Farmacognosia coletânea científica

Farmacognosia coletânea científica

(Parte 5 de 6)

Pesquisa de Staphylococcus aureus e Pseudomonas aeruginosa

Para pesquisa de Staphylococcus aureus e Pseudomonas aeruginosa deve-se transferir, assepticamente, 10g de amostra para 90mL de caldo caseína-soja. Incubar o caldo a 36±1ºC durante 24 a 48 horas. Após esse período, observar o meio quanto ao crescimento. Semear em placas de Petri contendo ágar Vogel Johnson para a pesquisa de S. aureus e em placas de ágar cetrimida para a pesquisa de P. aeruginosa. Incubar a 36±1ºC durante 24 horas. Depois, observar o crescimento e as características das colônias.

Avaliação da eficácia dos fitocosméticos como sistema conservante

Com a finalidade de avaliar a eficácia dos fitocosméticos como sistema conservante, efetua-se o teste de desafio e cálculo do valor D. Para a realização dos experimentos, é necessário inicialmente realizar ensaios preliminares para padronização do inóculo dos diferentes

Co letânea Ci e n t í f i c a microrganismos usados, de modo a se quantificar o número de células em torno de 106 -107/ microrganismos/g nas formulações.

Teste de desafio

Para realizar o teste de desafio, deve-se inocular 106 células/g da amostra de cada um dos microrganismos-teste (E. coli, S. aureus, P. aeruginosa, Candida albicans e Aspergillus niger) cultivados previamente em caldo caseína-soja (TSB) por 6 horas a 36±1ºC (bactérias) e caldo Sabouraud a 27±1ºC (fungos), individualmente, em 10g de cada uma das amostras. Imediatamente após a inoculação, retirar amostras de 1g de cada uma das formulações contaminadas (tempo 0), diluindo-se em caldo Letheen e, a seguir, em tubos com solução salina até atingir a concentração necessária para a contagem de colônias, sendo posteriormente semeados 100 µL na superfície de placas contendo TSA e AS (PINTO et al., 2003; USP 3, 2010). Após incubação a 36±1ºC e 27±1ºC, respectivamente, para bactérias e fungos, retirar amostras nos tempos de 7, 14 e 28 dias de incubação para a realização da contagem de colônias, expressando os valores obtidos em UFC/g (PINTO et al., 2003; USP 3, 2010). Os ensaios devem ser realizados em duplicata, utilizando como controle negativo formulação sem conservante e, como controle positivo, formulação com conservante.

Cálculo do valor D

Para calcular o valor D, deve-se inocular 106 células/g da amostra de cada um dos microrganismos-teste (E. coli, S. aureus, P. aeruginosa, Candida albicans e Aspergillus niger) cultivados previamente em caldo caseína-soja (TSB) por 6 horas a 36±1ºC (bactérias) e caldo Sabouraud a 27±1ºC (fungos), individualmente, em 10g de cada uma das amostras. Imediatamente após a inoculação, retirar amostras de 1g de cada uma das formulações contaminadas (tempo 0), diluindo-se em caldo Letheen e, a seguir, em tubos com solução salina até atingir a concentração necessária para a contagem de colônias, sendo posteriormente semeados 100 µL na superfície de placas contendo TSA e AS (PINTO et al., 2003; USP 3, 2010). Após incubação a 36±1ºC e 27±1ºC, respectivamente, para bactérias e fungos, deve-se realizar a contagem de colônias, expressando os valores em UFC/g. As contagens devem ser realizadas nos tempos de incubação de 2, 24 e 48 horas para bactérias e 4, 24, 48 horas e 7 dias para fungos, na temperatura ambiente (PINTO et al., 2003; USP 3, 2010). Os ensaios devem ser realizados em duplicata, utilizando como controle negativo formulação sem conservante e, como controle positivo, formulação com conservante.

Co letânea Ci e n t í f i c a

Ensaios para avaliar a citotoxicidade de extratos e óleos vegetais não eram realizados, até há pouco tempo, quando se usavam plantas e/ou seus derivados em produtos para aplicação tópica; entretanto, essa prática vem sendo realizada nas pesquisas atuais, garantindo segurança no uso de ativos vegetais. Citotoxicidade significa causar efeito tóxico em nível celular. Entre os efeitos tóxicos, podem ser citadas a morte celular, alterações na permeabilidade da membrana, ou a inibição enzimática. Os ensaios in vitro são normalmente efetuados como um teste de triagem inicial na primeira fase da avaliação de citotoxicidade. A necessidade de estudos do comportamento celular in vitro sobre extratos de diferentes materiais é fundamental para o uso racional e seguro na prática médica. No método in vitro, podem ser observados os processos de crescimento celular diretamente sobre as substâncias testadas. Os testes in vitro são realizados utilizando linhagens celulares permanentes ou culturas primárias (por exemplo, fibroblastos da pele). Alguns autores afirmam que as culturas primárias refletiriam de forma mais precisa as situações in vivo, entretanto apresentam dificuldades no cultivo. Outros afirmam que o uso de linhagens celulares estabelecidas oferece vantagens no cultivo, pois a definição das condições de cultura evita variações individuais e a interferência de complexas interações que ocorrem in vivo (FRESHNEY, 2005).

Extrato padronizado de Ginkgo biloba L. (EGb 761), significativamente pode suprimir a proliferação e aumentar a citotoxicidade em células HepG2. O extrato de Ginkgo biloba L. continha 2-27% de flavonoides e 5-7% de terpenoides em 10mL/L de etanol e 10mL/L de solução de sorbitol (CHAO et al., 2004).

Extrato aquoso de Mentha piperita L. mostrou que determinadas doses por tempo de exposição de 24 horas reduziram o crescimento do organismo Tetrahymena pyriformis (NEVES et al., 2009). Esse microrganismo é um gênero de protozoários ciliados não patogênicos de vida livre, encontrados principalmente em água fresca.

O extrato aquoso de folhas de Centella asiatica (L.) Urb. mostrou, nos testes de citotoxicidade frente a células BHK-21 (linhagem de câncer de rim) e linhagem A549 (linhagem de câncer de pulmão), uma concentração citotóxica acima de 1000ug/mL, representando uma baixa citotoxicidade do extrato testado (PITTELLA et al., 2009).

Uma subfração isolada de extrato etanólico de cascas de Stryphnodendron adstringens

(Mart.) Coville mostrou, nos testes de citotoxicidade frente a células Vero e macrófagos, uma concentração citotóxica acima de 100mg/mL relativa à concentração inibitória mínima de 5,47±0,92 mg/L, representando uma baixa citotoxicidade da amostra ensaiada (ISHIDA et al., 2006).

A avaliação da segurança de fitocosméticos abrange ensaios de citotoxicidade, o que pode representar um aumento de trabalhos de pesquisa cujo objetivo seja avaliar a citotoxicidade de ativos vegetais empregados em cosméticos. Assim, em um futuro próximo, novas metodologias, em diferentes linhagens celulares, deverão ser propostas para avaliar a segurança desses produtos.

Co letânea Ci e n t í f i c a

A absorção percutânea de substâncias depende, criticamente, da natureza do veículo.

Isso explica, por exemplo, porque a tintura de arnica apresenta alergenicidade muito maior do que a alergenicidade apresentada pelo óleo de arnica, uma vez que o etanol, veículo das tinturas, age como auxiliar da penetração. Ainda, nesse sentido, a vaselina sólida produz forte efeito oclusivo que promove a absorção, aumentando o grau de hidratação da epiderme. Pós ou detergentes, que extraem umidade do extrato córneo, tendem a retardar a penetração (SCHULZ, HANSEL, TYLER, 2002).

As plantas, nos seus respectivos extratos e óleos vegetais, podem conter as seguintes substâncias com atividade de interesse cosmético:

As gomas são substâncias poliurônicas, isto é, são polissacarídeos heterogêneos formados por cadeias de ácido urônico. São constituintes naturais que resultam de modificações operadas nas membranas celulares, em certas zonas das plantas, principalmente nos caules e raízes. Escoam lentamente para o exterior sob a forma de geleias das regiões acumuladas quando o vegetal é ferido. Acumulam-se em lacunas situadas em diferentes tecidos, particularmente nos caules e quando as interceptam, geralmente por feridas provocadas a um escoamento tanto para o exterior sob a forma de geleias espessas que, em pouco tempo, adquirem um aspecto cristalino translúcido ou esbranquiçado. De modo geral, são substâncias sólidas, inodoras, insípidas, incolores ou levemente amareladas. Absorvem água com facilidade por serem higroscópicas, produzindo soluções gomosas de natureza coloidal, caracterizadas pela elevada viscosidade. Mostram-se insolúveis em álcool etílico e suas soluções aquosas são ácidas. São exemplos: goma arábica, goma caraia, goma adraganta, goma xantana e goma guar. Em preparações cosméticas, têm sido bastante empregadas as gomas xantana e a guar.

A goma xantana é usada em emulsões como espessante e modificadora sensorial, conferindo toque aveludado e espalhabilidade à preparação. Sua presença em emulsões pode, ainda, conferir maior estabilidade ao sistema. A goma xantana é um poli-holósido heterogêneo, produzida pela fermentação de glúcidos adequados, por estirpes de Xanthomonas campestris. Apresenta-se como um pó branco a branco amarelado, solúvel em água, formando uma solução fortemente viscosa de natureza pseudoplástica (CUNHA, 2005).

A goma guar é obtida do endosperma das sementes de Cyamopsis tetragonoloba (L.) Taub. (CUNHA, 2005), empregada em xampus como espessantes e condicionadora, principal-

Co letânea Ci e n t í f i c a mente na forma quaternizada.

São substâncias macromoleculares (polímeros da glicose e outras oses) de natureza glucídica que, em presença de água, incham e tomam o aspecto de soluções viscosas semelhantes a géis. Por sua capacidade de armazenar água, atuam como hidratantes (ALVES & SILVA,

2002). São misturas amorfas de polissacarídeos, considerados produtos normais do metabolismo vegetal e encontram-se sempre nas mesmas espécies localizadas nos mesmos tecidos. São exemplos de vegetais ricos em mucilagens: algas perladas, malva (Malva sylvestris L.), alteia (Althaea officinalis L.), tília (Tiliae sp.), tussilagem (Tussilago farfara L.), avenca (Adiantum capillusveneris L.), borragem (Borago officinalis L.).

Apresentam propriedades anti-irritante, reduzindo dores de contusões e também emulsificantes. Salvo raras exceções, a matriz celular das algas é glucídica e os poli-holósidos que as constituem são polímeros capazes de formar géis, devido ao fato de as plantas marinhas, diferentemente das terrestres, necessitarem de mais flexibilidade do que de rigidez (CUNHA, 2005).

As carrageninas são mucilagens obtidas de algas vermelhas (Rodofíceas), conhecidas por alga-perlada, musgo branco ou musgo da Irlanda. Constituídas pelas carragenanas, polímeros lineares de D-galactose altamente sulfatados, são classificadas em sete tipos que formam desde soluções bastante viscosas a géis, usados principalmente na estabilização de cosméticos (CUNHA, 2005), como doadores de viscosidade e consistência.

Os constituintes monoméricos das proteínas – os aminoácidos – e os produtos de hidrólise (peptídeos) têm demonstrado ação eficaz no auxílio e manutenção das condições ideais de hidratação do tecido cutâneo (emoliência e maleabilidade da pele e cabelos). São exemplos: proteínas do trigo, complexo NMF, que é o fator de hidratação natural da pele.

Em se tratando de peptídeos, um conceito importante é a forte correlação entre a sequência de aminoácidos na cadeia de peptídeo e a atividade resultante. Alterações nos aminoácidos que compõem os peptídeos levam, quase sempre, a alterações na potência, tipo ou duração da atividade. Um exemplo são os tripeptídeos compostos pelos aminoácidos glicina, histidina e lisina, respectivamente GLI-HIS-LIS. Em uma determinada ordem, o peptídeo é responsável por propriedades de cicatrização de ferimentos por meio do estímulo da síntese de colágeno em fibroblastos, enquanto que em outra ordem o peptídeo apresenta atividade lipolítica nos adipócitos (LEUROX et al., 2000; LINTNER & PESCHARD, 2000; LINTNER, 2008).

Co letânea Ci e n t í f i c a

Constituem um conjunto de substâncias de natureza graxa (solúvel em éter) tendo como principais componentes os triglicerídeos (ésteres de glicerol e ácidos graxos), além do colesterol, ceras (ésteres de ácidos graxos com monoálcoois de alto peso molecular), outros esteróides e hidrocarbonetos. Da hidrólise dos triglicerídeos obtêm-se ácidos graxos, que são ácidos carboxílicos de cadeia linear, ramificada ou não, com quatro ou mais átomos de carbono, sendo raros os que possuem número ímpar de átomos de carbono (CUNHA, 2005) e sendo os mais importantes aqueles que apresentam cadeia com 12 a 18 átomos de carbono, conforme mostrado no Quadro 1.

QUADRO 1 Óleos vegetais e seus ácidos graxos

Ao sofrerem redução, os ácidos graxos originam álcoois graxos, importantes emolientes empregados em preparações cosméticas. Um exemplo clássico é o ácido láurico, composto por 12 átomos de carbono, que dá origem ao álcool laurílico. Esse álcool graxo, por sua vez, ao ser sulfatado, dá origem a um tensoativo muito usado em produtos cosméticos, com propriedades emulsificante e detergente, o lauril sulfato de sódio. Após a neutralização, pela reação com óxido de etileno, o lauril sulfato de sódio origina o lauril éter sulfato de sódio, tensoativo largamente empregado em xampus.

Também são chamados óleos voláteis, essências ou óleos etéreos, são princípios ativos presentes em plantas aromáticas constituídos de uma mistura de substâncias voláteis e hidrofóbicas. Suas características mais peculiares são ter, além do aroma agradável, sabor,

ÓleosÁcidos graxosNúmero de carbonos babaçu ácido láurico 12 babaçu ácido mirístico 14 palma ácido palmítico 16 sebo, cupuaçuácido esteárico18 amendoim e oliva buriti, cupuaçuácido oleico18-1 soja, milho, sementes de uvaácido linoleico18-2

Co letânea Ci e n t í f i c a volatilidade, insolubilidade ou pouca solubilidade em água e solubilidade em solventes orgânicos. Podem ser definidos como uma mistura complexa de compostos químicos (terpenoides e fenilpropanoides) de origem vegetal, voláteis e aromáticos.

Quimicamente são classificados como terpenos (acíclicos, monocíclicos e bicíclicos), sesquiterpenos, derivados do fenilpropano. Suas propriedades são antissépticas, refrescantes, rubefacientes, secretolítica, anti-inflamatória e anestésica local. São exemplos de óleos essenciais largamente empregados em fitocosméticos: camazuleno, bisabolol, mentol e cânfora.

Os óleos essenciais são compostos simples, em geral com estrutura cíclica, chamados de terpenos e seus derivados, um álcool, um aldeído ou uma cetona. São voláteis devido ao seu baixo peso molecular e, por isso, são os responsáveis pelos odores das plantas e flores. De acordo com o número de átomos de carbono, os terpenos podem ser divididos em monoterpenos (10C, com atividade anti-irritante); sesquiterpenos (15C, com atividade antimicrobiana) e diterpenos (20C) (ALVES & SILVA, 2002).

Os taninos são polifenóis que formam compostos estáveis com proteínas. Pela classificação química, são divididos em taninos hidrolisáveis (taninos elágicos e taninos gálicos) e taninos condensados (proantocianidinas), pseudotaninos. Possuem propriedades bastante exploradas em fitocosméticos, tais como adstringentes, cicatrizantes, hemostáticos, protetores e reepitelizantes, antissépticos e antioxidantes. Um exemplo bastante comum é o hamamelitanino, presente em Hamamelis virginiana.

(Parte 5 de 6)

Comentários