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Review of the book “Representações Sociais: Investigações em Psicologia Social” by Serge Moscovi

Neuza Batista dos Santos - Email: nbsantos@uem.br

Universidade Estadual de Maringá - Centro de Ciências Exatas.

Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência e a Matemática. Av. Colombo 570, Bloco F-67. Fone 4-30114827

Esta resenha analisa o conteúdo da obra Representações sociais: investigações em Psicologia Social, de Serge Moscovici. Contribui para a divulgação desse autor que, por mais de 40 anos, investiga como as pessoas transformam conhecimentos científicos em conhecimentos de senso comum e quais as contribuições da Psicologia Social para as Ciências Sociais. Moscovici adota uma perspectiva comunicativa “genética” na apreensão do conhecimento veiculado dinamicamente no cotidiano.

PALAVRAS-CHAVE: representações sociais; psicologia social; Serge Moscovici; perspectiva genética; senso comum.

This review analyses the content of the book “*Representações Sociais: Investigações em Psicologia Social” *by Serge Moscovi. It helps to promote this author, who has investigated, for more than forty years, how people transform scientific knowledge into common sense knowledge, and the Social Psychology contributions to Social Sciences. Moscovi uses a ‘genetic’communicative perspective, in the understanding of knowledge dynamically introduced everyday.

KEYWORDS: social representations; social psychology; serge moscovi; genetic perspective; common sense.

Resenha “Representações sociais” Serge Moscovici
REVISTA CIÊNCIAS&IDÉIASN.2, VOLUME 1- ABRIL/SETEMBRO -2010

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Serge Moscovici, psicólogo social romeno naturalizado francês, nasceu em 1928 e experienciou a I Guerra Mundial. Em 1948, na França, estudou Psicologia. Investigou e divulgou a Psicanálise. Em 1961, terminou a tese La psychanalyse, son image, son public e propôs a Teoria das Representações Sociais. Lecionou em universidades renomadas e publicou, na França, sobre a influência das minorias na inovação. Em 2003, foi Prêmio “Balzan”. Atualmente dirige o Laboratório Europeu de Psicologia Social em Paris.

O livro Representações Sociais: Investigações em Psicologia Social foi finalmente publicado em português. A obra está dividida em 7 capítulos, quais sejam: Introdução – O poder das ideias; 1- O fenômeno das representações sociais; 2- Sociedade e teoria em psicologia social; 3- A história e a atualidade das representações sociais; 4- O conceito de themata; 5- Caso Dreyfus, Proust e a psicologia social; 6- Consciência social e sua história; 7- Ideias e seu desenvolvimento – Um diálogo entre Serge Moscovici e Ivana Marková.

A obra reúne algumas das principais ideias de Moscovici sobre a Teoria das

Representações Sociais e mostra a contribuição dela na Psicologia Social. Há, ainda, a presença de ensaios recentes tecendo a trajetória das Representações Sociais sob as contribuições de Durkheim e Piaget, de Lévy-Bruhl e de Vygotsky. No final do livro, podemos conhecer o conteúdo da entrevista de Moscovici a Ivana Marková. O livro é parte de um trabalho mais amplo do autor no seu campo de investigação. A tradução de Pedrinho A. Guareschi garante coerência e cuidado na apreensão do pensamento de Moscovici. Seu estilo leve e persuasivo envolve o leitor e o faz viajar na essência da Teoria das Representações Sociais, permite tornar familiar algo que, inicialmente, é nãofamiliar. Os capítulos seguem uma lógica própria e permitem a construção histórica da ideia de Representações Sociais. Eles podem ser lidos sequencialmente ou não, de modo que o leitor dinamize a apreensão do todo, e perceba a identidade teórica que os liga.

Na Introdução – O poder das ideias -, somos apresentados por Duveen, editor da versão em inglês, ao trabalho de Moscovici e conhecemos as dificuldades em se construir uma Psicologia Social que garanta serem os fenômenos sociais (crenças e ações) aprendidos e estudados em sua gênese construtiva, como resultado de processos psicológicos e sociológicos; não como “distorções” do pensamento, mas como, uma maneira peculiar de conhecer. Duveen, tradutor de Moscovici, afirma que o autor contribuiu para a construção da perspectiva “européia” de psicologia, nas décadas de 1960 e 1970, ao integrar o social (até então visto como objeto da Sociologia) e o psicológico (objeto da Psicologia) e ao rebater a crítica de que a teoria das RS – Representações Sociais - fosse vaga. Moscovici adota uma perspectiva comunicativa “genética” na apreensão do conhecimento cotidiano mobilizado pelas pessoas em suas interações sociais.

No capítulo 1 - O fenômeno das representações sociais -, Moscovici caracteriza pensamento primitivo, ciência e senso comum, demonstrando a

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3 | Página relação entre essas formas de pensar a realidade do homem ao longo da história. As Representações Sociais (RS) caracterizam-se como sistemas de valores, ideias e práticas com a dupla função de convencionalizar o mundo e de serem prescritivas. Desse modo, as RS têm vida própria, comunicam-se entre si, esvaem-se para emergir sob novas representações. Para Moscovici o senso comum é “a forma de compreensão que cria o substrato das imagens e sentidos, sem o qual nenhuma coletividade pode operar” (p. 48).

Moscovici explica que existem dois universos de pensamento nas sociedades contemporâneas “pensantes”: os reificados (da ciência) e os consensuais (do senso comum). As ciências são os meios pelos quais nós compreendemos o universo reificado, enquanto as representações sociais tratam do universo consensual, são criadas pelos processos de ancoragem e objetivação circulam no cotidiano e devem ser vistas como uma “atmosfera” em relação ao individuo ou ao grupo (p. 101). Na sequência do capítulo, Moscovici faz uma breve revisão de alguns dos principais campos de estudo (p 93): a difusão da psicanalise, na França, forneceu o exemplo prático para o início das investigações sobre a gênese do senso comum. Moscovici discute também as contribuições de Durkheim ao conceituar as representações coletivas e a ambiguidade dos termos “coletivo” e “individual”.

No segundo capítulo - Sociedade e teoria em psicologia social -, o autor infere que o peso do Positivismo, as tensões entre métodos observacionais e experimentais e o medo da especulação são as causas do lento desenvolvimento da teoria psicológica social européia. Critica a falta de fundamentação dela e sugere a necessidade de definir seu objeto de pesquisa, de vencer o caráter “vago” que a tem permeado e que acaba por situá-la como “paradigmas solitários” taxonômicos, diferenciais ou sistemáticos. Discute as contribuições da psicologia norte-americana e sugere que os psicólogos europeus enfrentem as “verdades perigosas”, os problemas reais da sociedade européia e se preocupem com a mudança social sob um referencial metodológico próprio, como uma espécie de teoria flogística (p. 146 -163).

O capítulo 3 - A história e a atualidade das representações sociais - trata da gênese e da fecundidade histórica da ideia de representação social sob as contribuições de Durkheim e Lévy-Bruhl e a influência deles nas perspectivas teóricas de Piaget e Vygotsky. (p. 200). Ciência e senso comum são diferentes entre si, são modos distintos de compreender o mundo e de se relacionar com ele, são representações da realidade Ao final do capitulo, o autor apresenta uma definição de representações sociais como uma “rede” de ideias, metáforas e imagens sociais mais fluidas que as teorias.

No quarto capítulo - O conceito de themata -, o autor refere-se à importância das reflexões sobre temas, ou themata, pois elas demonstram que nossas ideias, nossas representações são sempre filtradas através do discurso de outros, um tanto quanto “descoladas” da realidade, e pré-existem como um “ambiente”sócio-cultural (p. 216). As RS não são conteúdos de pensamento

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4 | Página passiveis de generalização; são processos cognitivos e afetivos inacabados de apreensão do mundo e desempenham diferentes funções cognitivas e sociais. Nessa perspectiva, expressam temas comuns, “genéticos”, que nos ligam a outros seres numa espécie de intuição das ideias primárias, constitutivas do objeto a que nos referimos em nossa cultura. A comunicação e o pensamento só podem ser compreendidos como transformações de estruturas anteriores, relativizações culturais, materializações de sentido que ultrapassam a sociedade em que as RS se localizam social e historicamente.

O capítulo 5 - O Caso Dreyfus, Proust e a psicologia social -, faz referência ao excelente exemplo do peso das minorias ativas na ruptura ou quebra das representações sociais num dado momento histórico. O caso Dreyfus é um fenômeno social que ocorreu, na França, no século XIX. Ele envolveu a condenação errônea de um oficial. Esse fato gerou uma mobilização social de grupos minoritários, ascendeu o nacionalismo e o anti-semitismo que expuseram as mazelas da sociedade francesa da época e evocaram sentidos de pertencimento e reconhecimento social que permanecem vivos na contemporaneidade. O caso Dreyfus relaciona representações sociais e psicologia social. A obra ficcional expressa a dinâmica dos grupos imaginários como se fossem grupos concretos sob “um protocolo de observações” da sociedade feito pelo escritor.

No sexto capitulo - Consciência social e sua história ensaio escrito em 1996, ano de centenário do nascimento de Piaget e Vygotsky, Moscovici evidencia as contribuições históricas deles para a construção (gênese) da pesquisa em psicologia social. Segundo Moscovici, falta à psicologia compreender como os homens se tornam seres racionais, como controlam seu próprio comportamento e como se libertam da dependência do ambiente e da tradição. E, para isto, considera necessário “lermos” esses autores, ancorados no contexto histórico deles, numa perspectiva sociológica e antropológica que os liga a Durkheim (continuidade - estágios) e Levy - Bruhl (descontinuidade - interdependência da cultura e da mente do individuo, as categorias da mente não são as mesmas em todos os tempo e lugares). A estrutura cognitiva e a cultura constituem-se mutuamente. Segundo Moscovici Piaget e Vygotsky transformaram a criança numa figura totalmente cultural e social e estudaram sua mente em busca dos indícios da mentalidade “primitiva” (p. 281), hipótese antropológica de Levy- Bruhl. Quando a encontraram, deram-lhe uma formulação psicológica. O autor reitera que Piaget e Vygotsky divergiram na resposta ao problema da modernidade. A partir da influência de Durkheim e Levy-Bruhl, eles apresentaram soluções diferentes. Piaget segue Durkheim e Vygotsky, Levy- Bruhl. Em certo sentido, Piaget continuou o racionalismo de Durkheim. Levy- Bruhl introduziu a noção de representações culturais e foi seguido por Vygotsky ao defender que o pensamento cientifico não substitui inteiramente o précientifico. Segundo Moscovici, nosso modo de pensar opera sob a racionalidade da ciência e a do senso comum.

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No sétimo e último capítulo - Ideias e seu desenvolvimento: Um diálogo entre Serge Moscovici e Ivana Marková -, o autor refere-se ao status simbólico das Representações Sociais; passa em revista sua trajetória intelectual; discute algumas questões centrais da Psicologia Social na contemporaneidade, como o papel das minorias ativas nos processos de mudança social e a ação autônoma dos grupos; explica conceitos-chave da teoria como “objetivação, ancoragem, universo consensual e reificado, o social e o coletivo,” em relação à época em que foram elaborados; e mostra como estes vêm sendo re-interpretados nas Ciências Sociais ao longo da história.

Moscovici defende que a teoria das RS não é vaga; é uma opção descritiva e explicativa dos fenômenos sociais que se difere da metodologia adotada na Psicologia tradicional. O autor discute o desenvolvimento de uma psicologia social do conhecimento e afirma que o senso comum é um terceiro gênero de conhecimento diferente da ideologia e da ciência, que deve ser incorporado aos estudos em Psicologia Social porque confere autonomia aos grupos minoritários. Por meio do conhecimento cotidiano, os homens veiculam sentidos e, ao fazerem-no, expressam uma visão de mundo lógica, coerente, sensível; dão nova forma ao conhecimento cientifico.

O grande problema da modernidade, para Moscovici, é conciliar fé e razão, intuição e experiência, heterogeneidade e homogeneidade. É referendar o caráter construtivo das representações sociais não como distorções de pensamento, mas como uma maneira diferente, “hibrida”, de pensar em grupo, de apreender a inovação social. Desse modo, não há porque distinguir o social do coletivo: o homem estrutura seu pensamento, numa cultura especifica, de modo dinâmico. A teoria das RS é, para Serge Moscovici, a única teoria capaz de apreender aspectos tão sutis da racionalidade humana, das relações sociais que, na maioria das vezes, são comunicados pela linguagem numa “luta de ideias” que extrapola a ideologia e a ciência. As RS de Moscovici estudam tanto a cultura como a mente do individuo, e o autor prefere o termo “social” para indicar que as relações entre sociedade e cultura são interdependentes e contraditórias e não estáticas, como postulava Durkheim.

A leitura de Representações Sociais: Investigações em Psicologia Social, de

Serge Moscovici, aproxima-nos do universo das representações sociais e nos faz refletir sobre o modo como agimos em nosso cotidiano mediados pela linguagem. Também nos leva a rever a supremacia da ciência na contemporaneidade e a considerar a necessidade de dar voz a nossas “primeiras ideias”, àquelas que nos constituem como seres psicosociais, guardadas na memória coletiva que nos une por gerações. Para o autor, a questão não é ser “coletivo” ou “social’, mas compreender a essência de quem somos, como pensamos, as implicações desse nosso modo de pensar historicamente situados. Nossa racionalidade revela-se no discurso cientifico, na mentalidade “primitiva” e no senso comum e demonstra a capacidade “polifásica” da mente humana de adequar-se segundo a posição do sujeito. O senso comum necessita ser revigorado, “reabilitado”, porque revela como

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6 | Página pensamos e somos, a maneira como nos comunicamos e suas implicações locais e globais. Nessa perspectiva, referendamos a leitura da obra de Serge Moscovici como uma alternativa para conhecer o homem em sua integridade psicológica e sociológica.

Moscovici estuda a teoria das RS há 40 anos e somente agora os estudos nessa área florescem. Embora considerada uma teoria “vaga” por alguns, desperta cada vez mais interesse na Psicologia, na Sociologia e na História, tanto na Europa quanto na América. Parece-nos que ela manteve-se fiel aos temas problematizados e adentrou “silenciosamente” o pensamento ocidental, encontrando na contemporaneidade, espaço para descrever e explicar como o senso comum se apropria do conhecimento cientifico e o torna comum, o reinterpreta.

Ao ler a obra em questão, compreendemos com Moscovici que a ideia de representação coletiva ou social foi a fonte de conceitos antropológicos, linguísticos, históricos, da psicologia infantil e da psicologia social. Apreendemos a historicidade na construção dos fenômenos sociais e a impossibilidade de considerar somente o pensamento científico como legítimo e de valor. Sentimos-nos gratificados de reabilitar a racionalidade do senso comum nos temas guardados na memória coletiva que nos constitui, pois é nela que se assenta o conhecimento cientifico. Por meio do conhecimento cotidiano (percepção e observação), transformamos nossa ação, coexistimos como seres íntegros. Cremos que Moscovici figura no rol dos homens que, no interior das Ciências Sociais, fez a diferença, ousou compreender o “poder das ideias” das minorias ativas, o modo como os homens persuadem e influenciam uns aos outros pela comunicação. Entendemos que a obra fornece subsídios à nossa pesquisa científica à medida que trata da construção histórica das Representações Sociais, esclarecendo sua origem e suas implicações no pensamento contemporâneo. Fornece sólidos conhecimentos sobre os processos sociopsicológicos imbricados na ação humana e nos reporta a pensadores importantes para a compreensão da humanidade.

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