(Parte 3 de 8)

Duas linhas de pesquisa dedicaram-se ao estudo de alternativas de tratamento do lodo de fossa: em estruturas específicas para este fim e aproveitando as estações de tratamento já existentes. No Capítulo 4, são apresentados os resultados de tecnologias para tratar o lodo em sistemas próprios. Estas tecnologias foram desenvolvidas para serem aplicadas em locais onde não existem estações de tratamento de esgotos, em situações em que as ETE existentes não têm capacidade para o recebimento de novas cargas ou, ainda, em locais em que há uma grande quantidade de lodo séptico que justifique por razões econômicas ou tecnológicas a adoção de sistemas específicos. Neste capítulo, foram avaliadas as seguintes alternativas tecnológicas para o tratamento do lodo: pré-tratamento por flotação, alternativas de desaguamento, compostagem em mistura com resíduos sólidos urbanos e provenientes de podas, disposição em land farmig e, finalmente, o seu tratamento com a utilização de lagoas de estabilização.

INTRODUçãO 23

O Capítulo 5 avalia a utilização de ETE já existentes para o recebimento do lodo séptico. O capitulo aborda a estruturação necessária à estação de tratamento, para a adequada operação de recebimento de cargas dos caminhões, como unidade de recepção, sistemas para regularização de vazão e pré-tratamento do lodo antes do seu recalque à estação de tratamento. Os estudos conduzidos no âmbito do projeto de pesquisa simularam o lançamento de lodo séptico em diferentes proporções em relação à vazão de esgoto, avaliando-se os impactos no sistema, especialmente em relação à eficiência de remoção de matéria orgânica. Foram também conduzidos experimentos que consideraram o lançamento do lodo em bateladas, simulando o descarregamento de cargas de lodo por caminhões em ETE, avaliando a sua influência na eficiência do sistema.

A gestão de lodo séptico é avaliada no Capítulo 6, no qual é apresentada a situação atual, avaliando-se o papel dos diferentes atores envolvidos no processo, e se discutem as diferentes alternativas de gestão, considerando a questão legal, as alternativas técnicas, a definição de responsabilidades, técnicas de controle e os indicadores de desempenho que podem ser adotados no processo.

Uma ferramenta de apoio à decisão, pela avaliação multiobjetivo e multicritério, compõe o Capítulo 7 que, a partir da definição dos objetivos e de parâmetros técnicos e econômicos, apoia a seleção de alternativas através de métodos que foram desenvolvidos e avaliados no âmbito da pesquisa.

O trabalho é concluído com uma análise crítica elaborada pelos consultores da Finep, dois dos maiores nomes do Brasil na área de tratamento de esgoto, Prof. Dr. Pedro Alem Sobrinho e Prof. Dr. Eduardo Pacheco Jordão, que participaram da concepção das pesquisas e acompanharam, criticaram e orientaram todo o desenvolvimento do trabalho, destacando as principais contribuições do livro e considerando as suas limitações. Nesta análise, também serão apresentadas as perspectivas de como os trabalhos futuros de pesquisa poderão preencher as lacunas existentes.

Este livro representa o primeiro trabalho sistematizado sobre o problema do lodo séptico em nosso país e, portanto, deve ser compreendido como uma abordagem preliminar de um tema de grande importância para o saneamento ambiental. Talvez a principal contribuição deste livro seja ampliar o debate sobre o assunto e dar algumas pistas preliminares sobre as alternativas de gerenciamento, que podem orientar políticas públicas que considerem esta alternativa, dentro do panorama do saneamento brasileiro. Certamente, através da análise crítica deste trabalho, será possível aprimorar as alternativas consideradas, especialmente pela comunidade acadêmica e pelos usuários das tecnologias desenvolvidas.

Apesar da utilização, pela maioria das pessoas, do termo “fossa” para os sistemas locais e estáticos para tratamento de efluentes, sabe-se que, na prática, existem diversos sistemas implantados que se diferenciam substancialmente em sua concepção, construção e forma de operação. A utilização desses sistemas representa um potencial de geração da ordem de 7 milhões de metros cúbicos de lodo séptico digerido por ano.

Ao longo deste capítulo, os autores apresentarão as características dos sistemas mais comumente utilizados, na tentativa de conceituar e diferenciar tais estruturas do ponto de vista técnico.

Serão apresentados, ainda, os aspectos operacionais e de manutenção destes sistemas, apontando-se a importância dos esgotamentos periódicos para seu correto funcionamento. Serão relacionadas as principais características do material retirado das “fossas” e a problemática da sua disposição inadequada.

2.1 Fossas e tanques sépticos: definições, tipos, características e aplicabilidade

Consultando dicionários da língua portuguesa, encontram-se os seguintes significados para fossa: 1) Cova, buraco, cavidade. 2) Cavidade mais ou menos larga e profunda no solo. 3) Cavidade subterrânea para depósito de imundícies. 4) Cavidade subterrânea onde se despejam dejetos. 5) Escavação igual à de um poço, para a qual se canalizam

2Definições, histórico e estimativas de geração de lodo séptico no brasil

Cinthia Monteiro Hartmann, Cleverson V. Andreoli, Thiago Edwiges, Giancarlo Lupatini, Cícero Onofre de Andrade Neto

DEFINIçõES, HISTóRICO E ESTIMATIVAS DE GERAçãO DE LODO SéPTICO NO BRASIL25 as dejeções e as águas servidas das habitações onde não há rede de esgoto.

Tanque séptico é definido na NBR 7229 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT, 1993), como “unidade cilíndrica ou prismática retangular de fluxo horizontal para tratamento de esgotos por processos de sedimentação, flotação e digestão”.

O que mais diferencia uma fossa de um tanque séptico é o fato de o tanque séptico ser uma unidade de tratamento de esgotos, com efluente a ter um destino final, que em sistemas de disposição local de esgotos geralmente é a infiltração no solo através de sumidouro ou valas de infiltração, enquanto a fossa é utilizada para disposição final dos esgotos. Ou seja, são funcionalmente bastante distintos. Ademais, não há dúvidas quanto aos aspectos construtivos de um tanque e de uma fossa, de acordo com a etimologia dessas palavras na língua portuguesa.

Classificação dos tipos de sistemas

cinza e das águas negras, ou não

Os sistemas de disposição local de excretas e esgotos, também conhecidos como sistemas estáticos ou sistemas individuais, podem ser classificados em sistemas sem transporte hídrico e com transporte hídrico, sendo que, evidentemente, no primeiro caso não se utiliza água e servem para disposição de excretos (“on site excreta disposal systems”) enquanto nos sistemas com transporte hídrico se dispõem esgotos (“on site sewage disposal systems”) mais ou menos concentrados se há separação das águas

A terminologia para os sistemas de disposição local de esgotos consolidou-se a partir da classificação (Generic Classification of Sanitation Systems) proposta em publicações do Banco Mundial na década de 1980 (THE WORLD BANK, 1980; KALBERMATTEN; JULIUS; GUNNERSON, 1980; MARA, 1982). Posteriormente, a ABNT (1993) consagrou o termo Tanque Séptico para diferençá-lo das fossas.

Nos sistemas sem transporte hídrico, são usualmente aplicadas para disposição de excretas: a fossa seca de buraco (simples ou ventilada); a fossa seca tubular; a fossa seca com tubo de dejeção inclinado (reed odorless earth closet); a fossa estanque; as fossas de fermentação (em lotes ou de humificação contínua); a fossa química; e a privada com receptáculo móvel. Estas soluções estão, de forma geral, ultrapassadas culturalmente no Brasil e somente continuam a ser aplicadas em alguns assentamentos rurais com dificuldades de abastecimento de água.

Nos sistemas de disposição local de esgotos, são usualmente aplicados: a fossa absorvente, ou poço absorvente; a fossa estanque; a fossa química; e o tanque séptico, com disposição do efluente geralmente no solo, através de sumidouros ou valas de infiltração, ou em corpos d’água após um tratamento complementar.

LODO DE FOSSA SéPTICA26

O Quadro 2.1 descreve as principais características de alguns dos sistemas citados, sendo que os sistemas para disposição de esgotos serão mais bem detalhados ao longo deste capítulo.

Quadro 2.1 > Alternativas para sistema local de disposição de esgoto e excretas DISPOSIÇÃO DE EXCRETAS

Fossa seca de buraco

Simples

Constituída por um buraco no solo e elementos acessórios, sendo que ao atingir um determinado nível estabelecido (de 0,50 a 1,0 metros abaixo da superfície do terreno), o espaço livre é preenchido por terra e a fossa é desativada.

Ventilada

É um tipo otimizado de fossa seca pela introdução de um tubo de ventilação vertical externo, com tela na extremidade, localizado até 50 cm acima do telhado. Esta tubulação de ventilação possibilita um controle melhor do odor e da presença de insetos.

Fossa seca tubular Variante da fossa seca, porém com um buraco menor

(cerca de 0,40 cm de diâmetro).

Fossa estanque É um tanque impermeável onde são dispostas as excretas até sua remoção

Fossas de fermentação/ Privada de compostagem

Contínua

Instalação onde usuário deposita os excretas que, em condições ambientais adequadas, propiciam a compostagem dos dejetos.

Intermitente O processo utilizado é o mesmo que na fermentação contínua, porém realizado em lotes.

Fossa química É uma fossa estanque onde é adicionado um produto químico para desinfecção dos dejetos.

Privada com receptáculo móvel

Consiste em um recipiente metálico, colocado sob o assento, para receber dejetos que são retirados e esvaziados temporariamente.

Fossa absorvente/Poço absorvente

É uma escavação semelhante a um poço, onde são dispostos os esgotos, podendo ou não ter paredes de sustentação. Permitem a infiltração do efluente no solo.

Fossa estanque Tanque impermeável que acumula esgoto até sua frequente remoção.

Fossa química É uma fossa estanque na qual se adiciona um produto químico para desinfecção dos dejetos.

Tanque séptico

Unidades hermeticamente fechadas que tratam o esgoto por processos de sedimentação, flotação e digestão. Produzem um efluente que deverá ser destinado.

FONTE: ADAPTADO DE PHILIPPI JúNIOR (1988) E DE HELLER E CHERNICHARO (1996).

DEFINIçõES, HISTóRICO E ESTIMATIVAS DE GERAçãO DE LODO SéPTICO NO BRASIL27

A fossa absorvente, ou poço absorvente, é a mais usual na maioria das cidades brasileiras, com algumas exceções, e a que mais se aproxima do significado da palavra ‘fossa’ como descrito nos dicionários. Ou seja, é realmente uma escavação semelhante a um poço, no qual se dispõem os esgotos.

Dentre as fossas absorventes, encontram-se desde as mais rudimentares, que são nada mais que simples buraco no solo, até construções mais bem elaboradas, com paredes de sustentação em alvenaria de tijolos ou anéis de concreto, sempre com aberturas e fendas que permitem a infiltração dos esgotos, e devidamente cobertas, geralmente com laje de concreto. Podem ser estruturas retangulares, mas geralmente são cilíndricas, e as paredes de sustentação mais usuais são em alvenaria de tijolos, que utilizam tijolos vazados com os furos no sentido radial (exceto na parte superior e algumas fiadas de amarração) ou tijolos maciços com fendas entre os tijolos na maioria das fiadas da parede. Geralmente não têm o fundo revestido, para permitir a infiltração da água, mas em algumas há uma camada de brita que constitui a base do fundo.

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