Construindo um bacteriófago usando materiais alternativos

Construindo um bacteriófago usando materiais alternativos

XII Encontro sobre Investigação na Escola “Compartilhar conhecimentos e práticas: um desafio para os educadores”

Jonas Both de Melo jonasbothmelo@hotmail.com

Kelly Callegaro kellycallegaro@hotmail.com

Erica do Espírito Santo Hermel ericahermel@uffs.edu.br Jane Elise Dewes Abdel jane_abdel@hotmail.com

Resumo

Este trabalho trata de uma aula sobre os vírus desenvolvida em uma escola de Educação Básica com turmas do 7º ano do Ensino Fundamental. Durante a aula houve a construção de um vírus pelos alunos utilizando materiais alternativos. Além disso, buscando ampliar os conhecimentos acerca das doenças virais, foi proposta uma pesquisa em grupo em que os resultados foram socializados na forma de um seminário. Essa sequência de atividades, conduzida com a mobilização de conceitos relacionados ao conteúdo, mostrou-se como uma estratégia possível para melhor contextualizar as ações do vírus no organismo, através da pesquisa sobre as viroses, assim como, possibilitar a compreensão estrutural de um vírus complexo, que muitas vezes, por ser microscópico, é de difícil abordagem em sala de aula.

Palavras-chave: modelo didático, materiais alternativos, vírus.

O presente trabalho constituiu-se a partir da descrição de uma sequência de aulas envolvendo o estudo dos vírus com duas turmas do 7º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Pe. José Schardong, localizada no município de Cerro Largo, RS. A proposta das aulas foi pensada e realizada com o auxílio dos bolsistas do Programa de Educação Tutorial da Universidade Federal da Fronteira Sul (PETCiências/UFFS) sob a mediação da professora de Ciências da Natureza da escola. O PETCiências é um programa vinculado aos Cursos de Licenciatura em Ciências Biológicas, Licenciatura em Química e Licenciatura em Física da UFFS, Campus Cerro Largo, RS, implantado com o objetivo principal de qualificar a formação acadêmica dos futuros licenciados, envolvendo-os na organização e participação de atividades de ensino, pesquisa e extensão voltadas ao eixo temático: “Meio Ambiente e Formação de Professores”.

Nessa perspectiva, esse trabalho vem ao encontro de uma das atividades de extensão do programa, que consiste em ações nas escolas através da proposição de abordagens práticas no ensino de Ciências, visando a gradual revitalização dos laboratórios de Ciências, bem como o desenvolvimento de um ensino voltado à experimentação. Considerando o tema vírus, sentiu-se a necessidade de propor uma atividade em que os alunos pudessem desenvolver e/ou intensificar habilidades durante a aprendizagem dos conceitos, surgindo então à ideia de construir um vírus a partir de materiais alternativos. O vírus escolhido foi o bacteriófago, uma vez que este chamou a atenção dos alunos.

DETALHAMENTO DA ATIVIDADE Santa Maria, 23 e 24 de agosto de 2013.

XII Encontro sobre Investigação na Escola “Compartilhar conhecimentos e práticas: um desafio para os educadores”

Iniciou-se a primeira aula com uma sondagem dos conhecimentos prévios dos alunos acerca dos vírus, em que muitos, inicialmente, associaram o termo aos vírus disseminados em computadores, o que desencadeou uma analogia sobre o vírus biológico, que infecta uma célula/sistema no intuito de autorreplicar-se e atingir outras células/computadores, utilizandose para tanto de diversos artifícios. Com isso, foi possível introduzir o estudo dos vírus de forma expositiva-dialogada e lançando mão de uma apresentação preparada em slides, contendo as principais características de diferentes tipos de vírus, tais como estrutura (presença do capsídeo, envelopados, não envelopados), capacidade de replicação (reprodução) e adaptação a novos hospedeiros, principais famílias de vírus, entre outros aspectos importantes. Ao final desta aula, encaminhou-se um trabalho de pesquisa em grupo aos alunos sobre as principais viroses, a ser apresentado após a atividade de confecção estrutural do vírus, mais especificamente, o bacteriófago, um vírus que infecta e se reproduz no interior de bactérias, destruindo-as e lançando novos fagos.

Nas duas aulas seguintes, para a confecção do bacteriófago foram utilizados alguns materiais alternativos, tais como: canudos internos do rolo de papel higiênico, folhas de jornais e revistas, além de esponja de aço amarela em forma de espiral, cola quente, lápis de cor e desenhos impressos de um icosaedro plano, que consiste numa figura geométrica com vinte faces, trinta arestas e doze vértices. Primeiramente, solicitou-se a cada aluno que colorisse com lápis de cor a figura do icosaedro formado por vinte triângulos equiláteros possuindo linhas pontilhadas para facilitar sua dobradura. Após a pintura, os alunos recortaram a figura do icosaedro e iniciaram a dobradura e a colagem de suas partes, deixando apenas um triângulo sem colar, pois nessa abertura foram colocados internamente alguns fios da esponja de aço, representando o material genético. Para representar a cauda do bacteriófago, foi utilizado o canudo interno do rolo de papel higiênico e folhas de revistas cortadas ao meio de maneira que ficassem dois triângulos. Cada triângulo foi enrolado do canto menor para o maior de modo que ficasse estreitamente fino e comprido. Após a confecção de alguns rolinhos, os alunos colaram-nos em volta do canudo interno do rolo do papel higiênico, além disso, os mesmos foram usados para representar as fibras caudais inseridas em seis orifícios na base da cauda e colados com cola quente. Feito isso, enrolaramse duas folhas de jornais para fechar as extremidades do canudo do rolo de papel higiênico (cauda), facilitando a colagem do capsídeo no lado inverso das fibras caudais. Finalizou-se assim o trabalho de construção do vírus pelos alunos (Figura 01).

Santa Maria, 23 e 24 de agosto de 2013.

XII Encontro sobre Investigação na Escola “Compartilhar conhecimentos e práticas: um desafio para os educadores”

FIGURA 01: Fases de Confecção do Bacteriófago.

Num terceiro momento, os alunos então distribuídos em grupos (trios) realizaram a apresentação das pesquisas das principais doenças causadas por vírus, sendo elas: a H1N1, poliomielite, raiva, sarampo, herpes, catapora, rubéola, caxumba, meningite viral, gripe, resfriado, AIDS, hepatite viral e varíola. Resultando assim, em um breve seminário em que os alunos socializaram com os demais o comportamento de cada doença no organismo, seu estágio de desenvolvimento, estratégias de prevenção, entre outras curiosidades do vírus em questão.

Durante a atividade de confecção do bacteriófago observou-se o interesse e a motivação pela grande maioria dos alunos, com exceção de alguns que se mostraram apáticos à atividade. Em relação a essa diferença de comportamento por parte de alguns, sabe-se que é normal, porque cada aluno responde a uma atividade de alguma forma. Entretanto, averiguouse após um diálogo com a professora da classe que o desinteresse é muitas vezes recorrente, o que pode estar relacionado à manifestação de alguns fatores, tais como a repetência de alguns alunos e a consequente diferença na faixa etária, característica dessas turmas. Não obstante, procurou-se reconhecer que ao final cada qual se empenhou do seu jeito para concluir a confecção, assumindo de certa forma um caráter responsivo.

Sob essa perspectiva, a respeito do papel do trabalho de laboratório no ensino, Hodson (1994) considera que as práticas laboratoriais muitas vezes são mal concebidas, utilizadas de modo equivocado e carentes de um real valor educativo, criticando seu uso, por exemplo, como forma de motivação, já que nem todos os alunos se interessam por esse tipo de atividade.

Ademais, pelo tempo que demanda a construção do modelo, ocupando uma parcela significativa dos períodos de aula destinados à disciplina de Ciências, identificou-se que tal atividade poderia ser devidamente encaminhada aos alunos como uma tarefa de casa. Para tanto, poderia ser estabelecido um acordo de modo que após certo prazo os alunos trouxessem e apresentassem os bacteriófagos a toda classe, os quais também poderiam ser reinventados

Santa Maria, 23 e 24 de agosto de 2013.

XII Encontro sobre Investigação na Escola “Compartilhar conhecimentos e práticas: um desafio para os educadores” com a utilização de outros materiais, sem necessitar do acompanhamento sistemático durante a construção, apenas de orientações solicitadas.

Vale destacar ainda que para além de uma proposta do uso de recursos didáticos alternativos, como a construção do bacteriófago, compreende-se que o docente necessita dispor de mecanismos como a mediação contínua de conhecimentos e a discussão com os alunos no decorrer ou na proposição da atividade, a fim de que ocorra a significação das propostas práticas, caso contrário, fica-se apenas na técnica. Por isso, conforme observado, os mecanismos pedagógicos que conduzem o estabelecimento de uma relação de sentido cada vez maior entre a abordagem prática e teórica devem ser aprofundado. Segundo Silva e Zanon (2000, p. 121):

as aulas práticas são importantes para que os alunos ‘vejam com seus próprios olhos’, para que os alunos ‘vejam a realidade como ela é’, para que tirem suas próprias conclusões e seus próprios conhecimentos ’descobrindo a teoria na prática’. É importante que sejam discutidas expressões como estas, que se contrapõem à visão do papel essencial do professor: o de mediador que faz intervenções indispensáveis aos processos de ensinar-aprender ciências que promovam o conhecimento e as potencialidades humanas.

Em relação à pesquisa que os alunos realizaram, considerou-se como bastante significativa a construção de seus conhecimentos. Com a realização do seminário houve a socialização dos resultados obtidos a partir das pesquisas realizadas pelos alunos sobre determinadas viroses. Esse espaço, além de promover a interação entre os grupos, ao mesmo tempo, despertou suas curiosidades e o senso investigativo, o que se tornou notório pela frequência de questionamentos no decorrer das apresentações, possibilitando a construção coletiva do conhecimento e o desenvolvimento da autonomia, através da busca pelo material a ser apresentado.

A participação dos alunos na construção de seu conhecimento por meio da pesquisa tornou-o um sujeito ativo de seu próprio processo de ensino-aprendizagem, educando-o para a vida na perspectiva do Educar pela Pesquisa proposto por Moraes, Galliazzi e Ramos (2002) e Moraes (2002). Essa modalidade de ensino é voltada à formação de sujeitos reflexivos, críticos e autônomos, capazes de tomar iniciativas e de intervir nas situações do seu cotidiano de modo qualificado, intelectualmente e socialmente (GÜLLICH, 2008).

Com essa sequência de aulas, considerou-se que, embora alguns alunos tenham manifestado menos interesse, cabe um olhar sobre o conjunto das aulas, em que muitos até mesmo se destacaram pelo empenho depreendido ao logo de cada atividade. O que permite salientar a proposta de forma satisfatória e reafirmar a pertinência de se pensar caminhos para um ensino de Ciências mais praticável e reflexivo.

Além disso, essa experiência permite reconhecer que a prática docente é dinâmica e demanda uma contínua reconstrução. Um processo que pode ser caracterizado como formação continuada e que pode ser construído pelo próprio sujeito professor no seu âmbito de trabalho, na medida em que esse investigue a sua própria prática a partir de narrativas acerca das suas aulas, por exemplo.

Assim, mais do que traçar resultados, compreende-se a importância de estar de alguma forma contribuindo para a reflexão de estratégias, como a construção do bacteriófago, que

Santa Maria, 23 e 24 de agosto de 2013.

XII Encontro sobre Investigação na Escola “Compartilhar conhecimentos e práticas: um desafio para os educadores” venham a melhorar o ensino de Ciências, de modo que essas também possam ser analisadas, repensadas e apropriadas a novos contextos escolares, até mesmo em conjunto com os alunos.

GÜLLICH, Roque Ismael da Costa. Educar pela pesquisa: formação e processos de estudo e aprendizagem com pesquisa. Revista de Ciências Humanas (Frederico Westphalen - RS), v.8, 2008. p.1-27. HODSON, D. Hacia um enfoque más crítico del trabajo de laboratório. Enseñanza de Las Ciencias, Barcelona, v. 12, n. 3, p. 299-313, 1994. MORAES, R. Educar pela Pesquisa: Exercício de aprender a aprender. In: MORAES, R.; LIMA, V. M. R. (Orgs.). Pesquisa em Sala de Aula: Tendências para a Educação em Novos Tempos. 2.ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002. p. 127-142. MORAES, R.; GALLIAZZI, M. C.; RAMOS, M. G. Pesquisa em Sala de Aula: fundamentos e pressupostos. In: MORAES, R.; LIMA, V. M. R. (Orgs.). Pesquisa em Sala de Aula: Tendências para a Educação em Novos Tempos. 2.ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002. p. 9- 24. SILVA, L. H. A. e ZANON, L. B. A experimentação no ensino de ciências. In: SCHNETZLER, R. P. e ARAGÃO, R. M. R. Ensino de Ciências: Fundamentos e Abordagens. São Paulo, UNIMEP/CAPES, 2000. p. 120-153.

Santa Maria, 23 e 24 de agosto de 2013.

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