenagem grave - À juventude, de ar singelo e fronte suave, De olhar translúcido como água de corrente, E que se entorna sobre tudo, negligente, Tal qual o azul do céu, os pássaros e as flores, Seus perfumes, seus cantos, seus doces calores.

Rubens, rio do olvido, jardim da preguiça, Divã de carne tenra onde amar é proibido, Mas onde a vida flui e eternamente viça, Como o ar no céu e o mar dentro do mar contido;

Da Vinci, espelho tão sombrio quão profundo, Onde anjos cândidos, sorrindo com carinho Submersos em mistério, irradiam-se ao fundo Dos gelos e pinhais que lhes selam o ninho;

Rembrandt, triste hospital repleto de lamentos, Por um só crucifixo imenso decorado, Onde a oração é um pranto em meio aos excrementos, E por um sol de inverno súbito cruzado;

Miguel Ângelo, espaço ambíguo em que vagueiam Cristo e Hércules, e onde se erguem dos ossários Fantasmas colossais que à tíbia luz se arqueiam E cujos dedos hirtos rasgam seus sudários;

Impudências de fauno, iras de boxeador, Tu que de graça aureolaste os desgraçados, Coração orgulhoso, homem fraco e sem cor, Puget, imperador soturno dos forçados;

Watteau, um carnaval de corações ilustres, Quais borboletas a pulsar por entre os lírios, Cenários leves inflamados pelos lustres Que à insânia incitam este baile de delírios;

Goya, lúgubre sonho de obscuras vertigens, De fetos cuja carne cresta os sabás, De velhas ao espelho e seminuas virgens, Que a meia ajustam e seduzem Satanás;

Delacroix, lago onde anjos maus banham-se em sangue, Na orla de um bosque cujas cores não se apagam E onde entranhas fanfarras, sob um céu exangue, Como um sopro de Weber entre os ramos vagam;

Essas blasfêmias e lamentos indistintos, Esses Te Deum, essas desgraças, esses ais São como um eco a percorrerem mil labirintos, E um ópio sacrossanto aos corações mortais!

É um grito expresso por milhões de sentinelas, Uma ordem dada por milhões de porta-vozes; É um farol a clarear milhões de cidadelas, Um caçador a uivar entre animais ferozes!

Sem dúvida, Senhor, jamais o homem vos dera Testemunho melhor de sua dignidade Do que esse atroz soluço que erra de era em era E vem morrer aos pés de vossa eternidade!

O que tens essa manhã, ó musa de ar magoado? Teus olhos estão cheios de visões noturnas, E vejo que em teu rosto afloram lado a lado A loucura e a aflição, frias e taciturnas.

Teria o duende róseo ou o súcubo esverdeado Te ungido com o medo e o mel de suas urnas? O sonho mau, de um punho déspota e obcecado, Nas águas te afogou de um mítico Minturnas ?

Quisera eu que, vertendo o odor da exuberância, O pensamento fosse em ti uma constância E que o sangue cristão te fluísse na cadência

Das velhas sílabas de uníssona freqüência, Quando reinavam Febo, o criador das cantigas, E o grande Pã, senhor do campo e das espigas.

Ó musa de minha alma, amante dos palácios, Terás, quando janeiro desatar seus ventos, No tédio negro dos crepúsculos nevoentos, Uma brasa que esquente os teus dois pés violáceos?

Aquecerás teus níveos ombros sonolentos Na luz noturna que os postigos deixam coar? Sem um níquel na bolsa e seco o paladar, Colherás o ouro dos cerúleos firmamentos?

Tens que, para ganhar o pão de cada dia, Esse turíbulo agitar nas sacristia, Entoar esse Te Deum que nada têm de novo,

Ou, bufão em jejum, exibir teus encantos E teu riso molhado de invisíveis prantos Para desopilar o fígado do povo.

Sob as arcadas das antigas abadias Desdobrava-se em cenas a santa Verdade, Cujo efeito, avivando-lhe as entranhas pias, Aquecia a algidez de sua austeridade.

Nesse tempo em que tu, ó Cristo, florescias, Mais de um célebre monge, hoje anônimo frade, Tomando por cenário o campo de agonias, Glorificava a Morte com simplicidade.

- Minha alma é um túmulo que, mau celibatário, Desde sempre percorro e habito solitário; Nada enfeitou jamais este claustro sem Deus.

Ó monge ocioso! Quando enfim hei de fazer Do espetáculo vivo de meu triste ser A obra de minhas mãos e o amor dos olhos meus?

A juventude não foi mais que um temporal, Aqui e ali por sóis ardentes trespassado; As chuvas e os trovões causaram dano tal Que em meu pomar não resta um fruto sazonado.

Eis que alcancei o outono de meu pensamento, E agora o ancinho e a pá se fazem necessários Para outra vez compor o solo lamacento, Onde profundas covas se abrem como ossários

E quem sabe se as flores que meu sonho ensaia Não achem nessa gleba aguada como praia O místico alimento que as farás radiosas/

Ó dor! O tempo faz da vida uma carniça, E o sombrio Inimigo que nos rói as rosas No sangue que perdemos se enraíza e viça!

Castigo assim tornar tão leve Somente a Sísifo se cobra! Por mais que mão se ponha à obra, A Arte é longo e o Tempo é breve.

Longe dos túmulos famosos, Num cemitério já sepulto, Meu coração, tambor oculto, Percute acordes dolorosos.

- Muito ouro ali jaz sonolento em meio à treva e ao esquecimento, esquivo à sonda e ao enxadão;

E muita flor exala a medo Seu perfume como um segredo Nas mais profunda solidão.

Muito tempo habitei sob átrios colossais Que o sol marinho em labaredas envolvia, E cuja colunata majestosa e esguia À noite semelhava grutas abissais.

O mar, que do alto céu a imagem devolvia, Fundia em místicos e hieráticos rituais As vibrações de seus acordes orquestrais À cor do poente que nos olhos meus ardia.

Ali foi que vivi entre volúpias calmas, Em pleno azul, ao pé das vagas, dos fulgores E dos escravos nus, impregnados de odores,

Que a fronte me abanavam com as suas palmas, E cujo único intento era o de aprofundar O oculto mal que me fazia definhar.

A horda profética das pupilas ardentes Pôs-se a caminho, tendo às costas a ninhada, Ou saciando-lhe a altiva gula imoderada Como o farto tesouro das mamas pendentes.

Os homens vão a pé, com armas reluzentes, Junto à carroça que dos seus vai apinhada,

Esquadrinhando o céu, a vista atormentada Pela sombria dor das quimeras ausentes.

O grilo, ao fundo de uma frincha solitária, Vendo-os passar, uma outra vez canta sua ária; Cibele, que os adora, o verde faz crescer,

Rebenta as fontes e de flor enche o deserto Ante esses que aí vão, deixando-lhes aberto O império familiar das trevas por nascer.

Homem liberto, hás de estar sempre aos pés do mar! O mar é teu espelho; a tua alma aprecias No infinito ir e vir de suas ondas frias, E nem teu ser é menos acre ao se abismar.

Apraz-te mergulhar bem fundo em tua imagem; Em teus braços a estreitas, e teu coração Às vezes se distrai na própria pulsação Ao rumor dessa queixa indômita e selvagem.

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