Richard Dawkins - O Relojoeiro Cego

Richard Dawkins - O Relojoeiro Cego

(Parte 1 de 3)

O Relojoeiro Cego [Richard Dawkins] O Relojoeiro Cego [Richard Dawkins]

A nova física. A biologia. A cosmologia. A genética. As novas tecnologias. O mundo quântico. A geologia e a geografia. Textos rigorosos, mas acessíveis. A divulgação científica de elevada qualidade.

1 - Deus e a Nova Física, Paul Davies 2 - Do Universo ao Homem, Robert Clarke 3 - A Cebola Cósmica, Frank Close 4 - A Aventura Prodigiosa do Nosso Corpo, Jean-Pierre Gasc 5 - Compreender o Nosso Cérebro, Jacques-Michel Robert 6 - Outros Mundos, Paul Davies 7 - O Tear Encantado, Robert Jastrow 8 - O Sonho de Einstein, Barry Parker 9 - O Relojoeiro Cego, Richard Dawkins

Título original: The Blind Watchmaker

(C) Richard Dawkins, 1986

Tradução de Isabel Arez

Capa de Jorge Machado Dias

Todos os direitos reservados para a língua portuguesa por Edições 70, L.da Lisboa

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A meus pais A meus pais

Este livro é escrito com a convicção de que a nossa existência se apresentava, em tempos, como o maior de todos os mistérios, mas que já não o é, porque o mistério foi desvendado. Darwin e Wallace desvendaram-no, embora tenhamos de continuar a acrescentar à sua solução, ainda por algum tempo, notas de pé de página.

Escrevi o livro porque me surpreendia a quantidade de pessoas que pareciam não só desconhecer a solução elegante e bela encontrada para o mais profundo de todos os problemas, mas, inacreditavelmente, em muitos casos, desconhecer de facto que houvesse sequer um problema!

O problema é o da concepção complexa. O computador onde estou a escrever estas palavras tem uma capacidade de armazenagem de informação de cerca de 64 quilobytes (um byte é utilizado para comportar cada carácter de texto). O computador foi conscientemente concebido e deliberadamente fabricado. O cérebro que vos permite entender as minhas palavras é um imenso conjunto de uns dez milhões de quiloneurónios. Muitos destes biliões de células nervosas têm, cada uma, mais de mil fios eléctricos,, que as ligam a outros neurónios. Além disso, ao nível genético molecular, cada uma das mais de um trilião de células do corpo contém cerca de mil vezes mais informação digital codificada com precisão do que todo o meu computador. A complexidade dos organismos vivos é igualada pela eficiência elegante da sua concepção aparente. Se alguém não concordar que esta quantidade de concepção complexa exige uma explicação, desisto. Não, pensando melhor, não desisto, porque um dos meus objectivos ao escrever o livro é transmitir um pouco da pura maravilha da complexidade biológica àqueles que ainda não abriram os olhos para ela. Mas, tendo arquitectado o mistério, o meu objectivo principal é fazê-lo desaparecer outra vez, pela explicação da sua solução.

Explicar é uma arte difícil. Pode explicar-se qualquer coisa de forma que o leitor entenda as palavras; pode também explicar-se qualquer coisa de forma que o leitor a sinta na medula dos ossos. Neste último caso, não é por vezes suficiente expor a evidência de modo desapaixonado. O escritor tem de se tornar advogado e utilizar os truques desta profissão. Este livro não é um tratado científico desapaixonado. Há outros livros sobre o darwinismo que o são e muitos deles, sendo excelentes e instrutivos, devem ser lidos em conjunto com este. Longe de ser desapaixonado, é preciso confessar que algumas partes deste livro estão escritas com uma paixão tal que, num jornal científico da especialidade, poderìa suscitar comentários. É certo que procura informar, mas procura igualmente persuadir e até - podem especificar-se objectivos sem presunção- inspirar. Quero inspirar o leitor com a visão na nossa própria existência como, a julgar pelas aparências, mistério arrepiante; e, simultaneamente, transmitir, na sua plena exaltação, o facto de que se trata de um mistério com uma solução elegante, que se encontra ao nosso alcance. Mais ainda, quero persuadir o leitor, não apenas de que a mundividência darwinista por acaso é verdadeira, mas que é também a única teoria conhecida que poderia, em princípio, desvendar o mistério da nossa existência. Isto torna-a uma teoria duplamente satisfatória. Podem encontrar-se bons argumentos a favor da verdade do darwinismo, não apenas neste planeta, mas em todo o universo, onde quer que a vida possa ser encontrada.

Há um ponto em que peço que me seja permitido distanciar-me dos profissionais da advocacia. Um advogado ou um político é pago para exercer a sua paixão e a sua persuasão em nome de um cliente ou de uma causa em que pode não acreditar pessoalmente. Nunca fiz isto e nunca o farei. Posso não ter sempre razão, mas interesso-me apaixonadamente pelo que é verdadeiro e nunca digo nada que não acredite ser certo. Lembro-me de ter ficado chocado durante uma visita a uma sociedade universitária, onde me fui confrontar com criacionistas. Ao jantar, depois do debate, sentaram-me ao lado de uma senhora ainda jovem, que tinha feito um discurso bastante convincente a favor do criacionismo. Era óbvio que ela não podia ser criacionista, pelo que lhe pedi que me dissesse honestamente por que é que o tinha feito. Admitiu, sem constrangimento, que estava simplesmente a treinar as suas capacidades de debate e achava que era mais estimulante advogar um ponto de vista em que não acreditasse. Aparentemente, é uma prática muito comum nestas sociedades universitárias dizer-se simplesmente ao orador que posição deverá defender. As suas convicções próprias não interessam. Eu tinha ido de longe para desempenhar a tarefa desagradável de falar em público porque acreditava na veracidade da moção que me tinham pedido para apresentar. Quando descobri que os membros da sociedade estavam a utilizar a moção como mero veículo para jogos de argumentação, decidi recusar futuros convites de sociedades de debates que encorajem uma defesa hipócrita de questões em que esteja em causa a verdade científica.

Por razões que não compreendo muito bem, o darwinismo parece necessitar mais de ser defendido do que outras verdades, identicamente estabelecidas, de outros ramos da ciência. Muitos de nós não aprendemos a teoria quântica ou as teorias da relatividade restrita e geral de Einstein, mas isso, por si só, não nos leva a opornos a estas teorias! O darwinismo, ao contrário do einsteinismo", parece ser considerado pelos críticos, seja qual for o seu grau de ignorância, como caça legal. Penso que um dos problemas do darwinismo é que, como perspicazmente observou Jacques Monod, toda a gente pensa que o entende. É, de facto, uma teoria extraordinariamente simples; infantilmente simples, poderia pensar-se, quando comparada com quase toda a física e a matemática. Essencialmente, resume-se à ideia de que a reprodução não-casual, em que haja variação hereditária, tem consequências que serão de grande alcance desde que haja tempo para que sejam cumulativas. Porém, temos razões para acreditar que esta simplicidade é enganadora. Nunca se esqueçam de que, por mais simples que a teoria pareça, ninguém pensou nela até Darwin e Wallace, nos meados do século XIX, quase trezentos anos depois dos Principios de Newton e mais de dois mil anos depois de Eratóstenes ter medido a Terra. Como pôde uma ideia tão simples ficar por descobrir durante tanto tempo, por pensadores do calibre de um Newton, um Galileu, um Leibniz, um Hume e um Aristóteles? Por que teve de esperar por dois naturalistas vitorianos? Que é que estava errado nos filósofos e ma- temáticos para não a terem visto? E como pode uma ideia com tal força continuar ainda geralmente por assimilar pela consciência popular?

É quase como se o cérebro humano fosse especificamente concebido para desvirtuar o darwinismo e para o considerar difícil de acreditar. Tome-se, por exemplo, o tema do acaso", frequentemente encenado por acaso cego. A grande maioria das pessoas que atacam o darwinismo mergulha com uma ansiedade quase inconveniente na ideia errónea de que nada mais contém do que acaso fortuito. Na medida em que a complexidade do viver encarna a própria antítese do acaso, será obviamente fácil recusarmos o darwinismo! Uma das minhas tarefas será destruir este mito, tão avidamente acreditado, de que o darwinimo é uma teoria do acaso,. Há um outro aspecto em que parecemos predispostos para não acreditar no darwinismo: a nossa inteligência está construída para lidar com acontecimentos em escalas de tempo radicalmente diferentes das que caracterizam a mudança evolutiva. Estamos equipados para avaliar processos que se completam em segundos, minutos, anos ou, no máximo, décadas. O darwinismo é uma teoria de processos acumulativos tão lentos que só se completam em milhares e mi- lhões de décadas. Todos os nossos juízos intuitivos do provável se revelam errados pelas mais variadas ordens de grandeza. O nosso aparelho, bem sintonizado, de cepticismo e teoria de probabilidade subjectiva afasta-se largamente do alvo, porque está sintonizado- ironicamente, pela própria evolução - para funcionar dentro de um tempo de vida de algumas décadas. É necessário um esforço de imaginação para se escapar à prisão da escala de tempo familiar, esforço esse que tentarei apoiar.

Um terceiro aspecto em que a nossa inteligência parece predisposta a resistir ao darwinismo resulta do nosso grande sucesso como conceptores criativos. O nosso mundo é dominado por feitos da técnica e obras de arte. Estamos perfeitamente habituados à ideia de que a elegância complexa é um indicador de concepção premeditada, fabricada. Esta é provavelmente a razão mais forte para que se acredite, como aconteceu e acontece com a imensa maioria das pessoas que jamais viveram, em qualquer tipo de divindade sobrenatural. Foi necessário um grande salto de imaginação para Darwin e Wallace verem que, ao contrário de toda a intuição, existe uma outra via e, quando entendida, uma via muito mais plausível para a concepção, complexa surgir da simplicidade primeva. Um tão grande salto de imaginação que, até hoje, há muita gente que não se mostra disposta a dá-lo. O objectivo principal deste livro é ajudar o leitor a dar esse salto.

Os autores esperam, naturalmente, que os seus livros tenham um impacte mais duradouro do que efémero. Porém, qualquer ad- vogado, para além de apresentar a componente intemporal do seu caso, tem igualmente de responder a advogados contemporâneos com pontos de vista opostos ou aparentemente opostos. Há o risco de que alguns destes argumentos, por maior que seja o seu furor de hoje, pareçam datados em décadas vindouras. Frequentemente se tem assinalado como paradoxal o facto de a primeira edição de The Origin of Species (A Origem das Espécies) defender melhor a sua causa do que a sexta. Isto aconteceu porque Darwin se sentiu com- pelido, nas suas últimas edições, a responder às críticas contempo- râneas à primeira edição, críticas essas que actualmente parecem tão datadas que as respectivas respostas são apenas um estorvo e, por vezes mesmo, induzem em erro. Contudo, a tentação de ignorar as críticas em moda no nosso tempo, suspeitas de serem maravi- lhas de um dia, é uma tentação a que não devemos ceder, por de- licadeza, não só para com os críticos, mas também para com os leitores que, de outro modo, ficarão confusos. Embora tenha, pes- soalmente, as minhas ideias sobre quais os capítulos do livro que irão revelar-se efémeros por esta razão, o leitor - e o tempo - te- rão de ser os juízes.

Estou desolado por ter sabido que algumas das minhas amigas (por sorte não muitas) encaram o uso do pronome masculino impes- soal como revelador da intenção de as excluir. Se houvesse alguma exclusão a fazer (felizmente, não há) penso que preferia excluir os homens, mas quando, numa ocasião, tentei a experiência de me referir ao meu leitor como ela, fui acusado por uma feminista de condescendência paternalista: deveria dizer ele-ou-ela" e seu-ou- sua". É fácil fazê-lo se se não tiver consideração pela língua, mas se não se tiver consideração pela língua não se é merecedor de leito- res, seja qual for o seu sexo. Assim, voltei às convenções normais dos pronomes ingleses. Posso referir-me ao leitor por ele" sem que isso signifique que penso nos meus leitores como especificamente masculinos, tal como alguém que fale francês quando se refere a uma mesa não a imagina feminina. Na realidade, acho que é mais frequente pensar nos meus leitores no feminino, mas isso é comigo e detestaria pensar que tais considerações pudessem invadir a for- ma como utilizo a minha língua materna.

Igualmente pessoais são alguns dos meus motivos de gratidão.

Aqueles a quem não fizer justiça compreenderão. Os meus editores não encontraram qualquer razão para não me revelarem as identi- dades dos seus peritos (não os críticos, - os verdadeiros críticos , com a devida vénia a muitos americanos com menos de 40, criticam os livros apenas depois de terem sido publicados, quando já é de- masiado tarde para que o autor possa fazer seja o que for) e benefi- ciei enormemente com as sugestões de John Krebs (mais uma vez), John Durant, Graham Cairns-Smith, Jeffrey Levinton, Michael Ruse, Anthony Hallam e David Pye. Richard Gregory criticou, mui- to simpaticamente, o capítulo XII e a sua completa excisão veio a ser um benefício para a versão final. Mark Ridley e Allan Grafen, agora já nem oficialmente meus alunos, são, juntamente com Bill Hamilton, os faróis do grupo de colegas com quem discuto a evolu- ção e cujas ideias me são um benefício quase quotidiano. Estes, Pamela Wells, Peter Atkins e John Dawkins foram-me de grande aju- da ao procederem à crítica de vários capítulos. Sarah Burney introduziu inúmeros melhoramentos e John Gribbin corrigiu um erro importante. Alan Grafen e Will Atkinson foram os consultores em problemas informáticos e o Apple Macintosh Syndicate do Departamento de Zoologia autorizou gentilmente a utilização da sua impressora laser para o desenho de biomorfos.

Mais uma vez benefciei do dinamismo implacável com que Mi- chael Rodgers, agora da Longman, leva tudo à sua frente. Ele e Mary Cunnane of Norton aplicaram habilmente o acelerador (ao meu moral) e o travão (ao meu sentido de humor) sempre que cada um deles foi necessário. Parte do livro foi escrita durante uma licença sabática, que me foi gentilmente concedida pelo Depar- tamento de Zoologia e pelo New College. Finalmente - uma dí- vida que já deveria ter reconhecido em ambos os meus livros interiores -, o sistema tutório de Oxford e os muitos estudantes de quem, ao longo dos anos, tenho sido tutor em zoologia ajudaram- -me a praticar as poucas aptidões que possa ter para a difícil arte de explicar.

RICHARD DAWHINS Oxford,1986

Capítulo I EXPLICAI O MUITO IMPROVÁVEL

Nós, animais, somos as coisas mais complicadas do universo conhecido. O universo que conhecemos é, evidentemente, um fragmento ínfimo do verdadeiro universo. Podem existir objectos ainda mais complicados do que nós noutros planetas e al ns deles podem já saber que existimos. Isto, contudo não altera o que pretendo defender. As coisas complicadas, em toda a arte merecem um tipo de explicação muito especial. Queremos saber como omplic p a existir e por que são tão c assaram provável que a explicação seja generalizada. Como irei argumentar, é sas complicadas em qualquer pae amente a mesma para as coi- nós, para os chimpanzés, os vermes o do universo; idênticas para , s carvalhos e os monstros do espaço exterior. Por outro lado não será a mesma signarei por coisas simples" , para o que de- , tais como rochas, nuvens, rios, g xias e q alá- uarks. Estas são a matéria-prima da física. Os chimp e os cães e os morcegos e as baratas e as pessoas e os vermes ezos dentes-de-leão e as bactérias e os aliení téria-prima da biologia. genas galácticos são a ma- A diferença resimplicad splexidade de conce gia é estudo de coisas co pção. A biolo o , que aparentam terem sido concebi- das com uma finalidade. A física é o estudo de coisas simples, que não nos tentam a invocar a concepção, A primeira vista, os tos humanos como os comp artefac- , utadores e os automóveis, parecerão ser excepções. São complicados e, obviamente concebidos com uma fi- nalidade; contudo, não estão vivos e são feitos de metal e lástico em vez , de carne e sangue, Neste livro, serão def:nitivamente trata- dos como objectos biológicos.

A reacção do leitor a esta atitude pode ser perguntar: Está bem, mas serão realmente objectos biológicos?" As palavras são nossos servidores, não nossos senhores. Para diferentes fins, acha- mos conveniente utilizar as palavras com diferentes sentidos. A maioria dos livros de culinária classifica as lagostas como peixes. Os zoólogos, por vezes, ficam furiosos com isto e chamam a atenção para o facto de as lagostas poderem, com maior justiça, chamar aos homens peixes, na medida em que os peixes têm muito mais afini- dades com os homens do que com as lagostas. E, por falar de justi- ça e lagostas, soube que recentemente um tribunal teve de decidir se as lagostas eram insectos ou animais" (em relação com o facto de se permitir ou não que as pessoas as cozam vivas). Do ponto de vista zoológico, as lagostas não são seguramente insectos. São ani- mais, mas isso também o são os insectos, como nós próprios. Não vale muito a pena exaltarmo-nos com a forma como as várias pes- soas utilizam as palavras (embora, na minha vida particular, es- teja pronto a exaltar-me com as pessoas que cozem as lagostas vivas). Os cozinheiros e os advogados precisam de utilizar as pala- vras nas formas que lhes são específicas e o mesmo acontece comi- go neste livro. Pouco importa que os automóveis e os computadores sejam, ou não, realmente" objectos biológicos. O que interessa é que, se qualquer coisa com esse grau de complexidade fosse encon- trada num planeta, não hesitaríamos em chegar à conclusão de que a vida existia, ou tinha em tempos existido, naquele planeta. As máquinas são produtos directos de objectos vivos e são sintoma de vida num planeta. O mesmo se aplica a fósseis, esqueletos e ca- dáveres.

Afirmei que a física é o estudo de coisas simples, afirmação que, à primeira vista, pode igualmente parecer estranha. A física parece ser um temá complicado, porque nos é difícil entender as ideias da física. A nossa inteligência é concebida para entender a caça e a reunião, o acasalamento e a criação dos filhos: um mundo de objectos de tamanho médio, movendo-se em três dimensões a velocidades moderadas. Estamos mal equipados para compreender o muito pequeno e o muito grande; as coisas cuja duração se mede em pico-segundos ou em giga-anos; partículas que não têm posição; forças e campos que não podemos ver nem tocar, de que temos co- nhecimento simplesmente porque afectam coisas que podemos ver ou tocar. Pensamos que a física é complicada porque temos dificul- dade em entendê-la e porque os livros de física estão cheios de ma- temática dificil. Porém, os objectos que os físicos estudam não dei- xam de ser basicamente objectos simples. São nuvens de gás ou partículas ínfimas ou, ainda, porções de matéria uniforme, como os cristais, com padrões atómicos quase interminavelmente repetidos. Não têm, pelo menos pelos padrões biológicos, partes funcionais in- trincadas. Mesmo os grandes objectos fisicos, como as estrelas, con- sistem num conjunto bastante limitado de partes, dispostas mais ou menos aleatoriamente. O comportamento dos objectos físicos, não biológicos, é tão simples que é viável utilizar uma linguagem matemática conhecida para o descrever, razão por que os livros de física estão cheios de matemática.

Os livros de física podem ser complicados, mas os livros de físi- ca, tal como os automóveis e os computadores, são produto de um objecto biológico - a inteligência humana. Os objectos e os fenóme- nos que um livro de física descreve são mais simples do que uma única célula do corpo do seu autor. E o autor é composto por triliões dessas células, muitas das quais diferentes entre si, que se organi- zam numa arquitectura intrincada e num mecanismo de precisão, de forma a constituírem uma máquina funcional, capaz de escrever um livro (os meus triliões são americanos, como todas as minhas unidades: um trilião americano é um milhão de milhões; um bilião americano é mil milhões). A nossa inteligência não está melhor equipada para lidar com extremos de complexidade do que com ex- tremos de dimensão ou outros extremos difíceis da física. Ainda ninguém inventou a matemática necessária para descrever a estru- tura e o comportamento total de um objecto como um físico ou, mesmo, uma das suas células. O que podemos fazer é entender al- guns dos princípios gerais de como funcionam as coisas vivas ou, apenas, o porquê da sua existência.

Foi aqui que começámos. Queríamos saber por que é que nós, e todas as outras coisas complicadas, existimos. E podemos agora responder a essa pergunta em termos genéricos, mesmo que não sejamos capazes de compreender os pormenores da própria comple- xidade. Usando uma analogia, a maioria de nós não entende em pormenor como funciona um avião comercial. Provavelmente, os seus construtores também não o compreendem integralmente: os especialistas de motores não entendem de asas em pormenor, en- quanto os especialistas de asas só vagamente entendem de moto- res. Os especialistas de asas nem sequer entendem de asas com to- tal precisão matemática: só podem predizer como se irá comportar uma asa em condições de turbulência depois de terem examinado um modelo num túnel de vento ou numa simulação de computador - o tipo de coisa que um biólogo poderia fazer para entender um animal. Mas, por muito imperfeitamente que entendamos o funcio- namento de um avião, todos entendemos genericamente o processo que levou à sua existência. Foi concebido por homens, em estirado- res. Em seguida, outros homens fizeram os bocados a partir dos de- senhos, depois, muitos mais homens (com a ajuda de outras máqui- nas concebidas por homens) aparafusaram, rebitaram, soldaram ou colaram os bocados uns aos outros, cada um no seu devido lu- gar. O processo que levou à existência de um avião não é basica- mente um mistério para nós, porque foram os homens que o cons- truíram. A montagem sistemática de peças com um desígnio inten- cional é algo que conhecemos e entendemos, porque o experimentá- mos em primeira mão, mesmo que apenas a brincar com o Meccano ou o Erector da nossa infância.

E que acontece com os nossos próprios corpos? Cada um de nós é uma máquina, como um avião, só que muito mais complicada. Teremos sido concebidos também num estirador e terão as nossas peças sido montadas por um técnico especializado? A resposta é não. É uma resposta surpreendente e só há cerca de um século é que a conhecemos e a entendemos. Quando Charles Darwin expli- cou pela primeira vez esta questão, houve muitas pessoas que não quiseram ou não puderam apreendê-la. Por mim, recusei-me ter- minantemente a acreditar na teoria de Darwin quando, em crian- ça, a ouvi pela primeira vez. Quase toda a gente que viveu ao longo da história até à segunda metade do século XIX acreditava firme- mente no contrário - a teoria do Conceptor Consciente. Muitas pessoas ainda acreditam, talvez porque a verdadeira explicação, a darwinista, da nossa existência, por estranho que pareça, ainda não constitui uma parte rotineira do currículo do ensino geral. É, sem dúvida, muito largamente mal entendida.

O relojoeiro do meu título foi tirado de um tratado famoso, es- crito por um teólogo do século XVIII, William Paley. O seu Natural Theology - or Evidences of the Existence and Atributes of the Deity Collected from tCe Appearances of Nature (Teologia Natural - ou Provas da Existência e Atributos da Divindade Recolhidos em Aspectos da Natureza), publicado em 1802, é a mais conhecida exposição do Argumento da Concepção,, desde sempre o mais in- fluente dos argumentos a favor da existência de Deus. É um livro que muito admiro porque, no seu tempo, o autor conseguiu fazer o que me esforço por fazer agora. Tinha um ponto de vista a defen- der, em que acreditava apaixonadamente, e não se poupou a esfor- ços para marcar bem a força dos seus argumentos. Tinha uma re- verência adequada pela complexidade do mundo vivo e era capaz de ver que este exige um tipo muito especial de explicação. A única coisa em que se enganou - notoriamente uma coisa bastante gran- de! - foi na própria explicação. Deu ao enigma a tradicional res- posta religiosa, conseguindo contudo articulá-la mais clara e con- vincentemente do que alguém jamais conseguira. A verdadeira explicação é absolutamente diferente e teve que esperar por um dos pensadores mais revolucionários de todos os tempos, Charles Darwin. Paley começa a Teologia Natural com uma passagem famosa:

Ao atravessar uma charneca, suponhamos que o meu pé embatia numa pedra e me perguntavam como tinha ido ali parar aquela pedra; nada do que eu soubesse me poderia impedir de responder, plausivelmente, que tinha estado sempre ali: e não seria talvez muito fácil demonstrar o ab- surdo desta resposta. Porém, suponhamos que eu tinha en- contrado um relógio no chão e que me fosse perguntado como é que o relógio ali estaria; é muito pouco provável que me lembrasse de responder, como anteriormente, que, tanto quanto eu sabia, o relógio poderia ter estado sempre ali.

Aqui, Paley avalia a diferença entre objectos físicos naturais, como as pedras, e objectos concebidos e fabricados, como os re- lógios. Adiante, comenta a precisão com que são construídas as engrenagens e molas de um relógio e a complexidade da sua mon- tagem. Se encontrássemos um objecto como um relógio numa char- neca, mesmo que não soubéssemos como tinha passado a existir, a sua precisão e complexidade de concepção forçar-nos-iam a concluir que o relógio tinha de ter tido um construtor: tinha de ter existido, em algum tempo e em qualquer lugar, um artífice ou artífices, que o formaram, com a finalidade a que pode- mos verificar que responde; que compreendiam a sua cons- trução e conceberam a sua utilização.

Ninguém poderia razoavelmente discordar desta conclusão, mas Paley insiste que, no entanto, é isso exactamente que o ateu faz, na realidade, quando contempla as obras da natureza, porque:

todos os indícios de artifício, todas as manifestações de con- cepção, que existiam no relógio existem nas obras da natu- reza; com a diferença, pelo lado da natureza, de que são maiores e em maior quantidade e isso num grau que excede qualquer cômputo.

Paley leva a água ao seu moinho com descrições belas e reve- rentes da maquinaria da vida, analisada em todos os seus porme- nores, começando com o olho humano, um exemplo favorito, que Darwin mais tarde utilizaria e que aparecerá ao longo de todo este livro. Paley compara o olho com um instrumento concebido, como o telescópio, para concluir que existe exactamente a mesma prova de que o olho foi feito para a visão como existe de que o telescópio foi feito para auxiliá-la". O olho tem de ter tido um conceptor, tal como o telescópio o teve.

O argumento de Paley é defendido com uma sinceridade apai- xonada e informado pelo melhor saber biológico do seu tempo, mas está errado, gloriosa e absolutamente errado. A analogia entre um telescópio e um olho, entre um relógio e um organismo vivo é falsa. Pese embora a todas as aparências em contrário, o único relojoeiro da natureza são as forças cegas da física, se bem que desdobradas de forma muito especial. Um verdadeiro relojoeiro tem antevisão: concebe as suas engrenagens e molas e planeia as suas inter-rela- ções com um objectivo futuro, com os olhos da sua imaginação. A selecção natural, o processo cego, inconsciente e automático que Darwin descobriu e que hoje sabemos ser a explicação para a exis- tência e para a forma aparentemente intencional de toda a vida, não imagina qualquer objectivo. Não tem imaginação nem olhos da imaginação. Não planeia para o futuro. Não tem visão, nem antevi- são, não tem qualquer sentido da vista. Se se quiser atribuir-lhe qualquer papel de relojoeiro na antureza, será o relojoeiro cego.

Explicarei tudo isto e muito mais ainda. Mas há uma coisa que não farei - minimizar a maravilha dos relógios vivos, que tanto inspiraram Paley. Pelo contrário, tentarei ilustrar o meu sentir de que, neste aspecto, Paley poderia ter ido mais longe. Quando se trata de sentir espanto perante os relógios" vivos, ninguém me leva a palma. Sinto que tenho mais em comum com o Reverendo William Paley do que com um distinto filósofo moderno, um conhe- cido ateu, com quem certa vez discuti o assunto ao jantar. Disse-lhe que não conseguia imaginar que fosse possível alguém ser ateu em qualquer época anterior a 1859, data em que foi publicado A Origem das Espécies, de Darwin. uE que me diz de Hume?H, respondeu o filósofo. HComo é que Hume explicava a complexidade organizada do mundo vivo?", perguntei. nNão é explicava, disse o filósofo. Por que é que é necessária qualquer explicação especial?m

Paley sabia que era necessária uma explicação especial; Dar- win sabia-o e suspeito de que, no fundo do seu coração, o meu com- panheiro filósofo também o sabia. De qualquer modo, é isso que irei mostrar. Quanto a David Hume, diz-se por vezes que o grande filósofo escocês tinha solucionado o Argumento da Concepção um século antes de Darwin. Mas o que Hume fez foi criticar a lógica da utilização da concepção aparente da natureza como evidência posi- tiva para a existência de um Deus. Não apresentou qualquer expli- cação alternatiua para a concepção aparente, antes deixou a ques- tão em aberto. Um ateu, anteriormente a Darwin, poderia dizer, seguindo Hume: Não tenho explicação para a complexa concepção biológica. do o que sei é que Deus não é uma boa explicação, por- tanto, temos de aguardar e ter esperança de que alguém apareça com uma melhor.H Não posso deixar de sentir que uma tal posição, embora logicamente válida, deixaria uma sensação de insatisfação e que, ainda que o ateísmo pudesse ser logicamente defensável antes de Darwin, só Darwin tornou possível ser-se um ateu intelectualmente realizado. Gosto de pensar que Hume concordaria comigo, mas alguns dos seus escritos sugerem que tenha subestimado a complexidade e a beleza da concepção biológica. O jovem naturalista Charles Darwin podia-lhe ter mostrado umas coisas sobre isso, mas Hume havia morrido há quarenta anos quando Darwin se ins- creveu na universidade de Hume, na Universidade de Edimburgo.

Falei loquazmente de complexidade e de concepção aparente, como se o significado destas palavras fosse óbvio. Em certo sentido é óbvio - a maioria das pessoas tem uma ideia intuitiva do signifi- cado de complexidade. Porém, estes conceitos, complexidade e con- cepção, são tão essenciais para este livro que tenho de tentar cap- tar com um pouco mais de precisão, por palavras, o nosso sentir de que existe algo de especial nas coisas complexas e aparentemente concebidas.

Assim sendo, que é uma coisa complexa? Como reconhecê-la?

Em que sentido se pode dizer, com verdade, que um relógio ou um avião ou uma bicha-cadela ou uma pessoa são complexos, mas a Lua é simples? O primeiro aspecto que nos pode ocorrer como atri- buto necessário de uma coisa complexa é que tal coisa tem uma es- trutura heterogénea. Um pudim de leite - um manjar-branco - é simples no sentido em que, se o cortarmos em dois, as duas porções terão a mesma constituição interna: um manjar-branco é homogé- neo. Um automóvel é heterogéneo: ao contrário do manjar-branco, quase todas as porções do automóvel são diferentes entre si. Duas vezes meio automóvel não faz um automóvel. Frequentemente, isto levará a dizer que um objecto complexo, ao contrário de um objecto simples, tem muitas partes, partes estas que são de mais de um tipo.

Tal heterogeneidade, ou multiparcialidade, pode ser uma con- dição necessária, mas não é suficiente. Há muitos objectos que são multipartes e heterogéneos na sua estrutura interna sem serem complexos no sentido em que quero utilizar o termo. O inonte Branco, por exemplo, é constituído por muitos tipos de rochas di- ferentes, todas amalgamadas de tal maneira que, se se cortasse a montanha em qualquer parte, as duas porções difeririam na sua constituição interna. O monte Branco tem uma heterogenei- dade de estrutura que o manjar-branco não possui, mas isso não impede que não seja complexo no sentido em que os biólogos usam o termo.

Tentemos outra via na nossa busca de uma definição para com- plexidade e utilizemos a ideia matemática de probabilidade. Supo- nhamos que tentávamos a seguinte definição: uma coisa complexa é algo cujas partes constituintes se organizam de tal forma que é improvável que tenha surgido meramente por acaso. Utilizando uma analogia empregue por um eminente astrónomo, se pegarmos nas partes de um avião e as amalgamarmos ao acaso, a probabili- dade de conseguirmos montar um Boeing que funcione é ínfima. Há biliões de formas possíveis de juntar os bocados de um avião e apenas uma, ou muito poucas, delas seria realmente um avião. Há ainda mais formas de jzntar as confusas partes de um ser humano.

Esta abordagem a uma definição de complexidade é prometedo- ra, mas ainda é preciso mais qualquer coisa. Há biliões de formas de amontoar os bocados do monte Branco, pode dizer-se, mas ape- nas uma delas é o monte Branco. Assim, que é que torna complica- dos o avião e o ser humano, se o monte Branco é simples? Qualquer amálgama de partes é única e, em retrospectiva, é tão improvável como qualquer outra. O monte de sucata de um depósito de des- mantelamento de aviões é único. Não há dois montes de sucata iguais. Se começarmos a atirar com fragmentos de aviões uns para cima dos outros, as hipóteses de conseguirmos duas vezes a mesma combinação de sucata são quase tão poucas como as hipóteses de conseguirmos um avião que funcione. Assim, por que não dizemos que uma lixeira ou o monte Branco ou a Lua são tão complexos como um avião ou um cão, quando em todos estes casos a combina- ção de átomos é improvável"?

O cadeado de segredo da minha bicicleta tem 4096 posições di- ferentes. Cada uma é igualmente improvável, no sentido em que, se fizermos girar as rodas ao acaso, é igualmente pouco provável que cada uma das 4096 posições apareça. Posso girar as rodas ao acaso, olhar para o número exposto e exclamar em retrospectiva: Que extraordinário. As hipóteses de este número não aparecer são de 4096 : l. Um pequeno milagre! Isto é equivalente a considerar complexa a forma particular como se combinam as rochas de uma montanha ou os bocados de metal de um monte de sucata. Po- rém, uma daquelas 4096 posições é, de facto, curiosamente única: a combinação 1207 é a única que abre o cadeado. A singularidade do 1207 não tem nada a ver com retrospectiva: é especificada anteci- padamente pelo fabricante. Se alguém girasse as rodas ao acaso e conseguisse acertar à primeira no 1207, poderia roubar a bicicleta e isto pareceria um pequeno milagre. Se tivesse sorte com uma da- quelas fechaduras de combinação multidiscos de um cofre bancá- rio, pareceria até um milagre importante, porque as hipóteses con- tra consegui-lo são de muitos milhões para um e poderia roubar uma fortuna.

Ora, acertar no número da sorte que abre o cofre do banco é o equivalente, na nossa analogia, a andarmos a lançar a sucata ao acaso e conseguirmos fortuitamente montar um Boeing 747. De to- dos os milhões de posições únicas, e em retrospectiva igualmente improváveis, de aombinação de um monte de ferro-velho, apenas uma (ou muito poucas) poderá voar. A singularidade da combina- ção que voa, ou que abre o cofre, nada tem a ver com a retrospec- tiva. É especificada antecipadamente. O fabricante da fechadura estabeleceu a combinação e disse-a ao gerente do banco. A capaci- dade de voar é uma propriedade de um avião que se especifica an- tecipadamente. Se virmos um avião no ar, podemos ter a certeza de que não foi montado amontoando ao acaso bocados de ferro-velho, porque sabemos que são demasiadas as hipóteses contra a possibi- lidade de que uma conglomeração casual venha a voar.

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