(Parte 10 de 16)

A prática tem demonstrado, no entanto, que embora as equipes de saúde sejam capazes de desenvolver suas tarefas, o trabalho como um todo, inclusive a vacinação, pode correr riscos, se não forem desenvolvidas ações concomitantes de mobilização e envolvimento das comunidades.

A vacinação é uma ação preventiva oferecida à população e sua utilização por essa mesma população depende, necessariamente, de decisão pessoal em ir se vacinar, ou de decisão dos pais ou responsáveis em levar suas crianças. O serviço de saúde não pode pretender, sozinho, interferir ou influenciar no poder de decisão, que é pessoal e intransferível. As equipes de saúde precisam contar com o apoio e a participação da população, mas precisam também contribuir para que a população se conscientize de que saúde é um direito; um direito que inclui a vacinação.

Para isso, é necessário que a equipe de saúde adote uma atitude mais ativa em busca da participação da comunidade, em todos os momentos da prestação de serviços: desde o diagnóstico, no planejamento, até a execução e a avaliação, levando-se em conta a atenção à saúde de forma global, pois no trabalho com a população fica difícil tratar apenas de uma questão, quando ter saúde é bem mais complexo.

Além disto é importante considerar que a vacinação e também outros serviços de saúde não são encarados pela população como um direito de cidadão.

Organizar-se para trabalhar a vacinação, junto com a população ou suas representações, pode ser um primeiro passo, um ponto de partida para uma ação mais abrangente em termos de solução dos problemas de saúde. É ilusório acreditar que uma comunidade usuária de um serviço ineficiente, que não atende às suas necessidades básicas, passe a acreditá-lo por conta somente da vacinação.

8.1. Articulaçªo com as organizaçıes da comunidade

A articulação com as organizações da comunidade, governamentais ou não governamentais, tem por objetivo o engajamento de seus representantes na prestação de serviços de saúde, desde o diagnóstico da situação até a execução e avaliação das ações. A interação com a população é mais efetiva quando se atua por meio dessas organizações, consideradas, na maioria dos casos, como formas legítimas de representação e canais de expressão.

Essa articulação pode ser viabilizada dentro de comissões de saúde, ou seja, dentro de órgãos colegiados, em que representantes da comunidade da área de abrangência do serviço, junto com a equipe de saúde, discutem e decidem sobre: os principais problemas de saúde existentes; as medidas para a solução desses problemas e prioridades de atendimento, como, por exemplo, as formas de colaboração da comunidade em apoio às ações de vacinação.

A tarefa de acompanhar e fiscalizar as ações que são desenvolvidas e de participar da avaliação da qualidade dos serviços, ou seja, as funções de fiscalização e controle social, são desempenhadas principalmente pelos conselhos de saúde que exercem esses papéis junto aos gestores da saúde, nas instâncias nacional, estadual e municipal.

FUNASA - agosto/2001 - pÆg. 40

8.2. Capacitaçªo de pessoas da comunidade

Por intermédio da capacitação de pessoas da comunidade, especialmente aquelas vinculadas às organizações e representações, viabiliza-se a participação efetiva no diagnóstico, na programação, na execução, no controle e na avaliação das ações. Não há como participar sem compreender os pontos básicos do tema ou da área a ser trabalhada. A equipe de saúde dispõe de informações e conhecimentos necessários para que as instituições e organizações sejam capazes de identificar problemas e propor mudanças.

A metodologia da oficina de trabalho é bastante apropriada para esse tipo de tarefa, por ser um espaço de expressão e exercício para a tomada de decisão. A oficina encara a educação dentro de novas abordagens, aproximando as pessoas e transformando relações verticais em trabalho de parceria. Além disso, permite a socialização do conhecimento com criatividade e sensibilidade, a partir da vivência do cotidiano.

A oficina e outras formas de treinamento podem ser realizados para que, por exemplo, pessoas de escolas, de igrejas e de associações de bairros aprendam a identificar sinais e sintomas de doenças evitáveis pela vacinação, comuniquem essas ocorrências ao serviço de saúde, exijam a adoção das medidas pertinentes e apóiem as equipes na investigação dos casos e na execução das ações de controle da situação.

Outra forma de capacitação consiste na inserção de temas de saúde em eventos da própria comunidade ou a promoção, pela equipe, de seminários, reuniões, encontros, feiras de saúde e outros. Pode-se, ainda, inserir conteúdos de saúde, de interesse local, nos currículos de primeiro e segundo graus, envolvendo professores, alunos e pais.

É importante reforçar que todas essas alternativas de capacitação devem estar incluídas no planejamento com o detalhamento sugerido no item 7.1.2 deste tópico.

8.3. Capacitaçªo das equipes de saœde para o trabalho com a populaçªo

Grande parte dos profissionais de saúde não está preparada ou motivada para trabalhar junto com a população, seja por falhas em sua formação básica, seja pela sobrecarga de trabalho, ou porque não dispõe das condições operacionais ou por ser este tipo de atuação considerado de pouco significado, de pouca importância.

Essa capacitação deve privilegiar as práticas de solidariedade em relação à comunidade, o que implica em treinar a capacidade de conhecer criticamente as condições de saúde da população, as condições da realidade social, econômica, política e cultural, para buscar junto com a população as soluções mais apropriadas. A metodologia adotada deve questionar a simples transmissão de informações ou o adestramento para tarefas, bem como a desconsideração pelos conhecimentos e experiências de trabalho e de vida das pessoas.

Alem de criar oportunidades específicas para esse tipo de capacitação, é importante garantir que essa preparação seja parte integrante de cursos, treinamentos e outros eventos, e que o trabalho conjunto com a população seja parte da rotina dos serviços, incluídos no planejamento, supervisão, acompanhamento e avaliação. Os recursos necessários à capacitação dos profissionais de saúde, para atuarem junto a pessoas, grupos e organizações da comunidade, devem estar previstos no planejamento.

8.4. Divulgaçªo de informaçıes

No planejamento são previstos os mecanismos e os instrumentos para divulgação de informações sobre as atividades do serviço de saúde, incluindo a vacinação, mais especificamente com o objetivo de:

•contribuir para que a população veja o serviço de saúde, inclusive a vacinação como um direito de cidadania;

•despertar o interesse da população para o esforço da equipe de saúde no sentido de aumentar e manter coberturas ideais de vacinação;

FUNASA - agosto/2001 - pÆg. 41

•incentivar a procura do serviço de vacinação e o cumprimento do esquema básico; •ampliar o grau de conhecimento sobre: −o direito do cidadão à saúde;

−a real situação das doenças evitáveis por vacinas na localidade, no município, no estado e no país;

−as ações oferecidas pelo serviço de saúde para a prevenção e controle dessas doenças;

−as formas de apoio e colaboração a essas ações;

−o andamento das atividades, seus resultados, falhas e dificuldades.

A divulgação de informações não pode ser uma atividade desvinculada do todo, mas considerada como um reforço ao trabalho conjunto das equipes de saúde com as organizações da comunidade, estando inserida num contexto em que as pessoas possam influenciar, interferir, opinar, participar.

É importante ressaltar que a informação por si só não modifica o modo de vida das pessoas, vez que os problemas de saúde são decorrentes de diferentes fatores com soluções bastante complexas, independendo muitas vezes da simples “mudança de hábitos e comportamentos”.

A divulgação de informações acontece no contato interpessoal e por intermédio dos meios de comunicação de massa, tendo como instrumentos de grande importância os materiais educativos e instrucionais. Considera-se como contato interpessoal todas as oportunidades de encontro entre o profissional de saúde e a população, dentro e fora do serviço de saúde. Algumas situações, exemplificadas a seguir, são tradicionalmente utilizadas para a divulgação de informações e para reforçar um trabalho conjunto de participação das instituições e organizações da comunidade.

8.4.1. Sala de espera

O trabalho na “sala de espera” acontece enquanto as pessoas aguardam o atendimento. Nesta ocasião um integrante da equipe propõe conversa informal sobre conhecimentos básicos de promoção e proteção à saúde, abordando, inclusive, o tema vacinação. É importante motivar as pessoas a perguntarem, a dividirem experiências sobre o assunto em discussão e a manifestarem suas dúvidas. O profissional após estimular e receber dos presentes opiniões sobre o assunto tem a oportunidade de fazer esclarecimentos e orientações mais pertinentes, afastando, inclusive, eventuais conceitos errôneos ou ultrapassados próprios daquele grupo.

As iniciativas programadas para a sala de espera não substituem as informações que devem ser repassadas pelos profissionais, nos contatos que ocorrem nos diversos setores do serviço de saúde (recepção, triagem, ambulatório, etc.), constituindo um esforço adicional.

A definição da programação de atividades na sala de espera é precedida de discussão entre os profissionais, identificando e verificando qual a melhor forma de abordagem dos temas de interesse da equipe e da comunidade.

8.4.2. Visita domiciliar

A visita domiciliar é um recurso que torna mais ativa e rica a relação entre o serviço de saúde e a população. O diálogo com a família na moradia também ajuda os profissionais a terem uma visão mais objetiva da realidade de vida e saúde da população.

A visita domiciliar é a principal base do Agente Comunitário de Saúde. De maneira geral, a visita é aproveitada para uma avaliação geral da saúde e condições de vida da família, evitando-se aquela destinada a atender a apenas um motivo específico. A ida aos domicílios constitui prática permanente , atendendo a vários objetivos importantes, tais como:

•identificar situações de risco à saúde;

•orientar sobre as formas de prevenção;

•informar sobre quando e como a família deve dirigir-se ao serviço de saúde, sobre a sua localização ou, até mesmo, conduzir a família, sob cuidados, ao próprio serviço no caso de situações de alto risco.

FUNASA - agosto/2001 - pÆg. 42

Eventualmente, no interesse da vacinação, a visita domiciliar pode ser organizada para, por exemplo, avaliar o estado vacinal, identificar crianças em faixa etária própria à vacinação, fazer busca ativa de faltosos que foram identificados pelo serviço, ou fazer a investigação de casos de doenças e agravos. Nas áreas onde funcionam o PSF e o PACS as finalidades da visita domiciliar que interessam diretamente à vacinação podem ser atendidas por essas equipes, que já têm esta atividade como rotina de trabalho.

8.4.3 Atividades na comunidade

Motivar a população em geral para a vacinação, especialmente pais e adultos responsáveis por crianças, exige dos profissionais de saúde uma articulação efetiva com a comunidade. Participar das reuniões promovidas pelas organizações e instituições, informando, educando e partilhando dos problemas e inquietações, demonstra o interesse do serviço de saúde pelo bem-estar de todos.

A iniciativa pode partir, também, do próprio serviço de saúde, mediante a convocação de assembléias abertas ou reuniões em lugares públicos. É importante contatar, com antecedência, líderes locais ou pessoas com influência na comunidade (professor, padre, pastor, etc.) para colaborarem na organização e divulgação da reunião e na sensibilização da comunidade para participar. A utilização de meios audiovisuais (cartazes, transparências, vídeos, quadro de giz, folhetos, cartilhas, etc.) ajuda bastante na condução dos trabalhos. Da mesma forma, pode-se dividir os participantes em grupos para uma discussão mais rica e produtiva.

Os eventos culturais, previstos no calendário de festividades do município ou do estado, podem representar uma oportunidade para trabalhar com a população acerca de medidas de promoção e de proteção à saúde. É imenso o campo para o exercício da criatividade: circo, teatro de bonecos e dramatizações possuem linguagem simples e eficiente para estimular o interesse da população sobre vários temas, como a vacinação, por exemplo.

Gincanas e outras competições esportivas, de forma geral muito bem aceitas pela população, são iniciativas para as quais pode-se, também, canalizar comunicações ou mensagens sobre a saúde. A realização de “Feiras de Saúde” ou “Semanas de Saúde”, envolvendo toda a comunidade ou grupos específicos como escolares, é importante estratégia de mobilização e envolvimento da comunidade.

(Parte 10 de 16)

Comentários