Refutação de alguns argumentos a favor da existência de deus

Refutação de alguns argumentos a favor da existência de deus

(Parte 1 de 3)

Refutação de alguns argumentos a favor da existência de deus

Ateus.net » Artigos/ensaios » Crítica ao teísmo

Autor: Dan Baker

Tradução: João Rodrigues Fonte: Sociedade da Terra Redonda

Os teístas afirmam que existe um deus; os ateus não. Pessoas religiosas desafiam freqüentemente ateus a provarem que não há deus; mas isso revela um equívoco. Os ateus afirmam que a existência de deus não está provada, não afirmam que está provada a inexistência de deus. Em qualquer argumento, o ônus da prova está do lado daquele que faz a afirmação.

Se uma pessoa afirma ter inventado um dispositivo anti-gravidade, não cabe a outros provar que tal coisa não existe. O crente tem de provar a sua afirmação. Todas as outras pessoas estão justificadas em recusar acreditar até que a evidência seja apresentada e substanciada.

Alguns ateus acham que o argumento é confuso até que o termo “deus” seja tornado compreensível. Palavras como “espírito” e “sobrenatural” não têm qualquer coisa que lhes corresponda na realidade, e idéias como “onisciente” e “onipotente” são contraditórias. Por que discutir um conceito sem sentido?

No entanto, há muitas linhas de raciocínio teísta e têm sido escritos livros sobre cada uma delas.

As seções seguintes resumem brevemente os argumentos e as refutações. O ateísmo é a posição base que permanece quando todas as alegações teístas são rejeitadas.

Design

“De onde veio tudo? Como é que explica a ordem complexa do universo? Não posso acreditar que a beleza da natureza simplesmente apareceu por acidente. O design requer um projetista.”

Este argumento limita-se a pressupor que é verdade aquilo que quer provar. Qualquer tentativa de “explicar” algo requer um contexto mais amplo dentro do qual a explicação pode ser compreendida. Pedir uma explicação do “universo natural” é simplesmente pedir um “universo mais amplo”.

O universo é “tudo que existe”. Não é uma coisa. Um deus certamente seria uma parte de “tudo que existe”, e se o universo requer uma explicação, então deus requer um [outro] deus, ad infinitum.

A mente de um deus seria pelo menos tão complexa e ordenada quanto o resto da natureza e estaria sujeita à mesma pergunta: Quem fez deus? Se um deus pode ser encarado como eterno, então o universo também pode ser encarado como eterno.

Há design no universo, mas falar de design do universo é apenas semântica teísta. O design que observamos na natureza não é necessariamente inteligente. A vida é o resultado do “design” nãoconsciente da seleção natural. A ordem no cosmos vem do “design” da regularidade natural. Não há qualquer necessidade de uma explicação mais ampla.

O argumento do design baseia-se na ignorância, não em fatos. O fracasso em solucionar um enigma natural não significa que não há resposta. Durante milênios os humanos têm criado respostas míticas para “mistérios” como o trovão e a fertilidade. Mas quanto mais aprendemos, menos precisamos de deuses. A crença em deus é apenas responder a um mistério com outro mistério e, conseqüentemente, não responde a nada.

“O universo é governado por leis naturais. Leis requerem um legislador. Tem de existir um Governador Divino.”

Uma lei natural é uma descrição, não é uma prescrição. O universo não é “governado” por coisa alguma. As leis naturais são meramente concepções humanas sobre o modo como as coisas normalmente reagem, não são mandamentos sobre o comportamento, como no caso de leis sociais. Se o argumento do design fosse válido, a mente de um deus seria igualmente “governada” por algum princípio de ordem, o que requereria um legislador superior.

“É impossível que a complexidade da vida tenha ocorrido por acidente, e a segunda lei da termodinâmica, que diz que todos os sistemas tendem para a desordem, torna a evolução impossível. Era necessário um Criador.”

Estas objeções pseudocientíficas baseiam-se em erros. Nenhum biólogo afirma que organismos apareceram subitamente num passo de mutação “acidental”. A evolução é a acumulação gradual de pequenas mudanças ao longo de milhões de gerações de adaptação ao ambiente. Os humanos, por exemplo, não tinham necessariamente de evoluir – qualquer uma de bilhões de possibilidades viáveis podia ter-se adaptado, tornando muito provável que algo sobreviveria à implacável seleção natural.

Usar probabilidades, depois do fato consumado, é como um vencedor da lotaria que dissesse: “É altamente improvável que eu pudesse ganhar esta lotaria, portanto não devo ter ganho”.

Os criacionistas deturpam muitas vezes a segunda lei da termodinâmica, que diz que a desordem aumenta num sistema fechado. A Terra, atualmente, é parte de um sistema aberto, recebe energia do sol. Conduzida pela entrada de energia solar (e outras formas de energia, como a química), a complexidade comumente aumenta, como no caso do crescimento de um embrião ou um cristal. Claro que por fim o sol arrefecerá e a vida na terra desaparecerá.

Experiência Pessoal

“Milhões de pessoas conhecem pessoalmente Deus através de uma experiência espiritual interior.”

A maioria dos teístas afirma que o seu deus particular pode ser conhecido através de meditação e oração, mas essas experiências não apontam para algo exterior à mente. O misticismo pode ser explicado psicologicamente; não é necessário complicar a nossa compreensão do universo com suposições fantasiosas. Sabemos que muitos humanos habitualmente inventam mitos, ouvem vozes, têm alucinações e falam com amigos imaginários. Não sabemos que existe um deus.

Há milhões de crentes em deus; mas essa é uma declaração sobre a Humanidade, não sobre deus. A verdade não é algo que se alcança através do voto. As religiões surgiram para lidar com a morte, fraqueza, sonhos e medo do desconhecido. São mecanismos poderosos para dar sentido à vida e identidade pessoal/cultural. Mas as religiões diferem radicalmente umas das outras, e apelos à experiência interior apenas pioram o conflito.

“Os ateus não têm discernimento espiritual e dificilmente poderiam criticar a experiência teísta de Deus. Isso seria como uma pessoa cega negando a existência das cores.”

Muitos teístas afirmam que deus é conhecido através de uma sensibilidade “espiritual”. Mas será que a fé é um “sexto sentido” que detecta outro mundo? Céticos negam que tal coisa exista.

A analogia com o cego não é apropriada porque as pessoas cegas não negam o sentido da visão, nem negam que as cores existam. Os cegos e os que vêem vivem no mesmo mundo, e ambos podem compreender os princípios naturais envolvidos. O caminho da luz pode ser traçado através de um olho normal até ao cérebro. As freqüências podem ser explicadas e o espectro pode ser experimentado independentemente da visão. A existência da cor não precisa ser aceita através da fé.

O teísta, porém, não apresenta qualquer meio independente de testar o discernimento “espiritual”, portanto temos de duvidar disso. O cético não nega a realidade de experiências religiosas subjetivas, mas sabe que podem ser explicadas psicologicamente sem referência a um domínio supostamente transcendente.

A afirmação implícita de que os teístas são os únicos seres humanos “completos” é infundada e arrogante.

Moralidade

“Todos nós temos um sentido do certo e do errado, uma consciência que nos coloca sob uma lei superior. Este apelo moral universal aponta para fora da Humanidade. É consistente que Deus, um ser não-físico, se relacionasse conosco através de tal meio sublime.”

Aqui está outro argumento baseado na ignorância. Os sistemas éticos baseiam-se no valor que os humanos atribuíram à vida: “bem” é aquilo que melhora a vida, e “mal” é aquilo que a ameaça. Não precisamos de uma divindade para nos dizer que é errado matar, mentir ou roubar. Os humanos sempre tiveram o potencial para usar as suas mentes para determinar o que é bondoso e razoável.

Não existe um “apelo moral universal” e nem todos os sistemas éticos concordam entre si.

Poligamia, sacrifícios humanos, canibalismo (eucaristia), espancamento da esposa, auto-mutilação, guerra, circuncisão, castração e incesto são ações perfeitamente “morais” em algumas culturas. Será que deus está confuso?

É contraditório chamar a deus “ser não-físico”. Um ser tem de existir como alguma forma de massa no espaço e no tempo. Os valores residem no interior dos cérebros físicos, portanto se a moralidade aponta para “deus”, então nós somos deus: o conceito de deus é simplesmente uma projeção de ideais humanos.

“Se não existe um padrão moral absoluto, então não existe certo e errado absolutos. Sem Deus, não há base ética e a ordem social desintegrar-se-ia. As nossas leis baseiam-se na Bíblia.”

Este é um argumento a favor da crença num deus, não é um argumento a favor da existência de um deus. A exigência de uma moralidade “absoluta” só vem de religiosos inseguros. (Voltaire ironizou: “Se deus não existisse, seria preciso inventá-lo”.) Pessoas maduras sentem-se confortáveis com o caráter relativo do humanismo, visto que este fornece um quadro de referência consistente, racional e flexível para o comportamento humano ético – sem uma divindade.

As leis americanas baseiam-se numa constituição secular, não se baseiam na Bíblia. Quaisquer textos bíblicos que apóiem uma boa lei só fazem isso porque passaram no teste dos valores humanos, que são muito anteriores aos ineficazes Dez Mandamentos.

Não há evidência de que os teístas são mais morais que os ateus. De fato, o contrário parece ser verdadeiro, conforme evidenciado por séculos de violência religiosa. Em sua maioria, os ateus são pessoas felizes, produtivas e morais.

Mesmo que este argumento fosse verdadeiro, seria de pouco valor prático. Cristãos devotos e crentes na Bíblia não conseguem concordar entre si quanto ao que a Bíblia diz sobre muitas questões morais cruciais. Crentes comumente adotam posições opostas em assuntos tais como pena de morte, aborto, pacifismo, controle de natalidade, suicídio medicalmente assistido, direitos dos animais, ambiente, separação entre igreja e estado, direitos dos homossexuais e direitos das mulheres. Disso pode concluirse que ou há uma multiplicidade de deuses distribuindo conselhos morais contraditórios, ou um único deus que está irremediavelmente confuso.

Primeira Causa

“Tudo teve uma causa, e toda a causa é o efeito de uma causa anterior. Algo deve ter começado tudo. Deus é a primeira causa, o estático que move, o criador e sustentáculo do universo.”

A premissa maior deste argumento, “tudo teve uma causa”, é contrariada pela conclusão de que

“Deus não teve uma causa”. As duas afirmações não podem ser simultaneamente verdadeiras. Se tudo teve uma causa, então não pode ter havido uma primeira causa. Se é possível pensar num deus sem causa, então é possível pensar o mesmo do universo.

Alguns teístas, vendo que todos os “efeitos” precisam de uma causa, afirmam que deus é uma causa, mas não é um efeito. Mas ninguém jamais observou uma causa não-causada, e inventar simplesmente uma causa não-causada apenas pressupõe o que o argumento quer provar.

(Para um exame detalhado do moderno “Argumento Cosmológico Kalam”, veja o meu artigo Cosmological Kalamity.)

Aposta de Pascal

“Não se pode provar que Deus existe. Mas se Deus existe, o crente ganha tudo (céu) e o descrente perde tudo (inferno). Se Deus não existe, o crente nada perde e o descrente nada ganha. Portanto, há tudo a ganhar e nada a perder ao acreditar em Deus.”

(Parte 1 de 3)

Comentários