Farmacognosia coletânea científica

Farmacognosia coletânea científica

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Co letânea Ci e n t í f i c a de óleo essencial. Após o investimento da pesquisa para a síntese dessa composição aromática, o custo de 40ml representaria bem menos que o custo apresentado pelo caminhão cheio de flores;

�podem apresentar várias atividades, originando fitocosméticos multifuncionais, bastante requisitados pelo mercado consumidor atual;

�podem ter fabricação seletiva, para fins específicos. Isso permite a definição, exata, da atividade do fitocosmético proposto;

�podem ter sua ação ou efeito secundário identificados com maior facilidade, uma vez que os contaminantes presentes em decorrência da síntese química são mais facilmente identificados;

�apresentam qualidade constante, obtida pela rigorosa produção aliada à fácil repetibilidade da rota de síntese;

�exigem tempo de pesquisa e apresentam um custo elevado para serem autorizados como novos produtos, em função da necessidade de comprovação da segurança e eficácia; porém, ao ser aprovados, possibilitam a fabricação dos fitocosméticos de qualidade assegurada (CHARLET, 1996).

Os ativos cosméticos de origem vegetal devem apresentar disponibilidade, ou seja, devem estar disponíveis em função de sua incorporação no veículo/excipiente. Devem, também, apresentar uma ação, seja em função de sua permeação cutânea, proteção à pele ou mesmo por permanecer na superfície da pele.

A natureza dos ativos cosméticos de origem vegetal pode ser hidrossolúvel, tais como os extratos vegetais, e lipossolúvel, como os óleos vegetais. Os extratos vegetais podem ser obtidos a frio ou a quente, a partir de diversas partes das plantas secas (flores, folhas, caules, raízes) e vários líquidos extratores: álcool, água, glicóis (PEYREFITTE et al., 1998) e misturas entre eles, compatíveis com a formulação e com a pele. Embora a aceitação dessa prática esteja próxima do fim, pela preocupação de não se usar produtos potencialmente irritantes ou tóxicos à pele, em função de insolubilidade de alguma substância ativa nos líquidos extratores ou sua mistura, é possível a utilização de um solvente orgânico para fazer a extração, com posterior evaporação desse produto e consequente suspensão do resíduo em um glicol, obtendo-se, assim, o extrato glicólico, com maior compatibilidade com a pele, independentemente do tipo de glicol: propileno, dipropileno ou dietilenoglicol.

Os óleos vegetais são obtidos por prensagem forte e a frio de grãos moídos (PEYREFITTE et al., 1998) ou, em caso de necessidade, extração com um solvente, sua posterior evaporação e suspensão em óleo, geralmente o de amendoim, abundante, barato e de fácil obtenção no Brasil. Em função dos ativos a serem extraídos, é possível também a obtenção de óleos vegetais por meio da maceração da planta em óleo de amendoim ou em triglicerídeo sintético.

Os extratos vegetais podem ser obtidos por maceração, digestão, infusão, decocção, extração com ultrassom, percolação, extração com Soxhlet, extração por fluido supercrítico, originando extratos totais (preparados a partir da planta integral) e extratos parciais (produzidos pela separação seletiva de determinado constituinte ou faixa de constituintes, por meio físico ou químico de um ou mais órgãos da planta). Os extratos são produzidos, ainda, com

Co letânea Ci e n t í f i c a solventes seletivos, para cada um dos grupos de substâncias ativas que se queira extrair (SANTOS, 2006).

As propriedades de um extrato derivado de um produto natural podem ser controladas usando o processamento com fluido supercrítico. Essas propriedades, como ponto de fusão, cor e odor do extrato, podem ser totalmente modificadas pelo ajuste do processo de extração (KING, 1992).

A concentração dos extratos vegetais usualmente empregadas nas formulações cosméticas varia em torno de 0,1 a 5%, podendo atingir de 15 até 20% para aquelas preparações cujo tempo de aplicação é muito curto, como, por exemplo, máscaras faciais aplicadas e retiradas em um intervalo de tempo entre 20 e 30 minutos. A concentração escolhida deve considerar, também, a natureza do líquido extrator e sua compatibilidade com a pele e com a formulação. Por isso, quando seus ativos forem termolábeis, os extratos devem ser incorporados no produto pronto, a frio, após o preparo das formulações que necessitam de aquecimento. Os óleos vegetais geralmente são incorporados na concentração de 0,1 a 8%, na fase oleosa da preparação ou em formulações de natureza aquosa, quando apresentarem hidrossolubilidade pela reação com óxidos de etileno.

Em 1989, Caramês propõe o uso de algas marinhas em cosméticos, sugerindo formulações de produtos anticelulite, produtos hidratantes e amaciantes, e cosméticos para o tratamento do cabelo. O autor afirma ainda que os extratos de algas apropriadamente escolhidos e adequadamente formulados oferecem grandes potencialidades no desenvolvimento de uma grande variedade de produtos cosméticos.

Em 1999, Barreto estudou o papel das algas no rejuvenescimento cutâneo, como nova alternativa de benefícios para os cosméticos. Este estudo afirma que o uso de um vetor sinérgico, como extrato de algas rico em polissacarídeos sulfatados, pode ser substituto dos alfa-hidróxiácidos, altamente irritantes em concentrações elevadas e, consequentemente, baixos pHs. Assevera ainda que a migração de molécula altamente polar do hidróxi-ácido através das dobras poliméricas está relacionada à ligação de hidrogênio, regulando a penetração na pele e permitindo esfoliação, sem efeitos colaterais.

Em 2003, Briand relatou que os cosméticos azuis ou ingredientes marinhos passaram de mitos para realidades científicas. O vegetal marinho, anteriormente conhecido como alga, foi usado principalmente em esforços de marketing até os anos 90. Desde então, sua atividade evoluiu para comprovar sua verdadeira eficácia. A alga deixou seu micromercado e vem fazendo parte das matérias-primas usadas pela indústria internacional de cosméticos. No geral, substâncias algáceas caminham para se tornar componentes importantes dos mais verdadeiros cosméticos de cuidado pessoal.

Em 1997, em artigo de revisão enfocando os aspectos do emprego de fitoterápicos na higienização oral, abordando principalmente os óleos essenciais, Nicoletti e colaboradores afirmaram que o reino vegetal é fonte inesgotável de fármacos que podem ser utilizados na terapêutica desde que devidamente estudados sob vários aspectos técnico-científicos com comprovação de sua atividade farmacológica e inocuidade. A utilização de fitoderivados permite grande versatilidade das formulações para higienização oral, podendo colaborar efetiva-

Co letânea Ci e n t í f i c a mente na manutenção da integridade da mucosa ou mesmo em sua regeneração. É importante, porém, ressaltar que o sistema utilizado deverá apresentar compatibilidade fisiológica com a cavidade bucal, promovendo a manutenção das propriedades físico-químicas características desse meio (pH, principalmente), que são necessárias à eficácia da defesa natural, não desencadeando o desequilíbrio biológico; caso contrário, os resultados pretendidos com a utilização desses produtos não passarão de meras promessas de fabricantes, como tantas existentes na área cosmética (NICOLETTI, 1997).

Novacoski & Torres, em 2005, propuseram uma mistura de óleos essenciais de Lavandula officinalis Chaix (lavanda), Melaleuca alternifolia Cheel (melaleuca), Juniperus virginiana L. (cedro), Eugenia caryophyllata Thunb. (cravo botão) e Thymus vulgaris L. (tomilho) para uso como conservantes em cosméticos; entretanto, os resultados obtidos não foram conclusivos, uma vez que o óleo de cedro não apresentou atividade isoladamente, mas foi observado aumento importante da atividade antibacteriana da mistura equitativa dos óleos.

Embora algumas plantas sejam usadas com apelo do emprego de matéria-prima vegetal para atrair consumidores para aqueles cosméticos, muitas já apresentaram atividade cientificamente comprovada, como mostram alguns estudos.

Os consumidores referem-se a cosméticos naturais como produtos relativos a plantas, com extratos vegetais, segundo Muller, 1993, que propõe um cosmético 100% natural, tendo uma visão mais ampla do termo “ingredientes naturais”,considerando produtos com características melhoradas de biodegradabilidade, alcançando “beleza sem crueldade” e “beleza sem danos ao meio ambiente”.

Em 1995, Bennett e colaboradores avaliaram uma mistura de alfa-hidróxi-ácidos (AHAs) de ocorrência natural e de origem vegetal, com o objetivo de estender o maior leque possível aos seus efeitos benéficos, variando a distribuição das cadeias de carbono. Para isso, identificaram plantas ricas em ácidos glicólico, lático, cítrico, málico e tartárico, respectivamente Saccharum officinarum L., Vaccinium myrtillus L., Citrus sinensis (L.) Osbeck e Citrus limonum Risso, Acer saccharum Marshall, cuja mistura continha 12 a 17% de ácido glicólico, 28 a 32% de ácido lático, 2 a 6% de ácido cítrico, no máximo 1% de ácido málico e no máximo 1% de ácido tartárico, com objetivo de avaliar seu efeito sobre a renovação celular. Os autores concluíram, após resultados positivos, que os AHAs de origem botânica não representavam um conceito revolucionário, mas sim um ingrediente natural e balanceado para o tratamento altamente eficaz da pele.

Nesse mesmo ano, Oliveira e Bloise propõem extratos e óleos naturais vegetais funcionais. Os autores indicam aplicações e concentrações usuais de diversos ingredientes naturais, tais como: Prunus armeniaca L. (abricot), Aloe vera (L.) Burm. f. (aloe vera), Prunus amygdalus Batsch (amêndoas doces), Calendula officinalis L. (calêndula), Prunus persica (L.) Batsch (caroço de pêssego), Daucus carota L. (cenoura), Triticum sativum Lam. (germe de trigo), Sesamum indicum L. (gergelim), Helianthus annuus L. (girassol), Simmondsia chinensis (Link) C.K. Schneid. (jojoba), Limnanthes alba Hartw. ex Benth. (meadowfoam), Macadamia ternifolia F. Muell. (noz macadâmia), Oenothera biennis L. (prímula), Ricinus communis L. (rícino), Borago officinalis L. (semente de borragem), Prunus avium (L.) L. (semente de cereja), Papaver somniferum L. (semente de papoula), Vitis vinifera L. (semente de uva), Bixa orellana L. (urucum) Yucca schidigera

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Ortgies (yucca), concluindo que os ingredientes naturais desempenharão um papel proeminente na cosmética nos anos futuros e assegurando que os termos ‘natural’, ‘derivado de natural’ e ‘de origem natural’ tornar-se-ão mais claros, embora naquela época esses mesmos ingredientes pudessem contar com sua própria funcionalidade e desempenho.

No ano 2000, Silva e colaboradores propuseram o óleo de babaçu como um novo adjuvante lipofílico. Obtido do coco da palmeira babaçu, cuja espécie predominante em uma vasta área das regiões norte e nordeste do Brasil é a Orbignya phalerata Mart., é considerada a oleaginosa mais produtiva do mundo, uma vez que começa a produzir aos cinco anos de idade e atinge seu ápice em torno de 35 a 40 anos. O óleo apresenta, em sua composição, ácidos graxos de importância cosmetológica, como os ácidos mirístico, palmítico e oleico, que o qualificam como adjuvante lipofílico em emulsões tópicas do tipo óleo em água.

Dweck, em 2002, mostrou que ingredientes naturais podem ser algo mais do que apenas apelos mercadológicos na hora de redigir o texto publicitário que ilustra a embalagem. Boas aplicações da fitoquímica podem justificar o uso de ingredientes vegetais que tragam verdadeiros benefícios para a pele. Santos, em 2006, afirmou que o mercado de extratos vegetais é interessante e que há vários diferentes tipos de extratos vegetais no mercado tanto da biodiversidade local como internacional, bem como extratos em diversas concentrações e blends estáveis de vários extratos. Afirmou, também, que, infelizmente, esse ainda não é um mercado plenamente mapeado em termos de volume e faturamento, mas é sabido que cada vez mais produtores de matérias-primas têm-se voltado para esse negócio.

Roque, em 2003, propõe o uso de Mentha piperita L. (hortelã) como aliada no combate às irritações pós-barbear. A presença de flavononas conferiu conforto para a pele sensibilizada, através da redução na liberação de mediadores celulares da inflamação (interleucina – 1 alfa e 8, prostaglandina E8, histamina) e por estimular a produção de neuropeptídeos do bem-estar, as beta-endorfinas. Em painel sensorial, os julgadores responderam a questionários evidenciando benefícios estatisticamente significativos das flavononas da hortelã no alívio da queimação provocada pela lâmina de barbear, proporcionando agradável sensação de frescor e tonicidade à pele.

Oliveira ( 2003), mostra benefícios interessantes a partir de óleo de maracujá e da manteiga de cupuaçu. Um cosmético contendo óleo de semente de maracujá promoveu diminuição dos níveis de oleosidade da pele evidenciada por alterações significativas (p<0,05) da sebumetria após 7 dias, representando uma diminuição de 27%, quando comparado ao óleo mineral, que não alterou a condição de oleosidade no mesmo período de tempo. Com a manteiga de cupuaçu, houve redução significativa dos parâmetros associados à inflamação, como vermelhidão (redução de 26%), redução do ressecamento da pele, com aumento da hidratação (13%) e redução em 27% da perda de água transepidérmica.

Souza e colaboradores (2005) estudaram a atividade fotoprotetora de Achillea millefolium L. (Asteraceae), concluindo que os extratos das flores e folhas não foram efetivos para o preparo de um produto fotoprotetor, uma vez que os comprimentos de onda da máxima absorção apresentados por esses extratos não corresponderam aos comprimentos de onda das radiações ultravioleta A e B.

Salvagnini e colaboradores avaliaram a eficácia de conservantes associados a extrato de

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Achillea millefolium L. contra Bacillus subtilis, um microrganismo que frequentemente aparece como contaminante em extratos, embora não cause nenhum dano. A eficácia antimicrobiana de conservantes empregados em formulações cosméticas foi avaliada usando Phenova® e Imidazolinidil ureia, que inibiram o crescimento de Bacillus subtilis no extrato de Achillea millefolium L. e Nipagin®/ Nipasol® 0,2% em propilenoglicol não apresentaram efeito microbicida (Salvagnini et al., 2006).

Priest, em 2006, relata que, nos últimos 20 anos, o uso de ingredientes de origem natural em cosméticos ganhou popularidade rapidamente, sendo incluídos nas formulações para agregar bioatividade, funcionalidade e apelo de marketing. Ele propõe o uso de óleo de chá australiano, óleo essencial produzido por destilação de vapor das folhas de Melaleuca alternifolia Cheel, planta nativa na costa leste da Austrália, contendo, como componente ativo, o terpineno- 4-ol, na concentração de 40%, que atua como antibacteriano, antifúngico e anti-inflamatório. Entretanto, pelo seu forte odor, seu uso era restrito, até o surgimento de um derivado, com odor reduzido, obtido por processo de destilação fracionada, sem uso de solvente, que separa e concentra o terpineno-4-ol, conferindo propriedade anti-irritante, tornando-o adequado a peles sensíveis tanto para produtos que permanecem como para os que são removidos da pele.

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