Opção Preferencial Pela Riqueza - José Osvaldo de Meira Penna

Opção Preferencial Pela Riqueza - José Osvaldo de Meira Penna

(Parte 1 de 3)

Revisão de originais ILIS CARLOS MACHADO RONALDO DA SILVA LEGEY

Revisão tipográfica ILIS CARLO MACHADO

Programação visual EDUARDO MUNIZ DE CARVALHO

Versão digital produzida e revisada por ELISA LUCENA MARTINS

Copyright ©1991, José Osvaldo de Meira Penna

Direitos para esta edição reservados para:

Rua Professor Alfredo Gomes, 28 CEP 22251 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil

Ficha Catalográf ica elaborada pela Biblioteca Ludwig von Mises do Instituto Liberal

P414Opção preferencial pela riqueza / José Osvaldo de Meira Penna.

Penna, José Osvaldo de Meira -Rio de Janeiro : Instituto Liberal, 1991.

1. Teologia. 2. Problemas sociais. 3. Pobreza. 4. Capital. 5. Liberalismo. 6. Marxismo. I. Instituto Liberal (Rio de Janeiro). I. Título.

O Instituto Liberal é uma instituição sem fins lucrativos e não tem - nem pode ter, de acordo com seu estatuto, - qualquer vínculo político-partidário. Suas atividades são voltadas para a pesquisa, produção e divulgação de ideias, teorias e conceitos que revelam as vantagens de uma sociedade organizada com base em uma ordem liberal.

OrdemLivre.org é uma organização não-governamental sem qualquer vínculo partidário. Fundada sobre os princípios de liberdade individual, mercado livre, paz e governo limitado, OrdemLivre.org promove uma ordem econômica eficiente e uma filosofia política moral e inspiradora por meio de publicações e eventos.

A equipe OrdemLivre.org agradece ao Instituto Liberal pela publicação da presente obra em português e por ter generosamente autorizado sua edição online.

Ao professor Og Leme, do Instituto Liberal do Rio de Janeiro, que me estimulou na ideia de publicar este livro sob os auspícios do Instituto, e nas conversas sobre o Liberalismo no decurso de interessantes seminários; a Alexandre Guasti, Secretário-geral do mesmo Instituto, sempre atento e cortês na assistência ao preparo do livro para publicação; ao professor Ricardo Vélez Rodrigues, por seus conselhos, e aos professores Antônio Paim, Paulo Mercadante e Ubiratan Borges de Macedo, todos de nossa Sociedade Tocqueville, que me instruíram sobre os mais recentes desenvolvimentos do pensamento liberal no Brasil; ao professor José Artur Rios, com quem muito tenho discutido o problema da infiltração marxista na Igreja católica brasileira; ao professor Darlan Chama, Presidente do Instituto Liberal de Brasília, por seu esforço no sentido de organizar o Instituto no ambiente hostil de Brasília; à Celeste Palhano Ricarte de Oliveira, sempre prestimosa e paciente secretária que digitou no computador o texto desta obra; e à minha mulher Dorothy, que tanto me ajudou na elaboração do argumento.

PREFÁCIO 1

CAPÍTULO I: A CIÊNCIA MEDONHA E A ÉTICA DO MERCADO 1. Introdução 5 5

2. A falsificação histórica 1 3. A ética do mercado 27 4. A mão invisível 38 5. Será o liberalismo econômico materialista? 4 6. Sobre a concorrência 47

CAPÍTULO I: RICOS E POBRES (O problema moral da pobreza) 1. Ricos e pobres na história 56 51

2. O paradoxo da pobreza 62 3. A pobreza e a revolução industrial 70 4. Miséria rural e favelas (As duas nações) 78 (7) 5. As classes perigosas 82 6. O empobrecimento dos pobres e a prole dos proletários 8 7. O Brasil e a pobreza 97 (96)

CAPÍTULO I : CAPITALISMO E RELIGIÃO - UMA BARRETADA A MAX WEBER 1. Roberto Campos e a vocação para o desenvolvimento 104 103

2. A ética protestante de Weber 109 3. Psicologia do puritano 118 4. Sociologia do desenvolvimento numa perspectiva histórica 125 5. Troeltsch e o protestantismo 132 6. Democracia e protestantismo 136

CAPÍTULO IV : 1 OPÇÃO PREFERENCIAL PELOS RICOS 141

. O Evangelho da pobreza 141 2. A doutrina social da Igreja 146 3. Pobres e ricos nos Antigo e Novo Testamentos 151 4. Daniel Ludwig e a verdadeira opção pelos pobres 157 5. Mrs. Thatcher e os ventos loucos da primavera 161 6. As agruras agrárias 167 7. O voto da pobreza e a pobreza do voto 173 8. A crise brasileira segundo os social-democratas 176 9. Brasil - Sociedade heterogênea 184 (183) 10. Conclusões: liberalismo e opção pela riqueza 187 (186)

CAPÍTULO V : REBUS SIC STANTIBUS (ECONOMIA E CATOLICISMO) 193 1. Catolicismo e desenvolvimento 194 2. Fanfani e a ética econômica católica 197 3. Ética e tolerância. Probabilismo 208 (207) 4. O Evangelho segundo Marx revisitado 214 5. Conclusões finais 227

BIBLIOGRAFIA 230 (229)

Nenhuma sociedade certamente pode florescer e se tornar feliz se uma grande proporção de membros dessa sociedade for pobre e miserável.

ADAM SMITH (Wealth of Nations, Liv. I cap. VIII)

Enrichissez-vous! (Enriquecei-vos!) FRANCOIS GUIZOT (eminente estadista e historiador francês, 1874)

diferiam dos seus"

"Em todos os tempos, raros foram os amigos sinceros da liberdade, e os triunfos desta foram devidos a minorias que venceram associando-se a companhaneiros cujos objetivos, com frequência, LORD ACTON (1902, citado por Hayek)

Desejo chegar a uma resposta plausível para a questão que enche toda esta obra e domina o momento atual brasileiro: a chamada "questão social". Se reconhecemos, em nosso país, a existência de contrastes excessivos de renda, fortuna, educação, saúde e cultura - que fazer para corrigir essa situação? Insisto que a pergunta "que fazer?" encontra-se tanto no conservadorismo ético da razão prática de um Kant, quanto no título de um livro revolucionário de Lenin.

permanece, como antes de 1930, "uma questão de polícia"

Pode-se, naturalmente, encolher os ombros diante da miséria. Podem-se aceitar as desigualdades. Pode-se mesmo enfatizá-las, glorificá-las nietzscheanamente, pretender que o darwinismo social selvagem constitua ideal de progresso: muita gente, hoje, exasperada com a retórica de esquerda, já aceitaria como legítima essa postura (é o caso do egoísmo heróico e "objetivista" da judia russa Ayn Rand, favorecida com um verdadeiro culto nos EUA!). No Brasil, esse tipo de reação é bastante comum - embora quase sempre silenciosa ou inconsciente. Há gente que pensa: negro é burro mesmo; o que se deve fazer é obrigá-lo a trabalhar (uma reação aliás mais encontradiça entre gente branca humilde do que na classe A...). Há também gente para a qual a questão social

O reconhecimento do caráter excessivo, criticável e corrigível da miséria, da ignorância e da insalubridade da massa de nossa população constitui, no entanto, a postura oficial da parte mais esclarecida da elite brasileira. O protesto social pode ter sua origem em considerações políticas ou em cogitações religiosas. Pode ser uma reação simples mente patriótica: envergonhamo-nos dos baixos índices sociais do país, quando confrontados com o paradigma estrangeiro. O protesto é também fruto da compaixão. É certamente o resultado de uma educação cristã, sedimentada no que se chamaria o "inconsciente coletivo": consequência natural do imperativo de fraternidade humana, num sentimento talvez irracional, porém certamente efetivo e generalizado. O problema social se reduziria, então, à escolha do método mais rápido ou adequado para a superação de uma situação reconhecida como insatisfatória. O imperativo do "desenvolvimento" brasileiro se prende, talvez, não tanto ao desejo positivo de adquirir um padrão de vida compatível com o nível geral da sociedade ocidental, quanto ao desejo mais imediato de supressão daquelas mazelas do subdesenvolvimento. Segundo me parece, três escolas se enfrentam na oferta de modelos concorrentes para a solução da "questão social": 1) a escola liberal (ou mais propriamente "libertária") que argumenta com o capitalismo puro. Só este, no jogo livre da concorrência, no respeito absoluto à propriedade, na obediência às regras do mercado e na integração à economia mundial, com centro no Atlântico Norte, seria capaz de acelerar o desenvolvimento e vencer a barreira da miséria, ainda que à custa de uma etapa inicial de exacerbação das injustiças; 2) a escola social-estatizante, a mesma que foi adotada entre nós a partir da Revolução de 1930, com marcos de crescente dependência em relação ao paternalismo oficial no Estado Novo getuliano (1937-45), no ciclo juscelinista (1956-61), no regime militar, particularmente após 1969, e na chamada Nova República. Essa escola costumava ser acoimada de "direita" até a 2a. Guerra Mundial e se prendia a raízes contraditórias, como o positivismo castilhista da Primeira República, a doutrina social da Igreja dos católicos conservadores e dos integralistas, e o corporativismo fascista. Mas havia, naturalmente, o impacto mimético do modelo marxista vigorante na Europa. Hoje, as principais correntes social-estatizantes ou nacional-socialistas, como gosto de chamá-las1, são de esquerda ou herdeiras do patrimonialismo "fisiológico" tradicional. O traço comum entre os seguidores dessa escola é que a "redenção do proletariado" só se poderá processar pela intervenção do Estado na economia e através de uma legislação social e previdenciária cada vez mais "avançada"; 3) a terceira escola parte de um pressuposto inteiramente diverso; eis que salienta o aspecto fundamentalmente moral de toda a questão. Seu postulado básico é que a superação da pobreza não depende tanto, objetivamente, do regime sócio-político ou da estrutura legal da propriedade quanto da existência e desenvolvimento de uma ética econômica.

1 Vide meu Ideologia do Século X.

Em outras palavras, a pobreza e as alegadas "injustiças" não resultam desta ou daquela política, nem são corrigíveis por qualquer mudança estrutural básica. Elas dependem de fatores culturais e históricos, só a longo prazo transponíveis. Isso quer dizer que a progressiva homogeneização da estrutura social e cultural do país (para o estabelecimento de um módico equilíbrio de renda) deve partir da educação, no sentido mais profundo e mais amplo da palavra. A paideia nacional estará apta a criar as condições para que surja, no Brasil, uma sociedade mais harmônica, mais justa e mais eficiente. A ética econômica implica a exigência universal de três virtudes, infelizmente ainda pouco encontradiças em nosso meio social: a virtude de trabalho, a virtude de poupança e a virtude de honestidade. As três virtudes econômicas básicas resumem-se no recebimento gratuito do dom da eficiência, pois trabalho, poupança e honestidade devem coincidir com a eficiência produtiva numa economia livre, sem a qual nem o subdesenvolvimento, nem a má distribuição dos bens econômicos poderão ser vencidos.

"social-democrata" Covas prega um "choque capitalista"

Acentuando que os modelos aventados para o desenvolvimento brasileiro sempre partiram das opções acima oferecidas,e geralmente em combinações de receitas com ênfase nesta ou naquela opção, notamos que ninguém mais, em nosso país, sugere um capitalismo absolutamente puro, nem tampouco um socialestatismo totalitário, o qual já caiu de moda depois das "cinco modernizações" de Deng Xiaoping e da "perestroika" de Gorbachov. Hoje, até mesmo representantes oficiais do PCB falam em "privatização" da economia; o próprio guru socialista Fernando Henrique Cardoso sugere a substituição das empresas do Estado por "empresas públicas", sem se dar muito ao trabalho de definir do que se trata; e o

A questão seguinte diz, portanto, respeito à ética econômica. Como impôla? Como persuadir a sociedade de sua necessidade? Como educar o povo na sua prática? Como estabelecer o imperativo categórico de honestidade, trabalho e poupança? Como alcançar a eficiência na performance e ser agraciado com o talento do achievement (MacCIellan)? Essas são certamente as questões mais árduas. Aquelas que a sociologia moderna até agora só superficialmente abordou a nível teórico. Mas, por que não lembrar que esse papel da ética está implícito, desde o século XVIII, na obra de Locke, de Adam Smith, de Burke e, posteriormente, de Tocqueville, Stuart Mill e dos outros pró-homens do Liberalismo, como está, hoje em dia, mais explícito nos trabalhos de Mises, Hayek, Friedman e dos demais neo-liberais-conservadores. Na filosofia liberal, em suma, está a resposta à questão da superação da injustiça e da pobreza. Nos ensaios que se seguem - alguns dos quais reproduzem textos publicados em meu livro Psicologia do Subdesenvolvimento, hoje completamente esgotado - procuro abordar o problema de moral, levantado pela pobreza e o atraso, as atitudes contraditórias diante da riqueza de protestantes e católicos, e a questão mais imediata de nossa "vocação" para o desenvolvimento. Creio na oportunidade do tema: pela quarta vez nestes últimos 60 anos (depois das tentativas abortadas de Getúlio Vargas, de Juscelino Kubitschek e dos militares de 1964-79) estamos tentando dar nova partida ao processo de modernização. Talvez desta vez sejam melhores as perspectivas, pois o mundo todo sofre os contrachoques da Revolução neo-liberal que principiou na década passada, no Ocidente. Acima de tudo, inicio uma abordagem filosófica dos problemas da Ordem, da Justiça e da Liberdade, que espero poder tratar mais extensamente em outra ocasião.

Brasília, abril de 1991

E A ÉTICA DO MERCADO2 1. Introdução

contradição nos termos

Friedrich A. von Hayek costuma criticar, com sarcasmo, a mania moderna de se acrescentar o adjetivo "social" às expressões relacionadas com a vida política e econômica da sociedade. Fala-se em "justiça social", em "política social", em "reforma social", em "tudo pelo social", em "consciência social", em "democracia social", em "liberalismo social". Mesmo a Igreja considerou necessário, nestes últimos cem anos, criar uma "doutrina social", embora se tenha cuidadosamente abstido de definir exatamente em que consiste tal doutrina, ou seja, em especificar se é ou não a favor da socialização dos meios de produção, ou de uma economia de mercado, ou do controle desses meios de produção pelo Estado e por sua burocracia. No Brasil, até os partidos mais conservadores, como o antigo PSD, acharam conveniente colocar o qualificativo "social", a fim de obscurecer suas verdadeiras origens oligárquicas. A ênfase no termo "social" está provavelmente relacionada com a notória ausência de uma "consciência social" em nossa sociologia, pois o "caráter nacional brasileiro" ainda é dominado pelos laços afetivos primários de solidariedade familiar e clientelista. A última novidade entre nós é o "liberalismo social". Ou também o "socialismo liberal" - uma

2 Ensaio extraído de uma conferência na Confederação Nacional do Comércio em 5.1.1987.

Observa Hayek que essa mania do uso do qualificativo "social" revela uma profunda ojeriza aos valores autênticos de liberdade, de iniciativa privada e de economia natural num mercado aberto. Os velhos termos "justiça" e "consciência moral" perderam seu sentido. Eles se sustentavam na noção de supremacia da Lei e no reconhecimento da responsabilidade da consciência individual. O próprio conceito de Justiça torna-se incompreensível e desprovido de significado se lhe é acrescentado esse qualificativo suspeito: a Justiça passa a ser considerada uma questão de "estrutura" governamental.

O problema de que tratamos emergiu, pela primeira vez, no século XVIII, depois que Adam Smith propôs a tese do laissez-faire numa economia de mercado livre, graças à qual a revolução industrial capitalista desabrochou de modo estupendo. Hayek repetidamente acentua que não basta aceitar a ideia de um mercado competitivo para que a "mão invisível" de Smith tudo conduza ao melhor dos mundos possíveis. A "ordem espontânea" do mercado não é um simples mecanismo material, não é uma utopia. Ela possui um fundamento ético e uma estrutura legal. É o resultado da ação do homem, ou melhor, das ações de milhões de homens que se influenciam mutuamente, desde que estabeleçam regras de justiça orientadas por considerações de natureza moral. Na obra Individualism and Economic Order, Hayek insiste em que "as tradições morais constituem as bases indispensáveis de uma civilização livre". É sobre os aspectos éticos da economia de mercado capitalista que desenvolverei o argumento deste ensaio.

O termo capitalismo a tal ponto se deteriorou, depois de haver sido revestido de um conteúdo pejorativo por Marx, que hoje mal o podemos usar. É notável a tendência de alguns dos mais entusiásticos defensores do capitalismo a usar eufemismos do tipo "setor privado da economia", "economia de mercado" e "setor entregue à iniciativa empresarial". Sob o impacto de 150 anos de literatura esquerdista, o capitalismo é tido como pecaminoso pela esquerdigreja. O próprio papa João Paulo I, pouco amigo dessa igreja popular, condena em suas cartas e encíclicas o que qualifica de "capitalismo selvagem". A palavra "lucro" revela uma etimologia semelhante à de "logro". A concorrência é condenada como cruel, egoísta, brutal. O chamado "darwinismo social" é denunciado como expressão de uma indébita transladação para a sociedade humana das "leis da selva" (laws ofthejungle), propostas pelo grande biólogo inglês, Darwin, para explicar a evolução. O capitalismo, dito selvagem, seria isso mesmo: o animal faminto e sedento de sangue perseguindo a besta aterrorizada; o forte comendo o mais fraco; a natureza "rubra no dente e na garra" (nature, red in tooth and claw) dos famosos versos de Tennyson. Um odor hobbesiano repugnaria aos sentimentos suaves dos cristãos, ao contemplarem essa guerra de todos contra todos (bellum omnium contra omnes) em que se transforma a convivência econômica sob regime capitalista. Com essa repugnância surge imediatamente a dedução implícita: somente a supressão da propriedade privada ou, pelo menos, o controle férreo da economia pelo Estado e a socialização de um grande setor produtivo podem corrigir os "excessos", como se diz, do capitalismo.

Em seu livrinho A mentalidade anti-capitalista, Ludwig von Mises escreve o seguinte (é verdade que num ano, 1972, que marcava o apogeu do esquerdismo mundial): "O povo dos Estados Unidos é mais próspero do que os habitantes de todos os outros países porque seu governo resistiu mais tempo, em relação aos governos de outras partes do mundo, a adotar uma política de obstrução dos negócios. Não obstante, muitas pessoas e, especialmente os intelectuais, repelem o capitalismo com veemência. Na sua maneira de ver, esta horrível forma de organização econômica da sociedade só trouxe desordem e miséria. Outrora, os homens eram felizes e prósperos, nos bons tempos que antecederam a Revolução Industrial. Hoje, sob o capitalismo, o que predomina são os pobres famintos, cruelmente explorados por grosseiros individualistas. Para estes patifes, a única coisa que conta é ganhar dinheiro. Não produzem coisas boas e realmente úteis, mas apenas o que proporciona altos lucros. Envenenam os corpos das pessoas com bebidas alcoólicas e fumo, suas almas e mentes, com histórias em quadrinhos, livros lascivos e filmes tolos. A "superestrutura ideológica" do capitalismo é a literatura da decadência e da degradação, o show burlesco e a arte do strip-tease, os filmes de Hollywood e as histórias de detetive. O preconceito e o fanatismo da opinião pública se manifestam com mais clareza pelo fato de ela vincular o adjetivo "capitalista" exclusivamente às coisas abomináveis, e nunca àquelas que todos aprovam. Como poderia o capitalismo gerar coisas boas? Tudo o que tem valor foi produzido apesar do capitalismo, mas as coisas ruins são excrescências do capitalismo".

Bem resume o trecho a situação, pelo menos a situação anterior a 1989, ano extraordinário que libertou metade da Europa das garras do socialismo marxista e enterrou definitivamente o cadáver pútrido de Marx. Mises, que é considerado um dos pais do liberalismo moderno, opina em sua obra sobre o "socialismo", que data de 1951, no sentido de que: "nada é mais impopular hoje em dia do que a economia de mercado livre, isto é, o capitalismo. Tudo que é considerado pouco satisfatório nas condições atuais é posto à culpa do capitalismo. Os ateístas tornam o capitalismo responsável pela sobrevivência do cristianismo. Mas as encíclicas papais acusam o capitalismo pelo alastramento da falta de religião e pelos pecados de nossos contemporâneos; por seu lado as igrejas e seitas protestantes não são menos rigorosas em sua acusação à cobiça capitalista. Os amigos da paz consideram nossas guerras como uma consequência do imperialismo capitalista. Mas os tenazes promotores de guerra da Alemanha e da Itália denunciaram o capitalismo pelo seu pacifismo 'burguês', contrário à natureza humana e às leis inexoráveis da história. Os pregadores de sermões acusam o capitalismo de desintegrar a família e incentivar a licenciosidade. Mas os 'progressistas' põem sobre o capitalismo a culpa pela preservação de alegadas regras obsoletas de repressão sexual. Quase todas as pessoas concordam que a pobreza é resultante do capitalismo. Mas, por outro lado, muitos deploram o fato de que o capitalismo, ao satisfazer prodigamente os desejos dos homens que desejam maiores amenidades e uma vida melhor, promove um materialismo grosseiro. Essas acusações contraditórias contra o capitalismo se anulam mutuamente. Mas permanece o fato de que restam poucas pessoas para não condenar absolutamente o capitalismo".

"O florescimento grandioso, mas também terrível, do capitalismo atual", sustenta Ernst Troeltsch, "com sua calculabilidade e sua ausência de alma, com sua exploração e falta de compaixão, com sua entrega à ganância pela ganância, com sua implacável competência, com sua necessidade agônica de vitória e triunfal alegria mundana pelo domínio do mercado, se desligou por completo de todo compromisso ético e se converteu num poder antagônico a todo autêntico calvinismo e protestantismo". A crítica é evidente. O filósofo e teólogo alemão protestante repete todos os preconceitos que se tornariam, nas décadas seguintes, o lugar comum da direita conservadora e da esquerda revolucionária. Troeltsch não foge, infelizmente, ao preconceito ideológico. Ele conclui que as teorias éticas que servem de base à ordem de vida capitalista acabaram caindo, diversamente, em mãos de um utilitarismo religiosamente indiferente.

Poucos anos antes de Adam Smith haver publicado o seu famoso Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, onde propôs o "sistema óbvio e simples de liberdade natural" na economia, já Rousseau começara a denunciar os ricos, "/es méchants". Principiara também a santificar os pobres e subdesenvolvidos e a propor o retorno à Natureza, conselho funesto que, se tivesse por todos sido seguido, teria certamente feito abortar a Revolução Industrial. A partir da "Conspiração dos Iguais" de Gracchus Babeuf, em 1795, no

ladrão"

crepúsculo da Revolução Francesa, a semente de uma ideia contrária à de Adam Smith começa a medrar. O ano de 1830 pode ser oferecido como o do nascimento da literatura socialista. O ano de 1848 é a data marcante do Manifesto Comunista de Marx e Engels. Doravante, e paralelamente ao sucesso fenomenal da Revolução Industrial capitalista - que, da Inglaterra em primeiro lugar, passa para a França e a Alemanha, depois para os Estados Unidos, para o resto da Europa e, finalmente, o resto do mundo - uma tendência crescente no desenvolvimento da civilização ocidental tem sido a de condenar o mercado, fazer intervir o Estado para corrigir desigualdades supostas ou reais, cercear os impulsos de empresa, suspeitar do lucro, taxar a renda com impostos progressivos e, de um modo geral, elaborar, em torno do conceito de uma burocracia encarregada de restabelecer a moral social, o aforismo da Primeira Epístola de São Paulo a Timóteo (6:10) "porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro" - sentença que os romanos conheciam sob a forma cupiditas radix malorum, e o auri sacra fames ("ó, abominável cobiça do ouro") de Virgílio. Reemergia o velho rancor do Cristianismo primitivo quando São Jerônimo afirmara: "um homem rico é ladrão ou filho de

Inicialmente, a Igreja, conservadora, manteve-se neutra nesse debate que não afetava ainda os países católicos. Sem demonstrar simpatia alguma pelo Liberalismo - do qual a economia liberal capitalista é expressão - nem tampouco pela Revolução Industrial modernizante, a Igreja parecia manter-se em sua teimosa preferência pela escassez do passado medieval. Alguns clérigos, entretanto, como Lamennais na França, já anunciavam em seu suposto ímpeto "liberalizante" a tendência socializante coletivista de esquerda que, sob inspiração de Teilhard de Chardin e outros jesuítas, iria contaminar a Igreja depois do Concílio Vaticano I. As soluções radicais ao problema da desigualdade começavam a atormentar os pensadores católicos, em virtude do espetáculo óbvio do enriquecimento das classes empenhadas no desenvolvimento industrial. A partir das encíclicas sociais de Leão XIII e, não obstante sua oposição formal ao totalitarismo político, a Igreja passou de modo mais evidente a se colocar no campo oposto aos que encabeçavam o avanço da humanidade. A Populorum Progressio é, nesse sentido, profundamente ambígua, como supremamente incoerente foi o papa Paulo VI, que a promulgou. A encíclica Agravou a ojeriza ao desenvolvimento moderno, pelo fato de conscientizar para a associação do espírito do capitalismo com a ética protestante individualista de trabalho e poupança. O capitalismo, nas nações formadas pela afirmação vital do puritanismo calvinista, emergia como fundamentalmente oposto ao ideal de pobreza evangélica de humildade e controle eclesiástico que persistia no mundo católico. A índole autoritária e comunitária do catolicismo não fora radicalmente rompida após o aggiornamento do Vaticano I, de modo que as portas se abriam à invasão da Igreja pelos agitados clérigos frustrados em seu voto de castidade e comprometidos com as ideologias coletivistas, revolucionárias, igualitárias e social-estatizantes. O alegado egoísmo utilitarista, materialista e interesseiro da atividade econômica, numa "economia naturalmente livre", conforme a fórmula admirável de Adam Smith, parecia se revelar essencialmente diabólico e pecaminoso. Sem acolher de modo algum o comunismo, a Igreja parecia considerar o capitalismo como contrário ao mandamento de amor e altruísmo implícito na ética cristã, luz de tais considerações seria mais fácil compreender o sucesso fenomenal que alcançou, entre nós, a pseudo-Teologia da Libertação nos meios da Esquerdigreja. Capitalismo versus cristianismo - eis a alternativa que se nos foi apresentada. Alternativa que envolve o problema mais vasto da compatibilidade entre um cristianismo de exigências absolutas e a própria Cultura, conforme foi debatido com a maior angústia pelos filósofos místicos russos do século passado e do atual. Se não devemos acumular bens neste mundo mas apenas aguardar aqueles que nos são reservados no mundo que há de vir, então certamente o capitalismo não tem vez numa sociedade cristã. Ele será excomungado do mesmo modo como foi o jovem rico a quem Jesus inutilmente convidou a converter-se. Durante dois mil anos, esporadicamente, seitas comunistas e milenaristas radicais desafiaram a ortodoxia. A opção preferencial pela pobreza é antiga. O fenômeno novamente se repete.

O socialismo se revelou assim, com clareza meridiana, não ser outra coisa senão uma espécie de heresia3

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