Cartilha de Agroecologia

Cartilha de Agroecologia

(Parte 4 de 10)

As mudanças vão brotar a partir de pequenas ações realizadas no dia-a-dia que, com o tempo, vão construindo a sustentabilidade do agroecossistema, sempre dentro das possibilidades e da realidade de cada família. Alguns passos, que podem orientar a transição agroecológica, estimular as inovações e guiar o planejamento são:

1. Manejar o solo corretamente: o solo precisa de proteção contra a ação direta do sol, chuvas e ventos. A cobertura promove essa proteção e ajuda a manter sua fertilidade. Várias práticas podem ser utilizadas para revitalizar e recuperar a sua capacidade produtiva, como cobertura, adubação verde, consórcio entre culturas, dentre outros.

2. Parar o uso de venenos: o controle biológico é estratégico para a prática de controle de pragas e possíveis doenças, que por ser um recurso natural e ambiental, equilibra o sistema, com o uso de defensivos naturais.

3. Garantir a segurança alimentar da família: a produção para o auto-consumo dos produtos agroecológicos cultivados deve ser priorizada para a melhoria da saúde e diminuição de gastos com a alimentação industrializada. O uso de ervas e plantas medicinais também minimiza os gastos com medi-

Uma boa maneira de realizar a troca de experiências é aproveitar espaços como fóruns, encontros e seminários.

camentos, e estas podem ser cultivadas, de preferência, próximo à cozinha.

4. Produzir adubo, sementes e mudas: além de poder preservar e melhorar as variedades adaptadas ao local com sementes variadas e crioulas, os gastos com a compra desses insumos podem ser reduzidos. A produção de composto para o adubo é fácil com o aproveitamento de restos de alimentos, folhas secas, palhas e esterco de animais. Após obter um composto de boa qualidade, este favorece a produção de mudas.

5. Preservar e aproveitar a água: cuidar da água disponível com a proteção de nascentes, rios ou açudes através do reflorestamento das matas ciliares é essencial para poder produzir por muito tempo. Cisternas garantem água nos períodos de seca e a água usada pode ser reaproveitada nas hortas e quintais.

6. Plantar e preservar as matas: fundamental para o equilíbrio na propriedade. Elas ajudam no controle de insetos, mantém a umidade, regulam o clima, dão frutos e madeira, fertilizam o solo e abrigam a fauna.

7. Trocar experiências: é importante ficar sempre em contato com outros(as) agricultores(as) para trocar idéias. Junto com técnicos ou outras pessoas, que pesquisam, pode-se observar resultados de experimentos e divulgar o que deu certo, construindo, juntos, as práticas e os conhecimentos agroecológicos.

8. Organizar-se: a formação de associações ou cooperativas oferece a possibilidade de compartilhar a infra-estrutura, transporte e equipamentos. Juntos podem comercializar os produtos por um preço melhor e garantir a independência.

Casa com quintal produtivo

A propriedade familiar é composta por diversas partes, chamadas de “sistemas de produção”, que se complementam para formar um todo integrado. Estes sistemas se ligam através da interação dos processos produtivos em uma propriedade, ou seja, na integração de sistemas produtivos menores, que podem dar suporte um ao outro.

O objetivo dessa integração é alcançar a sustentabilidade da propriedade, criando um ambiente que favoreça a qualidade ambiental, a saúde humana e animal, conseguindo também uma menor dependência dos insumos externos. Tudo consiste em identificar as estratégias acertadas para garantir o papel chave de cada sistema dentro da unidade produtiva.

Os subsistemas mais comuns existentes numa propriedade familiar são:

A casa: faz parte da propriedade e é importante observar a sua posição estratégica. O que entra nela e o que sai dela? Como está o acesso à água e energia? Tem esgoto? Como é tratado o lixo? Com a otimização do ciclo no qual a casa se encerra, fica mais fácil abastecê-la com alimentos. Interessante também é que os resíduos devem ser aproveitados na produção e nada se perde.

O quintal produtivo: o espaço ao redor da casa é ideal para produzir uma variedade de alimentos para abastecer a família. Podem ser ervas de tempero ou medicinais, como malva santa, capim santo e hortelã; hortaliças, como alface, pimentões, tomates; e verduras, como cenouras, batatas e cebolas; bem como frutos, como laranja, manga e banana, ficando tudo de fácil acesso para usar na cozinha. Enfim, o quintal pode garantir autonomia no que se refere à alimentação.

O pomar também não deve ficar muito longe da casa, encurtando os caminhos para buscar os alimentos. As árvores precisam de material orgâni-

Integração dos sistemas produtivos na propriedade familiar

Você já parou pra observar as espécies de plantas ao redor de sua propriedade e procurou saber de sua importância no local e possibilidades de aproveitá-las?

Roçado diversificado e mata Criação de pequenos animais co para seu alimento, como as folhas que caem e devem ser preservadas junto às raízes. A maioria das árvores – no caso das maiores, como jaqueiras ou mangueiras – pode ser plantada no fundo do quintal.

O roçado diversificado e a mata: os sistemas agroecológicos correspondem a estratégias de se construir o espaço e se manejar a floresta. Deve-se plantar o maior número possível de espécies no roçado e também manter as que se encontram no local. A presença da mata nas redondezas da propriedade permite ao agricultor fazer a coleta de produtos da natureza, como os madeireiros, sementes, cipós e outros, além de abrigar insetos que atuarão de forma biológica na área, evitando o ataque de pragas e animais que ajudarão na dinâmica do sistema como um todo.

A criação de pequenos animais: a criação de caprinos, ovinos, suínos, coelhos, aves, abelhas ou peixes não precisa de grandes áreas para exploração e são importantes para complementar o sistema. É fonte de nutrientes e seus subprodutos são bem aproveitados na propriedade, como o esterco. Além do mais representa interessante fonte de renda alternativa para a família, principalmente a criação de abelhas, tendo o mel como alimento.

A unidade de beneficiamento: a transformação dos produtos agrícolas de origem vegetal e animal adiciona valor aos produtos e pode fortalecer as relações familiares na divisão das tarefas. Um exemplo disso é a produção de queijos ou doces a partir dos produtos disponíveis.

Atividades não agrícolas: podem ser integradas de forma dinâmica na produção da unidade familiar, como vassouras, artesanatos de barro, de palhas, casca de coco, labirinto, renda, bordado, pintura em tecido, crochê e tapeçaria, dependendo das habilidades e dos recursos disponíveis.

Para se alcançar a sustentabilidade da propriedade familiar é fundamental perceber o potencial existente e aproveitar este de uma forma que possa dar um sustento a toda família, com o ideal de que uma atividade alimente e facilite a outra, e assim por diante, para que o sistema seja o mais independente e dinâmico possível.

O solo é um organismo no qual ocorrem processos vivos e dinâmicos, essenciais à saúde das plantas. A sua ecologia nos leva ao mundo de milhões de microorganismos que reagem entre eles. Um solo saudável depende dos nutrientes (macro e micronutrientes), da porosidade, do potencial hidrogeniônico (pH), da salinidade e da umidade, precisando de um equilíbrio adequado para a manutenção da microvida que servirá de alimentação para as plantas e animais.

Características de um solo em seu estado natural.

Física

Capacidade de retenção de água, taxa de infiltração, profundidade do solo, horizontes, textura, densidade, estabilidade dos agregados, dispersão de argilas e porosidade.

Química

Disponibilidade de nutrientes, condutividade elétrica (salinidade), sódio, Potencial hidrogeniônico (ph), capacidade de troca catiônica e aniônica

Biológica

Matéria orgânica do solo, Biomassa microbiana do solo, respiração/biomassa (CO2), N mineralizável (lábil), C orgânico lábil (0,5-2 m), respiração no solo, crescimento de vegetação e da cobertura, presença de minhocas e outros representantes da fauna e flora do solo e população de fitopatógenos

O manejo ecológico do solo tem como princípio a sua preservação através de técnicas de cultivo que evitam as erosões, bem como a sua nutrição através da adubação com matéria orgânica e ciclagem de nutrientes.

Capítulo 4Práticas agr oecológicas

O manejo ecológico do solo

ESPÉCIEFAMÍLIAN em Kg / ha PRODUÇÃO em T / ha

Crotalária (Crotalaria juncea) Leguminosa

Leguminosa

Leguminosa Leguminosa

20 – 25 15 – 20 10 – 15 10 – 15 15 – 20 15 – 20

05 – 10 05 – 10 05 – 10 0 – 05 05 – 10 05 – 10

Massa VerdeMassa Seca

Feijão de porco (Canavalia ensiforme)

Guandu caqui (Cajanus cajan)

Leguminosa

Leguminosa

Valores adquiridos em experimento de mestrado, num argissolo vermelho sem adubação, realizado na Universidade Federal do Ceará.

Feijão Guandu

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