Vers o para Acrobat eBookReader por Marcelo C. Barb o
Julho de 2001 Permitida a distribui o Visite nosso site: www.ciberfil.org ou mande-nos um e-mail: editor@ciberfil.org
2
Os conceitos da vida e do mundo que chamamos "filos ficos" s o produto de dois fatores: um, constitu do de fatores religiosos e ticos herdados; o outro, pela esp cie de investiga o que podemos denominar "cient fica", empregando a palavra em seu sentido mais amplo. Os fil sofos, individualmente, t m diferido amplamente quanto s propor es em que esses dois fatores entraram em seu sistema, mas a presen a de ambos que, em certo grau, caracteriza a filosofia. "Filosofia" uma palavra que tem sido empregada de v rias maneiras, umas mais amplas, outras mais restritas. Pretendo empreg -la em seu sentido mais amplo, como procurarei explicar adiante. A filosofia, conforme entendo a palavra, algo intermedi rio entre a teologia e a ci ncia. Como a teologia, consiste de especula es sobre assuntos a que o conhecimento exato n o conseguiu at agora chegar, mas, como ci ncia, apela mais raz o humana do que autoridade, seja esta a da tradi o ou a da revela o. Todo conhecimento definido - eu o afirmaria - pertence ci ncia; e todo dogma quanto ao que ultrapassa o conhecimento definido, pertence teologia. Mas entre a teologia e a ci ncia existe uma Terra de Ningu m, exposta aos ataques de ambos os campos: essa Terra de Ningu m a filosofia. Quase todas as quest es do m ximo interesse para os esp ritos especulativos s o de tal ndole que a ci ncia n o as pode responder, e as respostas confiantes dos te logos j n o nos parecem t o convincentes como o eram nos s culos
3
passados. Acha-se o mundo dividido em esp rito e mat ria? E, supondo-se que assim seja, que esp rito e que mat ria? Acha-se o esp rito sujeito mat ria, ou ele dotado de for as independentes? Possui o universo alguma unidade ou prop sito? Est ele evoluindo rumo a alguma finalidade? Existem realmente leis da natureza, ou acreditamos nelas devido unicamente ao nosso amor inato pela ordem? o homem o que ele parece ser ao astr nomo, isto , um min sculo conjunto de carbono e gua a rastejar, impotentemente, sobre um pequeno planeta sem import ncia? Ou ele o que parece ser a Hamlet? Acaso ele, ao mesmo tempo, ambas as coisas? Existe uma maneira de viver que seja nobre e uma outra que seja baixa, ou todas as maneiras de viver s o simplesmente in teis? Se h um modo de vida nobre, em que consiste ele, e de que maneira realiz -lo? Deve o bem ser eterno, para merecer o valor que lhe atribu mos, ou vale a pena procur -lo, mesmo que o universo se mova, inexoravelmente, para a morte? Existe a sabedoria, ou aquilo que nos parece tal n o passa do ltimo refinamento da loucura Tais quest es n o encontram resposta no laborat rio. As teologias t m pretendido dar respostas, todas elas demasiado concludentes, mas a sua pr pria seguran a faz com que o esp rito moderno as encare com suspeita. 0 estudo de tais quest es, mesmo que n o se resolva esses problemas, constitui o empenho da filosofia. Mas por que, ent o, - poder eis perguntar - perder tempo com problemas t o insol veis? A isto, poder-se-ia responder como historiador ou como indiv duo que enfrenta o terror da solid o c smica. A resposta do historiador, tanto quanto me poss vel d -la, aparecer no decurso desta obra. Desde que o homem se tornou capaz de livre especula o, suas a es, em muitos aspectos importantes, t m dependido de teorias relativas ao mundo e vi a humana, relativas ao bem e ao mal. Isto t o verdadeiro em nossos dias como em qualquer poca anterior. Para compreender uma poca ou uma na o, devemos compreender sua filosofia e, para que compreendamos sua filosofia, temos de ser, at certo ponto, fil sofos. H uma rela o causal rec proca. As circunst ncias das vidas humanas contribuem muito para determinar a sua filosofia, mas, in4
versamente, sua filosofia muito contribui para determinar tais circunst ncias. Essa a o m tua, atrav s dos s culos, ser o tema das p ginas seguintes. H , todavia, uma resposta mais pessoal. A ci ncia diz-nos o que podemos saber, mas o que podemos saber muito pouco e, se esquecemos quanto nos imposs vel saber, tornamo-nos insens veis a muitas coisas sumamente importantes. A teologia, por outro lado, nos induz cren a dogm tica de que temos conhecimento de coisas que, na realidade, ignoramos e, por isso, gera uma esp cie de insol ncia impertinente com respeito ao universo. A incerteza, na presen a de grandes esperan as e receios, dolorosa, mas temos de suport -la, se quisermos viver sem o apoio de confortadores contos de fadas, N o devemos tamb m esquecer as quest es suscitadas pela filosofia, ou persuadir-nos de que encontramos, para as mesmas, respostas indubit veis. Ensinar a viver sem essa seguran a e sem que se fique, n o obstante, paralisado pela hesita o, talvez a coisa principal que a filosofia, em nossa poca, pode proporcionar queles que a estudam. A filosofia, ao contr rio do que ocorreu com a teologia , surgiu, na Gr cia, no s culo VI antes de Cristo. Depois de seguir o seu curso na antig idade, foi de novo submersa pela teologia quando surgiu o Cristianismo e Roma se desmoronou. Seu segundo per odo importante, do s culo YI ao s culo XIV, foi dominado pela Igreja Cat lica, com exce o de alguns poucos e grandes rebeldes, como, por exemplo, o imperador Frederico II (1195-1250). Este per odo terminou com as perturba es que culminaram na Reforma. O terceiro per odo, desde o s culo XVII at hoje, dominado, mais do que os per odos que o precederam, pela ci ncia. As cren as religiosas tradicionais mant m sua import ncia, mas se sente a necessidade de que sejam justificadas, sendo modificadas sempre que a ci ncia torna imperativo tal passo. Poucos fil sofos deste per odo s o ortodoxos do ponto de vista cat lico, e o Estado secular adquire mais import ncia em suas especula es do que a Igreja. A coes o social e a liberdade individual, como a religi o e a ci ncia, acham-se num estado de conflito ou dif cil compromisso
5
durante todo este per odo. Na Gr cia, a coes o social era assegurada pela lealdade ao Estado-Cidade; o pr prio Arist teles, embora, em sua poca, Alexandre estivesse tornando obsoleto o EstadoCidade, n o conseguia ver m rito algum em qualquer outro tipo de comunidade. Variava grandemente o grau em que a liberdade individual cedia ante seus deveres para com a Cidade. Em Esparta, o indiv duo tinha t o pouca liberdade como na Alemanha ou na R ssia modernas; em Atenas, apesar de persegui es ocasionais, os cidad os desfrutaram, em seu melhor per odo, de extraordin ria liberdade quanto a restri es impostas pelo Estado. 0 pensamento grego, at Arist teles, dominado por uma devo o religiosa e patri tica Cidade; seus sistemas ticos s o adaptados s vidas dos cidad os e cont m grande elemento pol tico. Quando os gregos se submeteram, primeiro aos maced nios e, depois, aos romanos, as concep es v lidas em seus dias de independ ncia n o eram mais aplic veis. Isto produziu, por um lado, uma perda de vigor, devido ao rompimento com as tradi es e, por outro lado, uma tica mais individual e menos social. Os est icos consideravam a vida virtuosa mais como uma rela o da alma com Deus do que como uma rela o do cidad o com o Estado. Prepararam, dessa forma, o caminho para o Cristianismo, que, como o estoicismo, era, originalmente, apol tico, j que, durante os seus tr s primeiros s culos, seus adeptos n o tinham influ ncia no governo. A coes o social, durante os seis s culos e meio que v o de Alexandre a Constantino, foi assegurada, n o pela filosofia nem pelas antigas fidelidades, mas pela for a - primeiro a for a dos ex rcitos e, depois, a da administra o civil. Os ex rcitos romanos, as estradas romanas, a lei romana e os funcion rios romanos, primeiro criaram e depois preservaram um poderoso Estado centralizado. Nada se pode atribuir filosofia romana, j que esta n o existia. Durante esse longo per odo, as id ias gregas herdadas da poca da liberdade sofreram um processo gradual de transforma o. Algumas das velhas id ias, principalmente aquelas que dever amos encarar como especificamente religiosas, adquiriram uma import ncia relativa; outras, mais racionalistas, foram abandonadas, pois
6
n o mais se ajustavam ao esp rito da poca. Desse modo, os pag os posteriores foram se adaptando tradi o grega, at esta poder incorporar-se na doutrina crist . O Cristianismo popularizou uma id ia importante, j impl cita nos ensinamentos dos est icos, mas estranha ao esp rito geral da antig idade, isto , a id ia de que o dever do homem para com Deus mais imperativo do que o seu dever para com o Estado.l A opini o de que "devemos obedecer mais a Deus que ao homem", como S crates e os Ap stolos afirmavam, sobreviveu convers o de Constantino, porque os primeiros crist os eram arianos ou se sentiam inclinados para o arianismo. Quando os imperadores se tornaram ortodoxos, foi ela suspensa temporariamente. Durante o Imp rio Bizantino, permaneceu latente, bem como no Imp rio Russo subseq ente,o qual derivou do Cristianismo de Constantinopla. 2 Mas no Ocidente, onde os imperadores cat licos foram quase imediatamente substitu dos ( exceto em certas partes da G lia ) por conquistadores b rbaros her ticos, a superioridade da lealdade religiosa sobre a lealdade pol tica sobreviveu e, at certo ponto, persiste ainda hoje. A invas o dos b rbaros p s fim, por espa o de seis s culos, civiliza o da Europa Ocidental. Subsistiu, na Irlanda, at que os dinamarqueses a destru ram no s culo IX. Antes de sua extin o produziu, l , uma figura not vel, Scotus Erigena. No Imp rio Oriental, a civiliza o grega sobreviveu, em forma dissecada, como num museu, at queda de Constantinopla, em 1453, mas nada que fosse de import ncia para o mundo saiu de Constantinopla, exceto uma tradi o art stica e os C digos de Direito Romano de Justiniano. Durante o per odo de obscuridade, desde o fim do s culo V at a metade do s culo XI, o mundo romano ocidental sofreu algumas transforma es interessantes. O conflito entre o dever para com Deus e o dever para com o Estado, introduzido pelo Cristianismo, adquiriu o car ter de um conflito entre a Igreja e o rei. A jurisdi o eclesi stica do Papa estendia-se sobre a It lia, Fran a, Espanha, Gr -Bretanha e Irlanda, Alemanha, Escandin via e
7
Pol nia. A princ pio, fora da It lia e do sul da Fran a foi muito leve o seu controle sobre bispos e abades, mas, desde o tempo de Greg rio VII ( fins do s culo XI ), tornou-se real e efetivo. Desde ent o o clero, em toda a Europa Ocidental, formou uma nica organiza o, dirigida por Roma, que procurava o poder inteligente e incansavelmente e, em geral, vitoriosamente, at depois do ano 1300, em seus conflitos com os governantes seculares. O conflito entre a Igreja e o Estado n o foi apenas um conflito entre o clero e os leigos; foi, tamb m, uma renova o da luta entre o mundo mediterr neo e os b rbaros do norte. A unidade da Igreja era um reflexo da unidade do Imp rio Romano; sua liturgia era latina, e os seus homens mais proeminentes eram, em sua maior parte, italianos, espanh is ou franceses do sul. Sua educa o, quando esta renasceu, foi cl ssica; suas concep es da lei e do governo teriam sido mais compreens veis para Marco Aur lio do que para os monarcas contempor neos. A Igreja representava, ao mesmo tempo, continuidade com o passado e com o que havia de mais civilizado no presente. O poder secular, ao contr rio, estava nas m os de reis e bar es de origem teut nica, os quais procuravam preservar, o m ximo poss vel, as institui es que haviam trazido as florestas da Alemanha. O poder absoluto era alheio a essas institui es, como tamb m era estranho, a esses vigorosos conquistadores, tudo aquilo que tivesse apar ncia de uma legalidade mon tona e sem esp rito. O rei tinha de compartilhar seu poder com a aristocracia feudal, mas todos esperavam, do mesmo modo, que lhes fosse permitido, de vez em quando, uma explos o ocasional de suas paix es em forma de guerra, assass nio, pilhagem ou rapto. poss vel que os monarcas se arrependessem, pois eram sinceramente piedosos e, afinal de contas, o arrependimento era em si mesmo uma forma de paix o. A Igreja, por m, jamais conseguiu produzir neles a tranq ila regularidade de uma boa conduta, como a que o empregador moderno exige e, s vezes, consegue obter de seus empregados. De que lhes valia conquistar o mundo, se n o podiam beber, assassinar e amar como o esp rito lhes exigia? E por que deveriam eles,
8
com seus ex rcitos de altivos, submeter-se s ordens de homens letrados, dedicados ao celibato e destitu dos de for as armadas? Apesar da desaprova o eclesi stica, conservaram o duelo e a decis o das disputas por meio das armas, e os torneios e o amor cortes o floresceram. s vezes, num acesso de raiva, chegavam a matar mesmo eclesi sticos eminentes. Toda a for a armada estava do lado dos reis, mas, n o obstante, a Igreja saiu vitoriosa. A Igreja ganhou a batalha, em parte, porque tinha quase todo o monop lio do ensino e, em parte, porque os reis viviam constantemente em guerra. uns com os outros; mas ganhoua, principalmente, porque, com muito poucas exce es, tanto os governantes como povo acreditavam sinceramente que a Igreja possu a as chaves do c u. A Igreja podia decidir se um rei devia passar a eternidade no c u ou no inferno; a Igreja podia absolver os s ditos do dever de fidelidade e, assim, estimular a rebeli o. Al m disso, a Igreja representava a ordem em lugar da anarquia e, por conseguinte, conquistou o apoio da classe mercantil que surgia. Na It lia, principalmente, esta ltima considera o foi decisiva. A tentativa teut nica .de preservar pelo menos uma independ ncia. parcial da Igreja manifestou-se n o apenas na pol tica, mas, tamb m, na arte, no romance, no cavalheirismo e na guerra. Manifestou-se muito pouco no mundo intelectual, pois o ensino se achava quase inteiramente nas m os do clero. A filosofia expl cita da Idade M dia n o um espelho exato da poca, mas apenas do pensamento de um grupo. Entre os eclesi sticos, por m - principalmente entre os frades franciscanos - havia alguns que, por v rias raz es, estavam em desacordo com o Papa. Na It lia, ademais, a cultura estendeu-se aos leigos alguns s culos antes de se estender at ao norte dos Alpes. Frederico II, que procurou fundar uma nova religi o, representa o extremo da cultura antipapista; Tom s de Aquino, que nasceu no reino de N poles, onde o poder de Frederico era supremo, continua sendo at hoje o expoente cl ssico da filosofia papal. Dante, cerca de cinq enta anos mais tarde, conseguiu chegar a uma s ntese, oferecendo a nica exposi o equilibrada de todo o mundo ideol gico medieval.
9
Depois de Dante, tanto por motivos pol ticos como intelectuais, a s ntese filos fica medieval se desmoronou. Teve ela, enquanto durou, uma qualidade de ordem e perfei o de miniatura: qualquer coisa de que esse sistema se ocupasse, era colocada com precis o em rela o com o que constitu a o seu cosmo bastante limitado. Mas o Grande Cisma, o movimento dos Conc lios e o papado da renascen a produziram a Reforma, que destruiu a unidade do Cristianismo e a teoria escol stica de governo que girava em torno do Papa. N o per odo da Renascen a, o novo conhecimento, tanto da antig idade como da superf cie da terra, fez com que os homens se cansassem de sistemas, que passaram a ser considerados como pris es mentais. A astronomia de Cop rnico atribuiu terra e ao homem uma posi o mais humilde do que aquela que haviam desfrutado na teoria de Ptolomeu. O prazer pelos f atos recentes tomou o lugar, entre os homens inteligentes, do prazer de raciocinar, analisar e construir sistemas. Embora a Renascen a, na arte, conserve ainda uma determinada ordem, prefere, quanto ao que diz respeito ao pensamento, uma ampla e fecunda desordem. Neste sentido, Montaigne o mais t pico expoente da poca. Tanto na teoria pol tica como em tudo o mais, exceto a arte, a ordem sofre um colapso. A Idade M dia, embora praticamente turbulenta, era dominada, em sua ideologia, pelo amor da legalidade e por uma teoria muito precisa do poder pol tico. Todo poder procede, em ltima an lise, de Deus; Ele delegou poder ao Papa nos assuntos sagrados, e ao Imperador nos assuntos seculares. Mas tanto o Papa como o Imperador perderam sua import ncia durante o s culo XV. O Papa tornou-se simplesmente um dos pr ncipes italianos, empenhado no jogo incrivelmente complicado e inescrupuloso do poder pol tico italiano. As novas monarquias nacionais na Fran a, Espanha e Inglaterra tinham, em seus pr prios territ rios, um poder no qual nem o Papa nem o Imperador podiam interferir. O Estado nacional, devido, em grande parte, p lvora, adquiriu uma influ ncia sobre o pensamento e o modo de sentir dos homens, como jamais exercera antes - influ ncia essa que, progressivamente, destruiu o que restava da cren a romana quanto
10
unidade da civiliza o. Essa desordem pol tica encontrou sua express o no Pr ncipe, de Maquiavel. Na aus ncia de qualquer princ pio diretivo, a pol tica se transformou em spera luta pelo poder. O Pr ncipe d conselhos astutos quanto maneira de se participar com xito desse jogo. O que j havia acontecido na idade de ouro da Gr cia, ocorreu de novo na It lia renascentista: os freios morais tradicionais desapareceram, pois eram considerados como coisa ligada supersti o; a liberta o dos grilh es tornou os indiv duos en rgicos e criadores, produzindo um raro florescimento do g nio mas a anarquia e a trai o resultantes, inevitavelmente, da decad ncia da moral, tornou os italianos coletivamente impotentes, e ca ram, como os gregos, sob o dom nio de na es menos civilizadas do que eles, mas n o t o destitu das - de coes o social. Todavia, o resultado foi menos desastroso do que no caso da Gr cia, pois as na es que tinham acabado de chegar ao poder, com exce o da Espanha, se mostravam capazes de t o grandes realiza es como o havia sido a It lia. Do s culo XVI em diante, a hist ria do pensamento europeu dominada pela Reforma. A Reforma foi um movimento complexo, multiforme, e seu xito se deve a numerosas causas. De um modo geral, foi uma revolta das na es do norte contra o renovado dom nio de Roma. A religi o fora a for a que subjugara o Norte, mas a religi o, na It lia, deca ra: o papado permanecia como uma institui o, extraindo grandes tributos da Alemanha e da Inglaterra, mas estas na es, que eram ainda piedosas, n o podiam sentir rever ncia alguma para com os B rgias e os M dicis, que pretendiam salvar as almas do purgat rio em troca de dinheiro, que esbanjavam no luxo e na imoralidade. Motivos nacionais motivos econ micos e motivos, religiosos conjugaram-se para fortalecer a revolta contra Roma. Al m disso, os pr ncipes logo perceberam que, se a Igreja se tornasse, em seus territ rios, simplesmente nacional, eles seriam capazes de domin -la, tornando-se, assim, muito mais poderosos, em seus pa ses, do que jamais o haviam sido compartilhando o seu dom nio com o Papa. Por todas essas raz es, as
11
inova es teol gicas de Lutero foram bem recebidas, tanto pelos governantes como pelo povo, na maior parte da Europa Setentrional. A Igreja Cat lica procedia de tr s fontes. Sua hist ria sagrada era judaica; sua teologia, grega, e seu governo e leis can nicas, ao menos indiretamente, romanos. A Reforma rejeitou os elementos romanos, atenuou os elementos gregos e fortaleceu grandemente os elementos judaicos. Cooperou, assim, com as for as nacionalistas que estavam desfazendo a obra de coes o nacional que tinha sido levada a cabo primeiro pelo Imp rio Romano e, depois, pela Igreja Romana. Na doutrina cat lica, a revela o divina n o terminava na sagrada escritura, mas continuava, de era em era, atrav s da Igreja, qual, pois, era dever do indiv duo submeter suas opini es pessoais. Os protestantes, ao contr rio, rejeitaram a Igreja como ve culo da revela o divina; a verdade devia ser procurada unicamente na B blia, que cada qual podia interpretar sua maneira. Se os homens diferissem em sua interpreta o, n o havia nenhuma autoridade designada pela divindade que resolvesse tais diverg ncias. Na pr tica, o Estado reivindicava o direito que pertencera antes Igreja - mas isso era uma usurpa o. Na teoria protestante, n o devia haver nenhum intermedi rio terreno entre a alma e Deus. Os efeitos dessa mudan a foram importantes. A verdade n o mais era estabelecida mediante consulta autoridade, mas por meio da medita o ntima. Desenvolveu-se, rapidamente, uma tend ncia para o anarquismo na pol tica e misticismo na religi o, o que sempre fora dif cil de se ajustar estrutura da ortodoxia cat lica. Aconteceu que, em lugar de um nico Protestantismo, surgiram numerosas seitas; nenhuma filosofia se opunha escol stica, mas havia tantas filosofias quantos eram os fil sofos. N o havia, no s culo XIII, nenhum Imperador que se opusesse ao Papa, mas sim um grande n mero de reis her ticos. O resultado disso, tanto no pensamento como na literatura, foi um subjetivismo cada vez mais profundo, agindo primeiro como uma liberta o saud vel da escravid o espiritual mas caminhando, depois, constantemente, para um isolamento pessoal, contr rio solidez social.
12
A filosofia moderna come a com Descartes, cuja certeza fundamental a exist ncia de si mesmo e de seus pensamentos, dos quais o mundo exterior deve ser inferido. Isso constitui apenas a primeira fase de um desenvolvimento que, passando por Berkeley e Kant, chega a Fichte, para quem tudo era apenas uma emana o do eu. Isso era uma loucura, e, partindo desse extremo, a filosofia tem procurado, desde ent o, evadir-se para o mundo do senso comum cotidiano. Com o subjetivismo na filosofia, o anarquismo anda de m os dadas com a pol tica. J no tempo de Lutero, disc pulos inoportunos e n o reconhecidos haviam desenvolvido a doutrina do anabatismo, a qual, durante algum tempo, dominou a cidade de W nster. Os anabatistas repudiavam toda lei, pois afirmavam que o homem bom seria guiado, em todos os momentos, pelo Esp rito Santo, que n o pode ser preso a f rmulas. Partindo dessas premissas, chegam ao comunismo e promiscuidade sexual. Foram, pois, exterminados, ap s uma resist ncia her ica. Mas sua doutrina, em formas mais atenuadas, se estendem pela Holanda, Inglaterra e Estados Unidos; historicamente, a origem do "quakerismo". Uma forma mais feroz de anarquismo, n o mais relacionada Com a religi o, surgiu no s culo XIX. Na R ssia, Espanha e, em menor grau, na It lia, obteve consider vel xito, constituindo, at hoje, um pesadelo para as autoridades americanas de imigra o. Esta vers o moderna, embora anti-religiosa, encerra ainda muito do esp rito do protestantismo primitivo; difere principalmente dele devido ao fato de dirigir contra os governos seculares a hostilidade que Lutero dirigia contra os Papas. A subjetividade, uma vez desencadeada, j n o podia circunscrevem-se aos seus limites, at que tivesse seguido seu curso. Na moral, a atitude enf tica dos protestantes, quanto consci ncia individual, era essencialmente an rquica. O h bito e o costume eram t o fortes que, exceto em algumas manifesta es ocasionais, como, por exemplo, a de M nster, os disc pulos do individualismo na tica continuaram a agir de maneira convencionalmente virtuosa. Mas era um equil brio prec rio. O culto do s culo XVIII "sensibilida13
de" come ou a romper esse equil brio: um ato era admirado n o pelas suas boas conseq ncias, ou porque estivesse de acordo com um c digo moral, mas devido emo o que o inspirava. Dessa atitude nasceu o culto do her i, tal como foi manifestado por Carlyle e Nietzsche, bem como o culto byroniano da paix o violenta, qualquer que esta seja. O movimento rom ntico, na arte, na literatura e na pol tica, est ligado a essa maneira subjetiva de julgar-se os homens, n o como membros de uma comunidade, mas como objetos de contempla o esteticamente encantadores. Os tigres s o mais belos do que as ovelhas, mas preferimos que estejam atr s de grades. O rom ntico t pico remove as grades e delicia-se com os saltos magn ficos com que o tigre aniquila as ovelhas. Incita os homens a imaginar que s o tigres e, quando o consegue, os resultados n o s o inteiramente agrad veis. Contra as formas mais loucas do subjetivismo nos tempos modernos tem havido v rias rea es. Primeiro, uma filosofia de semicompromisso, a doutrina do liberalismo, que procurou delimitar as esferas relativas ao governo e ao indiv duo. Isso come a, em sua forma moderna, com Locke, que t o contr rio ao "entusiasmo" - o individualismo dos anabatistas como autoridade absoluta e cega subservi ncia tradi o. Uma rebeli o mais extensa conduz doutrina do culto do Estado, que atribui ao Estado a posi o que o Catolicismo atribu a Igreja, ou mesmo, s vezes, a Deus. Hobbes, Rousseau e Hegel representam fases distintas desta teoria, e suas doutrinas se acham encarnadas, praticamente, em Cromwell, Napole o e na Alemanha moderna. O comunismo, na teoria, est muito longe dessas filosofias, mas conduzido, na pr tica, a um tipo de comunidade bastante semelhante quela e que resulta a adora o do Estado. Durante todo o transcurso deste longo desenvolvimento, desde 600 anos antes de Cristo at aos nossos dias, os fil sofos t m-se dividido entre aqueles que querem estreitar os la os sociais e aqueles que desejam afroux -los. A esta diferen a, acham-se associadas outras. Os partid rios da disciplina advogaram este ou aquele
14
sistema dogm tico, velho ou novo, chegando, portanto a ser, em menor ou maior grau, hostis ci ncia, j que seus dogmas n o podiam ser provados empiricamente. Ensinavam, quase invariavelmente, que a felicidade n o constitui o bem, mas que a "nobreza" ou o "hero smo" devem ser a ela preferidos. Demonstravam simpatia pelo que havia de irracional na natureza humana, pois acreditavam que a raz o inimiga da coes o social. Os partid rios da liberdade, por outro lado, com exce o dos anarquistas extremados, procuravam ser cient ficos, utilitaristas, racionalistas, contr rios paix o violenta, e inimigos de todas as formas mais profundas de religi o. este conflito existiu, na Gr cia, antes do aparecimento do que chamamos filosofia, revelando-se j , bastante claramente, no mais antigo pensamento grego. Sob formas diversas, persistiu at aos nossos dias, e continuar , sem d vida, a existir durante muitas das eras vindouras. claro que cada um dos participantes desta disputa como em tudo que persiste durante longo tempo - tem a sua parte de raz o e a sua parte de equ voco. A coes o social uma necessidade, e a humanidade jamais conseguiu, at agora, impor a coes o mediante argumentos meramente racionais. Toda comunidade est exposta a dois perigos opostos: por um lado, a fossiliza o, devido a uma disciplina exagerada e um respeito excessivo pela tradi o; por outro lado, a dissolu o, a submiss o ante a conquista estrangeira, devido ao desenvolvimento da independ ncia pessoal e do individualismo, que tornam imposs vel a coopera o. Em geral, as civiliza es importantes come am por um sistema r gido e supersticioso que, aos poucos, vai sendo afrouxado, e que conduz, em determinada fase, a um per odo de g nio brilhante, enquanto perdura o que h de bom na tradi o antiga, e n o se desenvolveu ainda o mal inerente sua dissolu o. Mas, quando o mal come a a manifestar-se, conduz anarquia e, da , inevitavelmente, a uma nova tirania, produzindo uma nova s ntese, baseada num novo sistema dogm tico. A doutrina do liberalismo uma tentativa para evitar essa intermin vel oscila o. A ess ncia do liberalismo uma tentativa no sentido de assegurar uma ordem social que n o se baseie
15
no dogma irracional, e assegurar uma estabilidade sem acarretar mais restri es do que as necess rias preserva o da comunidade. Se esta tentativa pode ser bem sucedida, somente o futuro poder demonstr -lo.
16
Notas
1. Essa opini o n o era desconhecida em tempos anteriores: foi exposta, por exemplo, na Ant gona, de S focles. Mas, antes dos est icos, eram poucos os que a mantinham. 2. Eis a porque o russo moderno n o acha que deva obedecer mais ao materialismo dial tico do que a Stalin. In Russell, B. (1977): Hist ria da Filosofia Ocidental, Rio de Janeiro: Cia. Editora Nacional. Opdateret d. 4.2.2001Opdateret d. 4.2.2001
17
Baixar Arquivo
667 visitas | 80 downloads
Auguste Comte, o homem que quis dar ordem ao mundo
Trabalho sobre Auguste Comte com foco em sua Biografia, sua concepção do Positivismo e posterior criação da Religião da Humanidade.
O primeiro ensinamento filosófico é perguntar: O que é o útil? Para que e para quem algo é útil? O que é o inútil? Por que e para quem algo é inútil? O senso comum de nossa sociedade considera útil o que dá prestígio, poder, fama e riqueza. Julga o útil pelos resultados visíveis das coisas e das ações, identificando utilidade e a famosa expressão ?levar vantagem em tudo?. Desse ponto de vista, a Filosofia é inteiramente inútil e defende o di reito de ser inútil. Não poderíamos, porém, definir o útil de outra maneira? Platão definia a Filosofia como um saber verdadeiro que deve ser usado em benefício dos seres humanos. Descartes dizia que a Filosofia é o estudo da sabedoria, conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, a conservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes. Kant afirmou que a Filosofia é o conhecimento que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer e o que pode fazer, tendo como finalidade a felicidade humana. Marx declarou que a Filosofia havia passado muito tempo apenas contemplando o mundo e que se tratava, agora, de conhecê-lo para transformá-lo, transformação que traria justiça, abundância e felicidade para todos. Merleau-Ponty escreveu que a Filosofia é um despertar para ver e mudar nosso mundo. Espinosa afirmou que a Filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade. Qual seria, então, a utilidade da Filosofia? Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.
Livro: Convite à Filosofia - Marilena Chauí
Para quem prefere a versão em PDF. Pertence a ementa oficial do curso de Direito do UniCEUMA. Filosofia Geral. Bons estudos!
LIVRO DIDÁTICO PÚBLICO DE FILOSOFIA
ÓTIMO LIVRO DE FILOSOFIA - SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DO PARANÁ
Aproximações primeiras entre Gaston Bachelard e Filosofia Clínica
Com este artigo visamos encaminhar a articulação entre alguns conceitos da obra de Bachelard, relacionada à epistemologia e à Filosofia Clínica, mais especificamente ao tópico e ao sub-modo Epistemologia. O trabalho encontra-se estruturado em três tópicos, que seguem uma tendência didática. O primeiro trata da conceitualização e apreciação do conceito Epistemologia; o segundo tópico é uma apresentação sucinta de alguns conceitos das obras de Bachelard, já apontando algumas intersecções entre a obra de Bachelard e Filosofia Clínica; o terceiro traz uma tentativa de apresentar algumas das intersecções possíveis no momento da compreensão da vivência Clínica entre alguns conceitos desenvolvidos por Bachelard e a Filosofia Clínica. Por fim, este trabalho surge como aproximações primeiras, sem verdades últimas, e em processo de retificação constante, pois assim nos indica proceder Bachelard e a Filosofia Clínica.
Livro: Filosofia do Direito - Miguel Reale
Pertence a ementa oficial do curso de Direito do UniCEUMA. Filosofia do Direito. - em PDF. Bons estudos!