Desenvolvimento Sustentável

Desenvolvimento Sustentável

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

  1. Conceitos Básicos

O desenvolvimento de nossa sociedade urbana e industrial, por não conhecer limites, ocorreu de forma desordenada, sem planejamento, à custa de níveis crescentes de poluição e degradação ambiental. Esses níveis de degradação começaram a causar impactos negativos significantes, comprometendo a qualidade do ar e a saúde humana em cidades como Los Angeles e Londres, transformando rios como o Tamisa, em Londres, o Sena, em Paris, o Reno, na Alemanha, e o Tietê, em São Paulo, em verdadeiros esgotos a céu aberto, reduzindo a fertilidade do solo e aumentando as áreas desérticas.

A tecnologia demonstrou então que poderia contribuir de forma efetiva na reversão de situações críticas. Métodos de planejamento, modelos matemáticos, equipamentos para controle de poluição e processos tecnológicos alternativos menos poluentes formam desenvolvidos. Isso possibilitou a correção de problemas existentes, como também a estimativa antecipada de efeitos e impactos de situações hipotéticas futuras por meio de simulações com modelos físicos e matemáticos. Passou-se, assim, a admitir que existem limites que devem ser respeitados e que a tecnologia é fundamental, mas não é capaz de resolver todos os problemas quando alguns limites, às vezes desconhecidos, são alcançados (efeito estufa, depleção da camada de ozônio).

Desenvolvimento sustentável é um conceito que foi proposto pela ‘Comissão Mundial de Desenvolvimento e Meio Ambiente’ em 1987. Essa comissão foi formada em 1984 pela Organização das Nações Unidas, tendo como coordenadora a primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland. A comissão incluía 23 membros de 22 países. Por três anos consecutivos a comissão e seus assessores estudaram os conflitos entre os crescentes problemas ambientais e as necessidades quase desesperadoras das nações em desenvolvimento. Concluíram que era tecnicamente viável prover as necessidades mínimas, grosseiramente o dobro da população mundial, até o próximo século de forma sustentável e sem degradação continuada dos ecossistemas globais. A comissão definiu em seu relatório final com título ‘Nosso Futuro Comum’ o conceito de desenvolvimento sustentável: “Atender às necessidades da geração presente sem comprometer a habilidade das gerações futuras de atenderem suas próprias necessidades.”

    1. Natureza das medidas de controle e dos fatores da degradação ambiental

Uma primeira forma de classificar as medidas destinadas ao controle da degradação ambiental seria separá-las em medidas preventivas e medidas corretivas.

As medidas preventivas, como seu próprio nome indica, devem antecipar-se e impedir ou minorar a ocorrência dos fatores de degradação. Duas razões principais tornam preferencial a aplicação dessas medidas. A primeira é por sua implantação depender de custos financeiros menores e, portanto, pressionar menos os caixas públicos e privados na disputa de recursos que são sempre escassos para atender o conjunto das demandas da sociedade. A segunda razão é que as medidas preventivas serão mais eficazes se tomadas antes da ocorrência de degradação ambiental e de conseqüentes outros custos de natureza econômica e social nem sempre traduzíveis em valores monetários, mas nem por isso destituídos de importância. Em contrapartida, sua aplicação depende de a sociedade estar suficientemente organizada para planejar e gerenciar os processos socioeconômicos e assegurar o principal objetivo dessas medidas, que é a distribuição das atividades humanas no espaço e no tempo (planejamento territorial e de uso do solo) de maneira compatível com padrões desejáveis de qualidade ambiental.

As medidas corretivas, embora necessárias para situações já existentes, são em geral onerosas e muitas vezes de implementação difícil. Dependem não só de a sociedade reservar os recursos necessários para implantá-las, como também da sua capacidade de acessar e aplicar técnicas e tecnologias nem sempre triviais e sob seu efetivo domínio.

Podemos ainda classificar as medidas de controle em estruturais e não estruturais.

As medidas estruturais são aquelas que envolvem a execução de obras (por exemplo, construção de estações de tratamento de esgotos urbanos e industriais e barragens de regularização de vazões para aumentar a diluição de poluentes na água) e instalação de equipamentos (por exemplo, filtros para retenção de material particulado de efluentes industriais lançados por chaminés na atmosfera) e, em geral, envolvem custos substanciais.

As medidas não estruturais não envolvem a execução de obras ou manipulação de equipamentos onerosos. São soluções mais baratas que procuram intervir nas causas que podem originar ou agravar um problema, evitando assim que ele ocorra ou permitindo seu controle. Como exemplo podemos citar a criação de áreas de proteção de mananciais na região metropolitana de São Paulo, que limita o desenvolvimento de atividades nessas áreas, evitando o comprometimento da qualidade da água que é usada para abastecimento da população. Trata-se de medida que procura compatibilizar ocupação do solo e proteção da qualidade da água, garantindo a preservação e o uso desse recurso natural essencial para o homem. As áreas de proteção ambiental têm motivações similares, mas com objetivo mais abrangente por envolverem a proteção de ecossistemas.

Outros exemplos de medidas não estruturais são a mudança para combustível com menos resíduos poluidores (uso de derivados de petróleo com baixo teor de enxofre para aquecimento de caldeiras) ou mudança de processo (uso de energia elétrica para aquecer as caldeiras), adoção de práticas conservacionistas na agricultura para controlar a perda de solo por erosão, exigência de estudos de impacto ambiental para licenciamento de atividades potencialmente poluidoras, necessidade de receita agronômica para aquisição de agrotóxicos e também zoneamento urbano e rural, orientando a utilização do espaço por atividades humanas.

As medidas não estruturais em geral devem ser respaldadas por leis e regulamentos, requerendo uma visão integrada e abrangente das questões. Portanto, do ponto de vista de sua implementação, são de maturação mais lenta, exigindo participação dos vários agentes envolvidos e muita negociações para compatibilizar interesses conflitantes.

Devemos ressaltar também que freqüentemente a eficiência das medidas estruturais para resolver problemas ambientais é posta em risco se não forem acompanhadas de medidas não estruturais correlatas. Por exemplo, a eficiência de uma rede de drenagem ou da canalização de um rio para controle de enchentes ficará comprometida se as áreas que drenam para esses locais sofrerem um processo contínuo de crescimento das áreas impermeáveis decorrentes da urbanização. Nesse caso, os volumes de escoamento gerados por chuvas iguais serão cada vez maiores ao longo do tempo, adiante da redução da quantidade de água infiltrada no solo. É o caso do Rio Tietê na região metropolitana de São Paulo. O controle do crescimento da área urbanizada é, portanto, vital para que as medidas estruturais de controle de enchentes não se tornem obsoletas. Assim, as medidas não estruturais são, em geral, necessárias e devem ser adotadas inclusive para complementar as medidas estruturais, mantendo-lhes e ampliando-lhes a eficiência.

A decisão sobre qual a melhor composição de medidas preventivas, corretivas, estruturais e não estruturais provém de análise de cada passo e constitui o primeiro, o mais importante e essencial passo do planejamento estratégico da gestão do ambiente.

Para evidenciar a complexidade do processo de degradação ambiental ao qual as medidas de controle devem se contrapor e ressaltar a necessidade de soluções integradas e de conjunto nesse processo, basta lembrar esquemática e simplificadamente alguns dos principais fatores intervenientes em um modelo explicativo simplificado dos impactos ambientais:

Como o principal fator causativo da poluição é o ser humano, podemos concluir que a poluição é fruto do crescimento populacional e, portanto, função direta do tamanho da população. Esse fato, já evidenciado anteriormente, indica que não podemos crescer indefinidamente num ambiente finito e que a estabilização da população humana é requisito básico para o desenvolvimento sustentável e a convivência com níveis aceitáveis de poluição.

Além do tamanho da população, é essencial considerarmos sua distribuição no espaço, ou a densidade demográfica. Grande parte dos problemas ambientais, como a poluição do ar e de curso de água, está associada às aglomerações humanas nas áreas urbanas. Nessas regiões, a densidade demográfica é elevada e a relação entre disponibilidade de recursos naturais na região e número de habitantes é baixa, implicando capacidade reduzida de assimilação de resíduos pelo ambiente.

A poluição somente ocorre quando as pessoas usam os recursos materiais e energéticos, gerando resíduos que causam impactos negativos no ecossistema. Assim, ela depende também da quantidade de recursos usados por indivíduo.

Devemos lembrar ainda que o uso de alguns tipos de recursos gera mais poluição que outros. Por exemplo, jogar uma lata de alumínio significa desperdiçar mais recursos e gerar mais poluição que usar uma garrafa de vidro reutilizável, já que a lata requer cerca de três vezes mais energia que a garrafa para ser produzida. Assim outro termo a ser considerado no modelo é a poluição gerada por unidade de recurso usado, que por sua vez depende da tecnologia utilizada na sua produção.

Outro fator do modelo em discussão é o tempo de resposta, ou seja, o tempo decorrido entre a ação e a resposta. Por exemplo, para estabilizar a população no planeta, cada família deveria ser somente duas crianças, que substituiriam seus pais após a morte, que seriam substituídos por seus dois filhos e assim sucessivamente. No entanto, se adotada hoje essa medida, a população continuaria crescendo e só iria se estabilizar em cerca de cinqüenta anos, porque grande parte da população mundial tem menos que quinze anos; com isso o número de pessoas que teriam filhos continuaria a crescer por décadas. Medidas que incentivam a adição de tecnologias limpas, do reuso e da reciclagem dão respostas lentas, envolvendo tempos superiores e uma década.

O sistema econômico também deve ser considerado no modelo, uma vez que ele é decisivo no controle da poluição. Por exemplo, incluir os custos do controle da poluição no preço dos produtos é uma forma recomendada de utilização de instrumentos econômicos para controle da qualidade ambiental.

Outro termo que deve constar do modelo simplificado em questão é o sistema político. Toda a parte legal do controle da poluição ambiental depende, para sua aprovação e implementação, de que o tema seja prioritário na agenda dos políticos.

Finalmente, devemos levar em conta também o sistema ético, ou seja, os valores culturais e tradições de uma sociedade. A aplicabilidade de leis e instrumentos econômicos pode ser comprometida se fizer contraposição a valores ou não se apoiar em comportamentos sociais de parcela significativa da população.

Outro ponto relevante a destacar é que os complexos problemas e desafios ambientais com que nos defrontamos são todos interligados e nem sempre explicáveis apenas em termos estritamente técnicos ou científicos. É extremamente importante lembrar da necessidade de se permear as análises e proposições com abordagens não apenas técnicas para que as ferramentas e os próprios conhecimentos técnicos tenham força e de fato proporcionem mudanças efetivas.

Quanto à ênfase dada à complexidade e interdependência dos termos do modelo, não significa dizer que os problemas ambientais não podem ser abordados por partes. Qualquer ação que atue isoladamente num dos termos aqui apontados no sentido de atenuar, corrigir ou evitar a poluição ou impacto ambiental já é um avanço. No entanto, é importante reconhecer que uma solução definitiva passa pelo entendimento das questões globais e de ações integradas e complementares nos vários termos considerados.

    1. A gestão do ambiente

Como primeiro e fundamental passo para essa gestão, fez-se necessária a identificação da natureza e porte dos valores em disputa causadores do conflito. As sociedades organizadas aprenderam, desde há muito, a distinguir duas grandes categorias de valores. Valores universais (ou de acesso universalizado), que são aqueles a que todos os seus membros devem ter acesso assegurado indistinta e uniformemente, estando relacionados à essencialidade da vida.Valores individualizáveis (ou de acesso individualizado), que são os acessíveis a cada membro na medida de sua capacidade relativa de alcançá-los, capacidade essa aceita e reconhecida pela sociedade.

Relevadas as diferenças de complexidade das sociedades humanas, pode-se dizer que a concepção dessas duas categorias de valor pode ser compatível com o objetivo de uma reinserção harmoniosa das atividades do homem na biosfera. Quando a insuficiência do padrão de comportamento baseado no patrimônio genético demonstrou-se insuficiente para disciplinar os conflitos nas sociedades humanas, foi com base nessas categorias de valor que se construiu um novo referencial de comportamento. Para tanto, as sociedades humanas, desde as mais antigas até as mais modernas, autodotaram-se de códigos, constituições, leis, políticas públicas, processos socioeconômicos e instituições postas a serviço desses, com o objetivo de zelar pelo acesso de seus cidadãos e esses valores.

No caso do ambiente, o encaminhamento da solução dos conflitos internos à humanidade e desta aos demais seres vivos, passou a depender, além do disciplinamento de natureza genética, de outros disciplinamentos criados pela própria humanidade.

Para cumprir sua função de disciplinar o acesso da humanidade ao ambiente, dirimindo ou solucionando os conflitos entre seus membros e desses com os demais componentes da biosfera, a gestão do ambiente compreende várias fases.

Começa pela identificação dos valores envolvidos nesses conflitos, tarefa complexa e ainda hoje sem uma solução plena e universalmente aceita. Seguem-se as demais, de diferentes graus de dificuldade e quase sempre longo período de maturação, que em seu conjunto constituem uma Política Ambiental. São elas a identificação dos objetivos, a conceituação e institucionalização do sistema de gestão e dos instrumentos econômico-financeiros, legais e técnicos que o compõem.

No detalhamento dos objetivos da gestão do ambiente devem estar contemplados de forma diferenciada os valores universais e os valores individualizáveis. Entre os primeiros estão os que dependem, por exemplo, de garantia do acesso indistinto em quantidade e qualidade aos bens ambientais essenciais à vida por meio de constituições, códigos, etc. Entre os segundos, por exemplo, estão aqueles associados ao acesso aos bens ambientais para as atividades de produção econômica.

Da mesma forma, os instrumentos técnicos, econômicos e legais da gestão do ambiente têm de estar subordinados a essa mesma categorização de valores. Ou seja, não devem impedir o acesso aos bens ambientais associados a valores universais, mas sim estabelecer condições (técnicas, econômicas e legais) para o acesso aos bens ambientais associados a valores individualizados.

  1. Economia e meio ambiente

    1. A questão ambiental no âmbito da economia

A teoria econômica ensina que o acesso aos bens e serviços existente em uma sociedade fica adequadamente disciplinado quando todos eles efetivamente se subordinam às leis econômicas. Em outras palavras: nesse caso e somente nesse caso, todos os conflitos são resolvidos de modo a atender aos objetivos da economia a que se subordinam. Infelizmente nem a prática nem mesmo a teoria econômica têm condições de abranger e disciplinar todos os bens e serviços existentes.

Em todos os modelos econômicos socialmente aceitáveis o objetivo é o mesmo. Simplificadamente, esse objetivo pode ser resumido em atender à maior quantidade das demandas mais valorizadas pelo conjunto da sociedade, utilizando a menor quantidade possível dos bens que são escassos. De outro modo pode-se dizer que o objetivo da economia é obter uma alocação ótima de bens escassos.

Embora as economias reais nunca sejam exatamente iguais aos modelos econômicos formulados, todas as economias atuais subordinam-se mais ou menos a um dos dois modelos fundamentais existentes. O modelo denominado de economia de mercado é o que está hoje presente em praticamente todos os países. O da economia centralmente planejada é hoje uma exceção, sendo o modelo econômico chinês o que mais se aproxima dele.

Os bens que se incluem na economia de mercado ten acesso disciplinado pela lei da oferta e da demanda (ou da oferta e da procura) mostrada a seguir.

A curva da demanda traduz a disposição a consumir um determinado bem ou serviço (às vezes denominada disposição a pagar). A curva da oferta traduz a disposição a produzir esse bem ou serviço. O ponto de encontro entre as curvas de oferta e demanda traduz o resultado do confronto entre as duas disposições e identifica o preço e a quantidade ofertada (e consumida) em condições de equilíbrio. Níveis de preços maiores do que o de equilíbrio levam à produção de quantidades em excesso às necessárias. Níveis mais baixos do que o de equilíbrio levam a demandas maiores do que a produção ofertada e, portanto, à escassez. O preço de equilíbrio (ou simplesmente o preço de mercado) é a variável que fundamentalmente estabelece quanto desse bem vai ser consumido/produzido nesse mercado.

Como conseqüência importante desse mecanismo deve ser ressaltado que só os indivíduos que têm capacidade para pagar esse preço podem ter acesso ao bem ou serviço correspondente. Desde logo fica evidente que os bens aos quais estão associados valores universais não estão ou não podem estar submetidos às leis do mercado se os preços por ele ditados impedirem o acesso de alguém e esse bem nos níveis mínimos estabelecidos pela sociedade.

Por último, deve-se destacar, ainda segundo os ensinamentos da economia, que esse preço de equilíbrio leva à alocação de bens escassos de maior eficiência econômica. Ou seja, a alocação à qual o total dos benefícios associados ao desfrute desses bens menos o total dos custos associados à sua obtenção é a maior dentre todas as outras alternativas de alocação possíveis. Como condição básica para que isso ocorra o consumidor deve ter plena liberdade de escolha, ainda que haja livre concorrência no processo de produção. Isso se dá quando ocorre o que se denomina mercado livre ideal ou de competição pura. Como o nome diz trata-se de um modelo ideal raramente ou nunca encontrado em sua plenitude na economia real.

No gráfico esquemático apresentado ao lado, os bens podem ser classificados em quatro categorias ideais que permitem avaliá-los quanto à sua subordinação às leis de mercado. Para tanto basta confrontá-los com dois atributos, respectivamente: a exeqüibilidade ou não da exclusão de acesso de alguém ao bem e a natureza individual ou conjunta do consumo desse bem. Cruzando as possibilidades de ocorrência simultânea desses atributos, temos as quatro categorias ideais dos bens ou serviços classificados na economia:

  • Privados – aqueles de cujo desfrute (ou acesso) podem ser excluídos potenciais consumidores e que, por sua natureza, são passíveis de consumo individualizado;

  • Públicos (livres ou coletivos) – aqueles de cujo desfrute não se pode excluir ninguém e que, por sua natureza, só são passíveis de consumo conjunto ou coletivo. Esses bens são também denominados livres porque não são captáveis pelas leis de mercado (oferta e demanda), não sendo, portanto, possível a formação de um preço de equilíbrio que lhes discipline o acesso e sua alocação ótima;

  • Tributáveis – aqueles de cujo desfrute podem ser excluídos potenciais consumidores e que, por sua natureza, só são passíveis de consumo conjunto ou coletivo;

  • Partilhados – aqueles de cujo desfrute não se pode excluir ninguém e que, por sua natureza, são passíveis de consumo individualizado.

Os valores universais só podem corresponder a bens e serviços coletivos (públicos ou livres) ou partilhados, desde que a eles todos tenham acesso garantido. Os valores individualistas, em contrapartida, estão associados a bens e serviços privados ou tributáveis, desde que o acesso a eles seja seletivo.

Dentre esses quatro tipos ideais de bens e serviços apenas os privados podem ser completamente subordinados às leis da economia de mercado. Os partilhados e os tributáveis apenas em parte, estando os públicos totalmente fora de seu domínio. Portanto, esses últimos, não sendo captáveis pelo processo de formação de preço e por ele disciplinados, precisam ser disciplinados por meio de instrumentos legais denominados regulamentação.

Os bens e serviços ambientais existentes nas sociedades modernas, por suas características, em sua maioria assemelham-se e aproximam-se da categoria ideal de coletivos (públicos ou livres). Nessa condição, não estão sujeitos às leis econômicas, sendo, portanto, dependentes de legislação (regulamentação) que estabeleça os padrões ambientais que disciplinem o acesso e o desfrute deles. O exemplo das águas de um rio ou lago para usos como o paisagismo, lazer e recreação, usos esses naturalmente não individualizáveis, ilustra a afirmação anterior. Da mesma maneira citamos o exemplo das águas utilizadas para atender aos habitantes ribeirinhos, que as enquadram como bens públicos (no caso de o abastecimento ocorrer por meio de um sistema coletivo) ou como bens partilhados (se o abastecimento for individual). Raciocínio semelhante, ao ser feito para o ar no atendimento das necessidades vitais, o qualificaria como um bem público. Já uma indústria, ao utilizá-lo como receptor de resíduos, estaria utilizando-o como bem tributável (usa-o em conjunto com outros e pode ser impedida desse uso).

Os bens e serviços ambientais, enquanto públicos, devem ser regulamentados pelo poder público como condição para que atendam aos objetivos igualmente públicos a que se destina o seu uso no atendimento de valores universais e, enquanto públicos, também só podem ser disciplinados (regulamentados) pelo poder público. Se assim não se fizer corre-se o risco de esse disciplinamento consagrar intencionalmente uma distribuição de valores individualizáveis que interesse a grupos, e não a toda a sociedade.

    1. A evolução da economia para abranger os bens e serviços ambientais

Na tentativa de subordinar os bens e serviços ambientais à economia, vários têm sido os caminhos percorridos, configurando no mínimo duas linhas de pensamento radicalmente distintas.

Uma delas aceita a possibilidade de que os princípios contidos na teoria econômica presentemente mais difundida e há mais tempo estudada, ou seja, a teoria neoclássica, são capazes de dar resposta às exigências de disciplinamento do acesso e desfrute dos bens e serviços ambientais. Há não mais do que três décadas ela vem sendo denominada de Economia do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Marques & Comune, 1997). A outra linha é uma contestação à anterior, sendo representada pelo que se tem denominado de Economia Ecológica.

Os antecessores mais radicais da teoria neoliberal, que desembocou na atual Economia do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais, contestavam a possibilidade de coexistência de um processo econômico eficaz concomitantemente com a rigidez de um controle ambiental imposto pela regulamentação. Refutavam também a necessidade de preestabelecer restrições ao livre acesso ao ambiente como condição indispensável para assegurar-lhe qualidade no nível desejado pela sociedade. Acreditavam os filiados a essa corrente de pensamento que os mecanismos da economia de mercado, assim como são capazes de regular em nível adequado o acesso da sociedade a todos os bens e serviços nele existentes, também podem cumprir papel semelhante relativamente ao ambiente. Bastaria para tanto integrá-los ao mercado. A forma sugerida para essa integração é a privatização do ambiente. Para consegui-la, propõem que o usuário que aufere do ambiente valores individualizáveis para benefício próprio ou com finalidades produtivas só tenha acesso a esse ambiente se for obrigado a absorver, como se fosse um custo do processo produtivo ou do desfrute, o valor atribuído pela sociedade ao bem ambiental utilizado. Uma forma de conseguir isso – assim entendem os partidários desta corrente – é obrigar o usuário a comprar do poder público o que se denomina direitos de uso desse ambiente, adquiridos em mercado de compra e venda especialmente criado para a negociação desses direitos. Se esse mercado funcionar sob as mesmas regras vigentes no mercado de competição pura, a utilização do ambiente se fará preservando as características que atendem aos interesses globais da sociedade.

Essa teoria tem seu lado se fascínio. De fato, os mecanismos de mercado substituiriam a regulamentação e, portanto, toda a estrutura técnico-legal e jurídico-administrativa necessária à fixação e fiscalização do cumprimento de padrões ambientais e de aplicação de sansões àqueles que não os obedecessem. Além disso, e como decorrência do funcionamento do mercado ideal de competição pura, os bens e serviços ambientais, juntamente com os demais, também estariam sendo utilizados no processo econômico com máxima eficiência e preservando o ambiente no nível desejado pela sociedade.

Entretanto, mesmo entre os economistas neoliberais, várias são as críticas feitas a essa radicalização, contestando-lhe a eficácia na preservação ambiental. Uma delas nega a possibilidade de que as regras efetivamente vigentes sobre o mercado criado para a aquisição dos direitos de uso possam sequer aproximar-se das de mercado de competição pura. Ao contrário, por meio de expediente conhecidos de apropriação desse mercado (como a oligopolização e a monopolização), apenas alguns poucos acabariam por ter exclusividade na utilização do ambiente de acordo com seus interesses privados, em detrimento tanto da eficiência do processo puramente econômico com do de preservação do nível de qualidade ambiental que satisfaça a sociedade.

Uma alternativa menos radical entende que a preservação do ambiente pode beneficiar-se da aplicação de uma cobrança (por exemplo, na forma de uma taxa) sobre os bens e serviços produzidos, de modo que os preços aumentados resultantes refletissem a avaliação que a sociedade faz do custo dos danos ambientais que decorrem dessa produção. Desse modo, por meio do mecanismo de mercado, os produtos mais poluentes seriam consumidos em menor quantidade em razão de seus maiores preços.

Apesar de Pigou ter formulado essa proposta já na década de 20, ela foi mais efetivamente retomada há cerca de vinte anos. No Brasil e particularmente no Estado de São Paulo sua aplicação só vem sendo cogitada nos últimos anos e só recentemente, a partir das novas constituições federal e estadual, respectivamente de 1988 e 1989, é que se criou a possibilidade dessa cobrança. Mais recentemente, por meio da lei estadual que criou a Política Estadual de Recursos Hídricos (Lei nº 7.663/91), foi estabelecida a cobrança pelo uso da água, seja como fonte de matéria e energia, seja como corpo receptor de resíduos. Desde então, vêm sendo elaborados os critérios que proporcionarão a cobrança imaginada por Pigou. Esses critérios fazem parte do projeto de lei nº 20, de 1998, que atualmente está em discussão na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.

Além desse mecanismo para a captação dos custos ambientais no processo produtivo, a versão pigouviana neoliberal pressupõe a existência da regulamentação para que esses dois recursos, em conjunto, possam disciplinar o acesso aos bens e serviços ambientais.

A Economia Ecológica constitui uma reação àquilo que considera como insuficiências dos princípios-base da economia tradicional, em face da natureza dos processos ecológicos nos ecossistemas e na biosfera, que são determinantes do equilíbrio e da qualidade de ambiente. Na sua visão a economia deve ser entendida como um subsistema (o subsistema econômico) originado da atividade humana, mas subordinado às leis fundamentais que regem os ecossistemas da biosfera.

De acordo com seu ponto de vista, a economia não pode ignorar, como tradicionalmente sempre o fez, que o fluxo da matéria e da energia é finito e limitado, conforme estabelecem os dois princípios da termodinâmica. Não pode também ignorar, por exemplo, que os fluxos líquidos de matéria e energia no subsistema econômico não são infinitos nem limitados e que não pode haver limites livremente arbitrados pela humanidade, uma vez que eles estão restritos à capacidade de os demais seres vivos (biocenose) veiculá-los a partir da energia proveniente do Sol e dos estoques de matéria (biótopo).

Os esforços de convergência entre as duas escolas têm dado alguns resultados, pelo menos no intercâmbio entre os muitos conceitos da Economia Ecológica (e mais especificamente da ecologia) e a abordagem econômica neoclássica do ambiente. Estão, entretanto, ainda distantes de produzir uma integração entre si e uma abordagem econômica do ambiente em condições de inseri-lo na economia real com todas as nuances que o caracterizam.

    1. Avaliação dos benefícios de uma política ambiental

Uma política ambiental, seja por meio de regulamentação que estabeleça padrões (de emissão, de lançamento, de ocupação e uso do solo e de uso dos recursos em geral), seja por meio de mecanismos econômicos (como a taxação das cargas poluidoras), deve ter como resultado mínimo uma redução da deterioração da qualidade ambiental, quando comparada com a que ocorreria caso essa política não fosse implantada. Pode ainda promover melhorias da qualidade ambiental pela recuperação de um nível maior de qualidade, a partir do progressivo atendimento aos padrões de qualidade ambiental impostos.

De um modo ou de outro, com a implantação de políticas ambientais a sociedade e os indivíduos passam a ter à sua disposição um ambiente potencialmente capaz de propiciar a satisfação de uma série de demandas antes impossíveis de serem atendidas. Elas vão desde as de natureza psicológica, ligadas ao prazer estético da contemplação do ambiente belo e acolhedor, passando pelas diretamente ligadas à produção e à eficiência do processo produtivo, como são a redução das perdas de materiais e equipamentos em um ambiente menos agressivo, chegando até às ligadas à saúde.

Por meio de processos físicos, químicos e biológicos há uma melhoria da qualidade ambiental. Em conseqüência, por causa dos processos econômicos, esse ambiente melhorado passa a constituir-se em um bem ou serviço para o qual existe demanda e ao qual as pessoas atribuem mais valor. Raciocinando desse modo, o bem ou serviço ambiental não difere de todos os demais bens e serviços considerados pela economia e para os quais o equilíbrio entre a oferta e procura (demanda) determina o preço que constitui o seu valor de mercado. Algumas peculiaridades dos bens e serviços ambientais impedem, porém, a existência do mercado e, portanto, do preço respectivo como uma medida de seus valores. Isso torna a tarefa de medir o valor da qualidade do ambiente mais complexa, dedicada e bem menos inequívoca, embora viável em muitos casos.

Uma das formas encontradas pelos economistas para medir esse valor baseia-se na Teoria do Benefício. Inicialmente desenvolvida para atender ao método do benefício-custo para avaliação econômica de projetos, vem sendo progressivamente aperfeiçoada para avaliar os valores de bens e serviços ambientais.

Segundo essa teoria, o benefício de uma melhoria ambiental para um indivíduo deve ser entendido como uma medida, em moeda, do aumento de seu bem-estar ou dos serviços a que ele possa ter acesso. A avaliação desse valor monetário baseia-se na hipótese de que um indivíduo, diante de duas situações alternativas, seja sempre capaz de dizer qual delas prefere ou se é indiferente às duas. Se uma melhoria ambiental acarretar a transição de uma dada situação para outra, o benefício decorrente dessa mudança pode ser medido de duas maneiras. A primeira, por meio do montante máximo de dinheiro que o indivíduo estaria disposto a pagar para não se ver privado dessa melhoria ambiental. Esse montante máximo é o que os economistas chamam de disposição a pagar e corresponde á quantidade que causa a indiferença do indivíduo entre pagar para usufruir da melhoria ou nada pagar e ficar sem acesso a ela. A segunda forma de medir é pelo montante de dinheiro que o indivíduo estaria disposto a aceitar como alternativa para não receber a melhoria ambiental. Esse montante é conhecido por disposição a aceitar. Corresponde à quantidade que causa a indiferença do indivíduo entre ter acesso à melhoria ou ficar sem ela, recebendo essa quantidade como compensação.

Apesar de essas quantidades não serem necessariamente iguais (a disposição a pagar está limitada pelos rendimentos do indivíduo, enquanto não há limitação para a disposição a aceitar), elas são praticamente coincidentes no caso da qualidade ambiental.

O cálculo do benefício como disposição a pagar depende de se conhecer as curvas de demanda de cada um dos vários bens e serviços de qualidade ambiental, conforme esquematização na figura a seguir.

A disposição a pagar por uma variação infinitesimal da quantidade de um determinado bem ou serviço ambiental a partir de uma quantidade Q, sendo p o preço que um indivíduo está disposto a pagar para adquirir essa quantidade, equivale ao incremento infinitesimal de benefício (B), ou seja:

dB = p dQ

A disposição a pagar que mede o benefício proveniente da passagem da quantidade à , correspondendo à integral entre estas duas quantidades, equivale à área sob a curva demanda,

No caso de bens e serviços que podem ser comprados em um mercado de funcionamento ideal ou perfeito, as curvas de demanda são facilmente disponíveis. Como não é este o caso dos bens ambientais, para determiná-las os economistas desenvolveram metodologias especiais trabalhosas, que nem sempre levam a resultados sufucientemente coerentes a ponto de ser indiscutíveis. A mais utilizada, a metodologia de enfoque ou de simulação de mercado, é de aplicação relativamente simples quando as melhorias ambientais acarretam efeitos comerciais. Nos demais casos, os estudiosos baseiam-se na possibilidade de existirem evidências indiretas do valor monetário dado ao bem ou serviço. O valor da melhoria da qualidade da água de um lago é um dos exemplos que ilustram esse método. Essa melhoria torna o lago mais aprazível e mais procurado para passeios, pesca, esportes náuticos, lazer e recreação em geral. O fato de as pessoas despenderem tempo e dinheiro para ter acesso ao lago é uma indicação da sua disposição a pagar para poder usufruir dele e denota a valorização monetária (ou benefício) da melhoria da qualidade ambiental.

A figura acima sintetiza, por meio dos principais blocos de atividades, situações e processos que constituem as principais etapas compreendidas na avaliação dos benefícios de uma política ambiental, relacionando-as com os correspondentes blocos de medidas técnico-gerenciais que lhes dão suporte.

A primeira etapa desenvolve-se com a redução da quantidade de poluentes lançada no meio e com a efetivação das demais medidas de recomposição e valorização do ambiente. Para iniciá-la, porém, é preciso que tenham sido estabelecidos e implementada a aplicação dos mecanismos legais e econômicos citados nos itens precedentes que compõem a política ambiental e que obrigam a essas medidas de recomposição. A avaliação da redução da quantidade de poluentes e da extensão das medidas de recomposição e a valorização do meio que se efetivarão pressupõem um grau elevado de conhecimento da realidade. Esse conhecimento pode ser obtido por meio de cadastros de atividades poluentes existentes e previstas, o que nem sempre é disponível na gestão pública das coletividades menos desenvolvidas.

A segunda etapa compreende uma série de processos físicos, químicos e biológicos (todos eles naturais, eventualmente acelerados por medidas artificiais) por meio dos quais o ambiente transforma-se até alcançar um nível mais alto de qualidade. Para antecipar ou prever os resultados desses processos é indispensável ter os conhecimentos técnico-científicos necessários à formulação de modelos que simulem o comportamento da natureza. Essa etapa completa-se quando a melhoria ambiental alcançada é acompanhada dos correspondentes efeitos favoráveis. Eles podem ser diretos, decorrentes do aumento da disponibilidade e uso de bens e serviços (recreação e lazer, pesca, água, ar e solo como insumos mais favoráveis à produção etc.), e indiretos, que resultam da redução de perdas de materiais e equipamentos por menor agressividade do ambiente.

Entretanto, esses efeitos só se tornam concretos para a avaliação da política ambiental se conhecidos na forma de indicadores de qualidade ambiental ou de indicadores de atividades econômicas. A avaliação pode ser feita depois de a melhoria da qualidade ambiental e dos efeitos correspondentes terem ocorrido, baseando-se nas medidas registradas tanto por uma rede de monitoramento ambiental como por um sistema de coleta de indicadores econômicos previamente existentes ou especialmente definidos e implantados. Se o que se deseja é a antecipação dessa avaliação nas várias fases da aplicação da política ambiental, é necessário ter modelos econométricos capazes de prever os resultados a serem alcançados pelos índices econômicos.

Chega-se por fim à terceira etapa, formada pela avaliação dos benefícios. Tanto essa etapa quanto os procedimentos que a antecedem podem ser avaliados quanto à sua extensão e complexidade a partir da descrição discutida no início deste item.

    1. A cobrança pelo uso dos recursos ambientais

A teoria econômica demonstra que o valor ideal a ser cobrado deve ser igual ao valor dos danos causados por esse uso ao ambiente. Dessa forma, o consumo do produto, devido aos mecanismos de mercado e ao novo preço final que incorpora o valor dessa cobrança, cairá para o nível que corresponde à alocação mais eficiente dos recursos usados na sua produção, inclusive dos relativos ao ambiente.

Entretanto, as dificuldades para determinar o valor desses danos têm levado à procura de outros critérios para a fixação do valor a cobrar, mesmo à custa de perda em eficiência de alocação, mas com ganho de facilidade de cálculo e maior rapidez na cobrança. Dentre as alternativas já formuladas e testadas, uma das poucas que continua sendo aceita admite que o cálculo do valor a cobrar deva ser uma função do custo do controle da fonte de poluição. Não obstante as dificuldades decorrentes do desconhecimento dos custos de controle de poluição, especialmente em economias menos desenvolvidas e organizadas, é opinião corrente entre experientes técnicos nacionais que elas são superáveis. Mesmo o critério ideal a que nos referimos, baseado no valor dos danos, é de aplicação viável entre nós, de acordo com a experiência desses mesmos técnicos e com os resultados já obtidos em alguns exemplos pioneiros de sua avaliação.

Sobre quem deve ser onerado pela cobrança levou à formulação de um princípio, hoje amplamente aceito, conhecido por princípio do usuário pagador, sua aplicação à água foi recentemente consagrada entre nós por meio da lei que criou a Política Estadual de Recursos Hídricos (Lei Estadual nº 7.663/91). Basicamente, esse princípio estabelece que a cobrança deve onerar aqueles que são os usuários do bem ou serviço ambiental. Assim, por exemplo, a cobrança pelo uso da água, do ar ou do solo como receptores dos poluentes de um processo produtivo industrial deve onerar a indústria que emprega. Igualmente, o agricultor que capta água para irrigação ou o serviço de saneamento que capta água para irrigação ou para o abastecimento público também devem ser cobrados por esses usos.

A aplicação desse princípio nem sempre é simples e inequívoca, como pode parecer à primeira vista. Imaginemos o caso, por exemplo, de uma empresa, que ao captar água para abastecimento público tenha de construir uma grande represa. Muito provavelmente os efeitos benéficos dessa represa não atingirão apenas os usuários do sistema de abastecimento. Essa represa pode regularizar as descargas do curso de água, diminuindo a ocorrência tanto de vazões demasiadamente grandes de inundações como das demasiadamente pequenas, insuficientes para o atendimento das necessidades, em ambos os casos beneficiando populações ribeirinhas que podem não ser usuárias do sistema abastecedor. Do mesmo modo poderá propiciar benefícios de lazer e recreação (um dos usos da água cuja demanda mais cresce com a prosperidade geral) a grupos muito mais amplos do que apenas o dos usuários do abastecimento. Cobrar todo o custo da represa da empresa (e portanto dos usuários do abastecimento) é ignorar os demais usos que ela propicia.

Esse é um dos exemplos que justificaram a formulação de um outro princípio, freqüentemente utilizado como substituto ou mais propriamente como complemento indispensável do usuário pagador. Esse é o princípio do beneficiário pagador. Aplicado ao caso da represa anteriormente referida, ele justificaria estender a cobrança dos danos ambientais de sua construção e operação a todos os grupos que dela se beneficiam.

Sobre a forma de cobrança a ser utilizada depende da natureza do grupo o qual ela vai incidir. Se esse grupo é formado apenas por pessoas, grupos ou entidades identificáveis e individualizáveis, como é a situação mais comum de aplicação do princípio do usuário pagador, a cobrança pode ser feita por meio de taxa ou tarifa, incidindo sobre cada um deles. Se, ao contrário, a identificação só puder ser genérica e não individualizada, como é o caso dos beneficiários do controle de inundações e do lazer e recreação propiciados pela represa, a cobrança só pode processar-se de forma indireta, por meio de recolhimento de tributos pelo poder público. Tal tributo, denominado contribuição de melhoria, está previsto na Constituição Federal.

  1. Aspectos legais e institucionais

    1. Princípios constitucionais relativos ao meio ambiente e aos recursos ambientais

A matéria meio ambiente, na Emenda Constitucional de 07/10/1969 do Brasil, era tratada setorialmente, inserida nas normas de saúde pública e uso dos recursos naturais. Na realidade, a preocupação em dar enfoque integrado aos assuntos relativos ao meio ambiente no Brasil só ganhou força a partir da Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972.

A introdução da matéria ambiental na Lei Maior brasileira é um marco histórico de inegável valor, dado que as Constituições que precederam a de 1988 jamais se preocuparam com a proteção do meio ambiente de maneira específica e global. Nelas, sequer uma vez foi empregada a expressão ‘meio ambiente’, o que revela total despreocupação com o próprio espaço em que vivemos. Hoje, em 18 passagens há referências a essa locução.

A seguir indicamos alguns dos principais artigos que constituem, juntamente com as leis existentes, a base da formulação de políticas e execução de ações relativas ao meio ambiente e gestão dos recursos naturais.

  1. Bases do desenvolvimento sustentável

O modelo de desenvolvimento escolhido pela sociedade humana até atingir seu atual estágio pode ser representado pela figura abaixo.

Como podemos observar, o modelo representa um sistema aberto, que depende de um suprimento contínuo e inesgotável de matéria e energia que, depois de utilizada, é devolvida ao meio ambiente (joga fora). Para que tal modelo possa ter sucesso de desenvolvimento, ou seja, para que os seres humanos garantam sua sobrevivência, as seguintes premissas teriam de ser verdadeiras:

  • Suprimento inesgotável de energia;

  • Suprimento inesgotável de matéria;

  • Capacidade infinita do meio de reciclar matéria e absorver resíduos.

Podemos admitir que o Uso de Recursos (primeiro bloco) é inesgotável, já que o Sol é uma estrela que ainda poderá fornecer energia à Terra por 5 bilhões de anos. Em relação à matéria, a premissa não se verifica, já que sua quantidade é finita e conhecida. Quanto à capacidade de absorver e reciclar matéria ou resíduos, a humanidade tem observado a existência de limites no meio ambiente, e tem de conviver com níveis indesejáveis e preocupantes de poluição do ar, da água e do solo e com a conseqüente deterioração da qualidade de vida.

Dessa maneira, o crescimento populacional contínuo observado é incompatível com um ambiente finito, em que os recursos e a capacidade de absorção e reciclagem de resíduos são limitados. Devemos acrescentar a esse quadro o aumento do consumo individual que se observa no desenvolvimento da sociedade humana, que torna a situação mais preocupante ainda. Portanto, se o modelo de desenvolvimento da sociedade não for alterado, estaremos caminhando a passos largos para o colapso do planeta, com perspectivas nefastas para a sobrevivência do homem.

Devemos rever o modelo anterior para que, com lucidez e conhecimento científico, seja possível aumentar a probabilidade de sucesso de perpetuação da espécie humana. Os ensinamentos das leis físicas e do funcionamento dos ecossistemas fornecem os ingredientes básicos para a concepção do modelo que pode ser chamado de modelo de desenvolvimento sustentável. Ele deve funcionar como um sistema fechado, que tem como base as seguintes premissas:

  • Dependência do suprimento externo contínuo de energia (Sol);

  • Uso racional da energia e da matéria com ênfase à conservação, em contraposição ao desperdício;

  • Promoção da reciclagem e do reuso dos materiais;

  • Controle da poluição, gerando menos resíduos para serem absorvidos pelo ambiente;

  • Controle do crescimento populacional em níveis aceitáveis, com perspectivas de estabilização da população.

A figura a seguir ilustra como funciona o modelo de desenvolvimento sustentável. Um fato importante que diferencia este novo modelo daquele mostrado na figura anterior é a reciclagem e o reuso dos recursos aliados à restauração do meio ambiente. Devemos lembrar ainda que mesmo com a estabilidade da população e com o controle da poluição e a reciclagem o aumento do consumo nos países menos desenvolvidos para os padrões existentes em países desenvolvidos pode gerar desequilíbrios no balanço global de energia no planeta, acarretando mudanças globais de conseqüências imprevisíveis.

Para que a humanidade evolua para o modelo proposto, devem acontecer revisões comportamentais em direção ao novo paradigma. A sociedade atual já despertou parcialmente para o problema, mas há muito ainda para ser feito em termos de educação e cooperação entre os povos e em termos de meio ambiente. Nosso conhecimento sobre o funcionamento do planeta Terra ainda é pequeno, mas é suficiente para saber que precisamos aprender a habitá-lo e usufruir dele de maneira consciente e responsável, preparando-o para que possa continuar sustentando as gerações futuras.

Concluímos, então, que a engenharia é o caminho para se minimizar ou controlar a poluição e a degradação ambiental até que sejam compatíveis com o nível de desenvolvimento pretendido pela sociedade. Devemos lembrar que esse controle deve, preferencialmente, ser atingido por meio de medidas preventivas, isto e, com o planejamento do uso e ocupação do solo pelos humanos, em contraposição às medidas corretivas. Essas, embora às vezes necessárias, em geral requerem vultosos investimentos.

BIBLIOGRAFIA

- INTRODUÇÃO À ENGENHARIA AMBIENTAL, Benedito Braga et al. – São Paulo: Prentice Hall, 2002.

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