Cartilha de Agroecologia

Cartilha de Agroecologia

(Parte 5 de 10)

O uso de esterco

Muitas vezes já disponível na propriedade, o esterco é outra possibilidade de adubação orgânica, podendo ser incorporado ao solo em estado sólido ou líquido. Antes da utilização do produto, é necessário um processo de fermentação, já que o esterco fresco pode ser tóxico para as plantas.

ComponenteBovinos Eqüinos Ovinos Suínos
Matéria seca2.039 1.715 199 176
Nitrogênio78,9 58 6,7 7,5

Diferenças entre estercos quanto à matéria seca e nitrogênio (kg/cabeça/ano)

Estratégias para fortalecer o solo

Adubação verde

O plantio de leguminosas é uma estratégia antiga e eficiente para aumentar a fertilidade do solo. O guandu, por exemplo, incorpora muito nitrogênio e é mais adaptado para áreas secas. As leguminosas diminuem a compactação e melhoram a estrutura do solo, reduzem o crescimento de mato e aumentam os nutrientes. O ideal é que elas sejam consorciadas com outras espécies para otimizar os resultados.

Quantidades de biomassa de adubos verdes no solo

O esterco pode também ser adicionado no processo de compostagem para a produção de adubo

A compostagem

O Composto é produzido por meio da decomposição por microorganismos, usando ar e água como ativadores. Os restos de alimentos, estercos animais, aparas de grama, folhas, galhos e restos de culturas agrícolas podem ser colocados na composteira, fechando, dessa forma, o ciclo de produção da propriedade.

Como fazer

Local - Deve ser de fácil acesso, próximo às hortas ou canteiros e de preferência plano, para evitar escoamento.

Montagem - O composto deve ser empilhado em camadas alternadas de materiais secos e frescos, com 15 a 20 cm de altura cada, até um total padrão de 1,5 m e que fica fácil de revirar. Cada camada deve ser molhada para que a distribuição de água seja uniforme.

Umidade - Durante o processo de decomposição, se a pilha ficar muito aquecida deve ser logo umedecida. No ponto de saturação ideal, apertando um punhado na mão, a água deve pingar entre os dedos, mas não escorrer.

É necessário revirar o composto pelo menos três vezes durante o primeiro mês porque, na decomposição, as partes inferiores vão ficando mais densas em virtude da redução do volume da pilha.

Maturação - Varia entre 60 e 90 dias. O cheiro deve ser agradável e os materiais utilizados, transformados em uma massa escura. Deve permanecer umedecido e protegido do sol e da chuva antes de ser utilizado como adubo nas plantações.

Relação carbono / nitrogênio (C/N) - Uma combinação ideal para o processo de decomposição seria de dois terços de materiais secos, que possuem uma alta relação C/N, como galhos de árvores, folhas secas e palhadas; e um terço de materiais frescos, que têm uma baixa relação C/N, como as aparas de gramas, folhas verdes, sobras de cozinha e estercos. O esterco pode ser de aves, bovino, ovino, eqüino, caprino e outros.

Materiais que não podem ir para compostagem

Todo material (madeiras, resíduos, etc.) que tiver sido tratado com produto tóxico Esterco suíno e humano Plantas infestadas ou doentes Vidros, plásticos, metais, tintas, têxteis

Para a construção de uma composteira, o chão precisa ser impermeabilizado e deve haver espaço para separar o composto fresco do composto já amadurecido. Recomenda-se a colocação de um dreno para coleta do chorume, que pode ser diluído e usado como fertilizante.

Potencial hidrogeniônico

(pH) do solo

O pH permite escolher a cultura mais correta para cada terreno. Ele indica se o solo é ácido, neutro ou básico, além de favorecer o controle de qualidade. Esta característica do solo pode ser identificada pela existência de plantas espontâneas indicadoras da qualidade do solo, como por exemplo, a tiririca, ou “barba de bode” (Cyperus rotundus) e a azedinha (Oxalis oxyptera), muito comuns em solos ácidos e as hortênsias (Hydrangea macrophylla) que podem indicar solo básico quandosuas flores se paresentarem rosadas.

O ideal é que seja feita a análise de amostras do solo num laboratório de manejo de solo, onde se tem resultados mais precisos. O custo não é alto e facilita a correção no caso de acidez.

Cobertura do solo

Essa prática tem como objetivo de manter a umidade e temperatura do solo em níveis ótimos, evitando a erosão pelo vento, pela chuva e ressecamento pelo sol. Um solo coberto e mais úmido favorece a existência de microorganismos e de minhocas, que são importantes para a respiração do solo, pela formação de caminhos; e os seus dejetos fornecem minerais.

Recomenda-se, como medida paliativa para o solo com elevada acidez, a calagem, ou seja, adição de calcário ao solo. A quantidade depende do pH e deve ser realizada pelo menos dois meses antes do plantio. Quando a quantidade de calcário for superior a 4 t / ha, é melhor dividir a aplicação.

Use para a cobertura do solo a palha de carnaúba, palhada do milho, cascas de arroz, bagaços de cana, fibras do coco ou outras palhas disponíveis.

Terra preta

A terra preta arqueológica ou terra preta, encontrada na Amazônia, está derrubando o mito de que os solos da região são pobres e impróprios para a agricultura. A descoberta é a chave do desenvolvimento da agricultura sustentável nos trópicos. Uma hipótese é que a alta fertilidade deva-se ao acúmulo de material orgânico desde a pré-história. O resultado é matéria orgânica estável, formando microecossistemas auto-sustentáveis, que não se exaurem facilmente.

Rotação de culturas

A alternância entre as culturas evita o desgaste do solo com monoculturas, contribuindo para a conservação dos nutrientes pela utilização de plantas com diferentes processos de crescimento, tipos de raízes e com funções e necessidades diversas.

Consórcios entre culturas

Plantas companheiras de famílias diferentes favorecem a produção pela riqueza de interações. Elas podem ser arranjadas de formas diversas, tornando até o manejo mais fácil. Os consórcios mais comuns são os de leguminosas com gramíneas.

Plantio em nível

O plantio em nível é importante para a preservação da estrutura do solo, principalmente em áreas de declive runoff, evitando enxurradas, que favorecem a erosão. Esta técnica segue as linhas naturais de nível da terra (topográficas). Nesse caso, além das culturas anuais, é possível plantar árvores e arbustos que permitem a infiltração da água, evitando o escoamento superficial.

Dê preferência a plantas nativas e adaptadas ao semi-árido, como o feijão de corda, feijão guandu, algaroba, umbuzeiro, mandacaru, palma, maniçoba, marmeleiro, leucena e sorgo, que sobrevivem melhor a longos períodos de estiagem.

Áreas com declive inferior a 45° devem ser plantadas em nível, utilizando cordões de rochas, patamares.

O runoff é o escoamento superficial produzido em função do tipo de superfície.

Técnicas de plantio

Plantio na palha

Pode ser feito principalmente com espécies leguminosas e gramíneas, que crescem rápido e produzem biomassa abundante. Entre as vantagens, conserva a produtividade do solo, impedindo a perda de umidade; protege contra a erosão, contra o aquecimento e proporciona colheitas elevadas. As palhas mais comuns no meio rural são as de cereais e capim roçado. Para o plantio, essa camada deve apresentar de cinco a sete centímetros de espessura, para que o solo não resseque demais.

Cercas vivas

Cercas vivas e quebra-ventos podem ser feitos com plantas como mandacaru, xiquexique, facheiro, macambira, leucena, sansão-do-campo, sabiá, dentre outras para demarcar os limites da propriedade ou das áreas de plantio. Ao mesmo tempo em que evitam gastos com arame, estacas e mourões, estas cercas têm uma função de quebra-ventos, protegen- do as plantas contra o vento, que seca mais que o sol, atuando também à noite.

Sabendo o sentido do vento, basta plantar uma ou mais faixas de árvores, arbustos ou outras plantas em direção oposta e que seja maior do que a cultura.

Porco-espinho no Centro tecnológico do Serta Bomba Rosário

Água é vida e precisa ser preservada para garantir o presente e futuro. Os nutrientes chegam às plantas através dela e a sua disponibilidade é fundamental para a produção. A preservação das matas ciliares nas nascentes, rios, lagos, lagoas ou açudes deve ser prioridade porque desempenham um papel fundamental para proteger seus cursos. Manter a vegetação nativa evita que a água evapore e que os rios sejam assoreados.

Irrigação alternativa

Existem várias formas de irrigação adaptadas ao semi-árido, que dependem, sobretudo, da criatividade de cada um. Dependendo do material utilizado, pode trazer benefícios ambientais, aproveitando resíduos que poderiam ir para o lixo ou até mesmo para o solo. Os aspersores de garrafas PET, por exemplo, de baixo custo ou quase nenhum, são os mais usados, mostrando excelentes resultados. É fácil montálos, conforme a necessidade de cada área.

Conjunto aspersor de garrafa PET

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