Alcoolismo - da causa à doença

Alcoolismo - da causa à doença

(Parte 1 de 4)

Tiago Alexandre Lopes R. Lino 1 w.Psicologia.com.pt Documento produzido em 14-1-2006

Trabalho de Licenciatura (2006)

Tiago Alexandre Lopes R. Lino

Psicólogo Clínico e de Aconselhamento pela Universidade Autónoma de Lisboa

Contactos: loptiago@gmail.com

Este trabalho tem como objectivo fazer uma descrição sobre o álcool como doença, onde é causa e onde é consequência do indivíduo que o utiliza como droga de abuso. Inicialmente, no primeiro ponto, é feita uma pequena abordagem histórica da origem do álcool, desde dos tempos mais remotos até à actualidade. No segundo ponto é destinado à definição do alcoolismo segundo alguns autores, tais como Magnus Huss, Morton Jellinek e Organização Mundial de Saúde (OMS). O terceiro ponto revela a epidemiologia portuguesa, contando com a incidência e prevalência existente no universo português.

O quarto ponto, é um ponto mais extenso que visa explicar um pouco melhor o fenómeno do alcoolismo, descrevendo os sinais e síntomas associados, alguns tipos de classificações do alcoolismo, segundo alguns autores e critérios de diagnóstico, quer de dependência, intoxicação e abstinência, segundo o DSM-IV-TR.

Os quinto, sexto e sétimo pontos remetem para as etapas e causas do alcoolismo desde do alcoolismo aguda até ao crónico, tendo em conta os factores sociais, culturais, de personalidade ou genéticos que causam determinados comportamentos alcoólicos; patologias consequentes a nível físico como a cirrose hepática ou a nível mental englobando um vasto leque de perturbações mentais. E por último, a (des)integração na vida social, descrevendo um pouco a vida de um alcoólico no seio familiar, profissional e social.

O oitavo e último ponto destina-se à intervenção terapêutica e prevenção da recaída, direccionadas para o tratamento do alcoolismo. Neste ponto é descrito três sub-pontos, o das psicoterapias que abarca os métodos e técnicas psicológicas usadas em várias abordagens, tais como nos Alcoólicos Anónimos (A) com o método dos doze passos; as psicoterapias de grupo; as psicoterapias familiares que dão especial importância ao papel da família na recuperação do alcoólico; e as psicoterapias de apoio essenciais no acompanhamento no período de longa abstinência. O sub-ponto seguinte é o dos psicofármacos, focando três dos mais utilizados, o Dissulfiram (Antietanol®), o Naltrexona (Revia®) e o Acamprosato (Campral®). Como último

Tiago Alexandre Lopes R. Lino 2 w.Psicologia.com.pt Documento produzido em 14-1-2006 sub-ponto, a prevenção da recaída que assenta nalgumas técnicas com o intuito de conseguir alterar o comportamento alcoólico de certo indivíduo, transformando-o noutro comportamento socialmente funcionante.

Palavras-chave: Alcoolismo, dependência, abuso, intoxicação, abstinência, intervenção e prevenção

(...) Tomou de seguida um cálice, deu graças e entregou-lhe dizendo: «Bebei dele todos. Porque este é o Meu sangue, sangue da aliança, que vai ser derramado por muitos para remissão dos pecados. Eu vos digo: Não beberei mais deste produto da videira até o dia em que o hei-de beber convosco o vinho novo no reino de Meu Pai».

Evangelho segundo São Mateus, Mt. 26, p. 1695 da Bíblia Sagrada

1. ORIGEM DO ÁLCOOL – UM POUCO DE HISTÓRIA

O álcool deve ser tão antigo quanto a própria Humanidade, o homem consome-o desde sempre pois a fermentação da fruta nunca foi um grande mistérios e já os nossos antecedentes primatas conseguiam produzir leves intoxicações mediante este processo.

O consumo do álcool, nas diferentes civilizações, inicia-se com a revolução neolítica, onde se dá um avanço nas tecnologias de fermentação, o que contribui para um aumento da produção de matérias-primas, como a cevada e frutas.

O hidromel (mistura fermentada de água e mel) e cerveja são, desde à milhares de anos, as mais consumidas. Registos datados de 20 a. C., apontam para um já consumo destas bebidas. Existem também registos de 500 a. C., na Babilónia do consumo de cerveja e vinho de palma. Os antigos egípcios tinham destilarias há já cerca de seis mil anos e praticavam o culto a Osíris como forma de agradecimento pela dádiva da cevada. Os gregos, por sua vez, transferiam esse mesmo culto para Dionísio, onde ofereciam bebidas alcoólicas a deuses e a soldados para facilitar as relações interpessoais. Os romanos agradeciam a Baco a criação do “vinho divino” e

Tiago Alexandre Lopes R. Lino 3 w.Psicologia.com.pt Documento produzido em 14-1-2006 foram eles que contribuíram para a regulação da produção do vinho e sua distribuição pela Europa.

O vinho tornou-se assim um fenómeno universal visível pela proliferação da taberna, local destinado ao consumo exclusivo de bebidas alcoólicas e que também assumiam um papel de relevo ao nível das relações e actividades públicas.

Também a nível da religião, o vinho é fortemente referenciado, tal como no excerto supracitado. O vinho era e é uma constante nas cerimónias religiosas, realçando as realizadas pelo Cristianismo, Aztecas, religião familiar chinesa, hinduísmo, bantu, entre outras. Uma das religiões que proíbe ou restringe é o Islamismo.

Até à data, as bebidas alcoólicas eram provenientes da fermentação, mas foi com os árabes que se iniciou a produção das bebidas alcoólicas por destilação, mas no entanto foram os cristãos mediterrânicos quem lideraram o desenvolvimento industrial da produção a partir do século XII, começando assim o seu desenvolvimento, atingindo o seu auge no século XIV e sendo implantada no resto da Europa.

Durante a Idade Média, o álcool esteve intimamente associado à saúde e bem-estar, tendo mesmo sido classificado como aqua vitae, tendo mesmo uma aplicação terapêutica em alguns casos de saúde. A actual terminologia, que tem etimologicamente duas palavras de origem, uma na palavra grega alkuhl que referenciava tudo o que dizia respeito ao espírito apoderado por produtos fermentados, outra na palavra árabe al-kuhul que significava líquido, só é adoptada nos finais do século XVI.

É já no século XVII, que os destilados passam a liderar a comercialização, substituindo os fermentados, e tornando-se num dos primeiros mercados mundiais.

Com a revolução industrial do século XIX, o mercados dos destilados adquire uma expansão bastante maior, aumentando notavelmente o seu consumo e por consequente aumentado também os problemas relacionados com estes produtos. É precisamente neste contexto que surgem também as primeiras leis de proibição, com a célebre Lei Seca por volta dos anos 20 do século passado, nos Estados Unidos da América e as primeiras campanhas de prevenção a partir dos anos 60, nos países desenvolvidos.

Actualmente, o mercado dos destilados e fermentados, em Portugal, é totalmente livre, embora esteja já legislado quanto à proibição da venda de bebidas alcoólicas a adolescentes com menos de 16 anos, mas todavia o álcool, é das drogas psicotrópicas, a mais consumida pelos jovens e adultos portugueses, nomeadamente em contexto social, ou seja, o álcool maioria das

Tiago Alexandre Lopes R. Lino 4 w.Psicologia.com.pt Documento produzido em 14-1-2006 vezes associado a outras drogas opiácias ou anfetaminas é usualmente é consumido em grupo, em festas, bares e discotecas.

A definição de alcoolismo, desde dos tempos mais remotos, mantém-se associada a status social, espécie de suporte às relações e interacções sociais. Mas é 1849 que surge o termo alcoolismo e uma das primeiras definições, com Magnus Huss, que definiu o alcoolismo como sendo «o conjunto de manifestações patológicas do sistema nervoso, nas suas esferas psíquica, sensitiva e motora, observado nos sujeitos que consumiram bebidas alcoólicas de forma contínua e excessiva e durante longo período».

Já mais tarde, com Morton Jellinek em 1960, a definição de alcoolismo é reestruturada e o comportamento do alcoólico passa a ser classificado como doença, dando-lhe assim uma noção de repercussão negativa e social. Jellinek definiu o alcoólico como «todo o indivíduo cujo o consumo de bebidas alcoólicas possa prejudicar o próprio, a sociedade ou ambos» e categorizou o alcoolismo como doença, tendo por base as quantidades de álcool consumidas, ou seja, o consumo de álcool torna-se patogénico quando há perda do controlo do mesmo e quando isso prejudica o indivíduo ou o meio em que está inserido.

Hoje em dia, a Organização Mundial de Saúde (OMS), define o alcoólico como «um bebedor excessivo, cuja dependência em relação ao álcool, é acompanhado de perturbações mentais, da saúde física, da relação com os outros e do seu comportamento social e económico».

3. EPIDEMIOLOGIA PORTUGUESA

O Alcoolismo em Portugal é um dos maiores problemas de saúde pública, tendo consequências dramáticas para a saúde dos portugueses, quanto ao consumo excessivo de álcool quer seja agudo ou crónico. É terceira maior causa de morte em Portugal, seguido das doenças cardiovasculares e das neoplasias, sendo responsável por aproximadamente por 6% dos óbitos em Portugal.

A primeira causa de mortalidade pelo alcoolismo deve-se às neoplasias das vias aerodigestivas superiores, causadas pela associação do tabaco e do álcool. A segunda causa deve-se a cirroses. Outras causas de morte pelo álcool são acidentes de circulação mortais (25 a 30%), acidentes de trabalho (10 a 20%), homicídios voluntários (2 a 3%) e suicídios (1 a 4%).

Tiago Alexandre Lopes R. Lino 5 w.Psicologia.com.pt Documento produzido em 14-1-2006

Actualmente o número de bebedores excessivos e dependentes em Portugal é difícil de contabilizar com precisão. Admitem-se geralmente um milhão de bebedores excessivos e cerca de quinhentos mil dependentes. No âmbito hospitalar, nomeadamente em doentes de clínica geral, estima-se que há uma prevalência de 25% de homens e 10% de mulheres com problemas ligados ao álcool.

O consumo do álcool é um fenómeno há muito existente, desde das mais remotas civilizações. Hoje em dia, o consumo de álcool é muito frequente pois não há evento ou celebração que não contenha bebidas alcoólicas. Isto sem referir o preocupante aumento do consumo dessas mesmas bebidas, nos adolescentes portugueses. Os pontos que se seguem abordam algumas classificações que existem, sinais e síntomas do indivíduo alcoolizado e os critérios de diagnóstico do alcoolismo, segundo o DSM-IV-TR.

4.1. Sinais e Síntomas do Alcoólico

Perante um indivíduo, é facilmente detectável sinais de consumo de álcool ou não só pelo simples rubor da face ou hálito com odor alcoolizado. Segundo Drummond (1992), os indivíduos alcoolizados são portadores de um conjunto de sinais comuns e são eles:

- Rubor e edema moderado da face, olhos túmidos, edemas das pálpebras, olhos lacrimejantes;

- Eritrose palmar;

- Hálito com odor alcoolizado;

- Descoordenação psicomotoras, vertigens e desequilíbrio;

- Tremor fino nas extremidades;

- Hematomas que podem indicar traumatismos durante a intoxicação ou alterações da coagulação induzidas por insuficiência hepatocelular.

Tiago Alexandre Lopes R. Lino 6 w.Psicologia.com.pt Documento produzido em 14-1-2006

Existem também outros sinais no indivíduo alcoolizado, mas estes por sua vez só são visíveis no consumo crónico e excessivo do álcool, como por exemplo, cãibras musculares, vómitos matinais, dores abdominais, taquicardia e tosse crónica.

Os indivíduos com hábitos de consumo excessivo, revelam também um conjunto de síntomas, podendo eles ser físicos ou psicológicos. Quanto aos síntomas físicos, manifestam-se como pequenos sinais de abstinência a nível neuromuscular caracterizado por tremores, cãibras ou parestesias; digestivo por náuseas ou vómitos; neurovegetativos por suores, taquicardia ou hipotensão ortostática e psíquicos por ansiedade, humor depressivo, irritabilidade, insónias ou pesadelos. A tolerância também é sintoma latente e caracteriza-se pela resistência aos efeitos do álcool.

Quanto aos síntomas psicológicos caracterizam-se por três elementos principais e são eles a alteração do comportamento face ao álcool, perda de controlo sobre o seu estado de alcoolização e desejo obsessivo de álcool. A perda de controlo foi uma noção descrita por Jellinek, o que ajudou em muito na compreensão da dependência alcoólica, pois o indivíduo ao não conseguir controlar a bebida depois de alguns copos é um dos principais fenómenos de dependência física, a isto os A caracterizam por alergia ao álcool. O desejo obsessivo do álcool (craving) é outro dos fenómenos de dependência, pois o indivíduo alcoolizado nunca está satisfeito com a quantidade consumida, levando-o a arranjar enúmeros e estranhos motivos para consumir bebidas alcoólicas. Por outro lado, um dos factores negativos que contribuem para o consumo é o “remorso matinal”, pois o indivíduo acorda pela manhã com um grande sentimento de culpa por ter bebido no dia anterior, criando-lhe assim uma elevada ansiedade o que o leva a consumir logo cedo para reduzir essa culpabilidade e ansiedade.

A este conjunto de sinais e síntomas no consumidor crónico de álcool, designa-se por síndroma de Hiperestésica Hiperemotiva. De facto os síntomas causam grande angústia para o indivíduo, pois ele bebe, mas como os síntomas são bastantes desagradáveis e desencadeadores de ansiedade, então ele continua a consumir álcool para reduzir esse mau-estar, mantendo-se no perpétuo limiar da ansiedade, torna-se portanto um círculo vicioso, em que o grau de tolerância ao consumo torna-se quase neutro.

4.2. Classificação do Alcoolismo

Segundo vários autores que classificam o alcoolismo, refiro quatro delas: a proposta por Cloninger em que, mediante a análise de três dimensões da personalidade, a procura da novidade,

(Parte 1 de 4)

Comentários