Resumos de textos de Max Weber

Resumos de alguns textos de Weber.

OS ECONOMISTAS

MAX WEBER

TEXTOS SELECIONADOS

Tradu es de Maur cio Tragtenberg, Waltensir Dutra, Cal geras A. Pajuaba, M. Irene de Q. F. Szmrecs nyi, Tam s J. M. K. Szmrecs nyi Revis o de C ssio Gomes (Parlamentarismo e Governo)

Fundador VICTOR CIVITA (1907 - 1990)

Editora Nova Cultural Ltda. Copyright desta edi o 1997, C rculo do Livro Ltda. Rua Paes Leme, 524 - 10 andar CEP 05424-010 - S o Paulo - SP T tulo original: Parlament und regierung in Neuordneten Deutschland (Cap. IV de Parlament und Deutschland); The "Relations of the Rural community to Other Branches of Social Science" (Congress of Arts and Science, Universal Exposition, St. Louis, 1904); "Wahrecht und Demokratie in Deutschland. Textos publicados sob licen a de: Dunker & Humblot, Berlim Direitos exclusivos sobre as tradu es deste volume: C rculo do Livro Ltda. Impress o e acabamento:

DONNELLEY COCHRANE GR FICA E EDITORA BRASIL LTDA. DIVIS O C RCULO - FONE (55 11) 4191-4633

ISBN 85-351-0916-1

APRESENTA O

Maur cio Tragtenberg

Pondo-se de lado alguns trabalhos precursores, como os de Maquiavel (1469-1527) e Montesquieu (1689-1755), o estudo cient fico dos fatos humanos somente come ou a se constituir em meados do s culo XIX. Nessa poca, assistia-se ao triunfo dos m todos das ci ncias naturais, concretizadas nas radicais transforma es da vida material do homem, operadas pela Revolu o Industrial. Diante dessa comprova o inequ voca da fecundidade do caminho metodol gico apontado por Galileu (1564-1642) e outros, alguns pensadores que procuravam conhecer cientificamente os fatos humanos passaram a abord -los segundo as coordenadas das ci ncias naturais. Outros, ao contr rio, afirmando a peculiaridade do fato humano e a conseq ente necessidade de uma metodologia pr pria. Essa metodologia deveria levar em considera o o fato de que o conhecimento dos fen menos naturais um conhecimento de algo externo ao pr prio homem, enquanto nas ci ncias sociais o que se procura conhecer a pr pria experi ncia humana. De acordo com a distin o entre experi ncia externa e experi ncia interna, poder-se-ia distinguir uma s rie de contrastes metodol gicos entre os dois grupos de ci ncias. As ci ncias exatas partiriam da observa o sens vel e seriam experimentais, procurando obter dados mensur veis e regularidades estat sticas que conduzissem formula o de leis de car ter matem tico. As ci ncias humanas, ao contr rio, dizendo respeito pr pria experi ncia humana, seriam introspectivas, utilizando a intui o direta dos fatos, e procurariam atingir n o generalidades de car ter matem tico, mas descri es qualitativas de tipos e formas fundamentais da vida do esp rito. Os positivistas (como eram chamados os te ricos da identidade fundamental entre as ci ncias exatas e as ci ncias humanas) tinham suas origens sobretudo na tradi o empirista inglesa que remonta a Francis Bacon (1561-1626) e encontrou express o em David Hume

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(1711-1776), nos utilitaristas do s culo XIX e outros. Nessa linha metodol gica de abordagem dos fatos humanos se colocariam Augusto Comte (1798-1857) e mile Durkheim (1858-1917), este considerado por muitos o fundador da sociologia como disciplina cient fica. Os antipositivistas, adeptos da distin o entre ci ncias humanas e ci ncias naturais, foram sobretudo os alem es, vinculados ao idealismo dos fil sofos da poca do Romantismo, principalmente Hegel (1770-1831) e Schleiermacher (1768-1834). Os principais representantes dessa orienta o foram os neokantianos Wilhelm Dilthey (1833-1911), Wilhelm Windelband (1848-1915) e Heinrich Rickert (1863-1936). Dilthey estabeleceu uma distin o que fez fortuna: entre explica o (erkl ren) e compreens o (verstehen). O modo explicativo seria caracter stico das ci ncias naturais, que procuram o relacionamento causal entre os fen menos. A compreens o seria o modo t pico de proceder das ci ncias humanas, que n o estudam fatos que possam ser explicados propriamente, mas visam aos processos permanentemente vivos da experi ncia humana e procuram extrair deles seu sentido (Sinn). Os sentidos (ou significados) s o dados, segundo Dilthey, na pr pria experi ncia do investigador, e poderiam ser empaticamente apreendidos na experi ncia dos outros. Dilthey (como Windelband e Rickert), contudo, foi sobretudo fil sofo e historiador e n o, propriamente, cientista social, no sentido que a express o ganharia no s culo XX. Outros levaram o m todo da compreens o ao estudo de fatos humanos particulares, constituindo diversas disciplinas compreensivas. Na sociologia, a tarefa ficaria reservada a Max Weber. Uma educa o humanista apurada Max Weber nasceu e teve sua forma o intelectual no per odo em que as primeiras disputas sobre a metodologia das ci ncias sociais come avam a surgir na Europa, sobretudo em seu pa s, a Alemanha. Filho de uma fam lia da alta classe m dia, Weber encontrou em sua casa uma atmosfera intelectualmente estimulante. Seu pai era um conhecido advogado e desde cedo orientou-o no sentido das humanidades. Weber recebeu excelente educa o secund ria em l nguas, hist ria e literatura cl ssica. Em 1882, come ou os estudos superiores em Heidelberg, continuando-os em G ttingen e Berlim, em cujas universidades dedicou-se simultaneamente economia, hist ria, filosofia e ao direito. Conclu do o curso, trabalhou na Universidade de Berlim, na qualidade de livre-docente, ao mesmo tempo que servia como assessor do governo. Em 1893, casou-se e, no ano seguinte, tornou-se professor de economia na Universidade de Freiburg, da qual se transferiu para a de Heidelberg, em 1896. Dois anos depois, sofreu s rias perturba es nervosas, que o levaram a deixar os trabalhos docentes, s voltando atividade em 1903, na qualidade de co-editor do

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Arquivo de Ci ncias Sociais (Archiv f r Sozialwissenschaft), publica o extremamente importante no desenvolvimento dos estudos sociol gicos na Alemanha. A partir dessa poca, Weber somente deu aulas particulares, salvo em algumas ocasi es, em que proferiu confer ncias nas universidades de Viena e Munique, nos anos que precederam sua morte, em 1920. Compreens o e explica o Dentro das coordenadas metodol gicas que se opunham assimila o das ci ncias sociais aos quadros te ricos das ci ncias naturais, Weber concebe o objeto da sociologia como, fundamentalmente, "a capta o da rela o de sentido" da a o humana. Em outras palavras, conhecer um fen meno social seria extrair o conte do simb lico da a o ou a es que o configuram. Por a o, Weber entende "aquela cujo sentido pensado pelo sujeito ou sujeitos referido ao comportamento dos outros, orientando-se por ele o seu comportamento". Tal coloca o do problema de como se abordar o fato significa que n o poss vel propriamente explic -lo como resultado de um relacionamento de causas e efeitos (procedimento das ci ncias naturais), mas compreend -lo como fato carregado de sentido, isto , como algo que aponta para outros fatos e somente em fun o dos quais poderia ser conhecido em toda a sua amplitude. O m todo compreensivo, defendido por Weber, consiste em entender o sentido que as a es de um indiv duo cont m e n o apenas o aspecto exterior dessas mesmas a es. Se, por exemplo, uma pessoa d a outra um peda o de papel, esse fato, em si mesmo, irrelevante para o cientista social. Somente quando se sabe que a primeira pessoa deu o papel para a outra como forma de saldar uma d vida (o peda o de papel um cheque) que se est diante de um fato propriamente humano, ou seja, de uma a o carregada de sentido. O fato em quest o n o se esgota em si mesmo e aponta para todo um complexo de significa es sociais, na medida em que as duas pessoas envolvidas atribuem ao peda o de papel a fun o de servir como meio de troca ou pagamento; al m disso, essa fun o reconhecida por uma comunidade maior de pessoas. Segundo Weber, a capta o desses sentidos contidos nas a es humanas n o poderia ser realizada por meio, exclusivamente, dos procedimentos metodol gicos das ci ncias naturais, embora a rigorosa observa o dos fatos (como nas ci ncias naturais) seja essencial para o cientista social. Contudo, Weber n o pretende cavar um abismo entre os dois grupos de ci ncias. Segundo ele, a considera o de que os fen menos obedecem a uma regularidade causal envolve refer ncia a um mesmo esquema l gico de prova, tanto nas ci ncias naturais quanto nas humanas. Entretanto, se a l gica da explica o causal id ntica, o mesmo n o se poderia dizer dos tipos de leis gerais a serem formulados

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para cada um dos dois grupos de disciplinas. As leis sociais, para Weber, estabelecem rela es causais em termos de regras de probabilidades, segundo as quais a determinados processos devem seguir-se, ou ocorrer simultaneamente, outros. Essas leis referem-se a constru es de "comportamento com sentido" e servem para explicar processos particulares. Para que isso seja poss vel, Weber defende a utiliza o dos chamados "tipos ideais", que representam o primeiro n vel de generaliza o de conceitos abstratos e, correspondendo s exig ncias l gicas da prova, est o intimamente ligados realidade concreta particular. O legal e o t pico O conceito de tipo ideal corresponde, no pensamento weberiano, a um processo de conceitua o que abstrai de fen menos concretos o que existe de particular, constituindo assim um conceito individualizante ou, nas palavras do pr prio Weber, um "conceito hist rico-concreto". A nfase na caracteriza o sistem tica dos padr es individuais concretos (caracter stica das ci ncias humanas) op e a conceitua o t pico-ideal conceitua o generalizadora, tal como esta conhecida nas ci ncias naturais. A conceitua o generalizadora, como revela a pr pria express o, retira do fen meno concreto aquilo que ele tem de geral, isto , as uniformidades e regularidades observadas em diferentes fen menos constitutivos de uma mesma classe. A rela o entre o conceito gen rico e o fen meno concreto de natureza tal que permite classificar cada fen meno particular de acordo com os tra os gerais apresentados pelo mesmo, considerando acidental tudo o que n o se enquadre dentro da generalidade. Al m disso, a conceitua o generalizadora considera o fen meno particular um caso cujas caracter sticas gerais podem ser deduzidas de uma lei. A conceitua o t pico-ideal chega a resultados diferentes da conceitua o generalizadora. O tipo ideal, segundo Weber, exp e como se desenvolveria uma forma particular de a o social se o fizesse racionalmente em dire o a um fim e se fosse orientada de forma a atingir um e somente um fim. Assim, o tipo ideal n o descreveria um curso concreto de a o, mas um desenvolvimento normativamente ideal, isto , um curso de a o "objetivamente poss vel". O tipo ideal um conceito vazio de conte do real: ele depura as propriedades dos fen menos reais desencarnando-os pela an lise, para depois reconstru -los. Quando se trata de tipos complexos (formados por v rias propriedades), essa reconstru o assume a forma de s ntese, que n o recupera os fen menos em sua real concre o, mas que os idealiza em uma articula o significativa de abstra es. Desse modo, se constitui uma "pauta de contrasta o", que permite situar os fen menos reais em sua relatividade. Por conseguinte, o tipo ideal n o constitui nem uma hip tese nem uma proposi o e, assim, n o pode ser falso nem verdadeiro, mas v lido ou

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n o-v lido, de acordo com sua utilidade para a compreens o significativa dos acontecimentos estudados pelo investigador. No que se refere aplica o do tipo ideal no tratamento da realidade, ela se d de dois modos. O primeiro um processo de contrasta o conceitual que permite simplesmente apreender os fatos segundo sua maior ou menor aproxima o ao tipo ideal. O segundo consiste na formula o de hip teses explicativas. Por exemplo: para a explica o de um p nico na bolsa de valores, seria poss vel, em primeiro lugar, supor como se desenvolveria o fen meno na aus ncia de quaisquer sentimentos irracionais; somente depois se poderia introduzir tais sentimentos como fatores de perturba o. Da mesma forma se poderia proceder para a explica o de uma a o militar ou pol tica. Primeiro se fixaria, hipoteticamente, como se teria desenvolvido a a o se todas as inten es dos participantes fossem conhecidas e se a escolha dos meios por parte dos mesmos tivesse sido orientada de maneira rigorosamente racional em rela o a certo fim. Somente assim se poderia atribuir os desvios aos fatores irracionais. Nos exemplos acima patente a dicotomia estabelecida por Weber entre o racional e o irracional, ambos conceitos fundamentais de sua metodologia. Para Weber, uma a o racional quando cumpre duas condi es. Em primeiro lugar, uma a o racional na medida em que orientada para um objetivo claramente formulado, ou para um conjunto de valores, tamb m claramente formulados e logicamente consistentes. Em segundo lugar, uma a o racional quando os meios escolhidos para se atingir o objetivo s o os mais adequados. Uma vez de posse desses instrumentos anal ticos, formulados para a explica o da realidade social concreta ou, mais exatamente, de uma por o dessa realidade, Weber elabora um sistema compreensivo de conceitos, estabelecendo uma terminologia precisa como tarefa preliminar para a an lise das inter-rela es entre os fen menos sociais. De acordo com o vocabul rio weberiano, s o quatro os tipos de a o que cumpre distinguir claramente: a o racional em rela o a fins, a o racional em rela o a valores, a o afetiva e a o tradicional. Esta ltima, baseada no h bito, est na fronteira do que pode ser considerado a o e faz Weber chamar a aten o para o problema de fluidez dos limites, isto , para a virtual impossibilidade de se encontrarem "a es puras". Em outros termos, segundo Weber, muito raramente a a o social orienta-se exclusivamente conforme um ou outro dos quatro tipos. Do mesmo modo, essas formas de orienta o n o podem ser consideradas exaustivas. Seriam tipos puramente conceituais, constru dos para fins de an lise sociol gica, jamais encontrando-se na realidade em toda a sua pureza; na maior parte dos casos, os quatro tipos de a o encontram-se misturados. Somente os resultados que com eles se obtenham na an lise da realidade social podem dar a medida de sua conveni ncia. Para qualquer um desses tipos tanto

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seria poss vel encontrar fen menos sociais que poderiam ser inclu dos neles, quanto se poderia tamb m deparar com fatos lim trofes entre um e outro tipo. Entretanto, observa Weber, essa fluidez s pode ser claramente percebida quando os pr prios conceitos tipol gicos n o s o fluidos e estabelecem fronteiras r gidas entre um e outro. Um conceito bem definido estabelece nitidamente propriedades cuja presen a nos fen menos sociais permite diferenciar um fen meno de outro; estes, contudo, raramente podem ser classificados de forma r gida. O sistema de tipos ideais Na primeira parte de Economia e Sociedade, Max Weber exp e seu sistema de tipos ideais, entre os quais os de lei, democracia, capitalismo, feudalismo, sociedade, burocracia, patrimonialismo, sultanismo. Todos esses tipos ideais s o apresentados pelo autor como conceitos definidos conforme crit rios pessoais, isto , trata-se de conceitua es do que ele entende pelo termo empregado, de forma a que o leitor perceba claramente do que ele est falando. O importante nessa tipologia reside no meticuloso cuidado com que Weber articula suas defini es e na maneira sistem tica com que esses conceitos s o relacionados uns aos outros. A partir dos conceitos mais gerais do comportamento social e das rela es sociais, Weber formula novos conceitos mais espec ficos, pormenorizando cada vez mais as caracter sticas concretas. Sua abordagem em termos de tipos ideais coloca-se em oposi o, por um lado, explica o estrutural dos fen menos, e, por outro, perspectiva que v os fen menos como entidades qualitativamente diferentes. Para Weber, as singularidades hist ricas resultam de combina es espec ficas de fatores gerais que, se isolados, s o quantific veis, de tal modo que os mesmos elementos podem ser vistos numa s rie de outras combina es singulares. Tudo aquilo que se afirma de uma a o concreta, seus graus de adequa o de sentido, sua explica o compreensiva e causal, seriam hip teses suscet veis de verifica o. Para Weber, a interpreta o causal correta de uma a o concreta significa que "o desenvolvimento externo e o motivo da a o foram conhecidos de modo certo e, ao mesmo tempo, compreendidos com sentido em sua rela o". Por outro lado, a interpreta o causal correta de uma a o t pica significa que o acontecimento considerado t pico se oferece com adequa o de sentido e pode ser comprovado como causalmente adequado, pelo menos em algum grau. O capitalismo protestante? As solu es encontradas por Weber para os intrincados problemas metodol gicos que ocuparam a aten o dos cientistas sociais do come o do s culo XX permitiram-lhe lan ar novas luzes sobre v rios problemas sociais e hist ricos, e fazer contribui es extremamente importantes

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para as ci ncias sociais. Particularmente relevantes nesse sentido foram seus estudos sobre a sociologia da religi o, mais exatamente suas interpreta es sobre as rela es entre as id ias e atitudes religiosas, por um lado, e as atividades e organiza o econ mica correspondentes, por outro. Esses estudos de Weber, embora incompletos, foram publicados nos tr s volumes de sua Sociologia da Religi o. A linha mestra dessa obra constitu da pelo exame dos aspectos mais importantes da ordem social e econ mica do mundo ocidental, nas v rias etapas de seu desenvolvimento hist rico. Esse problema j se tinha colocado para outros pensadores anteriores a Weber, dentre os quais Karl Marx (1818-1883), cuja obra, al m de seu car ter te rico, constitu a elemento fundamental para a luta econ mica e pol tica dos partidos oper rios, por ele mesmo criados. Por essas raz es, a pergunta que os soci logos alem es se faziam era se o materialismo hist rico formulado por Marx era ou n o o verdadeiro, ao transformar o fator econ mico no elemento determinante de todas as estruturas sociais e culturais, inclusive a religi o. In meros trabalhos foram escritos para resolver o problema, substituindo-se o fator econ mico como dominante por outros fatores, tais como ra a, clima, topografia, id ias filos ficas, poder pol tico. Alguns autores, como Whilhelm Dilthey, Ernst Troeltsch (1865-1923) e Werner Sombart (1863-1941), j se tinham orientado no sentido de ressaltar a influ ncia das id ias e das convic es ticas como fatores determinantes, e chegaram conclus o de que o moderno capitalismo n o poderia ter surgido sem uma mudan a espiritual b sica, como aquela que ocorreu nos fins da Idade M dia. Contudo, somente com os trabalhos de Weber foi poss vel elaborar uma verdadeira teoria geral capaz de confrontar-se com a de Marx. A primeira id ia que ocorreu a Weber na elabora o dessa teoria foi a de que, para conhecer corretamente a causa ou causas do surgimento do capitalismo, era necess rio fazer um estudo comparativo entre as v rias sociedades do mundo ocidental ( nico lugar em que o capitalismo, como um tipo ideal, tinha surgido) e as outras civiliza es, principalmente as do Oriente, onde nada de semelhante ao capitalismo ocidental tinha aparecido. Depois de exaustivas an lises nesse sentido, Weber foi conduzido tese de que a explica o para o fato deveria ser encontrada na ntima vincula o do capitalismo com o protestantismo: "Qualquer observa o da estat stica ocupacional de um pa s de composi o religiosa mista traz luz, com not vel freq ncia, um fen meno que j tem provocado repetidas discuss es na imprensa e literatura cat licas e em congressos cat licos na Alemanha: o fato de os l deres do mundo dos neg cios e propriet rios do capital, assim como os n veis mais altos de m o-de-obra qualificada, principalmente o pessoal t cnico e comercialmente especializado das modernas empresas, serem preponderantemente protestantes". A partir dessa afirma o, Weber coloca uma s rie de hip teses

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referentes a fatores que poderiam explicar o fato. Analisando detidamente esses fatores, Weber elimina-os, um a um, mediante exemplos hist ricos, e chega conclus o final de que os protestantes, tanto como classe dirigente, quanto como classe dirigida, seja como maioria, seja como minoria, sempre teriam demonstrado tend ncia espec fica para o racionalismo econ mico. A raz o desse fato deveria, portanto, ser buscada no car ter intr nseco e permanente de suas cren as religiosas e n o apenas em suas tempor rias situa es externas na hist ria e na pol tica. Uma vez indicado o papel que as cren as religiosas teriam exercido na g nese do esp rito capitalista, Weber prop e-se a investigar quais os elementos dessas cren as que atuaram no sentido indicado e procura definir o que entende por "esp rito do capitalismo". Este entendido por Weber como constitu do fundamentalmente por uma tica peculiar, que pode ser exemplificada muito nitidamente por trechos de discursos de Benjamin Franklin (1706-1790), um dos l deres da independ ncia dos Estados Unidos. Benjamin Franklin, representante t pico da mentalidade dos colonos americanos e do esp rito pequenoburgu s, afirma em seus discursos que "ganhar dinheiro dentro da ordem econ mica moderna , enquanto isso for feito legalmente, o resultado e a express o da virtude e da efici ncia de uma voca o". Segundo a interpreta o dada por Weber a esse texto, Benjamin Franklin expressa um utilitarismo, mas um utilitarismo com forte conte do tico, na medida em que o aumento de capital considerado um fim em si mesmo e, sobretudo, um dever do indiv duo. O aspecto mais interessante desse utilitarismo residiria no fato de que a tica de obten o de mais e mais dinheiro combinada com o estrito afastamento de todo gozo espont neo da vida. A quest o seguinte colocada por Weber diz respeito aos fatores que teriam levado a transformar-se em voca o uma atividade que, anteriormente ao advento do capitalismo, era, na melhor das hip teses, apenas tolerada. O conceito de voca o como valoriza o do cumprimento do dever dentro das profiss es seculares Weber encontra expresso nos escritos de Martinho Lutero (1483-1546), a partir do qual esse conceito se tornou o dogma central de todos os ramos do protestantismo. Em Lutero, contudo, o conceito de voca o teria permanecido em sua forma tradicional, isto , algo aceito como ordem divina qual cada indiv duo deveria adaptar-se. Nesse caso, o resultado tico, segundo Weber, inteiramente negativo, levando submiss o. O luteranismo, portanto, n o poderia ter sido a raz o explicativa do esp rito do capitalismo. Weber volta-se ent o para outras formas de protestantismo diversas do luteranismo, em especial para o calvinismo e outras seitas, cujo elemento b sico era o profundo isolamento espiritual do indiv duo em rela o a seu Deus, o que, na pr tica, significava a racionaliza o

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do mundo e a elimina o do pensamento m gico como meio de salva o. Segundo o calvinismo, somente uma vida guiada pela reflex o cont nua poderia obter vit ria sobre o estado natural, e foi essa racionaliza o que deu f reformada uma tend ncia asc tica. Com o objetivo de relacionar as id ias religiosas fundamentais do protestantismo com as m ximas da vida econ mica capitalista, Weber analisa alguns pontos fundamentais da tica calvinista, como a afirma o de que "o trabalho constitui, antes de mais nada, a pr pria finalidade da vida". Outra id ia no mesmo sentido estaria contida na m xima dos puritanos, segundo a qual "a vida profissional do homem que lhe d uma prova de seu estado de gra a para sua consci ncia, que se expressa no zelo e no m todo, fazendo com que ele consiga cumprir sua voca o". Por meio desses exemplos, Weber mostra que o ascetismo secular do protestantismo "libertava psicologicamente a aquisi o de bens da tica tradicional, rompendo os grilh es da nsia de lucro, com o que n o apenas a legalizou, como tamb m a considerou diretamente desejada por Deus". Em s ntese, a tese de Weber afirma que a considera o do trabalho (entendido como voca o constante e sistem tica) como o mais alto instrumento de ascese e o mais seguro meio de preserva o da reden o da f e do homem deve ter sido a mais poderosa alavanca da express o dessa concep o de vida constitu da pelo esp rito do capitalismo. necess rio, contudo, salientar que Weber em nenhum momento considera o esp rito do capitalismo uma pura conseq ncia da Reforma protestante. O sentido que norteia sua an lise antes uma proposta de investigar em que medida as influ ncias religiosas participaram da moldagem qualitativa do esp rito do capitalismo. Percorrendo o caminho inverso, Weber prop e-se tamb m a compreender melhor o sentido do protestantismo, mediante o estudo dos aspectos fundamentais do sistema econ mico capitalista. Tendo em vista a grande confus o existente no campo das influ ncias entre as bases materiais, as formas de organiza o social e pol tica e os conte dos espirituais da Reforma, Weber salientou que essas influ ncias s poderiam ser confirmadas por meio de exaustivas investiga es dos pontos em que realmente teriam ocorrido correla es entre o movimento religioso e a tica vocacional. Com isso "se poder avaliar" - diz o pr prio Weber - "em que medida os fen menos culturais contempor neos se originam historicamente em motivos religiosos e em que medida podem ser relacionados com eles". Autoridade e legitimidade A aplica o da metodologia compreensiva an lise dos fen menos hist ricos e sociais, por parte de Weber, n o se limitou s rela es entre o protestantismo e o sistema capitalista. In meros foram seus trabalhos de investiga o emp rica sobre assuntos econ micos e pol ticos. Entre os primeiros, salientam-se A Situa o dos Trabalhadores

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Agr colas no Elba e A Psicofisiologia do Trabalho Industrial. Entre os segundos, devem ser ressaltadas suas an lises cr ticas da sele o burocr tica dos l deres pol ticos na Alemanha dos Kaiser Guilherme I e II e da despolitiza o levada a cabo com a hegemonia dos burocratas. Para a teoria pol tica em geral, contudo, foram mais importantes os conceitos e categorias interpretativas que formulou e que se tornaram cl ssicos nas ci ncias sociais. Weber distingue no conceito de pol tica duas acep es, uma geral e outra restrita. No sentido mais amplo, pol tica entendida por ele como "qualquer tipo de lideran a independente em a o". No sentido restrito, pol tica seria lideran a de um tipo de associa o espec fica; em outras palavras, tratar-se-ia da lideran a do Estado. Este, por sua vez, defendido por Weber como "uma comunidade humana que pretende o monop lio do uso leg timo da for a f sica dentro de determinado territ rio". Definidos esses conceitos b sicos, Weber conduzido a desdobrar a natureza dos elementos essenciais que constituem o Estado e assim chega ao conceito de autoridade e de legitimidade. Para que um Estado exista, diz Weber, necess rio que um conjunto de pessoas (toda a sua popula o) obede a autoridade alegada pelos detentores do poder no referido Estado. Por outro lado, para que os dominados obede am necess rio que os detentores do poder possuam uma autoridade reconhecida como leg tima. A autoridade pode ser distinguida segundo tr s tipos b sicos: a racional-legal, a tradicional e a carism tica. Esses tr s tipos de autoridade correspondem a tr s tipos de legitimidade: a racional, a puramente afetiva e a utilitarista. O tipo racional-legal tem como fundamento a domina o em virtude da cren a na validade do estatuto legal e da compet ncia funcional, baseada, por sua vez, em regras racionalmente criadas. A autoridade desse tipo mant m-se, assim, segundo uma ordem impessoal e universalista, e os limites de seus poderes s o determinados pelas esferas de compet ncia, defendidas pela pr pria ordem. Quando a autoridade racional-legal envolve um corpo administrativo organizado, toma a forma de estrutura burocr tica, amplamente analisada por Weber. A autoridade tradicional imposta por procedimentos considerados leg timos porque sempre teria existido, e aceita em nome de uma tradi o reconhecida como v lida. O exerc cio da autoridade nos Estados desse tipo definido por um sistema de status, cujos poderes s o determinados, em primeiro lugar, por prescri es concretas da ordem tradicional e, em segundo lugar, pela autoridade de outras pessoas que est o acima de um status particular no sistema hier rquico estabelecido. Os poderes s o tamb m determinados pela exist ncia de uma esfera arbitr ria de gra a, aberta a crit rios variados, como os de raz o de Estado, justi a substantiva, considera es de utilidade e outros. Ponto importante a inexist ncia de separa o n tida entre a esfera

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da autoridade e a compet ncia privada do indiv duo, fora de sua autoridade. Seu status total, na medida em que seus v rios pap is est o muito mais integrados do que no caso de um of cio no Estado racional-legal. Em rela o ao tipo de autoridade tradicional, Weber apresenta uma subclassifica o em termos do desenvolvimento e do papel do corpo administrativo: gerontocracia e patriarcalismo. Ambos s o tipos em que nem um indiv duo, nem um grupo, segundo o caso, ocupam posi o de autoridade independentemente do controle de um corpo administrativo, cujo status e cujas fun es s o tradicionalmente fixados. No tipo patrimonialista de autoridade, as prerrogativas pessoais do "chefe" s o muito mais extensas e parte consider vel da estrutura da autoridade tende a se emancipar do controle da tradi o. A domina o carism tica um tipo de apelo que se op e s bases de legitimidade da ordem estabelecida e institucionalizada. O l der carism tico, em certo sentido, sempre revolucion rio, na medida em que se coloca em oposi o consciente a algum aspecto estabelecido da sociedade em que atua. Para que se estabele a uma autoridade desse tipo, necess rio que o apelo do l der seja considerado leg timo por seus seguidores, os quais estabelecem com ele uma lealdade de tipo pessoal. Fen meno excepcional, a domina o carism tica n o pode estabilizar-se sem sofrer profundas mudan as estruturais, tornando-se, de acordo com os padr es de sucess o que adotar e com a evolu o do corpo administrativo ou racional-legal ou tradicional, em algumas de suas configura es b sicas.

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CRONOLOGIA

1864 - Max Weber nasce em Erfurt, Tur ngia, em 21 de abril. 1869 - Muda-se para Berlim com a fam lia. 1882 - Conclui seus estudos pr -universit rios e matricula-se na Faculdade de Direito de Heidelberg. 1883 - Transfere-se para Estrasburgo, onde presta um ano de servi o militar. 1884 - Reinicia os estudos universit rios. 1888 - Conclui seus estudos e come a a trabalhar nos tribunais de Berlim. 1889 - Escreve sua tese de doutoramento sobre a hist ria das companhias de com rcio durante a Idade M dia. 1891 - Escreve uma tese, Hist ria das Institui es Agr rias. 1893 - Casa-se com Marianne Schnitger. 1894 - Exerce a c tedra de economia na Universidade de Freiburg. 1896 - Aceita uma c tedra em Heidelberg. 1898 - Consegue uma licen a remunerada na universidade, por motivo de sa de. 1899 - internado numa casa de sa de para doentes mentais, onde permanece algumas semanas. 1903 - Participa, junto com Sombart, da dire o de uma das mais destacadas publica es de ci ncias sociais da Alemanha. 1904 - Publica ensaios sobre os problemas econ micos das propriedades dos Junker, sobre a objetividade nas ci ncias sociais e a primeira parte de A tica Protestante e o Esp rito do Capitalismo. 1905 - Parte para os Estados Unidos, onde pronuncia confer ncias e recolhe material para a continua o de A tica Protestante e o Esp rito do Capitalismo. 1906 - Redige dois ensaios sobre a R ssia: A Situa o da Democracia Burguesa na R ssia e A Transi o da R ssia para o Constitucionalismo de Fachada. 1914 - In cio da Primeira Guerra Mundial. Weber, no posto de capit o, encarregado de organizar e administrar nove hospitais em Heidelberg.

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1918 - Transfere-se para Viena, onde d um curso sob o t tulo de Uma Cr tica Positiva da Concep o Materialista da Hist ria. 1919 - Pronuncia confer ncias em Munique, que ser o publicadas sob o t tulo de Hist ria Econ mica Geral. 1920 - Falece em conseq ncia de uma pneumonia aguda.

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BIBLIOGRAFIA

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PARLAMENTARISMO E GOVERNO NUMA ALEMANHA RECONSTRU DA*

(UMA CONTRIBUI O CR TICA POL TICA DO FUNCIONALISMO E DA POL TICA PARTID RIA)

Tradu o de Maur cio Tragtenberg Revis o de C ssio Gomes

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Traduzido de: "Parlament und Regierung im neugeordneten Deutschland", in Max Weber, Gesammelte politische Schriften, J. C. B. Mohr (Paul Siebeck), T bingen, 1958, 2 edi o, preparada por Johannes Winckelmann, p gs. 294-394.

PREF CIO

Este trabalho pol tico uma revis o e uma amplia o de artigos publicados no Frankfurter Zeitung durante o ver o de 1917.1 O ensaio n o proporciona novas informa es para especialistas em constitui es e tamb m n o pretende ter autoridade cient fica, pois as decis es ltimas da vontade n o podem ser tomadas por meios cient ficos. Os argumentos aqui representados n o podem influenciar aqueles para quem as tarefas hist ricas da na o alem n o se colocam acima de qualquer controv rsia de natureza constitucional, ou aqueles que consideram essas tarefas de maneira radicalmente diferente. Nossos argumentos t m certas pressuposi es, a partir das quais ditos argumentos s o dirigidos contra aqueles que consideram mesmo os tempos atuais apropriados para desacreditar o sistema parlamentar em favor de outros poderes pol ticos. Infelizmente, esse tipo de cr tica tem existido nos ltimos quarenta anos nos grandes c rculos de escritores de dentro e de fora do meio acad mico, tendo continuado durante a guerra. Muito freq entemente tal cr tica tem sido empreendida da forma mais arrogante e extravagante, com desdenhosa virul ncia e sem nenhuma boa vontade para compreender as condi es para a exist ncia de um

1 Estes ensaios foram publicados por Max Weber, Gesammelte politische Schriften, ed. Johannes Winckelmann (2 ed.; T bingen: Mohr, 1958), 294-394. Os ensaios foram pela primeira vez publicados em conjunto na s rie Die innere Politik, organizados por Siegmund Helmann (M nchen e Leipzig: Duncker & Humblot, 1918). Em certas passagens Weber serviu-se da segunda parte de Wirtschaft und Gesellschaft, que naquela poca n o tinha ainda sido publicado. Por isso, o leitor encontrar certas repeti es nas exposi es que Weber faz do governo de dignit rios e de democratas, mas ao mesmo tempo o leitor observar a conex o entre as opini es pol ticas de Weber e sua percep o erudita das mudan as seculares. Entretanto, como o pr prio Weber frisa no pref cio, ele n o reivindica autoridade cient fica em suas opini es pol ticas. Al m disso, o leitor n o deve esquecer que o ensaio teve origem em artigos jornal sticos que repetiam os t picos principais com persist ncia propagand stica. "A Pol tica como Voca o" reenceta alguns dos temas de seus escritos do tempo da guerra. realmente a soma de sua perspectiva pol tica; por m, em sua concis o, um trabalho ainda mais ocasional do que seus escritos pol ticos anteriores e, conseq entemente, necessita de explana es mais desenvolvidas e concretas, como o ensaio presente. Nos ltimos anos a pol tica de Weber tem recebido grande aten o. A sele o que se segue til como leitura de fundo para a compreens o de seus escritos pol ticos; tamb m cont m muitas refer ncias a outros assuntos pertinentes.

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parlamento eficiente. verdade que as realiza es pol ticas dos parlamentos alem es s o pass veis de cr tica. Mas o que h de verdade com refer ncia ao Reichstag tamb m v lido para outras institui es pol ticas, s quais esses escritores sempre trataram com grande considera o e freq ente adula o. Se tais diletantes assim se comprazem em atacar o parlamentarismo, parece bastante apropriado examinar sua vis o pol tica sem muita considera o por seus sentimentos. Seria agrad vel travar combate com advers rios imparciais - que sem d vida existem -, mas seria contr rio integridade alem mostrar respeito por certos c rculos pelos quais este autor e muitos outros t m sido freq entemente rotulados "demagogos", "anti-alem es" ou "agentes estrangeiros". Sem d vida, a maioria dos "escritores" em quest o foram ing nuos, mas este talvez o aspecto mais vergonhoso de tais excessos. J foi dito que agora n o a ocasi o para se debaterem quest es de pol tica interna, porque n s estamos ocupados com coisas mais importantes. "N s?" - Quem? Isso deve referir-se aos que ficaram em casa. E o que que deveria mant -los t o ocupados? A a o de invectivar contra os inimigos? As guerras n o s o ganhas dessa maneira. Os soldados no front n o fazem discursos contra o inimigo, e tais insultos, que se avolumam na raz o direta da dist ncia das trincheiras, s o indignos de uma na o orgulhosa. Ou dever amos fazer discursos e tomar resolu es a respeito do que "n s" devemos anexar antes que "n s" possamos concluir a paz? A esse respeito necess rio que se diga, em princ pio, o seguinte: Se o ex rcito, que trava as batalhas alem s, assumisse o ponto de vista de que "o que quer que n s tenhamos conquistado com nosso sangue deve permanecer sob controle alem o", n s, que n o nos ausentamos de casa, ter amos o direito de dizer: "Considerei que, politicamente, essa atitude poderia n o ser prudente". Contudo, se o ex rcito insistisse, n s ter amos que nos calar. Mas se "n s" n o temos escr pulos em envenenar o orgulho dos soldados em suas realiza es bradando-lhes, como j aconteceu antes repetidas vezes: "Se tal e tal objetivo de guerra que idealizamos n o forem atingidos, tereis morrido em v o" - ent o isso me parece simplesmente intoler vel de um ponto de vista puramente humano, e nada mais do que prejudicial vontade de resistir. Em vez disso, seria melhor ficar repetindo apenas uma coisa: que a Alemanha luta pela vida contra um ex rcito no qual africanos gurcas e todos os tipos de outros b rbaros dos mais remotos cantos do mundo est o nas fronteiras prontos para devastar nosso pa s. Isso um fato que todos podem compreender. um fato que teria de merecer unanimidade. Em vez disso, os escritores ocupam-se na elucubra o de v rias "id ias", pelas quais os soldados devem derramar seu sangue e morrer. N o acredito que esses atos v os tenham facilitado ao m nimo o cumprimento do dif cil dever por

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nossos soldados; esses atos v os sem d vida prejudicavam grandemente as possibilidades de uma discuss o pol tica objetiva. Parece-me que nossa tarefa primordial em casa consiste em tornar poss vel para os soldados que regressam a reconstru o da Alemanha que eles salvaram - com o voto em suas m os e atrav s de seus representantes eleitos. Assim precisamos eliminar os obst culos levantados pelas condi es atuais, a fim de que os soldados possam dar in cio reconstru o logo ap s o t rmino da guerra, em vez de ter de se envolver em controv rsias est reis. Nenhum sofisma pode esconder o fato de que o sufr gio imparcial e o governo parlamentar s o o nico meio para esse objetivo. Insincera e sem-vergonha a queixa de se estar considerando uma reforma - "sem que os soldados fossem consultados" - quando, de fato, s a reforma lhes daria a oportunidade de participarem decisivamente de assuntos pol ticos. Diz-se, al m disso, que toda cr tica nossa forma de governo proporcionaria muni o a nossos inimigos. Durante vinte anos esse argumento foi usado para nos fazer calar. Agora muito tarde. Que podemos agora perder fora do pa s com essa cr tica? Os inimigos podem se parabenizar se os antigos danos persistirem. Especialmente agora, que a grande guerra atingiu o est gio em que a diplomacia come a a entrar em a o novamente, chegada a hora de fazer tudo para impedir a repeti o dos velhos erros. Por enquanto as perspectivas s o infelizmente muito limitadas. Mas os inimigos sabem, ou vir o a saber, que a democracia alem n o pode concluir uma paz desfavor vel se pretende ter algum futuro. O indiv duo cujas cren as supremas colocam toda forma de governo autorit rio acima de todos os interesses pol ticos da na o pode defender essas suas id ias. N o poss vel discutir com ele. Contudo, n o nos venha com conversa v sobre o contraste entre as concep es de Estado da "Europa Ocidental" e "da Alemanha". Estamos lidando aqui com simples quest es de t cnicas (constitucionais) para a formula o de pol ticas nacionais. Para um Estado de massas existe apenas um n mero limitado de alternativas. Para um pol tico racional a forma de governo adequada, em qualquer poca, uma quest o objetiva que depende das tarefas pol ticas da na o. meramente uma falta de f nas potencialidades da Alemanha quando afirmam que a germanicidade estaria sendo posta em risco se compartilh ssemos t cnicas e institui es teis de governo com outros povos. Mais ainda, o parlamentarismo nunca foi estranho hist ria alem , e nenhum dos sistemas contrastantes, caracter stico da Alemanha somente. Circunst ncias plenamente obrigat rias e objetivas far o com que um Estado alem o com governo parlamentarista seja diferente de qualquer outro. N o seria uma pol tica equilibrada, mas sim ao estilo dos literatos se essa quest o fosse transformada num objeto de vaidade nacional. N o sabemos hoje se uma reconstru o parlamentar positiva ocorrer na Alemanha. Tal re25

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constru o poder ser frustrada pela direita ou ser impedida pela esquerda. Essa ltima hip tese tamb m poss vel. Os interesses vitais da na o colocam-se, claro, acima da democracia e do parlamentarismo. Mas se o parlamento fracassasse e o velho sistema voltasse, isso teria sem d vida conseq ncias de longo alcance. Mesmo ent o poder-se-ia dar gra as ao destino por sermos alem es. Mas ter-se-ia que abandonar para sempre quaisquer grandes esperan as pelo futuro da Alemanha, independente do tipo de paz que ter amos. O autor, que votou pelo partido conservador h quase tr s d cadas e mais tarde votou pelo partido democr tico, e foi ent o convidado a escrever para o Kreuzzeitung e escreve agora para jornais liberais, n o pol tico ativo e nem pretende s -lo. A t tulo de precau o, deve-se aduzir que ele n o tem liga es de natureza alguma com nenhum importante pol tico alem o. Tem boas raz es para crer que nenhum partido, nem mesmo a esquerda, se identificar com o que ele tem a dizer. Isso se aplica particularmente ao que lhe mais importante pessoalmente (se . IV, abaixo), e esse um assunto sobre o qual os partidos n o t m opini es divergentes. O autor optou por suas opini es pol ticas porque os acontecimentos das ltimas d cadas h muito o convenceram de que toda pol tica alem , independente de seus objetivos, est condenada ao fracasso, em vista da estrutura constitucional e da natureza de nossa m quina pol tica, e de que essa situa o perdurar se as condi es n o mudarem. Mais ainda, ele considera muito improv vel que sempre existir o l deres militares, ao pre o de enormes sacrif cios de vidas. Mudan as t cnicas na forma de governo por si mesmas n o fazem uma na o vigorosa, ou feliz, ou valiosa. Elas podem somente eliminar obst culos t cnicos e s o, assim, meramente um meio para determinado fim. lament vel talvez que tais assuntos burgueses e prosaicos, que aqui discutiremos com deliberada autolimita o e com exclus o de todas as grandes quest es culturais essenciais que se nos defrontem, possam ser de fato importantes. Mas assim s o as coisas. Tem sido provado pelos acontecimentos importantes e triviais: pela evolu o pol tica das d cadas recentes, mas tamb m muito recentemente pelo malogro total da lideran a pol tica na pessoa de um burocrata excepcionalmente capaz e decente (Georg Michaelis) - foi uma esp cie de teste para a an lise apresentada pouco antes do acontecimento nos artigos aqui republicados.1

1 As se es I a III tinham sido originalmente publicadas no Frankfurter Zeitung de 27 de maio, 5 e 6 de junho e 24 de junho de 1917, sob o t tulo "Parlamentarismo Alem o no Passado e no Futuro". Conforme a bibliografia em Max Weber - Werk und Person organizada por Edward Baumgarten (T bingen: Mohr, 1964), 711: tamb m a introdu o de Winckelmann a GPS, 2 ed., XXXV. Sobre a queda do Chanceler Bethmann-Hollweg a 14 de julho de 1917 e o breve mandato do Chanceler Michaelis (at 30 de outubro de 1917), ver notas 27 e 29, abaixo.

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Quem quer que n o esteja convencido por esses acontecimentos n o se satisfar com nenhuma prova. Em quest es de t cnica de Estado, o pol tico conta com as gera es vindouras. Mas este presente trabalho, ocasional, pretende simplesmente contribuir para o debate de quest es contempor neas. A longa demora at chegar a esta publica o, ali s sugerida por amigos que pensam como o autor, deve-se a outras preocupa es, e tamb m, desde novembro, s costumeiras dificuldades t cnicas do impressor.

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I O LEGADO

DE

BISMARCK

A atual condi o de nossa vida parlamentar um legado da longa domina o do pr ncipe Bismarck e da atitude da na o para com ele desde a ltima d cada de seu cargo de chanceler. Essa atitude n o tem paralelo no posicionamento de nenhum outro grande povo com respeito a um estadista de tal envergadura. Em nenhuma outra parte do mundo, mesmo a mais desenfreada admira o pela personalidade de um pol tico conseguiu fazer uma na o orgulhosa sacrificar suas convic es essenciais t o completamente. Por outro lado, uma oposi o objetiva mui raramente provocou dio t o grande contra um estadista de t o gigantescas dimens es como a que na ocasi o irrompeu contra Bismarck no seio da extrema esquerda e no partido (cat lico) de centro. Quais as raz es? Acontecimentos memor veis tais como os de 1866 e de 1870, como ocorre freq entemente, tiveram seu maior impacto na gera o para a qual as guerras vitoriosas constitu ram indel vel experi ncia de sua juventude, mas essa gera o n o tinha uma n tida compreens o das graves tens es internas do pa s que acompanhavam essas guerras. Bismarck s se transformou numa lenda quando essa gera o se tornou adulta. A gera o de escritores pol ticos que ingressaram na vida p blica a partir de 1878 dividiu-se em dois segmentos desiguais. O grupo maior admirava n o a grandeza do intelecto sofisticado e imponente de Bismarck, mas exclusivamente a mescla de viol ncia e ast cia, a brutalidade aparente ou real de sua atividade pol tica. O outro grupo reagiu a isso com d bil ressentimento e desapareceu rapidamente ap s a morte do chanceler. Assim, o primeiro tem sido cultivado mais e mais. H j bastante tempo que essa atitude dominante vem moldando n o apenas a lenda hist rica de pol ticos conservadores, mas tamb m a dos escritores genuinamente entusi sticos e, claro, a daqueles plebeus intelectuais que, imitando os gestos de Bismarck, buscam legiti29

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mar-se como se partilhassem de seu esp rito. Sabemos que Bismarck tinha o maior dos desprezos por esse grupo muito influente, ainda que n o fosse contr rio a tirar proveitos pol ticos desses cortes os, como o fez com o Sr. Busch e sua laia. !1 margem de um memorando que hoje chamar amos de Pangerm nico (alldeutsch), ele certa vez anotou: "Bomb stico no conte do e pueril na forma". Referiam-se essas observa es a um manuscrito que ele havia solicitado como amostra de um homem que diferia dos representantes de hoje deste tipo por ter servido na o corajosamente, n o apenas declamando palavras. O que Bismarck pensava de seus pares conservadores ele anotava em suas mem rias. Bismarck tinha raz es de sobra para ter seus pares em t o baixa estima. Pois que foi que lhe aconteceu quando foi for ado a afastar-se do poder em 1890? Honestamente, n o podia esperar simpatia do Partido do Centro, ao qual tinha tentado ligar o assassino Kullmann; dos !2 sociais-democratas, a quem ele tinha perseguido com o par grafo de banimento (local) da legisla o anti-socialista; dos progressistas (Freisinnige), a quem ele estigmatizara como "inimigos do Reich". Mas os outros, que tinham aplaudido esses atos estrondosamente, que fizeram? Lacaios conservadores ocupavam as cadeiras dos ministros prussianos e eram membros dos minist rios federais. Que fizeram? Aguardaram os acontecimentos. "Simplesmente um novo superior" - foi esse o fim da quest o. Pol ticos conservadores sentavam-se nas cadeiras presidenciais dos parlamentos do Imp rio e da Pr ssia. Que palavras de simpatia ofereceram ao criador do Reich demission rio? N o pronunciaram uma palavra. Qual dos grandes partidos de seus seguidores exigiu alguma explica o das raz es de sua exonera o? Nem sequer se moveram, simplesmente voltaram-se para o novo sol. Esse acontecimento n o tem paralelo nos anais de nenhum outro povo orgulhoso. Mas o desprezo que esse acontecimento merece s pode ser real ado por aquele entu1 Moritz Busch (1821-1899) f

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Esdras
12/01/2010

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