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LODO DE FOSSA SéPTICA34 ção dos baixos índices de cobertura com rede de esgotos. No âmbito das pesquisas do PROSAB, encontrou-se em Natal uma indicação ainda não confirmada de que para cada tanque séptico se têm três ou quatro fossas, mas a estimativa realizada pelo PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) (IBGE, 2007) avalia que existem mais tanques sépticos do que fossas rudimentares entre as soluções de disposição local de esgotos.

Não se pode precisar quando se utilizou a primeira fossa absorvente para disposição de dejetos e despejos, mas certamente remonta aos primórdios da civilização. Os portugueses trouxeram a prática do uso de fossas absorventes para o Brasil na colonização, mas essa prática só difundiu-se com o advento das vilas e cidades mais populosas, no século 18. Igualmente, não se sabe quando começou a utilização das fossas químicas, mas sem dúvidas esta é uma alternativa bem mais moderna do que as fossas absorventes, e provavelmente só se popularizou na segunda metade do século 20. Quanto ao tanque séptico, há registros históricos bem precisos.

O tanque séptico foi concebido em 1872, na França, por Jean Louis Mouras. O invento de Mouras consistia em um tanque hermético no qual os esgotos entravam e saíam através de tubulações submersas na massa líquida, ambas na parte superior. Seu intuito era reter a matéria sólida contida nos esgotos, evitando que ela fosse obstruir o sumidouro ou colmatar e impermeabilizar o solo, dificultando a infiltração dos líquidos. Mouras percebeu que o volume de sólidos acumulado no tanque de alvenaria que havia idealizado e construído era muito menor do que ele havia imaginado. Mouras patenteou seu invento em 1881, depois que empreendeu uma série de experiências com a colaboração do abade Moigne. Provavelmente, o abade conhecia as então recentes descobertas de Pasteur, que já permitiam saber que a redução da matéria era devido à atividade bacteriana que produzia a liquefação e gaseificação dos sólidos orgânicos (ANDRADE NETO, 1997).

No Brasil, a aplicação pioneira parece ter sido um grande tanque construído em Campinas (SP) para o tratamento dos esgotos urbanos em 1892. Mas os tanques sépticos começaram a ser difundidos amplamente a partir da década de 1930.

Depois de 1963, no Brasil, a utilização de tanques sépticos tem sido orientada por normas da ABNT (NB 41-63, NBR 7229-82). Em 1989, iniciou-se uma revisão na NBR 7229-82. A comissão de revisão da ABNT decidiu pela ampliação e desmembramento da norma em três, tratando separadamente do tanque séptico, do pós-tratamento dos efluentes e da disposição de lodos. A primeira (NBR 7229, válida a partir de novembro de 1993), recebeu o título “Projeto, Construção e Operação de Sistemas de Tanques Sépticos”. A segunda (NBR 13969, de setembro de 1997), tem como título “Tanques Sépticos - Unidades de Tratamento Complementar e Disposição Final dos Efluentes

DEFINIçõES, HISTóRICO E ESTIMATIVAS DE GERAçãO DE LODO SéPTICO NO BRASIL35

Líquidos - Projeto, Construção e Operação”. A terceira nova norma, a ser elaborada, abordará o tratamento e a disposição dos sólidos de tanques sépticos.

Antes da revisão das normas em 1989, referia-se ao tanque séptico como “fossa séptica”, mas foi exatamente para diferenciar das fossas que ficou decidido que, a partir da revisão, as normas da ABNT denominariam “tanque séptico” para diferençar a unidade de tratamento de esgotos de uma fossa. Ao longo deste livro, quando for citado “fossa/ tanque séptico”, entende-se como todos os tipos de sistema de fossa já descritos neste capítulo e, ainda, os tanques sépticos definidos pela norma NBR 7229/1993 da ABNT.

2.3 Dados de geração de lodo séptico no Brasil

De acordo com dados do IBGE, a população total brasileira estimada em 2007 era de 189,82 milhões de habitantes, com 83% desta população localizada em áreas urbanas, enquanto 17% restantes localizados na área rural.

Segundo levantamento, 42% dos domicílios brasileiros utilizam fossa/ tanque séptico como alternativa de tratamento dos seus efluentes, sendo aproximadamente 23% de tanques sépticos e 19% de fossas rudimentares. Este percentual corresponde a uma população aproximada de 79 milhões de pessoas.

Na área urbana, 57,4% da população já dispõe de rede coletora, sendo os índices mais elevados na região Sudeste, onde a cobertura com rede de coleta está na faixa de 83%. Da população não atendida com redes coletoras, 23,6% utilizam tanque séptico, o que corresponde a mais de 37 milhões de pessoas.

Já na região rural, apenas 5,3% da população residem em domicílios que dispõem de rede de coleta de esgoto, e 18,4% utilizam tanque séptico como solução para tratamento de esgoto. Do restante da população rural, 54,3% recorrem a soluções inadequadas para destinação dos efluentes domésticos, como fossas rudimentares, valas e despejo diretamente em corpos receptores, e os 2% restantes residem em moradias sem nenhum tipo de sistema de coleta e/ou tratamento de esgoto.

Tabela 2.1 >Estimativa da população atendida por tanques sépticos e fossas nas áreas urbana e rural

LOCALPOPULAÇÃO (X 1.0)

LODO DE FOSSA SéPTICA36

As Figuras 2.4A e 2.4B ilustram esses percentuais.

A utilização de fossas varia consideravelmente de região para região. A região Sudeste, que apresenta a maior cobertura por rede coletora de esgoto na área urbana, apresenta índices bem inferiores do que as demais regiões brasileiras para utilização de fossas sépticas e rudimentares, conforme ilustrado graficamente nas Figuras 2.5A e 2.5B.

Para o cálculo da estimativa da produção de lodo no Brasil, faz-se necessário considerar alguns dados adicionais constantes na NBR 7229/1993 e NBR 13969/1997, conforme Tabela 2.2.

FONTE: ADAPTADO DE IBGE (2007). Figura 2.4ATipologia do esgotamento sanitário na área urbana

FONTE: ADAPTADO DE IBGE (2007). Figura 2.4BTipologia do esgotamento sanitário na área rural

Não tinham 1,62%

Vala 1,29%

Fossa rudimentar 14,1%

Fossa séptica 23,57% Outro tipo 0,10%

Direto rio, lago ou mar 1,92% Rede coletora 57,39%

Fossa séptica 18,40% Fossa rudimentar 45,32%

Rede coletora 5,30% Não tinham 21,9%

Vala 5,26%

Outro tipo 0,46% Direto rio, lago ou mar 3,28%

DEFINIçõES, HISTóRICO E ESTIMATIVAS DE GERAçãO DE LODO SéPTICO NO BRASIL37

Tabela 2.2 > Contribuição diária de esgoto, lodo fresco e de carga orgânica de resíduo séptico

PRéDIOUNIDADECONTRIBUIÇÃO DE ESGOTO L.dia

CONTRIBUIÇÃO DE LODO FRESCO (L.dia)

CARGA ORGÂNICA DBO (g.d )

Escolas, Externatos e locais de longa

Cinemas, teatros e locais de curta

Sanitários públicos * Bacia

* APENAS DE ACESSO ABERTO AO PúBLICO (ESTAçÃO RODOVIáRIA, FERROVIáRIA, LOGRADOURO PúBLICO, ESTáDIO DE ESPORTES, LOCAIS PARA EVENTOS, ETC.). FONTE: ADAPTADO DE ABNT (1993; 1997).

Considerando a população total brasileira e os dados apresentados na Tabela 2.2, calcula-se que a produção de lodo fresco é de aproximadamente 43 milhões de litros por dia, ou 43.0 m³ por dia. Se adicionarmos neste cálculo o volume de lodo produzido pelas fossas rudimentares, este valor sobe para 79.0 m³ por dia.

Deve-se ainda observar o valor indicado pela NBR 7229/1982 para o coeficiente de redução de volume por digestão, igual a 0,25, ou seja, o lodo digerido que se acumula na porção inferior da fossa séptica possui um volume quatro vezes menor do que o volume produzido de lodo fresco.

Existem algumas discussões a respeito deste valor para o coeficiente de redução de volume por digestão. Oliveira (1983 apud ANDRADE NETO et al, 1999) chegou a valores bem inferiores ao indicado pela norma. Em regiões de clima quente, seria possível considerar valores da ordem de 0,15, o que indica uma maior redução do volume por uma maior atividade microbiana.

LODO DE FOSSA SéPTICA38

O cálculo para a produção de lodo, se considerarmos o volume de lodo digerido, o coeficiente de redução do volume igual a 0,25, e o lodo total produzido pelas fossas (séptico e rudimentar) resulta em uma produção diária de lodo igual a 19,75 mil m³ ou 7,2 milhões de m³ por ano.

Esta é a produção de lodo digerido na fossa. Sabe-se que, de uma forma geral, nas residências não é feito o esgotamento das fossas anualmente, principalmente nas áreas rurais e mais afastadas dos centros urbanos, onde, na maioria das vezes, se torna mais

FONTE: ADAPTADO DE IBGE (2007) Figura 2.5APorcentagem de fossas por região: área Urbana

FONTE: ADAPTADO DE IBGE (2007) Figura 2.5BPorcentagem de fossas por região: área Rural

% fossas

Norte Nordeste Sudeste Sul Centro Oeste Brasil

Fossa rudimentar Fossa séptica

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