Cartilha de Agroecologia

Cartilha de Agroecologia

(Parte 3 de 10)

A década de 1970 foi marcada pelo despertar sobre os efeitos desastrosos de um modelo de desenvolvimento que provocou muita degradação ambiental. A Conferência do Meio Ambiente das Nações Unidas – realizada em 1972, em Estocolmo, Suécia – foi um marco a partir do qual os países iniciaram a definição das suas legislações ambientais e implementaram ministérios de meio ambiente. Também os movimentos e organizações sociais que se preocupavam com a situação socioeconômica dos trabalhadores rurais e agricultores (as) familiares começaram a voltar suas atenções à preservação ambiental.

As culturas tradicionais – que produzem e vivem em harmonia com a natureza – ganharam mais atenção e despertaram o interesse de diferentes cientistas para as práticas agrícolas desses povos. A Agroecologia surgiu como ciência de uma agricultura alternativa ao modelo chamado convencional no intercâmbio das práticas tradicionais com os conhecimentos científicos. A Agroecologia une práticas tradicionais, o conhecimento científico e a criatividade vinda da observação da natureza com o objetivo de produzir alimentos respeitando e aproveitando os ambientes e os ciclos naturais. Assim, a agricultura está sempre se adaptando a novas realidades através da experimentação, tendo, para isso, os seguintes princípios norteadores:

Respeito à dinâmica da vida Busca de uma relação equilibrada com os ecossistemas Sustentabilidade (econômica, ecológica e social)

Capítulo 2A construção do conhecimento e das práticas agr oecológicas

Princípios e fundamentos da Agroecologia

A Agroecologia é hoje considerada uma ciência com ferramentas teóricas e metodológicas que consideram de forma holística e sistêmica as seis dimensões da sustentabilidade: Ecológica, Econômica, Social, Cultural, Política e Ética. Nestas dimensões surgem as questões de gênero, gerações e etnia, adaptação e uso de tecnologias para uma vida melhor e sustentável com o tempo.

A discussão sobre o conceito da Agroecologia ganhou visibilidade, consistência e sentido, no Brasil, com as contribuições de pesquisadores e agroecologistas como Miguel Altieri, Stephen Gliessman, Ana Primavesi, Francisco Roberto Caporal, José Antônio Costabeber, Eduardo Sevilla Guzman, José Lutzenberger e outros. O conceito foi desenvolvido com experimentações e interlocuções entre agricultores (as), movimentos sociais e interdisciplinaridade de ciências como Ecologia, Biologia, Agronomia, Geografia, Geologia, Economia, Arquitetura e Ciências Sociais.

A Agroecologia é um conceito em construção que propõe uma agricultura socialmente justa, economicamente viável e ecologicamente sustentável. Trabalha um modelo de relacionamento com a natureza que estabelece uma ética baseada nos princípios da criação, tendo a justiça e a solidariedade como valores fundamentais. Assim, a Agroecologia é relacionada diretamente ao conceito de sustentabilidade e justiça social. Na visão agroecológica, a Terra é considerada um sistema vivo e complexo, e respeita a diversidade dos povos, das plantas, animais, microorganismos e minerais, em suas infinitas formas de relações. A Agroecologia engloba modernas ramificações e especializações, como: agricultura biodinâmica, agricultura ecológica, agricultura natural, agricultura orgânica, sistemas agroflorestais, permacultura e outras que contribuem para a construção de outro modelo de desenvolvimento rural.

Conceitos da Agroecologia

Durante séculos da evolução os sistemas culturais e biológicos se adaptaram às condições locais. Mesmo sob condições ambientais adversas foram desenvolvidos sistemas agrícolas complexos, sem uso de mecanização, fertilizantes ou pesticidas. Em torno de 60% da área agrícola no mundo é ainda cultivada com base em métodos tradicionais, segundo Altieri (2002). Das diferentes formas e práticas agrícolas se podem tirar princípios importantes para otimizar a produtividade em longo prazo, cuidando do meio ambiente, com insumos e energia de fontes locais, ao invés de maximizá-la em curto prazo.

Alguns princípios e processos são: Organização das comunidades: fortalecimento das comunidades rurais e urbanas através da conscientização política e ecológica para a produção sustentável e o consumo consciente.

Modelos de cultivos múltiplos: a diversidade assegura a produção constante de alimentos e uma cobertura vegetal para a proteção do solo. Os diferentes períodos de plantio e colheita garantem uma dieta variada durante o ano e oportunidades de comercialização justa e solidária.

Uso eficiente do espaço e dos recursos: o consórcio de plantas de diferentes tamanhos e raízes melhoram o uso de nutrientes, água e sol. Sistemas agroflorestais, por exemplo, permitem o cultivo sob as copas das árvores, dependendo das espécies e do manejo.

Conservação do solo: os agricultores adotam sistemas de pousio ou rotação de culturas – incluindo leguminosas – para manter os nutrientes no solo, aproveitando também esterco, forragem ou composto.

Adaptação de cultivos a áreas de secas ou chuvas: a disponibilidade de água é determinante para o cultivo das espécies, que podem ser tolerantes à seca – como o feijão guandu, batata doce, mandioca, milho ou sorgo – portanto precisa-se trabalhar a cobertura do solo para evitar a evaporação e o escoamento superficial da terra levando o solo. Para áreas alagadas são adequadas culturas como arroz e os esforços se concentram na integração entre agricultura e aqüicultura.

Aprendendo com a agricultura tradicional

Estes princípios oferecem diversas vantagens, como:

Proteção: mais eficiente contra as chamadas pragas, pois a diversidade diminui o ataque e, conseqüentemente, o aparecimento de doenças também reduz. As plantações oferecem uma gama de indivíduos e também têm mais inimigos naturais. O solo fica mais protegido e com maior disponibilidade de água. Produtividade: maior por hectare do que na monocultura, uma vez que o plantio consorciado de plantas companheiras possibilita ganhos no rendimento do solo e da biomassa. Disponibilidade de nutrientes: uso eficiente da luz e da água pelas plantas, contrabalanceando, aumentando a disponibilidade de nitrogênio. Perdas da produção: reduzidas nos policultivos, com culturas que compensam perdas e danos sofridos em outras.

Na sua comunidade se praticam alguns desses princípios ou existem características das agriculturas tradicionais mencionadas?

Agricultores e agricultoras familiares têm aberto espaço para estas idéias, contribuindo de forma decisiva para a construção de experiências com as antigas práticas adaptadas aos diferentes lugares aonde os sistemas agroecológicos vêm sendo implantados.

A agricultura familiar oferece uma estrutura ideal para as práticas agroecológicas, com sua produção em pequena escala, valorizando o trabalho manual, minimizando o mecanizado. O núcleo da família oferece a oportunidade de estabelecer relações justas, quando consideram a igualdade no gênero e entre as gerações. A organização em associações ou cooperativas se opõe ao modelo patronal e empresarial predominante que levou à exploração dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.

O processo de transição agroecológica se baseia na troca de saberes e experiências nos âmbitos familiar, comunitário, da organização popular, dos movimentos sociais, governos, agentes financeiros e organizações não-governamentais (ONGs) na construção do conhecimento agroecológico e das suas práticas.

Deve-se compreendê-las como potencial para os processos de desenvolvimento rural sustentável, com o objetivo de apoiar a transição dos atuais modelos da agricultura chamada convencional para modelos de agriculturas sustentáveis. Para tanto, seus princípios e conceitos devem ser aplicados no manejo e redesenho dos agroecossistemas.

Curiosidade

Agroecossistemas são considerados unidades produtivas que incluem diferentes espécies de formas de vida (microrganismos, plantas e animais), onde ocorrem as inúmeras cadeias alimentares (quem come quem e é comido por quem), bem como a ciclagem de materiais (elementos e substâncias que fazem parte da terra e dos organismos vivos), tudo interagindo entre si e com o meio ambiente com a função claramente definida para a agricultura.

As práticas agroecológicas mudam a vida de agricultores e agricultoras

Para o casal Zezão e Zildene, agricultores da comunidade Zé do Lago (Itapipoca), a experiência com Agroecologia trouxe muitas melhorias para a qualidade de vida da família. “A prática agroecológica permitiu que a gente aprendesse muito, minha família e meus irmãos, são conscientes graças ao nosso trabalho”, diz Zezão.

Agricultura familiar e Agroecologia

Desenvolvimento de pequenas propriedades

Melhor qualidade do produto ecológico

Melhor preço dos produtos ecológicos Comercializar os produtos diretamente

Economia de insumos e menor custo de produção

Cuidado com a saúde, não se expondo aos venenos e preservar animais e plantas para ter maior equilíbrio ecológico

Valorização do trabalho, melhoria da auto-estima Produzir alimentos de melhor qualidade para consumo

Cuidado com o meio ambiente

Trabalho em grupo familiar e coletivo

Produtividade sustentável Viabilidade econômica Valorização das cadeias produtivas

Sistemas de produção mista

Controle biológico

Satisfação das necessidades locais Auto-suficiência alimentar Regeneração dos recursos naturais

Para iniciar o processo de transição agroecológica é necessário atenção, dedicação e força de vontade. Isso implica também na disposição de mudar certos hábitos “culturais” de cultivo, comportamentos e formas de convívio.

A transição agroecológica pode ser vista como uma caminhada que começa com o primeiro passo, observando a realidade atual da propriedade:

Quais são as plantas nativas (ervas, arbustos, árvores...) existentes?

Quais são as culturas na propriedade e como se comportam?

Qual é o rendimento de cada cultivo por ano? Quanto gasta com insumos? Quanto tempo é gasto com o trabalho? Como está o solo? Aparecem doenças? Há ataque de pragas? Quais são?

O planejamento deve ser feito de acordo com os objetivos da família, que precisam ser identificados para atingir as metas no sistema de produção sustentável. Portanto, há passos primordiais para os bons resultados do diagnóstico que são: observar, compreender, decidir, agir e monitorar na busca do desenvolvimento da propriedade. A partir daí, a caminhada deve ser constante, elencando claros motivos e explicações para permanecer na transição agroecológica.

Capítulo 3Passos para a tr ansição agr oecológica

O diagnóstico da propriedade

Em regiões semi-áridas, como é o caso do Nordeste do Brasil, o maior desafio da agricultura é aproveitar a pouca água disponível. Neste contexto, a cobertura do solo ganha grande importância, funcionando como uma esponja que absorve a água, para depois liberá-la lentamente no solo, mantendo a umidade necessária para as plantas, sem exigir muitos recursos hídricos.

Planejamento das mudanças

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