Cartilha de Agroecologia

Cartilha de Agroecologia

(Parte 2 de 10)

O Nordeste é caracterizado pela “Casa Grande e Senzala”, com relações específicas entre os donos do poder e seus subordinados, que dependiam uns dos outros. A falta de informações e educação, tanto quanto as barreiras para a organização do povo, eram estratégias para manter a ordem, geralmente através da violência e do medo. A resistência de alguns povos indígenas, escravos fugitivos ou outros grupos, como os cangaceiros – uma mistura de bandidos e guerrilheiros – iniciaram a formação dos primeiros movimentos sociais contra a dominação e exploração.

Alguns movimentos ganharam destaque. Canudos (1893-1897), na Bahia, liderado por Antônio Conselheiro, foi eternizado nos “Grandes Sertões” de Euclides da Cunha. O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto (1926 - 1937), iniciado pelo beato José Lourenço, na Região do Cariri cearense, foi outro movimento importante. Estas duas experiências de revoluções sociais nordestinas foram prontamente combatidas porque mostraram uma forma de organização igualitária e independente.

Os Quilombos eram outras formas de resistência, que mantiveram fortalecidas as raízes africanas que permanecem até hoje nas comunidades quilombolas.

Os movimentos sociais impulsionam a reforma agrária para a (re)distribuição da terra para que agricultores e agricultoras familiares possam dela tirar sua sobrevivência.

O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto foi um dos movimentos messiânicos que surgiu nas terras do Crato, Ceará. A comunidade era liderada pelo paraibano de Pilões de Dentro, José Lourenço Gomes da Silva, mais conhecido por beato José Lourenço. No Caldeirão, os romeiros e imigrantes trabalhavam todos em favor da comunidade e recebiam uma quota da produção. A comunidade era pautada no trabalho, na igualdade e na religião.

Movimentos sociais no Nordeste

Tecnologias modernas no semi-árido

Depois da Primeira Guerra Mundial surgiu a Agroindústria, com uma produção em grande escala, baseada em técnicas da chamada “Revolução Verde”, que trazia um pacote tecnológico com a dinâmica de uso de sementes híbridas, adubos sintéticos, agrotóxicos e mecanização. Essas técnicas chegaram pelos anos 1960 e 1970 ao Nordeste, mas não eram adequadas para muitas realidades, inclusive a do semi-árido, que tem solos rasos e secos.

A mecanização do manejo do solo aumentou o desmatamento da vegetação nativa, deixando a terra exposta ao sol, vento e chuva, desencadeando a diminuição da biodiversidade e da disponibilidade de água na região.

Em conseqüência deste pacote, hoje aproximadamente 15 % da área do semi-árido, incluindo o norte de Minas Gerais, estão em processo de desertificação. Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Recursos Hídricos e da Amazônia Legal (MMA), quase 86 mil pessoas no Estado de Pernambuco vivem em áreas que em poucos anos vão se transformar em deserto.

Aproximadamente 92% do território cearense encontra-se no semi-árido, sendo suscetível à desertificação. Esta situação se agrava com os desmatamentos e queimadas. Atualmente restam apenas 16% da cobertura natural do Estado.

O Médio Jaguaribe e o Sertão dos Inhamuns e de Crateús são as regiões mais atingidas, além da cidade de Irauçuba, que é uma das quatro áreas gravemente atingidas pela desertificação do País.

De fato houve pouca mecanização nas propriedades da agricultura familiar, pois as máquinas foram feitas para grandes áreas e são pouco adequadas para as pequenas propriedades. Mas sementes, fertilizantes, adubos e defensivos industrializados foram difundidos e financiados também para os pequenos agricultores. Além disso, práticas como a queimada, usada pelos povos indígenas, em pequena escala e com um tempo longo de recuperação, prejudicam os solos e contribuem para os processos de degradação.

Iniciou-se, assim, um ciclo vicioso, provocando um desequilíbrio entre as plantas nativas e as cultivadas, que foram introduzidas. Enquanto as chuvas eram suficientes para a vegetação nativa, as sementes de fora, condicionadas a outras condições de clima e umidade, precisavam quantidades cada vez maiores de adubos e venenos.

A produção familiar, que tinha antes o custo da mão-de-obra, ficou mais cara com a compra de insumos. Muitos agricultores se endividaram com os créditos, enquanto os insumos se tornavam cada vez mais necessários para garantir a produção. Sem perspectiva de melhoria de vida muitos agricultores e agricultoras foram para as cidades. O êxodo rural – principalmente dos jovens – é preocupante, pois, sem a agricultura familiar, quem vai produzir os alimentos que vão para a mesa dos brasileiros?

De 1940 para cá a população brasileira cresceu muito. E boa parte deixou o campo para “tentar a sorte” nos centros urbanos. Hoje, o Brasil tem mais de 188 milhões de habitantes, 81% nas áreas urbanas e 19%, nas áreas rurais*.

*fonte: portal brasil

Ciclos viciosos esvaziam o campo

Em resposta a esses impactos – sociais e ambientais – foram surgindo ou se fortalecendo vários movimentos no mundo inteiro, que se voltaram para práticas agrícolas baseadas na natureza. Podemos citar as agriculturas orgânica, biodinâmica, natural e regenerativa, entre outras, que defendem alternativas ao modelo convencional de produção industrializada dos alimentos.

Os olhares dos movimentos e organizações sociais se voltaram para as áreas rurais, onde encontraram saberes dos povos tradicionais remanescentes, que se mostram auto-sustentáveis nas pequenas áreas que lhes restaram. Cientistas de várias áreas, como agrônomos, antropólogos, sociólogos e economistas, descobriram que nas formas de vida consideradas “atrasadas” existem, na verdade, modelos de organização social adaptados ao seu meio ambiente, vivendo com – e não contra – a natureza.

A Agroecologia nasceu como proposta de reunir todos estes esforços na procura da sustentabilidade, não só da agricultura familiar, mas da vida humana neste planeta.

O surgimento de outro modelo de desenvolvimento rural

84% da produção de mandioca

31% da produção de arroz

49% da produção de milho

67% da produção de feijão

40% da produção de aves e ovos

59% da produção de suínos

52% da produção de leite

25% da produção de café

Nos últimos anos, a agricultura familiar ganhou reconhecimento na sociedade e nas políticas públicas, sendo responsável pela produção de 50% dos alimentos básicos, com qualidade, garantindo soberania e segurança alimentar ao povo brasileiro. O apoio dos governos aos agricultores familiares aumentou, principalmente do Governo Federal, através do Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA).

De 2002 para 2008 os recursos destinados para agricultura familiar aumentaram cinco vezes, grande parte deste investimento veio em forma de crédito no Programa Nacional de Agricultura Familiar (PRONAF) ou como investimento na extensão rural e assistência técnica. No incentivo à comercialização houve avanços com o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que permite a compra de produtos da agricultura familiar para a merenda escolar da rede pública de ensino ou outras instituições públicas, pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB).

Também houve avanços na reforma agrária. No

Nordeste existe um número crescente de assentamentos federais e estaduais, que recebem assistência técnica e apoio através do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

Fique de olho no orçamento público. Nas páginas w.transparencia.gov.br é possível acessar tudo que é previsto e o que foi gasto no seu município, no Estado ou pelo Governo Federal. Se organizar com outros para pensar em ações e participação é seu direito!

Características principais da agricultura familiar:

1. Os empreendimentos são administrados pela própria família

2. Neles o trabalho familiar é superior ao trabalho contratado

Atualmente são 85% dos estabelecimentos agropecuários que se enquadram nesses critérios, ou seja, tudo que não é latifúndio é agricultura familiar

A agricultura familiar ganha importância política

Nordeste

Centro Oeste

Norte

Sudeste

Sul Brasil

Participação percentual das regiões no número de estabelecimentos, área, valor bruto da produção e financiamento total destinado aos agricultores familiares.

Fonte: IBGE

A região apresenta as menores rendas médias por estabelecimento, sendo também sua área média a menor do País. Sendo a grande maioria dos estabelecimentos nordestinos enquadrados na agricultura familiar (8,3%). Detêm 43,5% da área da região, geram aproximadamente o mesmo percentual do valor bruto da produção (43,5%) e capturam 26,8% do financiamento total.

Debate: a agricultura familiar deve produzir energia usando plantas e sementes?

Utilizar alimentos para produzir combustível poderia desencadear uma grave crise humanitária, idéia a princípio ignorada, mas a pouca oferta de alimentos leva a esses questionamentos: a produção de etanol e biocombustíveis em larga escala pode mesmo potencializar a fome? A agricultura familiar do Nordeste tem estrutura para produzir combustível? Considerando, que parte da produção de alimentos da agricultura familiar é consumida na propriedade, como ficaria a segurança alimentar das famílias?

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