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Manual de Vigilância Epidemiológica de Febre Amarela

Brasília - 1999 ã 1999. Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde.

É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte.

Editor: Assessoria de Comunicação Social – Núcleo de Produção – ASCOM/PRE/FNS

Setor de Autarquias Sul, Quadra 4, Bl. N, 5º andar 70058-902 - Brasília/DF

Distribuição e Informação:

Gerência Técnica de Febre Amarela e Dengue/Coordenação de Controle de Doenças Transmissíveis por Vetores/CCDTV/Departamento de Operações/DEOPE

Fundação Nacional de Saúde/FNS Setor de Autarquias Sul, Quadra 4, Bloco “N”, 7º andar

Telefone: (061) 225.0359/225.9679 – Fax: (061) 226-48 70078-902

Brasília/DF

Tiragem: 50.0 exemplares Impresso no Brasil / Printed in Brazil

ISBN: 85-7346-030-3

Manual de vigilância epidemiológica da febre amarela – Brasília : Ministério da Saúde : Fundação Nacional de Saúde, 1999.

60 p.il.

1. Febre Amarela. 2. Arbovirose. 3. Aedes aegypti I. Ministério da Saúde. I.

Fundação Nacional de Saúde. I. Departamento de Operações. IV. Coordenação de Controle de Doenças Transmitidas por Vetores. V. Gerência Técnica de Febre

Amarela e Dengue.

“Quando de todos os lados só vemos preparativos de festa, montes de flores e hymnos de alegria para solennisar a tomada de posse da mais bella das conquistas do homem, confrange- se-nos deveras o coração quando nos saem pela frente moços de rosto carregado promptos a soltar a nota dissonante a despedaçar toda a synphonia do acto festivo. Nas minhas veias de velho sinto que corre um sangue muito vigoroso, desde que a questão da febre amarella deu um passo decisivo. Desapareceu a mancha negra do fundo do quadro: o Brasil já é outro.

“Nem malária nem febre amarella!” Não mais separações intempestivas, não mais tanta viuvez, tantos orphans, tantas lágrimas! Em quanto importa a descoberta do papel transmissor do anopheles e do stegomya”.

Emílio Marcondes Ribas

(Trecho da conferência proferida em 1922, na Faculdade de Medicina da USP, 20 anos após a erradicação da febre amarela no Estado de São Paulo)

Apresentação

O Brasil possui a maior área enzoótica de febre amarela do mundo, abrangendo cerca de 5 milhões de km2 , correspondendo à Região da Bacia Amazônica, que inclui as Unidades da Federação da Região Norte e Centro-Oeste e a Pré-Amazônia Maranhense.

A saúde pública brasileira enfrenta atualmente um grande desafio. É necessário intensificar e aprimorar as ações de vigilância da febre amarela com a finalidade de detectar precocemente a circulação viral, se possível, antes mesmo de incidir em seres humanos, enquanto ainda atinge somente animais silvestres. É necessário ainda que as atividades de imunização alcancem altas coberturas, de forma homogênea, nas milhares de localidades da região enzoótica e também em localidades infestadas pelo Aedes aegypti fora daquela região.

A Gerência Técnica de Febre Amarela e Dengue, da Fundação Nacional de Saúde, do

Ministério da Saúde, coordenou a elaboração deste Manual de Vigilância Epidemiológica da

Febre Amarela, fruto da contribuição de inúmeros profissionais vinculados à pesquisa, ensino, vigilância e controle desta enfermidade.

Este trabalho foi necessário tendo em vista as alterações ocorridas nos fatores epidemiológicos da doença no Brasil e nas Américas, nos últimos anos. Incluem-se entre elas, a introdução no Continente Americano do Aedes albopictus, potencial vetor da febre amarela, susceptível à infecção pelo vírus amarílico, em laboratório, e o número crescente de municípios brasileiros infestados pelo Aedes aegypti, considerado, até o momento, o único vetor conhecido da forma urbana da doença nas Américas, a qual foi eliminada do País há mais de 50 anos.

Espera-se que a ampla divulgação deste Manual contribua para o aprimoramento da vigilância epidemiológica da febre amarela no Brasil, aumentando a sua sensibilidade, reduzindo o número de casos da forma silvestre e evitando a re-emergência da sua forma urbana.

A disseminação de conhecimentos sobre a febre amarela, acumulados ao longo de nossa história, onde eminentes sanitaristas do porte de Emílio Ribas, Adolfo Lutz, Oswaldo

Cruz, Clementino Fraga e muitos outros, se destacaram internacionalmente, é o objetivo deste Manual.

É desejo da Gerência Técnica de Febre Amarela e Dengue que os profissionais do

Sistema Único de Saúde, a nível federal, estadual e municipal, encontrem nele um guia seguro para desenvolvimento das atividades mais adequadas de vigilância e controle, na busca da proteção da população brasileira contra esta grave doença.

Pedro Luiz Tauil

1. Introdução08
2 . Distribuição Geográfica e Aspectos Históricos09
2.1 - No Mundo09
2.2 - Nas Américas1
2.3 - No Brasil12
3 . Aspectos Epidemiológicos17
3.1 - Definição17
3.2 - Áreas Epidemiológicas17
3.3 - Formas Epidemiológicas18
3.4 - Agente Etiológico18
3.5 - Fonte de Infecção18
3.6 - Vetor Reservatório19
3.7 - Modo de Transmissão19
3.8 - Período de Incubação20
3.9 - Período Extrínseco de Incubação20
3.10 - Período de Transmissibilidade21
3.1 - Suscetibilidade21
3.12 - Imunidade21
3.13 - Distribuição Segundo Tempo, Espaço e Pessoas21
3.14 - Morbidade e Letalidade23
4 . Aspectos Clínicos24
5 . Alterações Laboratoriais27
6 . Patogenia e Patologia28
7 . Tratamento31
8 . Diagnóstico Diferencial3
8.1 - Com as Formas Leves e Moderadas3
8.2 - Com as Formas Graves3
9 . Diagnóstico Laboratorial35
9.1 - Rede de Laboratórios de Diagnóstico de Febre Amarela35
9.2 - Testes Laboratoriais35
9.2.1 - Diagnóstico Virológico35
9.2.1.1 - Isolamento do Vírus36
9.2.1.2 - Detecção de Antígenos Virais e/ou Ácido Nucleico Viral36
9.2.2 - Diagnóstico Sorológico37
9.2.3 - Diagnóstico Histopatológico38
9.3 - Normas para Coleta, Rotulagem e Conservação de Material38
9.3.1 - Coleta de Amostras38
9.3.2 - Rotulagem das Amostras40
10 . Vigilância Epidemiológica42
10.1- Objetivos42
10.2 - Definição de Caso42
10.2.1 - Caso Suspeito42
10.2.2 - Caso Confirmado por Critério Clínico-Laboratorial43
10.2.3 - Caso Confirmado por Critério Clínico-Epidemiológico43
10.2.4 - Caso Descartado43
10.3 - Notificação43
10.4 - Investigação Epidemiológica e Medidas de Controle4
10.5 - Fatores que Condicionam o Aparecimento de Epidemias46
1 . Medidas de Controle de Rotina47
1.1 - Medidas Referentes aos Fatores de Transmissão47
1.2 - Medidas Referentes ao Hospedeiro47
1.2.1 - Vacinação47
1.2.1.1. Características da Vacina48
1.2.1.2 - Estratégias de Vacinação49
1.2.2 - Informação, Educação em Saúde e Comunicação50
12 . Recomendações Gerais51
13 . Bibliografia52

1. Introdução

A febre amarela é uma arbovirose (doença transmitida por inseto), sendo uma causa importante de morbidade e alta letalidade em vastas zonas das regiões tropicais da África e das Américas.

A partir do século XVII, essa doença dizimou vidas em extensas epidemias nesses dois continentes. No início deste século, o desenvolvimento de vacinas eficazes e a erradicação do vetor urbano, Aedes aegypti, alentaram por algum tempo a esperança de que a doença desapareceria, pelo menos no Novo Mundo. No entanto, apesar dos trabalhos realizados durante várias décadas, continuaram sendo registrados casos esporádicos em populações rurais não imunes, em decorrência do ciclo silvestre de transmissão da febre amarela.

A febre amarela silvestre é uma zoonose e, como tal, impossível de ser erradicada.

Tem se mantido ativa nas zonas tropicais tanto da África como das Américas (Mapa 1). A ocorrência da febre amarela urbana, entretanto, está intimamente relacionada à distribuição e dispersão do Aedes aegypti. As campanhas de erradicação desse mosquito em muitas zonas urbanas da América Latina e do Caribe trouxeram como resultado a eliminação dessa modalidade da doença.

O Aedes aegypti foi eliminado do Brasil duas vezes (1955 e 1973). Foi novamente reintroduzido em 1976, através do porto de Salvador, na Bahia, de onde se dispersou para outros pontos do país, estando hoje presente em todas as Unidades da Federação. Sua dispersão atinge atualmente cerca de 3.0 municípios brasileiros.

Em 1986, outro mosquito, o Aedes albopictus, foi identificado no Brasil, estando presente atualmente em vários estados (Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás, Distrito Federal, Amazonas, Maranhão,

Bahia e Rio Grande do Norte). Sua dispersão atinge atualmente cerca de 1.400 municípios. É considerado um vetor potencial da febre amarela.

Embora a modalidade urbana da febre amarela não ocorra na América do Sul desde 1942, considera-se crescente o risco de sua emergência. Observa-se um crescimento demográfico nas zonas enzoóticas, baixas coberturas vacinais, além da reintrodução e dispersão do Aedes aegypti na quase totalidade dos países nos quais havia sido erradicado, inclusive em regiões de altitudes elevadas e zonas rurais da Colômbia, onde antes nunca havia sido encontrado. A situação torna-se ainda mais complicada pelo aparecimento de resistência do Aedes aegypti aos inseticidas, relaxamento das medidas de luta contra este mosquito em algumas regiões, além da dificuldade operacional para desenvolver ações de vigilância e combate ao vetor e o custo crescente dessas medidas.

2. Distribuição Geográfica e Aspectos Históricos

A febre amarela silvestre é encontrada em ambos os lados do Oceano Atlântico, em uma faixa delimitada pelo paralelo 12 de latitude norte e paralelo 12 de latitude sul. Nas Américas, a zona compreendida nesse cinturão se estende desde a Nicarágua até o sul da

Bolívia. Na África, a zona enzoótica começa ao norte, no Senegal e se estende até Angola. Na direção leste-oeste, a doença tem se propagado, nas Américas, desde o Atlântico até o

Pacífico, e na África, desde o Atlântico até os afluentes do Nilo, na Etiópia (Mapa 1). Em suas manifestações epizoóticas e epidêmicas, a febre amarela pode extrapolar os limites geográficos assinalados e estender-se para o norte ou para o sul, até onde possa ser levada pelo mosquito.

Mapa 1

2.1 - No Mundo

A febre amarela invadiu, no passado, o sul da Europa e os Estados Unidos, quando as condições climáticas eram propícias para a proliferação do vetor. Na Ásia não existe referência de notificação de casos de febre amarela, embora o Aedes aegypti estivesse presente, sendo importante vetor na transmissão do dengue e do vírus Chikungunya em zonas urbanas. Por outro lado, sabe-se que o macaco Rhesus da Índia é susceptível, e que as cepas índias de Aedes aegypti podem transmitir a infecção. A inexistência do vírus amarílico na

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